O candidato do “já vem a caminho”
Colunista

O candidato do “já vem a caminho”

Já se percebeu que as mais recentes promessas do ainda primeiro-ministro, repescadas ou não, têm como fio condutor a construção de uma enganação levada ao limite. Tudo vem a caminho, principalmente, quando nada de substantivo há para apresentar. Nem mesmo as sondagens de encomenda do dr. Ulisses, numa última tentativa de ludibriar as hostes e conter danos, podem evitar o assalto ao “Palácio de Inverno” pela rejeição popular a uma governação desastrosa, feita de falácias e propaganda. E isso está muito para além do senhor que se segue, que a dinâmica social levou a que estivesse no local certo à hora certa…

Se nos retivermos nos slogans do partido de Ulisses Correia e Silva, podemos perceber muito sobre a sua natureza mais profunda: a enganação. O mais recente, que dá o mote para as eleições legislativas de 17 de maio, é bem elucidativo: “Cabo Verde pa frente”. E, neste caso, é também uma rara manifestação de sinceridade, embora não fosse essa a intenção. Ao avançar com este slogan, lá nas entrelinhas, fica a interrogação: se Cabo Verde tem que ir para a frente, isso quer dizer que o país andou uma década às arrecuas?! Ou seja, o que não fizeram em dez anos é, agora, para realizar em cinco?

Mas, há um outro slogan que, na ocasião, também despertou a minha atenção. Logo a seguir à retumbante derrota de Ulisses nas eleições autárquicas de dezembro de 2024 e percebendo que, de forma tão expressiva, o eleitorado tinha manifestado o descontentamento com as políticas do Governo e a rejeição ao primeiro-ministro, o partido do poder logo lançou o algo bizarro slogan “Nós somos a mudança”, como se o grande líder e o seu Governo não tivessem qualquer responsabilidade nas insatisfações e inquietudes dos eleitores.

A partir daí, de uma forma mais sistematizada, embora houvesse a registar algumas manifestações dessa natureza lá mais atrás, o partido do dr. Ulisses começou a construir a narrativa que só ele e o líder providencial teriam condições para empreender a tão expressiva vontade de mudança das cabo-verdianas e dos cabo-verdianos.

Mas, trapalhão como sempre foi, pela incapacidade de perceber os fenómenos políticos e, principalmente, os ciclos da história, o inquilino do Palácio da Várzea, esteve-se borrifando para a vontade popular, empreendeu uma operação de maquilhagem levando para o Governo o refugo político dos anos 90 a preço de saldo, não sem que, antes, descartasse qualquer responsabilidade na pesada derrota autárquica e atirasse a culpa para os candidatos, que seriam fracotes, embora escolhidos por ele.

A culpa é sempre alheia e morre solteira

Penso que, daqui a uns anos, a liderança (chamemos-lhe assim, porque hoje estou muito bonzinho…) do dr. Ulisses à frente do seu partido e do país será motivo da maior atenção e análise dos historiadores, mas, fundamentalmente, dos psicólogos, porquanto é evidentíssimo que, por razão de ter muito pouco para mostrar aos eleitores sobre uma década de governação, o grande líder e o seu entorno resolveram atirar-se de cabeça para uma lógica de mistificação, procurando, agora, incutir na cabeça das pessoas que o naufrágio da governação se deve não ao chefe providencial, a seus ministros e a políticas públicas erradas, antes a fatores externos e naturais, como a pandemia, as guerras, a crise internacional, as secas, os desarranjos climáticos, mas também as maléficas oposições que não deixam governar. Isto é, a culpa é sempre alheia e morre solteira.

Esta lógica de mistificação da realidade, construída mais para segurar a base de apoio (tentando conter maiores danos eleitorais) do que para conquistar o eleitorado no seu sentido mais abrangente, consiste na recuperação de velhas promessas nunca cumpridas e em avançar outras cuja concretização temporal é sempre empurrada para depois das eleições.

A enganação levada ao limite

Nos últimos dias, chamou-me a atenção o anúncio feito pelo candidato à sua reeleição sobre a compra de uma embarcação para fazer a ligação com a Brava, que supostamente chegaria a qualquer momento. E isso fez-me lembrar o estridente anúncio feito, anos atrás, pelo então ministro do Mar que, no espalhafato a que nos acostumou, garantia que, já, já, o país teria cinco barcos para resolver de vez o problema da ligação entre ilhas. Claro que nunca se viu a chegada dos barcos e a obra mais conhecida do ex-governante ficou-se, ironicamente, pela construção de uma escadaria a preços proibitivos.

Já se percebeu que as mais recentes promessas do ainda primeiro-ministro, repescadas ou não, têm como fio condutor a construção de uma enganação levada ao limite: “já vem a caminho”. Tudo vem a caminho, principalmente, quando nada de substantivo há para apresentar.

Ora, esta táctica parte do princípio de que o eleitorado teria memória curta e as pessoas seriam uma espécie de incapacitados mentais, com níveis cognitivos de tal modo baixos que seriam permeáveis a qualquer patranha. O problema é que a táctica, repescada do marketing além-atlântico, tomando por base a propaganda da extrema-direita, centrada em falácias e mundos paralelos, está votada ao fracasso, seja por a memória dos cabo-verdianos estar bem viva pela experiência na pele de dez anos perdidos, seja pela inteligência manifesta pelo eleitorado nos últimos anos e que fez o partido do Governo perder metade do seu eleitorado.

Delinquência eleitoral

A minha percepção é a de que, neste momento, a alta cúpula ventoinha já não tem dúvidas da impossibilidade de reverter a tendência de derrota em 17 de maio. E é impossível porque os níveis de rejeição do partido do Governo, mas, principalmente, do seu líder, são de tal ordem de grandeza que a ténue esperança inicial de renovar o mandato está remetida para o terreno das impossibilidades.

Daí a escandalosa utilização de recursos públicos para alimentar uma propaganda assente na enganação, de que o exemplo mais recente é a utilização da desastrosa retoma dos voos internacionais como suporte político da campanha eleitoral que, no centro do desespero da perda de poder, já não consegue disfarçar.

Ulisses Correia e Silva, o Governo e o setor extremista do MpD, de braço dados com os “críticos” da liderança que, agora, percebemos se terem movido por razões meramente comestíveis, jogam os últimos cartuchos, não tendo pudor em recorrer à delinquência eleitoral, com a cumplicidade (activa ou por omissão) da Comissão Nacional de Eleições, que se limita, aqui ou ali, a proclamar resoluções pontuais sobre questões menores. Uma tristeza!

Nem mesmo as sondagens de encomenda do dr. Ulisses, numa última tentativa de ludibriar as hostes e conter danos, podem evitar o assalto ao “Palácio de Inverno” pela rejeição popular a uma governação desastrosa, feita de falácias e propaganda. E isso está muito para além do senhor que se segue, que a dinâmica social levou a que estivesse no local certo à hora certa…

Partilhe esta notícia

Comentários

  • Este artigo ainda não tem comentário. Seja o primeiro a comentar!

Comentar

Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.