
Cabo Verde não precisa de governantes que apenas falam em nome do povo. Precisa de governantes que sintam com o povo, caminhem com o povo e tenham coragem de governar para o povo. O abandono dos mais pobres é uma ferida aberta na consciência nacional. E diante dessa ferida, o silêncio é cumplicidade, a indiferença é crueldade e a falta de ação é uma forma grave de injustiça.
Há dez anos que, olhando para Cabo Verde com atenção e consciência, encontro cada vez menos motivos para sorrir. Não por falta de amor ao país, mas precisamente por amar estas ilhas e por saber que, por detrás dos discursos oficiais, das fotografias bem ensaiadas e das cerimónias de circunstância, existe um povo que continua a carregar nos ombros o peso da sobrevivência.
Há uma dor silenciosa espalhada pelas casas humildes, pelos bairros esquecidos, pelas famílias que contam moedas antes de comprar pão, pelos jovens que procuram oportunidades e encontram portas fechadas, pelas mães que escondem a angústia para não assustar os filhos. Essa dor não aparece nos palcos do poder. Não cabe nas estatísticas cuidadosamente apresentadas. Não entra nos discursos triunfalistas. Mas ela existe. E existe todos os dias.
O país está cansado dos fariseus modernos do poder. Cansado daqueles que falam de justiça, igualdade, transparência e desenvolvimento, mas permanecem frios diante da fome, da insegurança, do desemprego, do abandono e da humilhação dos mais pobres. Cansado de dirigentes que aprenderam a sorrir para as câmaras, mas desaprenderam a olhar nos olhos do povo.
A indiferença, em política, nunca é neutra. Quando quem governa deixa de sentir a dor dos mais vulneráveis, essa frieza transforma-se em cumplicidade moral com a injustiça. Porque governar não é apenas ocupar cargos, distribuir promessas ou multiplicar discursos. Governar é cuidar. É escutar. É corrigir desigualdades. É colocar a vida concreta das pessoas acima da propaganda.
Não se combate a pobreza com palavras bonitas. Não se consola uma mãe sem comida para os filhos com gráficos coloridos. Não se responde ao desemprego juvenil com slogans. Não se enfrenta a insegurança com festas, fotografias e encenações políticas. Um povo que sofre não precisa de espetáculo; precisa de respostas. Precisa de políticas públicas sérias, de proteção social efetiva, de oportunidades reais e de governantes capazes de compreender que por detrás de cada número há uma vida, uma família, uma história e uma ferida.
O mais grave é que a dor do povo parece ter deixado de incomodar aqueles que tinham o dever moral, político e institucional de a enfrentar. Muitos vivem protegidos pelo conforto do poder, distantes das ruas, das casas pobres, das ilhas marginalizadas e dos bairros onde a esperança vai sendo adiada. E quando o poder se afasta da realidade, transforma-se numa máquina fria, arrogante e insensível.
A minha tristeza, por isso, não é resignação. É denúncia. É o sinal de quem ainda se recusa a aceitar como normal o sofrimento do povo cabo-verdiano. É a tristeza de quem sabe que Cabo Verde merece mais: mais respeito, mais dignidade, mais justiça social, mais oportunidades e, sobretudo, mais humanidade no exercício do poder.
Choro, não por fraqueza, mas porque ainda tenho consciência. Choro porque ainda me dói ver famílias abandonadas à própria sorte. Choro porque ainda acredito que a política deve ter alma, ética e compromisso com os que mais sofrem. Enquanto houver cabo-verdianos empurrados para a sobrevivência, nenhum governante sério deveria dormir tranquilo, nenhum dirigente deveria celebrar com vaidade e nenhum poder deveria fingir que está tudo bem.
Cabo Verde não precisa de governantes que apenas falam em nome do povo. Precisa de governantes que sintam com o povo, caminhem com o povo e tenham coragem de governar para o povo.
O abandono dos mais pobres é uma ferida aberta na consciência nacional. E diante dessa ferida, o silêncio é cumplicidade, a indiferença é crueldade e a falta de ação é uma forma grave de injustiça.
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