Francisco Carvalho, os transportes e o liberalismo reinante
Ponto de Vista

Francisco Carvalho, os transportes e o liberalismo reinante

Francisco Carvalho considera os transportes fundamentais para garantir a mobilidade tal como está defendida na Constituição da República, mas também, o motor de desencravamento e desenvolvimento das populações mais recônditas das ilhas, pelo que ninguém ficará preso na sua ilha, por não poder comprar um bilhete passagem de avião ou de barco. A condição de dependência e conformismo com o modelo económico existente hoje no país, provém do facto de se estar a encurtar o fosso ideológico existente entre o PAICV e o MPD, os dois partidos de alternância governativa, o que inibe a possibilidade de se olhar para as propostas dos dois partidos e discernir a alternativa necessária para estabelecimento do equilíbrio social e económico necessário para o paìs.

Todos nós ficamos de queixo caído, quando o Dr. Francisco Carvalho prometeu, caso chegar a Primeiro Ministro, diminuir o preço dos voos domésticos para cinco mil escudos e o transporte marítimo para quinhentos escudos.

O cidadão que vem seguindo com atenção e algum interesse, o estado da economia cabo-verdiana, a sua reação epidérmica foi tratar FC de fala-barato e de populista, visto que, para ele estes preços são impraticáveis.

Para compreender ao raciocínio de Francisco Carvalho é necessário , não somente pensar fora da caixa , mas dar o filme um pouco para trás.

Com a abertura política em 1991 e a vitoria do MPD nas legislativas de então, a primeira “preocupação” do governo foi a economia (preocupação, que depois veio a se revelar precipitada e intencional para beneficiar pessoas próximas do então PM e do MPD).

Se em 89/90 houvera alguns sinais de extroversão económica que mantinha o país estável mesmo perante os fenómenos sociais e económicos que ocorriam na Europa, o MPD, ao chegar ao governo, em nome de “economia de mercado”, entregou todo o sector económico e produtivo na mão de privados e investidores externos, com a justificação de que o Estado não é agente comercial, que deve somente regular e nunca ter empresas. Foram dez anos a gerir o país num modelo económico copiado do capitalismo europeu   que faliu o pouco sector produtivo que havia, (quem se lembra do complexo agroindustrial Justino Lopes?) aumentando o desemprego e desestruturando a sociedade, criando um grupo de ricos próximo do poder, ao mesmo tempo, que a pobreza residual dava lugar a focos de miséria e fome em crescendo.

Se com a vitória do PAICV em 2001, o governo de JMN estancou timidamente o liberalismo ventoinha, nacionalizando algumas empresas e fortalecendo o papel do Estado na economia, mas não conseguiu ou não teve coragem política suficiente, para reformar a economia e adapta-lo às reais necessidades do país. Houve sim, muita competência na infraestruturação do país, mas Cabo Verde manteve  os mesmos problemas : alto custo do nível de vida, falta de emprego e défice produtivo.

A partir de 2016, de novo sob os auspícios do MPD, voltaram as privatizações e as políticas ultraliberais, com privatizações, concessões e negócios envoltos em mistério e suspeição.

Ou seja, desde 1991 que o povo de Cabo Verde se limita a testemunhar o despesismo e injeção pelo Estado de avultadas quantias, em negócios que na maioria dos casos têm fracassado. São casos paradigmáticos: o caso Enacol, as peripécias sobre a TACV, as tentativas da sua privatização, as vendas, os calotes, os arrestos de aviões e a ruína do transporte aéreo e marítimo como se atesta a realidade de hoje, com o utente a pagar cada vez mais para viajar, com todos os constrangimentos e prejuízos daí advenientes pelo mau serviço prestado.

A proposta de Francisco Carvalho gerou essa onda de incredulidade, devido à perceção criada e estimulada pelos anteriores governos do MPD, de que a aviação é um negócio de luxo,  rentável (para alguns) mas caro para o  Estado, que o digam  o famigerado Hub aéreo do Sal , a falácia dos 11 Boeing e o impacto desses projetos no aumento da dívida pública.

Até chegar Francisco Carvalho, ninguém esteve a olhar e nem sequer a cogitar a hipótese de uma mudança profunda no modelo económico do país, em que os transportes quer aéreos como marítimos se assumem como elo de ligação entre as pessoas das nove ilhas do arquipélago. Ninguém teve a ousadia   de pensar qual será o salto qualitativo e quantitativo para a economia e a sociedade cabo-verdiana, o investimento do Estado na interligação das ilhas, aproximando as pessoas, fundindo culturas, estimulando o turismo, desenvolvendo as pequenas e microempresas, criando rotatividade de produtos entre ilhas e o estímulo á pequena indústria.

Uma mudança voltada para as pessoas e para o país real, que pelo facto de ser arquipelágico, os transportes domésticos assumem um grau de utilidade e exigência superiores, que não podem estar ao critério do “quem dá mais”, mas regulado pelo Estado com uma visão estratégica no empoderamento das famílias.

Francisco Carvalho se define como defensor da esquerda democrática, promotor de uma economia de mercado regulado, com forte ação do Estado, na proteção das pessoas e das empresas. É preciso romper com a indefinição que se criou no campo económico entre o MPD e o PAICV.

Francisco Carvalho considera os transportes fundamentais para garantir a mobilidade tal como está defendida na Constituição da República, mas também, o motor de desencravamento e desenvolvimento das populações mais recônditas das ilhas, pelo que ninguém ficará preso na sua ilha, por não poder comprar um bilhete passagem de avião ou de barco.

A condição de dependência e conformismo com o modelo económico existente hoje no país, provém do facto de se estar a encurtar o fosso ideológico existente entre o PAICV e o MPD, os dois partidos de alternância governativa, o que inibe a possibilidade de se olhar para as propostas dos dois partidos e discernir a alternativa necessária para estabelecimento do equilíbrio social e económico necessário para o paìs.

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