
O que me tocou no discurso de Francisco Carvalho na live de ontem, a partir de São Vicente (tenho seguido todas as quintas), foi a referência a algo que muitas vezes me tem tirado o sono: o aumento da criminalidade, do consumo de drogas e da prostituição no Mindelo. Ele falou do assunto numa perspetiva completamente diferente do atual governo, e que acredito ser a certa: a resposta à violência não pode ser apenas mais policial, mais cadeias e mais repressão.
É a primeira vez que faço uma declaração pública de apoio a um candidato. Quem me acompanha sabe que prezo a minha independência, que não sou militante, nem simpatizante acrítica de nenhum partido. Sou uma pessoa de causas, tenho forte interesse por política (no seu papel de gestão das necessidades coletivas e tendo o bem-comum como valor). Sou convicta e dedicada no que defendo, faço sempre (que posso) o que o coração me guia ser o certo e o necessário. Não estou nas listas, não tenho a ganhar com este texto, escrevo por convicção.
Esta ideia não me sai da cabeça há várias semanas, portanto, escrevo (“toque para sentir, toque para pensar, toque para agir”), especialmente para quem procura vozes que o ajudem a construir sentido em torno destas eleições (daqui a exatamente um mês!) e a decidir em quem votar. Aqui, cinco das minhas motivações:
1. Por todos
Ouvi nos discursos dele a motivação que me tem inquietado e que me motivou a criar projetos como o txa-m uvi-b são vicente ou o txa-m uvi-b cabo verde: a ideia de que todos são iguais em valor e que, portanto, uma boa vida deve estar ao alcance de todos. Não falo da "participação" como essa ideia dita que muito se tem popularizado, em fóruns e afins, mas sim na forma como ele abordou diversos assuntos e sinto a ideia subjacente. Francisco fala de projetos, mas fala, acima de tudo, em falar com as pessoas e "resolver o problema" delas, em vários contextos específicos, fruto de encontros que vai tendo e as propostas refletem isso. Há propostas na sua candidatura que nascem da escuta da realidade do cabo-verdiano médio, que se implementadas, trarão mais equidade. Sinto que fala do país real, do país que temos e nas suas dificuldades, que precisam de atenção.
2. Por São Vicente
Algo que me tocou no discurso dele na live de ontem, a partir de São Vicente (tenho seguido todas as quintas), foi a referência a algo que muitas vezes me tem tirado o sono: o aumento da criminalidade, do consumo de drogas e da prostituição no Mindelo. Ele falou do assunto numa perspetiva completamente diferente do atual governo, e que acredito ser a certa: a resposta à violência não pode ser apenas mais policial, mais cadeias e mais repressão. Isso não é justiça. Isso é uma camada extra de injustiça social aos que já estão socialmente injustiçados. Porquê? Ora, vamos entender:
O que vemos crescer no Mindelo é produto de problemas sistémicos. São Vicente viveu longos anos de abandono; muitos mindelenses emigraram ou migraram para a capital por falta de oportunidades. Fechou-se o Centro da Juventude há mais de 15 anos, enquanto a Câmara Municipal oferecia, sobretudo, entretenimento. Os restaurantes e espaços comerciais andavam às moscas. Não temos um cinema. São poucas as opções edificantes de ocupação de tempos livres. Nesta última legislatura, tentou-se um crescimento acelerado sem bases, que deixa a população vulnerável; nem as infraestruturas da ilha nem as pessoas estão preparadas para projetos como hotéis e condomínios de luxo ou casinos quando o básico falta. O projeto veio de fora, através de interesses capitalistas e foi adotado pelo governo; não é o tempo de Mindelo, é o "ovo a ser pressionado de fora para dentro". Parte-se. O desenvolvimento precisa do movimento contrário. Antes de pensar numa ilha para ser visitada, é preciso pensar nos mindelenses e na edificação de equipamento público que sustente essa demanda. Uma ilha para viver. Com a súbita e exponencial chegada de turistas os preços têm aumentado e as pessoas têm perdido poder de compra. Encontrar casa para arrendar tem sido mais difícil. Se os jovens não encontram emprego que cubra essas necessidades, mas encontram de forma facilitada formas ilícitas de ganhar dinheiro, a aplicação da lei a quem já está em situação de vulnerabilidade acaba por ser uma segunda dose de injustiça. Estou pela impunidade? Não. Estou por atacar a raiz do problema e não causar o problema e depois aumentar a repressão. Mindelo precisa de políticas sociais sérias, não assistencialistas, mas que apoiem as pessoas a atingir o máximo do seu potencial. E caso por estas linhas passe alguém que seja parte da elite económica, estejam certos: os desequilíbrios sociais extremos não afetam apenas as classes menos favorecidas. Afetam a todos, de formas distintas. A resposta precisa de ser mais oportunidades e mais cuidado com as pessoas.
3. Pelas Mulheres
A Câmara Municipal da Praia, sob a sua liderança, fez algo inovador: a atribuição de licenças para mulheres durante o período menstrual. Apenas as mulheres podem entender o quanto isso faz diferença, sobretudo para quem sofre e tinha de se medicar fortemente para estar funcional, gastar dias de férias ou faltar ao trabalho. Desejo ver medidas como estas em todo o Cabo Verde. São detalhes de políticas de género que respeitam a diferença e protegem quem precisa.
4. Por um país mais próximo
Francisco prometeu passagens de avião a 5 mil escudos e de barco a 500. Dizem que é populismo, mas eu acredito que seja possível. Lembro-me de quando a Binter começou a operar e lançou campanhas frequentes com voos a 4 mil escudos. Concordo com ele: sendo Cabo Verde um país insular, o transporte inter-ilhas não deve ser visto pelo lucro.
Em países como as Seicheles, por exemplo, existe uma política de preços diferenciados, com taxas mais baixas para residentes nacionais, garantindo que o direito à mobilidade seja real. Temos cabo-verdianos que nunca saíram das suas ilhas; pessoas que faleceram porque não conseguiram chegar à Praia ou ao Mindelo para consultas. O poder está centralizado e as pessoas estão distantes do que precisam. Há quem seja enviado para trabalhar noutra ilha e não tenha dinheiro para visitar a própria família. Precisamos deste país unido de facto. O que o Francisco Carvalho propõe não é apenas "possível", é o padrão internacional em quase todos os arquipélagos que levam a sério a coesão territorial. Nas Seicheles, por exemplo, enquanto um turista paga cerca de 50€ a 70€ (em Euros) pelo ferry entre Mahé e Praslin, os residentes locais pagam em Rúpias de Seicheles (SCR) um valor significativamente mais baixo (muitas vezes menos de metade do preço). A própria Air Seychelles também tem tarifas diferenciadas e condições de bagagem muito mais favoráveis para quem é residente. Na Espanha existe um desconto de residente de 75% em todas as passagens aéreas e de ferry. Se um voo custa 100€, o residente paga apenas 25€. Portugal atribui um subsídio social de mobilidade (política menos interessante, já que subsídios sociais são assistência, mas mudar o sistema é dignidade).
No contexto de Cabo Verde, facilitar a deslocação de barco e avião é uma resposta séria e importante para garantir o direito básico de mobilidade de todos os cabo-verdianos. É possível. Se a estrutura de pensamento for servir o povo, é possível. Outros gastos podem ser cortados.
5. Pela Confiança
Ele transmite-me confiança. Mostra ter visão, coragem, abertura, energia, paixão e sinceridade no que defende. Francisco não vem da elite; vem do povo, a quem promete trabalhar. É um homem que mostrou uma resiliência considerável: foi uma das pessoas mais atacadas na política em Cabo Verde, constantemente ridicularizado, mas seguiu com firmeza, com um sorriso no rosto e uma leveza nesta campanha que, acima de tudo, está a ser sobre amor.
Finalmente, por mim. Creio que, com um Primeiro-Ministro que seja sociólogo e que, portanto, pense o desenvolvimento do país nessa perspetiva humana e social, eu posso finalmente “aposentar-me” do ativismo e ir apenas “fazer e viver a vida com poesia” (toque de humor, está-me na alma ser ativista, vou encontrar sempre causas pelas quais lutar).
Eu votarei no Francisco, de coração. Acredito que este homem merece uma oportunidade de trabalhar para implementar a visão que está a partilhar connosco. Se estiver errada, virei com toda a tranquilidade militar novamente pelas mesmas causas sociais. As causas estão acima dos partidos. As pessoas estão acima das causas.
Eu sou pela justiça social: Cabo Verde para todos! Eu acredito.
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