
Para o jovem que pensa que a agricultura é um "atraso de vida", a Ecodasilhas mostra o contrário. Hoje, ser agricultor em Cabo Verde é ser um gestor de dados. É controlar a rega gota-a-gota pelo telemóvel e entender de sensores de humidade. A "inviabilidade" morre quando percebemos que um pequeno pomar tecnificado pode render mais dignidade do que um emprego precário num subúrbio europeu. Como João de Djula profetizou, edificar a vida no "pouco" é a arte de não desperdiçar nada.
Ecodasilhas. O legado de João de Djula
Diz-se, num tom de lamento antigo, que "Cabo Verde não tem água". Mas quem caminha pelas encostas de Santo Antão ou pelas entranhas de Santiago sabe que a água existe; ela é apenas uma divindade tímida que exige engenho para ser revelada. João de Djula, que olhava para o solo árido com a mesma precisão com que montava as suas máquinas, costumava dizer que a agricultura nas ilhas não devia ser uma luta contra a seca, mas uma conversa de precisão com a terra.
Se na crónica anterior domesticámos o sol para criar o frio, nesta, o desafio que João nos deixou é o de domesticar a gota.
A agricultura do "grão a grão"
A imagem do agricultor de enxada, esperando pelo céu que tarda em abrir-se, precisa de ser atualizada pelo jovem empreendedor que olha para o solo como um laboratório. João acreditava na microindustrialização da terra:
· Hidroponia e Aquaponia: Unidades de produção onde a água circula num ciclo fechado. O peixe nutre as plantas, e as plantas filtram a água para o peixe. Gastamos 90% menos água e colhemos abundância no meio da rocha.
· A Captura das Nuvens: No Monte Gordo, nas serras do Fogo, no Topo de Coroa, na Cucurita da Brava ou na Serra da Malagueta, a neblina é água que passa a voar. Instalar redes de captura (fog-collectors) é, como dizia João, "ordenhar as nuvens". É água pura, destilada pela natureza, pronta para regar sonhos sem custos de bombagem.
Ouro verde: o valor do que é raro
João de Djula sabia que uma pequena empresa nas ilhas não deve competir com as grandes planícies de soja do mundo. A nossa força está no exclusivo. Por que importar batatas quando podemos exportar o conhecimento do sabor?
O vinho do Fogo, o café do Mosteiros, o queijo da Boavista, o grogo/grogue de São Nicolau. Estes não são apenas alimentos; são "terroir".
Terroir é uma palavra francesa sem tradução direta para o português, mas que na Ecodasilhas chamamos de "a alma do lugar". Não se trata apenas do solo. É a combinação única de fatores que fazem com que um produto (como o café do Fogo, o queijo de São Antão ou de Boa Vista) seja impossível de replicar em qualquer outro lugar do mundo:
1. Transformação Local: A ideia de João aplica-se aqui: desidratar o mango e cajú com energia solar e produzir óleos essenciais de plantas que só o nosso sol sabe maturar.
O regresso à terra (com um Tablet na mão)
Para o jovem que pensa que a agricultura é um "atraso de vida", a Ecodasilhas mostra o contrário. Hoje, ser agricultor em Cabo Verde é ser um gestor de dados. É controlar a rega gota-a-gota pelo telemóvel e entender de sensores de humidade.
A "inviabilidade" morre quando percebemos que um pequeno pomar tecnificado pode render mais dignidade do que um emprego precário num subúrbio europeu. Como João de Djula profetizou, edificar a vida no "pouco" é a arte de não desperdiçar nada.
Ideias criadoras na Ecodasilhas
· Micro-sistemas de rega inteligente: Kits de baixo custo com sensores que dizem exatamente quando a planta tem sede, eliminando o desperdício por evaporação.
· Agro-turismo de experiência: Transformar quintas em destinos onde o turista aprende a resiliência cabo-verdiana.
· Bolsa de sementes nacionais: Exportar o nosso conhecimento em sementes adaptadas ao clima árido para um mundo que agora enfrenta as alterações climáticas.
Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.
Comentários