A dança da água nas pedras - Crónica III
Ponto de Vista

A dança da água nas pedras - Crónica III

Para o jovem que pensa que a agricultura é um "atraso de vida", a Ecodasilhas mostra o contrário. Hoje, ser agricultor em Cabo Verde é ser um gestor de dados. É controlar a rega gota-a-gota pelo telemóvel e entender de sensores de humidade. A "inviabilidade" morre quando percebemos que um pequeno pomar tecnificado pode render mais dignidade do que um emprego precário num subúrbio europeu. Como João de Djula profetizou, edificar a vida no "pouco" é a arte de não desperdiçar nada.

Ecodasilhas. O legado de João de Djula

Diz-se, num tom de lamento antigo, que "Cabo Verde não tem água". Mas quem caminha pelas encostas de Santo Antão ou pelas entranhas de Santiago sabe que a água existe; ela é apenas uma divindade tímida que exige engenho para ser revelada. João de Djula, que olhava para o solo árido com a mesma precisão com que montava as suas máquinas, costumava dizer que a agricultura nas ilhas não devia ser uma luta contra a seca, mas uma conversa de precisão com a terra.

Se na crónica anterior domesticámos o sol para criar o frio, nesta, o desafio que João nos deixou é o de domesticar a gota.

A agricultura do "grão a grão"

A imagem do agricultor de enxada, esperando pelo céu que tarda em abrir-se, precisa de ser atualizada pelo jovem empreendedor que olha para o solo como um laboratório. João acreditava na microindustrialização da terra:

·         Hidroponia e Aquaponia: Unidades de produção onde a água circula num ciclo fechado. O peixe nutre as plantas, e as plantas filtram a água para o peixe. Gastamos 90% menos água e colhemos abundância no meio da rocha.

·         A Captura das Nuvens: No Monte Gordo, nas serras do Fogo, no Topo de Coroa, na Cucurita da Brava ou na Serra da Malagueta, a neblina é água que passa a voar. Instalar redes de captura (fog-collectors) é, como dizia João, "ordenhar as nuvens". É água pura, destilada pela natureza, pronta para regar sonhos sem custos de bombagem.

 Ouro verde: o valor do que é raro

João de Djula sabia que uma pequena empresa nas ilhas não deve competir com as grandes planícies de soja do mundo. A nossa força está no exclusivo. Por que importar batatas quando podemos exportar o conhecimento do sabor?

O vinho do Fogo, o café do Mosteiros, o queijo da Boavista, o grogo/grogue de São Nicolau. Estes não são apenas alimentos; são "terroir".

Terroir é uma palavra francesa sem tradução direta para o português, mas que na Ecodasilhas chamamos de "a alma do lugar". Não se trata apenas do solo. É a combinação única de fatores que fazem com que um produto (como o café do Fogo, o queijo de São Antão ou de Boa Vista) seja impossível de replicar em qualquer outro lugar do mundo:

1.      Transformação Local: A ideia de João aplica-se aqui: desidratar o mango e cajú com energia solar e produzir óleos essenciais de plantas que só o nosso sol sabe maturar.

O regresso à terra (com um Tablet na mão)

Para o jovem que pensa que a agricultura é um "atraso de vida", a Ecodasilhas mostra o contrário. Hoje, ser agricultor em Cabo Verde é ser um gestor de dados. É controlar a rega gota-a-gota pelo telemóvel e entender de sensores de humidade.

A "inviabilidade" morre quando percebemos que um pequeno pomar tecnificado pode render mais dignidade do que um emprego precário num subúrbio europeu. Como João de Djula profetizou, edificar a vida no "pouco" é a arte de não desperdiçar nada.

Ideias criadoras na Ecodasilhas

·         Micro-sistemas de rega inteligente: Kits de baixo custo com sensores que dizem exatamente quando a planta tem sede, eliminando o desperdício por evaporação.

·         Agro-turismo de experiência: Transformar quintas em destinos onde o turista aprende a resiliência cabo-verdiana.

·         Bolsa de sementes nacionais: Exportar o nosso conhecimento em sementes adaptadas ao clima árido para um mundo que agora enfrenta as alterações climáticas.

 

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