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Por: André Monteiro Silva

O livro “NOSTALGIA” que foi lançado há dois anos atrás, em língua inglesa, já está reeditado em língua portuguesa, e será lançado este ano, 2019, querendo Deus.

André Silva 1

Como se sabe, a poesia é uma ferramenta para expressar sentimentos fortes como a saudade, a melancolia, a raiva, a alegria, a tristeza, a paixão, a dor, etc., etc., como também revelar momentos de inspiração. Ela é um veículo que transmite o pensamento e tudo o que mexe com o poeta. Ela é o expressar da existência sentida e vivida nas suas diferentes formas e etapas.

A lira, através dos seus versos, da sua rima e da musicalidade, é um instrumento universalmente válido independentemente de quem for o poeta. A sua subjetividade oculta o nível, a origem, o credo, a raça, enfim, tudo o que é pessoal no trovador, o que nela conta é a sensibilidade recebida e transmitida, e a interação e conexão conseguidas entre o poeta e o leitor.

Sinto-me um homem de sorte e um felizardo por conseguir que minha alma use a poesia para revelar de forma pura e singela quão grande é o amor que o meu coração transporta.

“Nostalgia” é um livro de poemas que narra a vida aguerrida que tive de enfrentar e transpor conjuntamente com a minha família durante a infância e parte da adolescência em Atalaia, ilha do Fogo, Cabo Verde, um país formado por dez ilhas e vários ilhéus de origem vulcânica, sito em pleno Oceano Atlântico, na parte ocidental de África. Ele fotografa, também, as memórias da minha ilha natal, o seu património social e material, a morabeza de suas gentes, a beleza orográfica de origem vulcânica no contrastante entre vales e montanhas, exibindo como tela de fundo o imponente vulcão, imagem impressa no meu intelecto com tanta intensidade que se torna numa das principais fontes inspiradoras e mola impulsora dos meus sentimentos expostos em versos.

Por exemplo, “Djon Funandi di Txada Maris” expressa uma paixão muito especial, para além de histórica que tenho de Txada Maris, uma montanha que carrega nas suas entranhas um simbolismo nativo e profundo, que marcou a minha geração e que, de certeza, deixará marcos na geração futura. Enquanto poeta e compositor assevero aqui, através da música, que é um meio prazeroso para a vida e um símbolo da fraternidade humana, a minha veneração pela sua imponência e majestosa formosura.

Não obstante a maioria dos meus poemas centralizarem-se em Cabo Verde e nos cabo-verdianos, exploram também temas e sentimentos de nível mundial. Aliás, não faria sentido se assim não fosse, não só pelo facto de hoje tudo ser global, mas também pela minha vida de emigração. Os meus poemas abordam temas diversos, desde os relacionados com o terrorismo e o extremismo, um problema que nos afeta a todos no mundo de hoje, passando pela beleza do mundo, indo até a nossa relação com Deus. Nas estrofes do poema “Tragédia Hits Paris”, sentimos o fragmentar e o estilhaçar de vidas de forma gratuita, a insegurança e o medo no quotidiano das pessoas, enviesando as hipóteses de paz e de bem-estar em consequência das ações nefastas e violentas do Estado Islâmico via atentados suicidas, assassínios das mais diversas formas, detenções, entre outros atos hediondos e perniciosos como os ocorridos no cinema de Bataclan, na redação do jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Las Ramblas (Barcelona), na ponte de Westminster, em Londres.

O poema termina apelando à paz, ao amor e à harmonia, sentimentos distintos e que deviam imperar sempre entre os seres humanos. Nos meus poemas uso o simetrismo dos versos com perspetivas diversas. Neste caso em concreto utilizei-o para demonstrar que existem sempre probabilidades de um novo renascer ser construído a partir do caos.

Neste livro os temas são díspares, por exemplo, o poema “Atalaia, Zona Silenciosa” evoca o quotidiano rural, refletido na sua tranquilidade e modéstia, na faina agrícola resultante das chuvas e da fertilidade dos solos, sem descurar a beleza natural que a caracteriza. Aliás, a pacatez, a humildade, a generosidade e a pacificidade da ilha do Fogo são particularidades que me ajudaram a crescer e a formar-me enquanto homem, na companhia dos meus familiares. E essa unicidade se reflete em todos os poemas relacionados com as cidades de S. Filipe e dos Mosteiros, como se o autor quisesse vincar que o amor, a paz, a excelência congénita, a proteção das nossas raízes, via preservação das nossas tradições e da nossa história e arquitetura, são valores ainda reconhecidos e protegidos, algures no mundo.

No poema “Cabo Verde” vinco a essência da minha devoção à minha terra e à minha pátria. A repetição contínua do título ao longo das estrofes é o asseverar do sossego, da concórdia e da glória que este país cultiva e que orgulha os seus filhos, está selado no meu coração e perdurará para sempre na minha memória. Cabo Verde é um país modelo pela sua democracia representativa, pela morabeza e felicidade refletida na amabilidade das suas gentes e numa grandeza de espírito extraordinária, que o faz procurado e desejado por todos.

Por outro lado, no poema “América” quis, de forma critica, demonstrar a perceção injusta e a imagem idílica que o mundo tem dos EUA. Preocupei-me em colocar o enfoque no individuo e no poderio do dólar americano, ficando a beleza e a civilidade social como secundárias. Nos versos do “América” tento dizimar o mito de que tudo gira à volta da sua poderosa moeda, que é o dólar, e que se recorre a vários estratagemas, inclusive ao crime, para o conseguir. O fantasmagórico está tão presente nestes versos, em que o autêntico confunde-se com o ilusório e o “belo” passa a simbolizar o “rico”. Tudo isso fez-me sentir mais gabarola da verdadeira beleza de Cabo Verde.

Em “O que fazer? … Oh meu Deus !!!" continuo ainda a perscrutar a violência gratuita e precipitada, como a busca desenfreada por dinheiro nos Estados Unidos e findo com um evocar da esperança na força divina como mensageira de tranquilidade, do amor e de maior segurança para este planeta conturbado em que vivemos, no em geral, e para o nosso Cabo Verde, em particular. Temos tido mostras diárias de como o homem tem-se afastado cada vez mais de Deus e dos ensinamentos bíblicos, comportamento este que deixa cristalina a nossa ganância pela destruição e a nossa impotência para pôr fim a essa onda de destruição e devastação que temos erigido ao longo dos tempos. Perante este quadro, resta-nos rogar ao Pai Celestial para nos proteger e nos ajudar a superar as nossas falhas e reconduzir-nos para o caminho da verdade. Daí o meu desejo em forma de poema: ” Quero ir à Igreja”. O poema “Neve” remete-nos também ao poder celestial, quando implora à mitigação das tribulações do universo. O título exibe-se como um símbolo da frieza, da insensibilidade e da salacidade, como o terrorismo, a guerra, o sionismo, entre outros males terrenos que nos remetem a socorrer-nos do manto protetor de Deus.

“Uma Nova Página na História da América” exalta Barack Obama, como primeiro afro-americano a ser eleito Presidente dos Estados Unidos da América. Escrevi este poema no próprio dia em que ele foi eleito, logo após o anúncio dos resultados do escrutínio. Com essa eleição uma nova esperança nascia no povo americano, em especial nos afrodescendentes. Nele exprimi a minha convicção de que, a partir dessas eleições, nada mais seria igual. Estava ciente de que o Presidente iria parar com a discriminação racial, recuperar a dignidade humana, promover a união entre as pessoas e os povos, sedimentar a fraternidade multirracial para que os Estados Unidos da América continuassem a desenvolver-se, mas em outros moldes e com novos valores, alcançando assim, novos paradigmas.

Esse complexo tema, com repercussão a nível planetário, é esmiuçado no poema “Ser Educada”, que exorta ao respeito mútuo e fraterno entre pessoas de etnias diferentes, à luz da civilidade revelada pela descendência negra ao longo de sua história, não obstante a indelicadeza, o segregacionismo, a xenofobia, a escravidão e a opressão exercidos de forma permanente e severa pelos de raça branca.

No último poema de “Nostalgia”, intitulado “Liberdade”, reitero a necessidade de nós negros reafirmarmo-nos perante as autoridades americanas e não só, expondo a nossa força e o nosso poderio diante das adversidades, reafirmando a liberdade conquistada, como direito adquirido após séculos de luta e sedimentado no presente com a eleição de Barack Obama como Presidente do país mais poderoso do mundo. Fazendo jus a isso, este livro termina com uma nota de esperança.

No resto do livro conferi maior atenção ao meu lado emotivo enquanto poeta, que, na minha perceção, é o lado mais usual e o que melhor se adequa à vocação poética. Nessa parte exprimo tudo o que sinto no mais profundo das minhas entranhas e da minha alma, tanto do ponto de vista pessoal como ecuménico. Só assim consigo atingir o meu ego e me realizo, perscrutando a minha infinita e eterna necessidade de amar, preservando as minhas recordações de dar e de receber, quer da parte da minha terra de origem como do país de acolhimento, da dor que me destroçou a alma aquando do passamento dos meus entes queridos, em especial dos meus pais e do meu sobrinho, e, por último, reafirmando o meu orgulho e a minha dignidade enquanto pessoa e africano.

A poesia é o meu refúgio, o meu êxtase e a minha insubordinação. É o método mais eficaz, mais emotivo e mais intenso que uso de forma contínua para me exteriorizar, comunicar e prantear. Nela lamento as saudades da minha terra amada, invoco a união familiar, repúdio a violência, recuso a discriminação, o exibicionismo e a demagogia, manifesto as minhas dúvidas e as minhas certezas quanto ao futuro, exibo o meu amor ao próximo e a busca incessante do Pai Celestial e do Seu filho Jesus. A poesia permite-me exprimir dor, raiva, revolta, paixão e os meus estados de espirito. Resumindo, é o alcançar da perfeição.

E faço isso confirmando as belezas da vida e do mundo. Tenho para comigo que as flores são o símbolo universal do amor e do belo. E isso reflete-se nos meus poemas “Pesquisa” e “Minha Flor” onde uso a imagem da flor para revelar o meu mais aprazível e romântico propósito. Ilustro o lindo nas mais diversas formas, usando o cenário citadino, as paisagens rurais, o contraste entre o verde e o seco, a diversidade orográfica, paisagística e cultural das nossas ilhas, os monumentos e os sítios históricos do meu Cabo Verde, enfim, tudo o que me circunda. São essas pulcritudes que me inspiraram e me fizeram escrevinhar os poemas “S. Filipe, Bela Cidade”, “Atalaia, Zona Silenciosa” e “Mosteiros, Terra Minha”. Nos meus versos a formosura é usada ainda para apimentar e engrandecer a melodia da nossa música, como também exaltar e adornar a sublimidade das nossas crioulas de Santo Antão a Brava. Para atestar o que acabo de aludir, convido-vos a ler “Hora Maravilhosa”, “Beijo Perfumado”, “Esqueci”, “Menina Ideal”, “Minha Poesia” e “Mãe”, este último escrito em homenagem à mais bela das mães e a mais bonita mulher do universo, que simboliza igualmente o amor leal e fraterno que me mimoseou ao longo dos meus anos de provações e tribulações. Ainda serve de exemplo para evocar a suscetibilidade anteriormente descrita o poema “A Vida é Bela”.

A linguagem, o sublime e o estético da poesia auxiliam-me a exteriorizar as minhas preocupações pessoais e não só, os meus anseios de maneira tal que se tornam universalmente compreendidos e sentidos. Para a poesia a expressão mais usual é o amor nos seus mais diversos modos, expondo o sofrimento, a privação, o orgulho, a melancolia, o perder, o encontrar, enfim, o cumprimento das missões e dos sacrifícios para cairmos na graça de Deus. É preciso muito amor e uma força incomensurável de fé para seguirmos o ensinamento de Deus. O ensinamento, “…seja feita a Sua vontade, assim na terra como no céu”, faz com que nós, os poetas, tragamos para análise e debate de uma forma amena e serena, via folha de papel, todas as inquietudes do mundo. Agradeço a Deus pela faculdade que me conferiu, permitindo-me ser um dos afortunados que consegue comunicar com o mundo através da escrita. Como expresso no poema “Escrever é Fundamental”, sem escrita o mundo seria complicado, tenebroso até, e triste. Se o mundo por si só já é complexo e ruim, imaginem-no sem a força e o poder da palavra ainda que rabiscada?!

A poesia fornece-nos as ferramentas necessárias para melhor conhecermos as iniquidades deste mundo globalizado, torna-nos capazes de suportar a dor que elas provocam, como também nos ajuda a sermos mais cônscios e confiantes em aperfeiçoá-las como consta nos versos de “A Poesia que eu Respiro”.

Ainda no livro “Nostalgia” temos o poema “O Poeta”, que demonstra o meu orgulho nacional pela riqueza patrimonial de que Cabo Verde dispõe. Considero o poema “Leve-me” muito valioso, porque nos orienta e nos indica o caminho para Jesus. E, por último, nos carmes “Um Sonho”, “Procura”, “Poema”, “Minha Poesia” e “A História de Um Poeta” expresso o amor na sua mais alta intensidade, mostrando que quando ele é puro e cristalino, todos necessitamos de o sentir e de o otimizar num sentimento límpido e numa felicidade autêntica.

A minha maior vontade é que o lirismo dos meus versos sejam sentidos, vivenciados e partilhados pelos leitores, visto que acondicionam sentimentos e necessidades universais experimentados por todos. De uma forma ou de outra, todos nós ambicionamos um paraíso, todos nós sonhamos um dia atingir o Ómega, onde todos os sentimentos se unificam, ali, o amor é experimentado conjuntamente com a paz, a justiça, a segurança, a auto estima, a resistência em prol do belo na sua máxima perfeição. Ainda que não por nós, mas pelos nossos descendentes.

De salientar que o próximo livro poético ira ser apresentado no próximo ano, 2020, queremos Deus.

 *Poeta



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