As contradições do grande derrotado
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As contradições do grande derrotado

Quem fala de transparência, rigor e desenvolvimento, tem de responder pelo que fez quando teve poder real. Não basta apontar o dedo, é preciso mostrar obra. E nesse campo, o contraste entre o discurso e a realidade não lhe corre bem. Continuamos à espera de respostas sobre o património cultural subaquático, os embróglios da CV Interilhas, os milhões enterrados nas escadas da Laginha e da Baía das Gatas, os assaltos ao Museu de Arqueologia da Praia e à CNAD. A memória não é selectiva, nem tão curta quanto ele gostaria.

Estava eu na minha vidinha facebookiana, quando me aparece um texto do ex-filho pródigo, Korpo Rixu, mais conhecido por Abraão Vicente ou o contrário…já nem sei onde começa um e acaba o outro.

O texto tenta construir uma narrativa de superioridade moral, assente naquele exercício já muito gasto, de apontar falhas do Presidente da Câmara Municipal da Praia (que lhe deu uma valente xitada nas últimas autárquicas), para invalidar as suas ambições nacionais. O problema é que, ao fazê-lo, acaba por expor o vazio do seu próprio percurso governativo. Porque quem passou anos no centro do poder, não pode agora escrever como se fosse um espectador inocente da realidade que hoje critica.

Abraão Vicente fala de promessas não cumpridas como se não tivesse sido protagonista de um ciclo político marcado exactamente pelo mesmo padrão. Nos últimos 10 anos, assistimos a anúncios grandiosos, execução curta e resultados sempre aquém dos discursos. Este governo prometeu Boeings, barcos, milhares de empregos… sem jobi pá lado.

O próprio Guru nas horas vagas, enquanto ministro da Cultura e das silhuetas, prometeu estruturar o sector, profissionalizar agentes, e criar uma verdadeira indústria criativa. O que ficou foi só vitrine. A tal “economia da cultura” ficou bem nos discursos, mas leve na prática. Valeu-nos o Augusto Veiga que, sem ruído e com profissionalismo, mostrou como se faz um bom trabalho. 

Depois veio a pasta do Mar e com ela, ficámos a ver navios. E nem é metáfora. A economia azul era para ser o novo ouro nacional; falou-se em modernização, valorização da pesca, protecção dos pescadores, cadeias de valor, riqueza sustentável… mas o que se viu foi um sector a arrastar as mesmas fragilidades de sempre. Muito plano estratégico, muito PowerPoint, e pouca mudança.

E é aqui que o texto se torna ridiculamente cómico. Porque ao repetir, quase em modo de disco riscado: “não fez isto, mas promete aquilo”, Abraão Vicente descreve com uma precisão desconfortável o mesmo método político de que ele próprio fez parte. Também prometeu mais do que entregou, também anunciou mudanças que nunca se consolidaram e também participou numa governação que deixou por resolver problemas estruturais, desde a mobilidade aos transportes interilhas, da habitação à incapacidade de fixar jovens qualificados.

Há ainda um truque barato no texto, que foi o de reduzir problemas complexos a falhas individuais. Saneamento, habitação, urbanização desordenada, mobilidade, e precariedade laboral, são feridas antigas, acumuladas ao longo de décadas. Transformá-las em prova absoluta de incapacidade de um único actor político pode dar jeito no ataque, mas é intelectualmente fraco. Para além de que os eleitores não andam assim tão distraídos.

Quem fala de transparência, rigor e desenvolvimento, tem de responder pelo que fez quando teve poder real. Não basta apontar o dedo, é preciso mostrar obra. E nesse campo, o contraste entre o discurso e a realidade não lhe corre bem. Continuamos à espera de respostas sobre o património cultural subaquático, os embróglios da CV Interilhas, os milhões enterrados nas escadas da Laginha e da Baía das Gatas, os assaltos ao Museu de Arqueologia da Praia e à CNAD. A memória não é selectiva, nem tão curta quanto ele gostaria.

No fundo, o texto tenta ridicularizar um adversário através da repetição. Mas tropeça no essencial que são os factos. Cada acusação que faz, levanta inevitavelmente a mesma pergunta sobre ele, cada promessa que desvaloriza, faz lembrar promessas antigas que ficaram por cumprir e cada crítica devolve a responsabilidade a quem esteve lá dentro.

O texto falha redondamente, não por falta de retórica, mas por excesso de memória selectiva.

Dá para acreditar?!

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