
Nos últimos tempos, muito se tem falado sobre a questão da emigração em Cabo Verde e da saída de jovens cabo-verdianos à procura de melhores condições de vida fora do país.
Cabo Verde sempre foi um país de emigração, um facto que não pode ser negado. No entanto, é importante dizer que, historicamente, o objetivo da nossa emigração sempre esteve ligado à procura de melhores condições de vida, o que está diretamente relacionado com o nosso passado histórico e com a forma como nos constituímos enquanto povo.
Se a sociedade tem vindo a notar uma saída significativa de jovens, então é fundamental procurar entender o porquê. Já chegou o momento de a sociedade cabo-verdiana avaliar e reavaliar não apenas a quantidade, mas também a qualidade da nossa emigração.
Num Estado democrático, não se pode, nem se deve, controlar o direito de ir e vir de qualquer cidadão. No entanto, o Estado tem a responsabilidade de criar condições de estabilidade que permitam aos cidadãos planear e construir a sua vida no seu próprio país.
Desde que este tema ganhou maior visibilidade no debate público, não se tem observado a apresentação de relatórios ou dados concretos sobre o fenómeno. Isso representa uma falha institucional, sobretudo quando o debate se torna cada vez mais intenso. A única forma de compreender verdadeiramente esta realidade é através de dados, não há outra forma.
Já era tempo de o Instituto Nacional de Estatística realizar um estudo aprofundado sobre a emigração, tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo. Não basta saber quantos saem; é essencial compreender quem sai, com que qualificações e com que impacto.
Que tipo de capital humano estamos a formar no país para depois exportar? Que contributo têm dado as comunidades cabo-verdianas nos países onde residem?
Vivemos atualmente num contexto internacional em que as políticas anti-imigração têm vindo a intensificar-se. E Cabo Verde possui comunidades significativas em vários desses países. Se não reformularmos a forma como encaramos e estruturamos a nossa emigração, corremos o risco de perpetuar um ciclo de emigração de subsistência, em vez de uma emigração estratégica e sustentável.
Não faz sentido, do ponto de vista do desenvolvimento, termos jovens a sair da precariedade laboral em Cabo Verde para enfrentarem precariedade noutros países. Embora os dados do INE indiquem uma diminuição do desemprego, talvez seja também o momento de reavaliar os critérios utilizados para medir o emprego e perceber se estes refletem, de facto, a realidade vivida pela população.
Recentemente, o Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva afirmou que as pessoas emigram em todo o mundo, dando como exemplo Luxemburgo. E é verdade. No entanto, há uma diferença importante a considerar.
Se analisarmos países com baixas taxas de emigração, como Japão, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Noruega e Singapura, percebemos que estes países têm em comum economias fortes e estáveis, oportunidades internas, serviços públicos de qualidade, segurança e estabilidade política.
Nestes países, a taxa de emigração situa-se, em média, entre 2% e 5%. Já em Cabo Verde, estima-se que entre 25% e 30% da população viva no exterior. Os dados falam por si.
No entanto, há uma dimensão que raramente é debatida: a qualidade e a forma como a nossa emigração se organiza e se posiciona nos países de acolhimento.
Observemos outras comunidades migrantes, como os chineses ou os árabes, que frequentemente desenvolvem redes comerciais e estruturas económicas nos países de acolhimento. O mesmo pode ser observado em várias comunidades africanas, que criam pequenas dinâmicas económicas locais, muitas vezes baseadas em redes de apoio e cooperação.
A comunidade cabo-verdiana é uma das mais antigas em Portugal, mas outras comunidades, como indianos, paquistaneses e grupos de matriz islâmica, conseguem, em muitos casos, afirmar-se economicamente num curto espaço de tempo.
Talvez seja o momento de o país começar a pensar num verdadeiro programa nacional de emigração, que vá além da simples saída de cidadãos e passe a preparar, de forma estratégica, os cabo-verdianos antes da sua integração na diáspora.
Esse programa poderia incluir a formação prévia dos emigrantes, não apenas em termos técnicos ou profissionais, mas também na forma como se podem posicionar economicamente nos países de acolhimento. Ou seja, preparar os cidadãos para que consigam não só trabalhar, mas também criar oportunidades, desenvolver pequenas atividades económicas e integrar-se de forma mais estruturada nos mercados onde se inserem.
Uma abordagem deste tipo permitiria transformar a emigração de uma lógica de sobrevivência para uma lógica mais estratégica, com maior potencial de impacto económico tanto para o próprio emigrante como para o país de origem.
A questão que se impõe é: porquê?
Porque é que as nossas comunidades enfrentam mais dificuldades em desenvolver, de forma consistente, estruturas económicas sustentáveis no exterior?
Parte da resposta pode estar ligada a vários fatores: o acesso a capital, o nível de organização coletiva, as redes de apoio entre emigrantes, bem como a forma como nos posicionamos economicamente nos países de acolhimento. Este é um debate que precisa de ser feito com seriedade e sem simplificações.
Num mundo cada vez mais interdependente, onde a economia evolui rapidamente, torna-se essencial repensar não apenas a formação do nosso capital humano, mas também a forma como este se integra e cria valor, tanto dentro como fora do país.
Sem isso, corremos o risco de continuar a formar capital humano que não consegue ser suficientemente competitivo para gerar impacto económico relevante, tanto dentro como fora do país.
Por mais que a taxa de desemprego tenha diminuído, como indicam os dados do Instituto Nacional de Estatística, passando de cerca de 10,3% em 2023 para aproximadamente 7,5% em 2025, e apesar do aumento do salário mínimo nos últimos anos, que evoluiu de 11.000 escudos em 2014 para 17.000 escudos em 2025, estes são factos que, por si só, não podem ser ignorados.
No entanto, quando analisamos este salário mínimo dentro do contexto atual, marcado pela precariedade laboral, pelo elevado custo de vida, pela inflação nos produtos básicos e pelos elevados custos de água e eletricidade, percebe-se que estes fatores reduzem significativamente o impacto real do aumento salarial.
Acresce ainda o facto de Cabo Verde assentar num modelo económico fortemente ancorado no turismo, com uma dívida pública elevada e um défice comercial significativo. Neste enquadramento, conseguir sustentar-se e, ao mesmo tempo, planear uma vida com alguma estabilidade dentro do país torna-se um desafio considerável.
Segundo a ADECO, o custo de vida essencial em Cabo Verde já ultrapassa o salário mínimo nacional, criando um défice financeiro crítico para as famílias. De acordo com o Índice de Consumo Essencial (ICE) de março de 2026, a Ilha do Sal é a mais cara (34.909 CVE), seguida pela Praia (33.156 CVE) e São Vicente (24.856 CVE). A associação alerta que apenas os gastos com alimentação no Sal superam o salário mínimo, contribuindo para uma perda de 15% no poder de compra nos últimos cinco anos e colocando o país entre os mais caros de África.
E não digo isto por falta de reconhecimento dos avanços do nosso país. Pelo contrário. Cabo Verde, no momento da independência, foi considerado pelas Nações Unidas como um país não viável. Ainda assim, conseguimos contrariar todas as previsões, nadámos contra a maré e provámos o contrário.
* Titulo da responsabilidade da redação
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