A Língua como Exílio
Cultura

A Língua como Exílio

E se hoje a língua portuguesa é celebrada, / que seja então no Livro do desassossego; / no abismo onde cada palavra / é um passo em falso / na direcção de nós próprios.

 

No princípio, era o silêncio mal traduzido,

uma hesitação pousada na margem da boca,

como se cada palavra tivesse medo de nascer inteira.

 

E depois veio a língua

não como pátria,

mas como exílio que habituamo-nos a habitar.

 

Existe em nós um rumor antigo,

o som do batuku…

um cansaço lúcido que se escreve

não para ser lido,

mas para existir.

 

Falo,

e cada sílaba é uma tentativa falhada

do selo colonial.

Escrevo,

e cada frase trai a pátria que sinto.

 

Que língua é esta,

que me veste de pensamento e me despe de certezas?

Onde a saudade não se traduz,

e o silêncio é sempre mais exacto?

 

Não celebro a língua portuguesa,

atravesso-a.

 

Atravesso palavras como quem atravessa ladeiras vazias,

com a consciência de que nada me espera do outro lado

senão mais de mim,

mais desta vertigem da minha língua existir em voz baixa.

 

Talvez seja a Pátria de Pessoa.

Um lugar onde nos perdemos com método,

um labirinto onde cada saída

é apenas uma nova forma de ser.

 

E ainda assim,

insisto.

Porque há uma beleza estranha

em não saber dizer,

em falhar com rigor,

em escrevê-la como quem respira

sem ar.

 

E se hoje a língua portuguesa é celebrada,

que seja então no Livro do desassossego;

no abismo onde cada palavra

é um passo em falso

na direcção de nós próprios.

Partilhe esta notícia

Comentários

  • Este artigo ainda não tem comentário. Seja o primeiro a comentar!

Comentar

Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.