
A época dos saldos aproxima-se do fim e, no dia seguinte, Ulisses Correia e Silva irá perceber que é um homem só, sem corte de bajuladores e sem tropa de choque. Aí, talvez entenda, pela primeira vez na sua vida política, que não são as figuras providenciais que decidem o futuro, é o povo e só o povo, - o magistrado supremo da história.
Há duas alturas do ano em que, normalmente, acontecem os saldos. Artigos de vestuário e calçado de verão, em vésperas de inverno, passam a ter preços mais baixos e vice-versa. Chama-se a isso restos de colecção. E quer dizer que o comércio não conseguiu vender todos os seus produtos, seja porque a procura era menor que a oferta ou a qualidade não era recomendável.
O dr. Ulisses e o seu partido também entraram na época de saldos, exibindo nas montras os restos de colecção e os artigos com defeito, recuperando promessas com dez anos de atraso, lançando primeiras pedras, fazendo inaugurações à pressa e, paralelamente, promovendo nomeações de última hora, não vá a bazofaria das sondagens e da vitória do grande líder esboroar-se aos pedaços em 17 de maio.
Ninguém, que não seja prisioneiro da bolha de irrealidade construída pela atamancada máquina ventoinha, alguma vez acreditará que Ulisses Correia e Silva irá, agora, fazer tudo o que não conseguiu numa década. Isso, pura e simplesmente, não existe!
Incompetência, estreiteza política e falta de visão para o país
Desde logo, porque, pesem as desculpas das secas, das crises internacionais e mais que o valha, fundamentalmente, Ulisses não fez por incompetência, estreiteza política e falta de visão para o país. Mas, também, por aquilo que lhe sobra e muito: arrogância e incapacidade de agregar.
Desde 2016 até hoje, o MpD perdeu metade da sua base de apoio e esse revés tem um nome: Ulisses Correia e Silva que, ao longo de uma década foi afastando apoiantes, perseguindo pessoas que pensam diferente, virando as costas à militância e ganhando eleições internas à custa de batota.
A grande prova dos nove ao desastre da liderança de Ulisses teve contas feitas em 2024, quando, pela primeira vez na sua história, o MpD perdeu umas eleições autárquicas. Caso o ainda primeiro-ministro tivesse alguma dignidade e seriedade intelectual, teria posto a liderança à disposição. Mas não, Ulisses descartou responsabilidades e atirou culpas para os candidatos, quando toda a gente havia percebido que o resultado das urnas foi um grandessíssimo cartão vermelho ao governo.
Na ocasião, fez finca-pé e disse que ficava, a legião de bajuladores e arranchados ao Orçamento do Estado, disse amém, e a oposição interna (salvo uma ou outra excepção) meteu a viola no saco e, de lá para cá, tornando-se a mais fiel apoiante do grande líder para se atirar voraz aos despojos e, como sempre acontece em histórias canalhas, ser a primeira a atirar as primeiras pedras ao previsível derrotado de 17 de maio.
Na corda bamba
Ulisses Correia e Silva, contra quem nada me move de pessoal e, pelo contrário, até sinto pena por não ter sabido sair a tempo, é um homem sitiado, submergido pelas suas próprias contradições e na corda bamba. Sendo um homem com mediana inteligência, ele próprio sabe que já não tem futuro político e que está rodeado por gente que não lhe tem o mínimo de consideração ou estima.
Aquela máxima popular “cá se fazem, cá se pagam” aplica-se por inteiro ao ainda primeiro-ministro. Passou todo o seu mandato de líder partidário a utilizar a militância como tropa de choque eleitoral acrítica, para, logo de seguida, lhe virar as costas. Não ouviu as vozes avisadas da sociedade que clamavam por mudança, persistiu nos erros e manteve no governo os ministros mais contestados pelo crivo popular, e não teve qualquer pejo em trair apoiantes apenas por apego doentio ao poder.
A época dos saldos aproxima-se do fim e, no dia seguinte, Ulisses Correia e Silva irá perceber que é um homem só, sem corte de bajuladores e sem tropa de choque. Aí, talvez entenda, pela primeira vez na sua vida política, que não são as figuras providenciais que decidem o futuro, é o povo e só o povo, - o magistrado supremo da história.
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