Chindo Morandi . Perfil de um homem humilde e generoso
Sociedade

Chindo Morandi . Perfil de um homem humilde e generoso

O seu legado está vincado no cinema, na música, no futebol e no teatro. E não pára por aí. Conheça a história do primeiro vocalista dos “Tubarões”, referência do histórico cinema do Bairro e uma das mais conhecidas figuras da Praia, Chindo Morandi, cuja vida, seguramente, daria um filme. Perfil publicado na revista Cult – Agenda Cultural da Praia, edição nº 11, de Março deste ano, e que Santiago Magazine republica aqui em homenagem ao .. artista, desportista e activista que foi Chindo de Bairro, falecido este domingo 16, na Praia.

A vida de Alcindo Tavares Barbosa Vicente, aliás Chindo Morandi tem muita história. É como numa película dramática com emoções fortes, aventuras, paisagens, e claro, ações, cenários e palcos distintos. Tem um guião próprio, personagens boas ou más, diálogos e silêncios, câmaras, luzes, tem de tudo, tintim por tintim como acontece nos bastidores de um verdadeiro filme.

Aqui, acompanhamos a vida de Chindo, uma pessoa educada, gentil, simpática que não começou a sua jornada artística na sétima arte, mas sim na música quando nos finais dos anos de 1968, ele fundou e foi o primeiro vocalista de uma das mais icónicas bandas musicais de Cabo Verde: Os Tubarões.

“Sempre gostei de cantar. Cantava, compunha e escrevia canções desde os 14 anos. Tudo começou quando eu tinha 20 anos e trabalhava na antiga loja Firestone, no Plateau, e de vez em quando animava os meus amigos cantando na casa da dona Guta, ou no quintal do Luís”, conta Chindo um homem que no seu auge foi cobiçado por quase todas as mulheres, como o seu ícone cantor pop italiano de músicas românticas Gian Luigi “Gianni” Morandi do qual emprestou a alcunha.

“As pessoas gostavam das minhas atuações e então decidi criar um grupo musical. Por essa altura a loja Serbam tinha colocado na montra uns instrumentos à venda por 35 contos. Fiz umas subscrições pedindo apoio às pessoas e consegui cinco mil e dei entrada”, lembra Chindo que com Zeca Couto, Duía, Miki, Zezé e Fortinho foram os cinco fundadores dos Tubarões.

A banda foi crescendo e tocando nas diferentes festas e bailes nos arredores da Praia, e com ela sua idolatração. “Acompanhámos o Bana quando ele veio de Portugal, o Tututa, o Toninho, entre outros. Quando fizeram a Miss Cabo Verde fomos convidados, nós e um outro grupo musical que se chamava Pop Académica, para cantar no salão nobre do liceu Adriano Moreira. Cantava músicas românticas, morna, coladeira, cumbia, rumbia, o mambo, salsa e o cha-cha-chá”, revela Chindo que sustenta ainda que em 1971 Os Tubarões fizeram a primeira viagem fora de Cabo Verde.

“Fomos à Guiné-Bissau, era para ser 10 dias, mas acabamos por ficar por um mês porque as pessoas gostaram muito das nossas atuações. No entanto, antes de irmos à Bissau tivemos que tomar uma autorização especial de saída do país na Polícia Internacional e de Defesa do Estado (Pide). Na Guiné, como os nossos instrumentos não eram potentes tivemos que emprestar mais colunas e instrumentos no agrupamento musical Cobiana Jazz”, referiu o vocalista que dois anos depois da turnê deixou a banda por razões de saúde e familiar. “A minha garganta não aguentou. Além disso, tinha perdido a minha mulher que deixou-me um filho de 2 anos para cuidar”, apontou. Assim, a sua última incursão na música aconteceu em 2008, quando gravou o seu primeiro e único álbum intitulado “30 Anos Depois”.

Ça C’est du Cinema (Isto Aqui é Cinema)

Depois de deixar Os Tubarões Chindo transitou para a magia do cinema. É na sétima arte que ele jogou um papel preponderante na evolução sociocultural dos praienses em relação ao cinema contribuindo para a construção de uma sociedade culturalmente melhor e mais consciente pois, para Chindo apoiar o cinema tem o seu efeito positivo também nos indicadores sociais, como na queda da violência ou no aumento sócio-económico. “As vendedeiras de pequenos negócios floresceram ao redor do cinema. Para além das novas concepções e técnicas artísticas e culturais. O cineteatro transforma-se em salões públicos onde homens e mulheres de todas as classes se misturavam, lugar que passa a ser notado especialmente por seu aspeto artístico, boémio”, opina.

“Tudo começou quando comprei uma máquina de passar filmes celuloides DLP 4750LC RGB 1200. Não era um projetor mais, e sim uma máquina de passar filmes de quatro a quatro fitas e à noite a projetava na parede da minha casa no então Bairro Kwame N’Krumah (hoje Bairro Craveiro Lopes). As pessoas vinham de todas as zonas periféricas para assistir os filmes. Muitos destes filmes eram a preto e branco e sem som. Entretanto, na altura precisávamos de um cine-teatro para exibir filmes narrativos. Foi assim, que em 1981, o Governo e o então Delegado do Governo na Praia, Nelson Atanásio compraram um projetor e convidaram-me para ser o responsável do novo cinema no Bairro. O primeiro filme que foi exibido na Sibéria (Nome popular do Cine teatro do Bairro) foi o Sandokan O Tigre da Malásia. Foi um sucesso tremendo. Foi incrível, extraordinário e impressionante ver o efeito que os filmes tiveram na vida das pessoas. O filme foi exibido durante uma semana de matinê à estreia com casa cheia”.

Passado mais de 40 anos depois da inauguração do espaço ‘Sibéria’, Chindo sente-se triste e um vazio na alma com a situação do cinema na capital. “É uma pena que eles deixaram tudo ir para o abismo. Em 2006, o cine teatro foi privatizado a uma empresa portuguesa que não investiu em novos projetores, e as novas tecnologias ajudaram a precipitar tudo. Por isso, eles foram embora deixando todos os equipamentos ao deus-dará. Lamento que muita gente, e muitas famílias hoje não vão ao cinema porque já não temos espaços de convívios social como os palcos de exibição dos filmes”, assevera.

Todavia, o seu gosto pela sétima arte não se resumiu só na coordenação e exibição de longas-metragens. “Atuei no filme de Samira Vera Cruz que se chama Sukuru. Isso deu-me uma satisfação enorme”, garantiu.

Um Craque de Bola ...

Chindo era um craque de bola. O seu pé esquerdo fino levou-lhe a jogar na Académica da Praia, Travadores, Boavista FC, Sporting da Praia, no Bairro e outras equipas dos subúrbios como Argentina, Boca Júnior, Cantareira. Foi convocado para a seleção nacional, e para o misto da Praia. Onde ele jogou foi campeão quer a nível regional quer a nível nacional.

Quando pendurou as botas treinou os juvenis e juniores do seu Bairro. “Foi campeão nacional dos Sub-18 com a equipa do Bairro Craveiro Lopes. Jogamos a final contra uma equipa da ilha da Brava e ganhamos por 8-2”, salienta entre risos. Durante estes anos Chindo orgulha-se em dizer nunca faltou uma partida de futebol no estádio da Várzea ou da segunda divisão”.

 

...e não só

O seu legado está também no teatro na dança, no carnaval onde participou em várias atividades socioculturais que visavam enriquecer a nossa sociedade.

Chindo esteve envolvido ainda na promoção dos jogos de Totoloto. Por vários anos a sua casa e restaurante Sarita funcionou como uma das agências da Totoloto. Para finalizar revela que também esteve envolvido na luta clandestinamente contra a Pide.

“Era na minha casa em Achadinha que muita gente se reunia. Organizava bailes populares para disfarçar da polícia, e a gente se reunia num quarto. O Balanta era quem garantia a segurança da porta. O Ditché que é o irmão do Bernardino que morava no Plateau era quem coordenava tudo. Ficava de fora para controlar tudo porque eu tinha um tio Tai que era agente da Pide que estava desconfiado das nossas atividades. O teatro que fazíamos era para encobrir tudo isso”, assegura Chindo que com toda esta história tem na forja um livro sobre a sua vida. “O livro chama-se «Anotações de uma vida»”, revelou.

Chindo Morandi faleceu este domingo, 16, dno Hospital Agostinho Neto, após doença porlongada. 

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