
...cada cabo-verdiano tem responsabilidades concretas. Nas próximas semanas, é prudente reduzir despesas não essenciais, constituir uma reserva alimentar de um a dois meses, garantir o stock de medicamentos essenciais e evitar o endividamento desnecessário. O Governo de Cabo Verde deve ativar os seus mecanismos de resposta a crises, reforçar as reservas estratégicas de combustível e alimentos, e negociar com os parceiros externos a estabilização das linhas de abastecimento. A resiliência de Cabo Verde não será determinada apenas pelo que acontece em Teerão ou Washington, será determinada pela serenidade, preparação e solidariedade com que o povo cabo-verdiano responder a esta crise. Nações muito mais pobres e mais isoladas já sobreviveram a choques maiores. Cabo Verde tem os recursos humanos, a coesão social e a experiência histórica para superar este momento.
Na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques militares coordenados contra o Irão, numa operação que resultou na morte do Líder Supremo Ali Khamenei e de vários outros altos dirigentes do regime iraniano. A resposta iraniana foi imediata: mísseis e drones atingiram bases militares americanas no Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, e o Irão ameaçou fechar o Estreito de Ormuz, a passagem marítima mais estratégica do mundo. Para Cabo Verde, um arquipélago de dez ilhas no Atlântico, sem petróleo nem exército, esta guerra pode parecer distante, mas as suas ondas de choque já chegaram e vão continuar a chegar.
O Petróleo e o Custo de tudo
O Estreito de Ormuz é a garganta pela qual passa 20% do petróleo consumido no mundo inteiro. Desde o início dos ataques, o preço do barril de petróleo Brent subiu de cerca de 70 dólares para mais de 80 dólares, e os analistas preveem que pode ultrapassar os 100 dólares por barril se o conflito se prolongar. Para Cabo Verde, que importa quase todo o seu combustível, isto significa preços mais altos na bomba de gasolina, nas tarifas elétricas e nos bilhetes de avião. Significa também que tudo o que vem de fora, de alimentos a medicamentos, ficará mais caro porque o transporte marítimo e aéreo custa mais. O impacto não será apenas de dias ou semanas: os preços do petróleo demoram meses a normalizar após um conflito desta escala.
O Turismo em Risco Imediato
Os aeroportos de Dubai, Abu Dhabi e Doha, os maiores hubs de conexão entre a Europa e a Ásia, com voos que servem também rotas atlânticas, foram encerrados ou severamente perturbados desde o início do conflito. A Emirates, a Etihad e a Qatar Airways suspenderam operações. Milhares de passageiros ficaram retidos em todo o mundo. Embora Cabo Verde não seja diretamente servido por estas companhias, a perturbação nas redes globais de aviação eleva os custos operacionais de todas as companhias aéreas, reduz a capacidade disponível e provoca cancelamentos em cascata. Os turistas europeus, que representam a grande maioria dos visitantes de Cabo Verde, vão sentir-se mais hesitantes em viajar durante períodos de incerteza global, e a subida dos bilhetes pode desincentivar férias no arquipélago.
As Remessas: O Dinheiro que Sustenta Famílias
Cabo Verde recebe anualmente centenas de milhões de euros em remessas enviadas pela diáspora, sobretudo dos Estados Unidos, Portugal, Holanda, França e Portugal. Estes países são os primeiros a ser afetados por recessão quando o preço do petróleo sobe e a incerteza económica aumenta. Nos EUA, já havia sinais de abrandamento económico antes da guerra. Um conflito prolongado pode levar ao aumento do desemprego nos países emissores, à redução do poder de compra dos emigrantes e, consequentemente, a uma queda significativa nas transferências enviadas para as famílias em Cabo Verde. Quem depende destas remessas para pagar a renda, a alimentação e a escola dos filhos deve preparar-se para possíveis reduções nos próximos três a seis meses.
Escassez Alimentar: O Que Pode Faltar
Cabo Verde importa entre 80% e 90% dos alimentos que consome. A subida dos custos de transporte marítimo já está a acontecer, com as seguradoras a aumentarem as apólices para embarcações que cruzam zonas de risco no Médio Oriente. Produtos como o arroz, a farinha de trigo, o óleo alimentar, o açúcar e os produtos enlatados são os mais suscetíveis de sofrer aumentos de preço ou ruturas de stock nos portos cabo-verdianos. O trigo, ingrediente fundamental do pão e da massa, tem uma cadeia de abastecimento que passa frequentemente por países que fazem escala em rotas afetadas pelo conflito. A falta de farinha nas padarias não é um cenário impossível, é uma consequência lógica de uma crise de abastecimento prolongada, e o povo cabo-verdiano deve tê-la em mente.

Medicamentos e Produtos de Saúde
A indústria farmacêutica global depende de matérias-primas e de rotas logísticas que passam por regiões afetadas pelo conflito. Os medicamentos importados para Cabo Verde, que incluem praticamente tudo, desde antibióticos a anti hipertensores, podem sofrer atrasos ou encarecimento nos próximos meses. Historicamente, conflitos desta natureza demoram entre dois e seis meses a estabilizar as cadeias de abastecimento farmacêutico. Doentes crónicos com hipertensão, diabetes, asma, doenças cardíacas ou infeção pelo VIH devem consultar os seus médicos e tentar garantir receitas com antecedência. Os hospitais e centros de saúde do país devem ser alertados para constituírem reservas estratégicas de medicamentos essenciais, tal como fazem os países em situação de crise.
O Euro e o Escudo: Riscos Cambiais
O escudo cabo-verdiano está indexado ao euro, o que significa que Cabo Verde está diretamente exposto às flutuações da moeda europeia. O conflito no Médio Oriente está a pressionar as economias europeias, que dependem do gás natural do Qatar, cujas instalações foram atingidas, e do petróleo do Golfo Pérsico. O preço do gás natural europeu subiu 38% apenas nos primeiros dias de guerra. Se o euro se desvalorizar face ao dólar, as importações de Cabo Verde ficam ainda mais caras, porque os combustíveis e os produtos alimentares são cotados em dólares no mercado internacional. Esta cadeia de efeitos cambiais pode agravar ainda mais a inflação interna nos próximos seis a doze meses.
Quanto Tempo Pode Durar?
O Presidente Trump afirmou que a guerra pode durar quatro semanas, mas os analistas mais experientes são mais cautelosos. O Brookings Institution e a Oxford Economics estimam que o conflito, na sua fase ativa de bombardeamentos, pode durar entre um e dois meses. No entanto, os efeitos económicos globais, como a subida dos preços do petróleo, as perturbações no comércio, a queda do turismo e a retração das economias dos países emissores de remessas, podem prolongar-se por seis a dezoito meses após o fim dos combates. O precedente da guerra do Iraque de 2003 mostrou que os choques energéticos e logísticos levam meses a absorver. Para Cabo Verde, o cenário mais provável é sentir efeitos moderados, mas persistentes durante todo o ano de 2026, com o impacto mais agudo nos próximos três a quatro meses.
Cenários: O Melhor e o Pior
No cenário mais favorável, o conflito limita-se a algumas semanas de bombardeamentos, o Estreito de Ormuz não é completamente bloqueado, e a economia global absorve o choque com uma recessão suave. Neste caso, Cabo Verde pode esperar uma subida de 10% a 20% nos preços dos combustíveis e dos bens importados, uma quebra de 10% a 15% no turismo durante o primeiro semestre, e uma redução moderada das remessas. No cenário mais grave, como um bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, alargamento do conflito a outros países do Golfo, ou recessão global, o petróleo pode ultrapassar os 100 dólares por barril, as companhias aéreas podem reduzir drasticamente as rotas para Cabo Verde, e as remessas podem cair 20% a 30%. Neste caso, o escudo, a balança de pagamentos e as reservas do Banco de Cabo Verde seriam severamente testados.
O Que Fazer Agora: Um Chamamento à Acão
Perante este quadro, cada cabo-verdiano tem responsabilidades concretas. Nas próximas semanas, é prudente reduzir despesas não essenciais, constituir uma reserva alimentar de um a dois meses, garantir o stock de medicamentos essenciais e evitar o endividamento desnecessário. O Governo de Cabo Verde deve ativar os seus mecanismos de resposta a crises, reforçar as reservas estratégicas de combustível e alimentos, e negociar com os parceiros externos a estabilização das linhas de abastecimento. A resiliência de Cabo Verde não será determinada apenas pelo que acontece em Teerão ou Washington, será determinada pela serenidade, preparação e solidariedade com que o povo cabo-verdiano responder a esta crise. Nações muito mais pobres e mais isoladas já sobreviveram a choques maiores. Cabo Verde tem os recursos humanos, a coesão social e a experiência histórica para superar este momento.
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