Que debate televisivo foi este?
Ponto de Vista

Que debate televisivo foi este?

Estamos a viver tempos difíceis, tempos imprevisíveis e tempos que exigem mais seriedade, mais densidade e mais sentido de responsabilidade. É precisamente por isso que os grandes dossiers de governação têm de ser colocados no centro do debate. Os candidatos devem apresentar propostas credíveis, executáveis e devidamente pensadas. O país já conhece muitos dos seus problemas. O que os cabo-verdianos precisam agora é de respostas, de prioridades claras e de soluções com horizonte. Espero, por isso, que no dia 8 de maio todos os candidatos estejam presentes."

O primeiro debate televisivo das legislativas de 2026, realizado pela TCV e pela RCV na noite de ontem, deveria ter sido um momento alto de esclarecimento democrático. Não foi.

A minha leitura é esta: em vez de estarmos aqui a dizer quem ganhou o debate, deveríamos concentrar-nos em perceber quem foram os verdadeiros derrotados. Fomos nós, os cabo-verdianos. Eu não vou entrar na discussão infantil de saber quem faltou em 2021 ou quem faltou agora, como se um erro anterior legitimasse um erro presente. Uma democracia madura não melhora pela repetição do mau exemplo; melhora quando os protagonistas escolhem fazer diferente e fazer melhor. E, neste caso, o país perdeu porque ficou privado do contraditório completo, da comparação direta entre propostas e da possibilidade de avaliar, no mesmo palco, todos os principais candidatos que pedem um voto de confiança aos eleitores.

A primeira derrota, portanto, foi a da própria democracia televisiva. Um debate com ausências relevantes fica logo diminuído à partida. Fica mais pobre, menos exigente, menos esclarecedor. E isso pesa ainda mais num contexto em que o país atravessa um tempo politicamente sensível, economicamente exigente e socialmente imprevisível. Nestes momentos, o eleitor não precisa de meias presenças nem de justificações tardias, mas sim de confronto aberto, disponibilidade pública e respeito pelo dever de prestar contas.

Mas houve uma segunda derrota: o debate ficou excessivamente preso ao diagnóstico e muito aquém das propostas. O país já conhece boa parte dos seus problemas. Conhece as dificuldades do custo de vida. Conhece os constrangimentos dos transportes. Conhece os desafios da saúde, do emprego, do rendimento e da governação. O que os cabo-verdianos precisavam de ouvir era outra coisa: o que é que cada partido quer fazer, como quer fazer, com que prioridades, com que metas e em que prazo.

Foi exatamente aí que o debate falhou. Faltou visão de médio e longo prazo. Faltou dizer ao país que Cabo Verde se quer construir para os próximos 10 ou 15 anos. Faltou densidade programática. Faltou quantificação. Faltou calendarização. Faltou transformar crítica em solução e indignação em proposta. E, sem isso, o eleitor sai do debate com mais ruído do que esclarecimento.

Era previsível que Ulisses Correia e Silva, por ser o incumbente, fosse o alvo preferencial da crítica. Isso faz parte da lógica democrática e é legítimo. O problema está em reduzir o debate a essa crítica, sem aproveitar o tempo para detalhar alternativas. Do lado do chefe do Governo, viu-se sobretudo a defesa dos ganhos da governação. Também isso é politicamente compreensível. Mas, num debate desta natureza, esperava-se mais: mais balanço sobre promessas não concretizadas, mais reconhecimento do que falhou e mais explicação concreta sobre o que propõe para o próximo ciclo. Já do lado da oposição presente, houve críticas fortes, sobretudo por parte da UCID, mas nem sempre essa crítica se converteu em proposta detalhada. Na minha leitura, ficou-se demasiadas vezes pelo apontar do dedo, quando o país precisava de ouvir o desenho das soluções.

Foi por isso que, no essencial, ninguém ganhou verdadeiramente este debate. Cada militante dirá que o seu líder esteve melhor. Cada simpatizante encontrará argumentos para proclamar uma vitória. Mas essa é a espuma normal do partidarismo. O ponto central é outro: quando o eleitor termina um debate sem perceber, com precisão, o que cada força política quer fazer pelo país, então o debate falhou na sua missão principal.

Há, porém, um terceiro ponto: Cabo Verde precisa de repensar a qualidade dos seus debates políticos televisivos. E dizer isto não é desrespeitar a TCV, a RCV nem o jornalismo cabo-verdiano. É, pelo contrário, levar a sério a importância do jornalismo como pilar da democracia. Sem desmerecer o profissionalismo dos moderadores, é preciso dizer que o formato dos debates em Cabo Verde continua demasiado preso ao tempo, demasiado confortável para os candidatos e demasiado pouco orientado para a exigência substantiva.

Os jornalistas devem perguntar, sim. Mas devem também recentrar, insistir, apertar, clarificar, interromper a fuga e obrigar o candidato a responder ao que lhe foi perguntado. Devem impedir que o debate se transforme apenas num desfile de diagnósticos, slogans e generalidades. Devem empurrar os candidatos para o lugar mais difícil e mais útil: o lugar da proposta concreta. E, nesse aspeto, ainda temos muito a melhorar.

Continuo a defender que Cabo Verde ganharia muito com debates frente a frente entre os principais partidos, além do debate geral com todos. Frente a frente entre MpD e PAICV. Frente a frente entre PAICV e UCID. Frente a frente entre UCID e PP. E assim por diante. Com tempo, com contraditório, com moderação firme e com foco em propostas. O eleitor só tem a ganhar com esse modelo. E a comunicação social também, porque debates mais intensos, mais claros e mais bem estruturados prestam melhor serviço público.

Estamos a viver tempos difíceis, tempos imprevisíveis e tempos que exigem mais seriedade, mais densidade e mais sentido de responsabilidade. É precisamente por isso que os grandes dossiers de governação têm de ser colocados no centro do debate. Os candidatos devem apresentar propostas credíveis, executáveis e devidamente pensadas. O país já conhece muitos dos seus problemas. O que os cabo-verdianos precisam agora é de respostas, de prioridades claras e de soluções com horizonte. Espero, por isso, que no dia 8 de maio todos os candidatos estejam presentes."

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