Francisco Carvalho e o momento de viragem que Cabo Verde vive
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Francisco Carvalho e o momento de viragem que Cabo Verde vive

Com o MpD a terminar um ciclo de 10 anos à frente dos destinos de Cabo Verde, com resultados francamente negativos, a mudança afigura-se a única alternativa credível para estancar a sangria social e o desiquilíbrio emocional e psiquíco que têm assaltado o país em todos os setores e extratos sociais.

No recente encontro nacional do PAICV, realizado na Cidade da Praia em fevereiro, foi apresentada uma pesquisa interna de diagnóstico social, político e eleitoral que oferece um retrato muito claro do estado de espírito do país e das tendências para as próximas eleições legislativas. Tendo tido acesso à apresentação detalhada dessa sondagem, fica evidente que Cabo Verde atravessa um momento de inflexão política - e que Francisco Carvalho surge como a figura central dessa mudança.

A pesquisa, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 com cerca de dois mil inquéritos em todo o território nacional, mostra que uma parte significativa dos cabo-verdianos sente que o país está parado ou mesmo em decadência. Apenas um terço considera que Cabo Verde está em progresso, enquanto quase metade avalia que o país está estagnado. Essa percepção revela mais do que números: revela frustração acumulada após anos de promessas que não se concretizaram. 

É precisamente nesse contexto que emerge a figura de Francisco Carvalho. A sondagem apresentada no encontro mostra que o atual presidente da Câmara da Praia possui uma avaliação amplamente positiva entre os cidadãos: 74% dos inquiridos classificam a sua gestão como positiva, contra apenas 19% de avaliações negativas. Trata-se de um nível de aprovação raro no cenário político cabo-verdiano e que reflete o reconhecimento de obras concretas, desde programas de reabilitação habitacional até projetos de infraestrutura e iniciativas voltadas para a juventude. 

Não é por acaso que, quando os eleitores são convidados a mencionar espontaneamente em quem votariam para primeiro-ministro, Francisco Carvalho surge com cerca de 35% a 40% das preferências - mais do dobro do apoio atribuído ao atual chefe do governo, Ulisses Correia e Silva, que aparece entre 15% e 20%. Em cenários de confronto direto entre os dois nomes, a diferença torna-se ainda mais expressiva, com Francisco Carvalho a aproximar-se de metade das intenções de voto, enquanto o líder do MpD não ultrapassa os 20%. 

Esses números refletem um sentimento que se sente nas ruas: o desgaste profundo do governo do MpD. Depois de quase uma década no poder, o partido governante enfrenta um eleitorado cansado de promessas sucessivas que nunca se concretizaram. Ao longo dos anos, foram anunciadas soluções para o desemprego, para a saúde, para o abastecimento de água e eletricidade, para os transportes e para a mobilidade - problemas que continuam a figurar entre as maiores preocupações da população. 

Agora, mais uma vez, o MpD tenta convencer os cabo-verdianos de que desta vez será diferente, de que finalmente as promessas serão cumpridas. Mas a realidade política mostra que a confiança é um capital que, uma vez perdido, dificilmente se recupera apenas com discursos de campanha. A sondagem evidencia isso de forma clara: quando questionados se votariam num candidato apoiado pela atual liderança do MpD, apenas 18% responderam que sim, enquanto 63% afirmaram que não votariam de forma alguma. Trata-se de um nível de rejeição extremamente elevado para um partido no poder. 

É nesse cenário que o nome de Francisco Carvalho ganha força como símbolo de renovação e de esperança política. A sua gestão na Praia tem sido frequentemente citada como exemplo de ação concreta, proximidade com as pessoas e capacidade de execução. Em tempos de descrédito na política, esse perfil prático e orientado para resultados tornou-se um ativo eleitoral poderoso.

Mais do que uma disputa entre partidos, as próximas legislativas podem representar uma escolha entre dois caminhos distintos para Cabo Verde: a continuidade de um governo marcado por promessas não cumpridas ou a aposta numa liderança que surge com elevada credibilidade junto da população.

A pesquisa apresentada no encontro do PAICV não deve ser vista apenas como um instrumento de estratégia eleitoral. Ela é, sobretudo, um termómetro do sentimento nacional. E esse termómetro indica que Francisco Carvalho vive hoje um momento político raro — um momento em que liderança, confiança pública e desejo de mudança parecem convergir.

Se essa tendência se mantiver até às eleições, Cabo Verde poderá estar diante de uma nova etapa da sua vida política, marcada por uma clara alternância de poder e por uma expectativa renovada de que as promessas finalmente se transformem em realidade.

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