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Por: António Alte Pinho

antonio pinho 

Antes de mais uma declaração prévia: nunca me senti estrangeiro em Cabo Verde e nunca, alguma vez, me inibi de dizer com clareza aquilo que penso sobre o País e a política cabo-verdiana. Sei que isso vem criando alguns anticorpos e que, à falta de melhor argumento, me procuram empurrar para a bolha redutora dos que, por razões da mais acabada hipocrisia, parecem estar impedidos de opinar sobre o que se passa num país onde decidiram viver, constituir família e cumprir com as suas obrigações fiscais e de cidadãos.

Estranho seria que, no meu país de origem, tendo sempre defendido que não há estrangeiros, há pessoas, tivesse agora de dar o dito por não dito, e render-me às conveniências daqueles que, alardeando histéricos a sua imaculada cabo-verdianidade, passam a fronteira de Lisboa no corredor destinado a cidadãos da União Europeia…

Aliás, aqueles que agora murmuram, entre dentes, o incómodo que lhes provocam as minhas posições, sãos os mesmo que, num passado recente, estavam sempre a elogiar as minhas supostas competências e a coragem de, com frontalidade e firmeza, assumir posições críticas quanto aos poderes instalados. Eram outros tempos, em que a atual maioria era oposição.

Os que pensavam ter-me rendido à nova normalidade institucional, estavam enganados. Onde viam um “escriba de serviço”, que circunstancialmente terá sido “útil” aos seus intentos, estava um cidadão e (na altura) um jornalista que fazia o seu trabalho.

Este cidadão, que já não é profissionalmente jornalista, continua a ser o mesmo. Se os outros mudaram, é um problema deles e das suas consciências.

Em 2016 pareceu-me importante uma mudança política, interpretando, aliás, aquilo que era a vontade coletiva. Uma vontade horizontal que suscitou uma ampla unidade congregando diversos setores ideológicos da direita à esquerda, várias classes sociais e grupos geracionais, e que levou à vitória de Ulisses nas eleições legislativas.

Posta que está esta declaração prévia, vamos ao assunto que verdadeiramente interessa.

Num país onde a desigualdade social é tão marcante, é natural que a guetização de grupos sociais seja uma realidade tão presente. Uma realidade que, diga-se de passagem, não pode deixar de suscitar a indignação de todas e todos que não veem o mundo através do circulo estreito dos seus próprios umbigos. É o meu caso.

As elites cabo-verdianas, que fizeram alpinismo social às costas dos partidos e do Estado, que ocuparam uma parte do espaço até então reservado às elites pré-independência, têm manifestado, reiteradamente, a sua repulsa, senão mesmo o seu ódio, aos menos bafejados pela sorte, que a língua mãe define, com uma rara exatidão classista e ideológica, como “coitados”, e que são vistos, apenas e só, como tropa de choque eleitoral e parte central da mercantilização do voto.

Assumindo-se com desfaçatez como hipócritas compulsivos, trazendo sempre na boca as palavras liberdade e democracia, mas também batendo no peito juras de fidelidade aos “valores cristãos”, a Jesus Cristo e a Nossa Senhora, os paladinos da nova burguesia, de todos os matizes e conveniências ideológicas, olham para os “coitados” do alto da sua autoridade de bafejados pela sorte. E criaram, até, uma narrativa justificativa: a da Lei e da Ordem.

barrkas

Isto é, corre-se à pancada, se necessário for, os “coitados” da periferia que, como se sabe, dão mau aspeto ao conceito acético de uma urbe cosmopolita e moderna, muito apregoada nos esboços 3D daquilo a que chamam pomposamente de “requalificação urbana”. E permitem-se até, refugiando-se numa verdade que ninguém nega, no oportunismo daqueles que, aproveitando-se da miséria, procuram ganhar uns trocados à conta da venda e arrendamento de barracas, mas que não são de todo a maioria, justificar intervenções mais musculadas.

A Lei e a Ordem devem ser implacáveis quando se trata dos pobres, mas quando à mamata dos que se aproveitam da política e de promíscuas relações no aparelho de Estado, assobiam para o lado ou, pior ainda, criam novas narrativas para justificar o injustificável.

As elites, ou a nova burguesia cabo-verdiana (chamem-lhe como quiserem), vivem nessa bolha flutuante que está acima dos comuns mortais, não tendo a mínima noção das dificuldades e sofrimento das pessoas comuns que, como esta crise da pandemia tem vindo a provar, são aquelas que, de facto, geram riqueza. Como se percebeu com o confinamento, o “mercado” e os empresários de sucesso que, antes, alardeavam o seu êxito e eram vistos como a panaceia para resolver o problema do desemprego, entraram em colapso e revelaram uma triste realidade: sem os trabalhadores não são nada e, revelando a sua verdadeira natureza, logo estenderam a mão à caridade do Estado, assumindo-se como os “coitados” da pandemia.

A desigualdade social, a inexistência de uma política do Estado para a habitação e as migrações do interior para a capital, resultantes de três anos consecutivos de seca, têm vindo a transformar a cidade da Praia num verdadeiro caos urbanístico e onde as assimetrias de classe adquirem, cada vez mais, uma expressão que nos começa a colocar ao mesmo nível das grandes metrópoles latino-americanas, produzindo favelas paralelamente à ostentação alarve de mansões e modernos prédios da classe média alta.

Como se resolve este problema? Esta é a grande questão que se coloca. E é sobre isto que importa promover um grande debate público, envolvendo todas e todos a repensar os caminhos que, também em matéria de habitação, urbanismo e ordenamento do território, devemos seguir no pós-covid 19.

Mas, seguramente, a solução do problema não passa por escorraçar os pobres da cidade ou meter a pobreza debaixo do tapete, tão-pouco substituir a solidariedade com os mais fracos pela caridadezinha dos que vivem de barrigas cheias.

Estamos fartos desta “normalidade”!

*Texto original publicado pelo autor no facebook

 

 

Comentários  

+1 # Artur Sanches 02-06-2020 15:17
A habitação e a dignidade do cidadão da cidade, uma reflexão cada vez mais necessária neste e nos países em desenvolvimento desequilibrado. O centro do bairro Craveiro Lopes é um imponente exemplo de politica social aplicada na habitação, com resultado fantástico no desenvolvimento social, casas simples a um custo comportado pelo cidadão... e o chamado até hoje de Bairro apenas, teve uma comunidade com associações e destacadas organizações desportivas que ajudaram a proporcionar um destacado quadro social aos seus habitantes... se continuasse essa politica de produzir mais bairros desses não teríamos as favelas de hoje... infelizmente falhamos, falharam os políticos, os partidos e a sociedade, entretanto há solução à mão e precisamos lutar por ela dentro dos partidos políticos e dentro da sociedade civil, podemos criar associações para a causa da habitação e da cidadania na cidade... ou, sofrer as consequências de gerar pessoas marginalizadas que certamente vão contribuir para os males da cidade.
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+1 # Denuncia 01-06-2020 16:04
Dedu na frida. Nua e crua verdade.Parabéns
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0 # David Hopffer Almada 01-06-2020 15:57
Gostei do seu texto, tanto na forma como no conteúdo!
Parabéns!
Espero receber os seus próximos pronunciametos sobre qualquer assunto que interesse ao meu/nosso País...

Com os melhoes cumprimentos,
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+1 # Anonimo 01-06-2020 13:17
Excelente artigo!
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+2 # Joana Inês Sá 01-06-2020 11:16
Li o artigo com atenção. Gostei e estou de acordo com as ideias nele expandidas.
Caro articulista, só não concordo é com o vocábulo: "elites" atribuído a estes novos-ricos da política e a estes emergentes sociais que tomaram conta da sociedade cabo-verdiana .
Percebi também a sua fina e inteligente ironia. Aliäs, fui sempre admiradora de gente frontal.
Para mim elite é positiva, gente com cabeça, inteligentes, cultos, e que possuem visões estratégicas a longo prazo na governação e na sociedade civil.
Reitero, gostei do seu artigo.
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+1 # SÓCRATES DE SANTIAGO 01-06-2020 10:35
Lido e aprovado.
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+2 # Daniel Carvalho 01-06-2020 09:51
Gostei do artigo. A questão urbanística na Cidade da Praia,é um assunto sério e bicudo. Se por um lado não se deve permitir, de jeito nenhum,custe o que custar, que se continue a construir de forma desordeira, atrapalhando e comprometendo seriamente qualquer plano sanitário e de segurança,por outro lado, há o real problema de habitação para as pessoas que não podem viver nas ruas.
Como esta balbucia urbanística começou desde 1975, prefiro fixar um bocadinho de 1992 ao presente, em razão da institucionalização do poder autárquico.
Com efeito, o 1º Presidente da Câmara Municipal da Praia, eleito, o Sr Jacinto Santos, iniciou um trabalho de grane alcance, ao remover os bairros de Santa Rosa e Taiti, de forma muito inteligente, no sentido de que preparou primeiro, um bairro em Achada Grande Trás, com as condições aceitáveis de habitabilidade,oferecendo alternativa habitacional, antes da demolição. Não pretendo avaliar o desempenho dos autarcas seguintes, mas caso tivessem seguido esta linha, com as melhorias que se mostrassem necessárias introduzir no projeto,com o apoio incondicional do Estado/Governo, não teríamos hoje este problema.
O Governo anterior arrancou com uma política de "casa para todos", que visto a olho nu, na sua essência não correspondia às reais necessidades, ou seja, ao sentido da demanda.
O Actual Governo ainda não clarificou a sua política para o sector, pelo que vamos indo,desarticulados, não se sabe para onde, nesta matéria. Pena, mas é a realidade.
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+5 # Aguinaldo Fonseca 01-06-2020 03:39
Não conheço o comentarista, sou emigrante com muitos anos vivendo fora de Cabo Verde, mas uma coisa é certa a análise que ele acaba de fazer não deixa de ser um fiel retrato da nossa realidade.
As nossas "pseudo-elites", uma maioria claro está, que surgiram após a independência não estão vivendo num mundo real. Espero apenas que o desenrolar da História, bastante imprevisível nestes tempos de crise, não lhes veja acordar bruscamente para uma dura realidade. E os sinais de novos tempos não vão demorar de aparecer no horizonte mesmo que seja ainda longínquo.
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0 # Ângela Coutinho 01-06-2020 14:54
É mesmo...Receio que não seja longínquo, não. Há uma alta taxa de criminalidade na Praia, e tenho comentado com alguns amigos que reparem no facto de que os assaltos ocorrem sempre em certos bairros residenciais. Não a turistas...Porque será? Basta ver a realidade social das grandes metrópoles da América do Sul, desde há décadas. Tenho amigos de S. Paulo que dizem que para além de viverem em casas de alta segurança, só se sentem à vontade em centros comerciais. É claro que se trata de fenómenos muito complexos, mas penso que deveriam começar a discutir seriamente esta questão, sobretudo na cidade da Praia que é onde se sente mais este problema. Mas não só...
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+4 # Ângela Coutinho 31-05-2020 16:52
Obrigada pelo seu artigo. Partilhei.
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+3 # roxana 31-05-2020 16:02
Certamente o fato sobre as barracas clandestinas removidas pela força ,não traspasso o JN ,nem pesou na consciência dos di[censurado]xos ... assim de simple ,aki não tem pasado nada, igual q a denuncia sobre a venda e compra de terreno pelos "novos ricos" (pessoas q formaram-se no estrangeiro com bolsas partidárias a princípios da independência em gesto de Solidariedade para com CV) ,sendo q o denunciante o motor impulsor desta ,não esta entre nos . Assim as coisas vi-se logo q a coisa publica ,os terrenos , estão inacessível para "os coitados" A memória corta não e' so' do povo , os novos ricos sem cuna de ouro ,olvidam o q e' passar vicissitudes ,e que foram elegidos para lutar pela classe onde nasceram .
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