Pub
Por: Edmilson Varela

edmilson varela

 azagua na orgãos

“Chuva é a nossa riqueza”; “Chuva é o nosso governo” (…). Chuva é, indubitavelmente, a palavra de maior “ímpeto” no imaginário dos cabo-verdianos, principalmente dos homens e mulheres do mundo rural. Uma terra pobre, sem nenhum outro “ramo de pega” para além do mar e as suas gentes, o povo vive da esperança, renovada, anualmente, na “Chuva amiga” que cai quando cai… e nos enche sempre de esperança e alegria. Inspira sempre o seu povo: da literatura a música, da gastronomia a arte plástica, do teatro a poesia, da política a religião… todos buscam inspiração no bem mais desejado em Cabo Verde: Chuva. Assim escrevera e cantaram, por exemplo: Amílcar Cabral, no poema Regresso: “Mamãe Velha, venha ouvir comigo, O bater da chuva lá no seu portão, É um bater de amigo, Que vibra dentro do meu coração”; Baltazar Lopes da Silva, no seu livro Chiquinho, no seu imaginário “figurava a América uma ribeira muito bonita, cheia de hortas muito verdes (pág. 38)”; vários compositores/artistas/grupos como Bana, Paulino Vieira, Tete Alinho, Sementeira, Splash, Princezito, Miri Lobo, Belmiro Semedo, Tcheka, Côde de Dona, etc., todos tiveram como pano de fundo - Chuva. O bem maior!

Contudo, este bem maior quando cai é uma maravilha, mas quando não cai transforma a vida dos cabo-verdianos num pesadelo: escassez e aumento dos preços dos bens de consumo imprescindíveis no dia-a-dia produzidos localmente. Paralelamente, por outro lado, a fanfarronice dos cabo-verdianos, quando há em abundância é motivo de “chacota”, adjetivam os alimentos dos mais variados “konto nobus” da época. Quem não se lembra da década de dois mil que houve abastança da Roca, da Abobora, do Feijão branco, os preços baixaram, enfim, uma alegria por todo quanto é lado, mas foi apelidado de “pexinguinha”, “bai codji brita”, “telemóvel”, “bai PMI toma pilula”, etc., entre outras adjetivações pejorativas. Enfim…

Com a queda das chuvas do mês de outubro, 11, 14 e 15 nomeadamente, no interior da ilha de Santiago, houve um renovar de esperança, principalmente na região norte, a mais agricultável da ilha. Realmente, antes, foram dias de muito anseio, angústia e sofrimento, num olhar atento, perturbador e preocupante nos céus da ilha, em volta da tão desejada queda da chuva que tardava. Felizmente, caiu, embora de forma parcial, visto que não foi abrangente, mas, pelo menos nos concelhos da nossa região, caiu razoavelmente. Caso particular de São Lourenço dos Órgãos a situação era e ainda é, embora temos de reconhecer que melhorou significativamente o estado das coisas com as últimas quedas, continua a ser de alerta, já que não houve cheias que, de uma certa forma, permitisse o recarregamento dos Lençóis Freáticos. Numa simples conversa com um agricultor local ficou patente a preocupação não pelo pasto, comida de sequeiro – milho, feijão sapatinha, bongolom, etc.-, mas sim pela falta de água nas ribeiras que permita não só o carregamento dos Lençóis mas também a prática de agricultura de regadio. “Todos os anos, mesmo nos anteriores, de seca, a está altura do ano, tínhamos, embora pouca, água na ribeira, o que permitiu e garantiu pelo menos um cultivo, mas este ano, estamos já no mês de outubro, ainda não temos água nas ribeiras. Não houve cheias. Situação ainda é um pouco apreensivo”. Mesmo perante tal situação mostra-se animado e esperançoso: “ainda estamos no mês de outubro, falta novembro e dezembro para o voltar do ano. Muito recentemente, por exemplo, choveu a 18 de dezembro, pelo que ainda estamos esperançosos”. É o olhar de esperança das gentes do campo. Habituados a essas andanças. Gentes que nos últimos três anos tem sofrido na pele com a crise agrícola. A seca e as suas consequências. Não podemos esquecer que a seca foi e continua a ser um dos principais motivos da emigração nacional. O povo, desanimado e desesperançado, “foge” sempre à procura de uma vida melhor no estrangeiro.

Os últimos anos tem sido particularmente difícil para os camponeses: seca e as suas consequências, como o aparecimento das pragas: do milho, mangra e, este ano, para o cúmulo dos males, temos o precoce surgimento dos gafanhotos, dizimando esperanças dos agricultores, inicialmente restrito aos concelhos de São Domingos e Cidade Velha, mas, atualmente, já se propagou para Santa Cruz e São Lourenço dos Órgãos. Por isso, dado a nossa situação de incerteza anualmente sobre a queda da chuva, resta nos, indiscutivelmente, algumas reflexões, ponderados e pertinentes, sobre a nossa sustentabilidade: não será pertinente apostar mais na modernização da agricultura em Cabo Verde, nomeadamente na introdução e massificação da rega-a-gota? Desnasalização e distribuição de água do mar para a prática da agricultura? Introdução e massificação de novas e modernas técnicas de produção agrícola como o sistema Simi/Hidropónico, assim como estufas? Formação e capacitação dos agricultores nacionais? Maior disponibilidade e facilidade na aquisição de créditos agrícola? Enfim, não é possível uma sustentabilidade nessa matéria sem o colmatar das questões supras. Da mesma forma que não podemos também esquecer da nossa fragilidade climática, o que dificulta, por si só, a queda da chuva, acrescentando ainda, embora não temos dados claros a confirmar assim como as fontes, a questão do aquecimento global e a sua influência nesse processo.

Todavia, temos também de reconhecer o esforço dos anos anteriores na mobilização de água para a agricultura através da construção de Barragens, Deques de Capitação, distribuição e formação em equipamentos modernas de rega, como a Gota-a-Gota, construção de Centros de Transformação de Produtos Agrícolas e de Armazenamento e Certificação (por exemplo, estes centros foram construídos em São Lourenço dos Órgãos, mas há mais nas outras ilhas ditas agricultáveis), do nosso ponto de vista, é urgente e necessário continuar nesta senda. Já nos inícios do século XX, Luís Loff Vasconcelos, referia-se a agricultura da então colonial portuguesa, Cabo Verde, apontando um conjunto de sugestões, no Jornal Português: O Ultramarino, como sendo fundamentais para o desenvolvimento do arquipélago: construção de Barragens; deques; formação de Agrónomos (na altura havia apenas um para dar cobertura a todas as ilhas); plantação de mais árvores; manter sempre amarado/fechado o gado caprino; etc. Porém, foram precisos quase um século para a efetivação dessas preocupações. É curioso, realmente, notarmos como as mesmas preocupações continuam a tatuar o tempo, sempre com foco no autossustento.

Realmente, o manto de verde que nos cobre atualmente de uma ponta a outra, fazendo assim jus o nome do nosso querido – Cabo Verde -, tornando, temporariamente num país totalmente verdejante, não é, ainda, suficiente, nem é garantias de um bom ás-água. Contudo, a esperança é última a morrer.  

Fontes:

Jornal O Ultramarino, 1901;

Baltazar Lopes da Silva, Chiquinho;

https://www.facebook.com/fundacaoamilcarcabral/posts/10155

Comentar