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Por: Alípio Clarence Filho

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todo poderoso

Só consigo sentir nojo e vergonha, muita vergonha!

Era uma hora menos cinco minutos do dia 31 de Agosto. A fila se arrastava, a passo de caracol, na entrada do John Fitzgerald Kennedy Federal BLDG, Immigration court, em Boston. Na minha linha vinham mais vinte e três pessoas, de cores e raças diferentes. Latino-americanos, Africanos, Brasileiros, Coreanos, Polacos e um grupo de três pessoas que até ainda, não consegui descortinar se são Indianos ou Paquistaneses. Era o dia do nosso julgamento!

Logo na entrada dois policiais, uma mulher que acha que “life is a Hollywood movie” e um homem, que sob a paranóia de melhor segurança mandavam parar todo mundo. Vasculhavam tudo, dos pés à cabeça, qualquer objecto suspeito que pudesse ser identificado como uma das “bombas dos terroristas”.

Uns metros mais afrente outro policial. Outra mulher que acordara no seu “Dark Side of the Moon”. Estava mal-humorada. Foi fria, dura e mal-educada com todos. Agarrou a bolsa de uma mulher que vinha a minha frente e a despejou sobre a esteira, vasculhou cada ponto e, depois, deixou tudo espalhado. A asiática, que parecia desgastada pelo tempo, de traços indígenas, recolheu cada peça com uma fisionomia imutável. Nem raiva, nem pressa, nem cansaço. Nada transparecia. Eu e o meu amigo (brother) Jaílson Amarante, um Rasta Fari que trazia um laptop numa bolsa preparamos para passarmos pelo mesmo. Tirei tudo o que tinha no bolso e coloquei no cesto. “Go”, disse ela, por duas vezes. Passamos pelo detector de metais sem problema. De repente, a policial nos mandou parar. Queria ver o que continha no laptop. Olhei para ela com uma expressão interrogativa, meio pasmado, sem no entanto, pronunciar um pio!

Nesse momento não valeu sermos cabo-verdianos, ainda por cima “Badiu di fora, inda por cima di Piku”. O facto de sermos Rasta Fari e termos uma bolsa nos tornou suspeitos sabe-se lá de quê. Fomos revistados, a bolsa também. Não houve sorrisos nem palavras afáveis. Pelo contrário, fez questão de ressaltar o seu lado bulldog.

Nesse instante viajei até a minha cidade da Praia. Voei até 1990, época em que Jerry, aquele americano untouchable que deixava doido as teenager do meu tempo, que andava a toda velocidade na sua moto Harley Davidson pelas ruas da capital. Lembrei que quando ele passava gritávamos “Jerry, Jerry, Jerry …” e ele, tal como um herói (cowboy) de banda desenhada, fazia manobras perigosas nas muitas curvas laberinticas das nossas estradas. 

Pensei também na nossa Morabeza. Na forma como recebemos todo mundo de cor branca, de preferência com os olhos azuis ou verde, como se fossem verdadeiros “cooperanti bira ta kula”. Fiquei ainda mais triste quando lembrei que não tratamos da mesma forma les frères d’Afrique noire, que no bom crioulo chamamos “Mandjakus”.

Por momentos, só consegui sentir nojo e vergonha, muita vergonha de mim. Vergonha de saber que as nossas histórias foram escritas com sangue e suores de homens como Haile Selassie I, Leopoldo Senghor, Kwame Nkrumah, Gamal Abdel Nasser Hussein, Stephen Bantu Biko, Nelson Mandela, Amílcar Cabral, Julius Nyerere, Patrice Lumumba, Mohamed Ahmed Ben Bella, Domingos Ramos, Gbagbo, Agostinho Neto, etc …etc, e nós continuámos a olhar um para o outro, com tanta diferênça, com tanta intolerância, com tanta ignorância.

Tive uma vontade insuportável de chorar, de tanta raiva. Este sentimento provocou-me cicatrizes que dificilmente serão apagadas - e nem quero que se apaguem!

Depois de um breve search e nada, passou para o resto do pessoal da fila e continuou o seu ritual de desfazer a mala, remexer, jogar tudo sobre a esteira, o rosto carregado, frio e feio. Fiquei ali, estático sem entender o porquê tanta humilhação.

Ao meu lado, a minha amiga norte-americana Gianna L Rodriguez, 21 anos, antiglobalização, anti-capitalismo, zapatista de coração, capaz de mobilizar 15 mil almas, no Time square, Nova Iorque, para protestar contra a invasão Americana no Iraque, contra o Sionismo e a invasão Israelita no Líbano, tentava colocar água na fervura, sorrindo num bonito sorriso de “welcome to América”. Nem o sorriso da minha amiga conseguiu diminuir o pulsar forte do meu coração. Estava nervoso, ansioso e com muita raiva só de pensar que pessoas como aquela polícia, que misturam ódios construídos por the up side down system num abismo entre si, praticamente sem sequer saberem os motivos que vão envolvendo as pessoas comuns e que, depois, fazem, de cada um, um inimigo público número um, podia determinar a minha estadia na “terra dos senhores desse planeta”.

O relógio de pêndulo soprou as trombetas do tempo sem aquela delicadeza que lhe é peculiar. Marcava uma hora e 30 minutos quando caminhamos, eu e os meus amigos Jaílson ao meu lado, mais atrás Gianna e o seu namorado Rob Hill, a quem chamo Inglês Jesus por “milagres” feito numa causa chamada Human Right, a passos largos para a sala de audiência número 320. Era a hora do meu appointment. No entanto, antes de empurrar a porta do purgatório pude entender aquilo que só me tocava de leve. Senti que a minha alma estava entregue em boas mãos.

Qui Pro Domina Justitia Sequitur

In dubio pro reo [princípio da presunção da inocência].

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Depois de quase três horas esperando, finalmente chegou a minha hora. George Sekokou, um jovem ugandês vinha à minha frente passou por seu calvário. Antes disso, todavia, o juiz Paul M.Gagnon adiou para o dia 20 de Novembro cerca de dez casos. Com as mãos sobre a sua enorme pança, respirando muito cansado, apesar de estar sentado todo o dia, chamou “case 465”. Um cara meio assustado de bigode grandes, com aspectos do lendário Sancho Pancho, levantou tropeçando na própria sombra, sem saber se deixava ou tirava o enorme pára-brisas preto que lhe cobria os olhos acastanhados de pânico. 

Do you speak English?”, perguntou o Juiz. Moveu um não com a cabeça rapidamente, incapaz de pronuncia-lo! O ilustre magistrado olhou para a prosecutor, uma asiática cujo dreams do come true e, que agora está vestindo a pele de loba, comendo o próprio rebanho e perguntou. “Who else doesn’t speak English?” Os que entenderam a pergunta levantaram a mão direita, os que não, simplesmente não a moveram. Só então é que apercebi que na 320 no JFK Immigration court, não havia nenhum translator. Mais uma vez lá estava Gianna sorrindo. O mesmo sorriso, só que desta vez o slogan era “this is unbelievable”.

Perdido no mundo linguístico globalizado Paul Gagnon olhou para a plateia como se suplicasse um help- me. Bem, como só os Santos fazem milagres Gianna conseguiu ler o pensamento do magistrado antes de este pronunciar uma palavra. Ele, meio a contragosto, aceitou a ajuda. Cumprimentaram-se num cordial “Hi”. Porém, antes da minha “fada madrinha” levantar a sua “varinha do condom”, um Puerto riquenho cuja namorada brasileira estava em maus lençóis como eu, disse “Your Honor, I speak Spanish, English and Portuguese”. “Oh good! Come here please”, implorou. Baixou a cabeça e fez algumas perguntas ao “Boriquo” na língua de Shakespeare, olhou para a plateia por debaixo dos óculos e perguntou ao Jailson. “Where are you from? “África”, respondeu antes de acrescentar em tom desaforado “and I speak Portuguese, Spanish, French and English”. Não achei mal por ele ter esquecido por completo que “kriolu sta na moda”.

Em pouco mais de 20 minutos o agora bem-humorado Juiz resolveu seis casos. Sorte diferente teve um garoto guatemalteco, de cara índia, com uma pequena sacola na qual estavam todos os seus pertences, tirou o seu boné da cabeça e entrou para a longa caminhada da deportação.

“You don’t have a lawyer”, perguntava o Juiz aos ‘latin-american cases”.

No! Esta era a única resposta que saía da boca do tradutor improvisado, mostrando o medo que se ia nos rostos dos los compadre. Pudera, um lawyer nessa selva de pedra custa os olhos da cara. Um, dois, três, quatro até dez mil dólares. Imaginem! Podes também conseguir um por free em algumas ONG’s, contudo, terás que aguardar que os armários de pedidos, que estão a arrebentar pelas costuras, se esvaziem.

Sem outra solução Paul adiava os casos dos “miserable” para o dia 7 de Dezembro. Estava pensando em Simon Bolívar, bramindo sua espada na libertação dos povos da latino-americana e, nessa missão, ajudando a criar os estados-nacionais, as fronteiras. Enfim... que diria ele disso tudo? Que análise faria dessa América separada, cortada, ensanguentada, sem um projecto de uma verdadeira integração cultural, humana, religiosa e espiritual? Estava pensado nisso quando Gianna acordou-me para que eu pudesse aproveitar a onda do sete de Dezembro.

“Do you speak English? Perguntou-me. “Yes you Honor”, respondi como se as palavras saíssem soltas dentro de mim. Fez a mesma pergunta sobre o advogado, dei-lhe a mesma desculpa esfarrapada. “Não”! Momentos depois estava livre deste peito-a-peito com o USA System.

Entretanto, antes de sair da 320 o juiz e o meu amigo Rasta havia, mais uma vez, de se embrulharem. “What is your file?” perguntou Gagnon em tom de julgamento. “Nome! Is my friend and he just come with me”, advogei com o espírito do meu malogrado pai Alípio Lobo ardendo dentro de mim. Assim, pus um ponto final nessa guerra de palavras entre o Juiz e o meu amigo Fari que havia começado quando o Judge o mandou tirar o boné da cabeça por questões alegadamente religiosas.

Esta é minha história! Ela é apenas fragmentos da minha vida, que acontece todos os dias, a preto-e-branco nesse mundo real de um imigrante ilegal. Isso sem falar dos milhares de mortes que ocorrem no longo e odioso wall que separa o México dos Estados Unidos. Separados apenas por linhas imaginárias, feitas muitas vezes não pela vontade dos povos, ainda assim, submetem-nos a coisas absurdas, humilhações, preconceitos, discriminações e até assassinatos.

O que aconteceu com o sonho de El Che? O sonho de vida digna para os povos do mundo. O que aconteceu com a proposta de ALBA de Chávez que consolidaria o maravilhoso sonho de Bolívar? De certeza que todos nós gostaríamos de ter uma América diferente. Um USA integrada que pudesse reconhecer todos os povos como irmãos do tão mal falado dossier Globalização. Um Estados unidos que respeitasse os imigrantes, os mesmos que a construíram com sangue e suores. Uma América em que as fronteiras fossem apenas pontos de passagem onde pudéssemos parar, ir ao banheiro, fazer uns shopping at the Mall, comer uns McDonald’s e beber uma Coca-Cola – quem sabe – seguir, acenando entre sorrisos à moda Hollywood.

Mas isso, como disse John Lennon é só imaginação, uma pura ilusão. Enfim...

Continua...