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A imortalidade em tempos de pandemia. Apontamentos avulsos de um confinado por mor da vigente situação de calamidade pública sanitária VII
Cultura

A imortalidade em tempos de pandemia. Apontamentos avulsos de um confinado por mor da vigente situação de calamidade pública sanitária VII

ANOTAÇÕES EXTRAORDINÁRIAS SOBRE A ESTRANHA SALVAÇÃO DO NÃO INFECTADO OU QUIÇÁ ASSINTOMÁTICO AFRO-AMERICANO GEORGE FLOYD DE EVENTUAL MORTE POR EXPRESSAMENTE DETECTADA INFECÇÃO PELO NOVO CORONAVIRUS (SARS-CoV-2) E DA SEQUENTE, TRAIÇOEIRA E, BASTAS VEZES, FULMINANTE COVID-19

(VERSÃO FINAL)                    

Engraçado: em face da rápida propagação da actual epidemia do novo coronavírus, alguns brancos ocidentais parecem não se conformar com a propensão e a vontade expressa dos negros (pelo menos, dos bons, resilientes e retintos negros africanos subsaarianos, tanto os continentais como os insulares) e com a sua firme pretensão de não morrerem em massa e de braços cruzados ou, pelo menos, de não se deixarem massacrar passiva e maciçamente pelo SARS-CoV-2 e pela COVID-19.

E, estupefactos, fazem projecções, e projectam números, mapas e gráficos, e enumeram os mortos virtuais, e virtualizam e viralizam os óbitos, para, numa hábil manobra de diversão, desmentirem o que pensam e certificam serem puros boatos e rumores e desqualificam e invectivam, com as necessárias veemência e contundência, como a desavergonhada nudez dos fake news, para, deste modo, poderem sufragar os factos reais e verdadeiros, se bem que localizados num futuro remoto que, como desejariam, certamente há-de vir, mas que, na verdade, são os fake news que efectiva e realmente têm sido difundidos e propalados a propósito da dimensão da mortalidade por infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e pela doença COVID-19 em África e, em especial, na África Subsahariana subtropical, tropical e equatorial.

E, entre funéreos sentimentos, fúnebres estados de espírito, humores furibundos e estados de alma virtualmente aliviados, proclamam aos quatro ventos das redes sociais e dos meios de comunicação social:  

NA ÁFRICA SUBSAHARIANA HAVERÁ MAIS DE TRÊS MILHÕES DE INFECTADOS PELO NOVO CORONAVÍRUS (SARS-CoV-2) E MAIS DE TREZENTOS MIL MORTOS DE COVID-19. HAVERÁ POIS MUITO MAIS VÍTIMAS MORTAIS DA NOVA PANDEMIA NESSA PARTE MARGINALIZADA DO MUNDO QUE NOS PAÍSES EURO-OCIDENTAIS TODOS JUNTOS, MAIS AS SUAS OLIGARQUIAS E CLASSES MÉDIAS BRANCAS NAS AMÉRICAS CENTRAL E DO SUL E NAS CARAÍBAS.

QUE FIQUE POIS DITO E REGISTADO PARA MEMÓRIA FUTURA E PARA A DEVIDA E TEMPESTIVA PREVENÇÃO DE UM QUALQUER CONTRAPRODUCENTE SINAL DE EVENTUAL PRETENSÃO DE SUPERIORIDADE RACIAL E SUPREMACIA NEGRAS VINDAS DOS TÓRRIDOS E SUPOSTAMENTE IMUNES CONTRAFORTES DA ÁFRICA SUBSAHARIANA. 

E quando não podem projectar números imaginários com verdadeiros genocídios por conta da COVID-19 de pretos retintos subsaharianos, ardentemente desejados no seu mais íntimo e cruel recôndito de racistas e supremacistas brancos caucasianos, e, em plena campanha eleitoral e em frequentes sessões mediáticas de promoção do desconfinamento e da progressiva reabertura à vida económica e social, inverter números verdadeiros realisticamente inflaccionados na injusta mas certeira estatística da exclusão social e da discriminação racial com pretos e pardos minoritários dos guetos americanos, que se crêem e periodicamente reverberam verdadeiramente negros, e já foram vilipendiados como niggers pendendo tais strange fruits das árvores dos antigos Estados Confederados do Sul Profundo da América; e já foram chamados negroes e ensinaram ao mundo os mistérios do gospel e com ele reunido em festa em Paris ensaiaram a estridência do jazz; e, actualmente, se afirmam firmemente como afro-americanos mesmo quando carregam consigo um oitavo somente de sangue negro afrodescendente, sendo de teor soberbamente cabrito, quase raça branca pura caucasiana, o resto do seu sangue reboando com os cabelos enrolados nos ritmos do blues, obstroem-lhes as vias respiratórias com o joelho canino raivoso calcado descontraidamente sobre o seu pescoço à frente dos biliões de confinados de toda a aldeia global que estes tempos de pandemia da COVID-19 provou ser verdadeiramente o nosso planeta Terra, todo e inteiro, e salvam-nos da humana e igualitária oportunidade que lhes foi dada, enquanto cidadãos americanos e cidadãos do mundo, da infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e da subsequente inclusão nas longas listas e nas intermináveis estatísticas das centenas de milhares de mortos da COVID-19, e pela via mais célere e eficaz durante longos oito minutos e quarenta e seis segundos, que foi o tempo infinito que durou a asfixia do nigger afro-americano de ocasião, sempre suspeito da prática de alguma coisa, se não por acção, sempre de certeza por omissão, e finalmente findou e finou na inanimação e na morte do bom gigante George Floyd, suspeito da prática de muita bondade e excessivo e inexcedível amor ao próximo, manchados e agravados pela inadvertida compra de cigarros camel ou marlboro com uma nota falsificada de vinte dólares.  

Porque, na verdade, o primeiro e elementar direito de todo o ser humano é o direito de instintivamente respirar o ar, qualquer ar, que o rodeia, e nos circunda a todos, e está sempre lá, colado a nós, mesmo quando protegidos por uma máscara, e com os óculos embaciados, e os olhos lacrimejantes suplicantes nestes tempos de pandemia e, volvido o estado de emergência, de obrigação cidadã de distanciamento físico-social de segurança nos espaços públicos, pois que sempre sob o constante risco de inalar o novo coronavírus, tão omnipresente como o próprio Deus ou o seu sósia e irmão inimigo, o Diabo, e inocularmo-nos com o sopro da vida, inspirando o ar que literalmente nos segue, e nos persegue, e nos cerca e nos mantém em permanente estado de sítio respiratório, para logo a seguir o expirar, num ininterrupto automatismo de seres vivos, não importa se racionais se irracionais, não sabemos se por ambas as coisas seguintes, se por puro instinto de sobrevivência ou por qualquer alto e insondável desígnio de Deus, que, deste modo singular, transfigura em vida humana, ademais dotada de alma, o barro que é sinónimo de sémen e semente fecundada vida humana uterina depois nascida aos gritos para o primeiro banho de luz que, por vezes, são inenarráveis trevas e, depois da vida vivida, será o virtual pó que foi o barro injectado com o sopro de vida e que à terra pertence e à terra deve regressar e com ela fundir-se, em cinza transmutando-se e para sempre desaparecendo e se extinguindo, e, quando, salva a alma, sempre pela graça da Providência Divina, prometida para o paraíso da vida eterna, e quando, perdida a alma, sempre por mor dos inúmeros pecados mortais e para a desgraça eterna da criatura humana, condenada para os infernos, com estágio obrigatório ou facultativo no purgatório, conforme a gravidade dos casos e a estação final predestinada da alma.

E por isso, pela morte por asfixia de um único ser humano, isto é, por se obstruir a garganta escura de uma única e singular criatura humana com um fémur furioso, fardado com o capuz da Ku Klux Klan, e fazer-lhe sorver o vazio da falta absoluta do ar que permanentemente nos inocula com o sopro da vida e nos acompanha a todos por todo o lado, incluindo o vazio da falta do ar contaminado pelo novo coronavírus e inscientemente hospedado em milhões e milhões de seres humanos destinados numa esmagadora maioria a, para sempre, se imunizarem contra a COVID-19 depois de se terem mutuamente contagiado e, assim, deste modo virtual, se terem condenado a eventual morte igualitária confinada no silêncio e na solidão, saíram, numerosas, às ruas as multidões desconfinadas e indignadas, e de máscaras postas clamorosas, mais uma vez a acrescentar às incontáveis vezes que perduram, por vezes somente na imaginação fervendo atrás das grades das prisões, nos rostos cabisbaixos temerosos nos passeios e nas esquinas das cidades segregadas, nos braços musculados exaustos nas fábricas e nas plantações, nos uniformes escarlates e nas luvas brancas dos escravos domésticos e em tantas outras circunstâncias serventuárias da cautela e da prudência, desde os tempos imemoriais da escravidão e das leis de Lynch e de Jim Crow até ao martírio de Malcom X e de Martin Luther King, desde a paciência exaurida dos Black Panthers Party, da Nation of Islam e da Organization of the Afro-American Unity à esperança numa sociedade finalmente pós-racial germinando com a eleição de Barack Hussein Obama como Primeiro Presidente Afro-Americano dos segregacionistas Estados Unidos da América, mas de rompante e rapidamente emboscada com a contra-revolução despoletada pela histeria do Tea Party e com a sequente eleição do ressentido supremacista branco Donald Trump para Presidente dos mesmos segregacionistas Estados Unidos da América, agora por demais virulentos porque amplamente infectados pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e furiosamente impotentes ante as velhacas, maléficas e mortíferas façanhas da COVID-19 e, muito para além dos muros de Minneapolis, no Minnesota, o clamor multitudinário I can´t breathe Black Lives Matter, Não Consigo Respirar Vidas Negras Importam.

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