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A imortalidade em tempos de pandemia. Apontamentos avulsos de um confinado por mor da vigente situação de calamidade pública sanitária IV
Cultura

A imortalidade em tempos de pandemia. Apontamentos avulsos de um confinado por mor da vigente situação de calamidade pública sanitária IV

QUARTAS ANOTAÇÕES

EM BUSCA DAS EPIDEMIAS PASSADAS, DAS SUAS INUMERÁVEIS VÍTIMAS MORTAIS E DE PUTATIVOS IMORTAIS DOS TEMPOS DE AGORA

                                                            
Para nós, caboverdianos das ilhas e diásporas, estes tempos nossos contemporâneos da pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e da COVID-19 tornaram-se igualmente tragicamente memoráveis pelo simples facto de alguns dos nossos Maiores Homens de Cultura se terem ido para sempre para o nunca mais da Eternidade, deste modo contando doravante para eles não mais o futuro que poderiam e iriam certamente lapidar com o seu engenho e a sua arte, mas o honroso, glorioso e gratificante passado das obras suas feitas para a sua definitiva e exaustiva libertação da lei da morte, como muito bem observado por José Maria Neves num comovente e lapidar texto de homenagem no Facebook ao seu inesquecível correligionário político e compagnon de route das campanhas eleitorais de 2000 prála, como, aliás, profetizado no seu “Konbérsu di Sirkuntânsia”, constante do livro Son di ViraSon, pelo próprio poeta músico cantautor (o meu respeitado confrade escritor co-fundador do Movimento Pró-Cultura, da Associação de Escritores Caboverdianos (infelizmente agora em evidente - e espera-se que reversível- coma) e da Academia Caboverdiana de Letras e nosso estimadíssimo e comum patrício assomadense, santa-catarinense, santiaguense, caboverdiano, africano e cidadão do mundo) Kaká Barboza.

   Curiosamente, nenhum desses nossos Maiores, fenecidos nestes tempos, nossos contemporâneos e contemporâneos do surto do novo coronavírus (SARS-CoV- 2) e da COVID-19, foram vítimas locais identificadas e/ou sequer aparentes do abominável e omnipresente inimigo global invisível.

Estaria para acontecer, poderia ter acontecido, mas felizmente que não aconteceu, apesar do alarido e da comoção suscitados em certos meios mais alarmistas e mais afeitos à invenção de pretextos para a inviabilização e/ou a inoperacionalização do que tem de ser feito quando as circunstâncias se apresentem francamente propícias e favoráveis, sobretudo na sequência da estrondosa Festa que foram os Magnos Eventos (Conferência Internacional e Noite de Gala) de Celebração do Cinquentenário da Associação Caboverdeana, realizados a 22 de Fevereiro de 2020, na Casa do Alentejo, tendo sempre, relembre-se, como referência e marco baptismais a criação da Casa de Cabo Verde no primeiro trimestre de 1970 nas sumptuosas instalações dessa mesma Casa do Alentejo, por isso mesmo, escolhida como o local ideal para se realizar a Grande Festa Comemorativa.  

   E porque era para ser verde, foi mesmo verde, como certamente diria o malogrado poeta, advogado e meu amigo de peito, Henrique de Oliveira Barros, afeiçoando o bigode à Salvador Dali.

Foi a iniciar a Grande Festa (tão bonita, pá!) que a Associação Caboverdeana foi agraciada, pela primeira vez, na sua longa História de Cinquenta anos, com duas Condecorações de Estado:

   A Medalha de Mérito, de Primeira Classe, da República de Cabo Verde, outorgada e entregue pessoal e presencialmente por Sua Excelência, o Senhor Presidente da República de Cabo Verde, Doutor Jorge Carlos Fonseca, ao Presidente em Exercício da Direcção da Associação Caboverdeana (ACV) e Presidente da Comissão Executiva das Celebrações do Cinquentenário da ACV, Dr. José Luís Hopffer Almada, acompanhado no acto por antigos Presidentes da Direcção e por Membros dos Órgãos Sociais de todas as Denominações Históricas da ACV;  

   Como Membro Honorário da Ordem de Mérito da República Portuguesa, outorgada e entregue pessoal e presencialmente por Sua Excelência, o Senhor Presidente da República Portuguesa, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, ao Presidente em Exercício da Direcção da Associação Caboverdeana (ACV) e Presidente da Comissão Executiva das Celebrações do Cinquentenário da ACV, Dr. José Luís Hopffer Almada, acompanhado no acto por antigos Presidentes da Direcção e por Membros dos Órgãos Sociais de todas as Denominações Históricas da ACV.  

   Por isso também foi mesmo bonita a Grande Festa, pá!, e, também, o Sambrás, realizado catorze dias depois da Grande Festa, no dia 6 de Março de 2020, quase à tangente da eclosão da actual pandemia do coronavírus (SARS-CoV-2) e da COVID-19 e do correlativo Decreto Presidencial de Declaração de Estado de Emergência por mor da prevalecente situação de calamidade pública sanitária.

Passada a pandemia, far-se-á certamente o balanço de tudo (do

ritmadoecoloridocolá-sanjon, do variadoericoartesanato, da exuberanteediversapintura, do poderosocoralvozterra, da

majestosapoesiatapoé, da músicamornacoladerafunanáfunamba, do melosoebonito desfiledemoda, do batucotornofinason, da deliciosaebinacionalgastronomia, do formidavelemelodiosoambiente, da atamaradamissconceiçãobragatavares, das vozescúmplicesdospresidentesamigos, enfim., de tanta-e-tão-grande-alegria-numa-noite-somente.

   Agora, é acertar e saldar as contas todas, as financeiras também, obviamente!

E do Sambrás, é claro, que quase foi deliberada e maldosamente fracassado por mor dos muitos e diligentes alaridos que se criou à volta do Germano Almeida e do concorrido lançamento do seu mais recente livro, sintomatica- mente intitulado O Último Mugido, e que teve lugar nas instalações da Associação Caboverdeana, sitas, relembre-se, na Rua Duque de Palmela, nº 2, oitavo andar, ao Marquês de Pombal, em Lisboa, certamente que com a alta e sempre agradável e agradada presença do autor, ele que, via-se-lhe nos olhos e nos gestos, devia sentir-se grato pela superlotada festa que, há quase dois anos, organizámos em sua honra, glória e homenagem por ocasião do seu agraciamento com o Prémio Camões, o maior e mais cobiçado de Língua Portuguesa!

Na verdade, Germano Almeida, o nosso “bom Gigante” e, nesse preciso e precioso sentido, o nosso “mais grande” Prémio Camões (o segundo, relembre-se, depois de Arménio Vieira), suspeitou de si mesmo e elegeu-se a ele próprio como sendo o eventual caso zero do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e da COVID-19 em Cabo Verde, por via do seu convívio e das inúmeras tertúlias entabuladas e tidas com o confrade e amigo, o escritor chileno residente na região da Astúrias, em Espanha, Luís Sepúlveda, durante o celebrado Festival Literário Correntes da Escrita, ocorrido na segunda quinzena de Fevereiro de 2020 na cidade portuguesa da Póvoa de Varzim, e consequente proximidade mútua entre os dois celebrados escritores, na qual não estariam certamente ausentes e à qual não seriam obviamente alheias as falas e as conversas, as consequentes respirações (certamente pelas bocas e pelo narizes dos convivas, com alguma distraída saliva à mistura) e, atracadas em cumprimentos amigos, gestos cúmplices, risos altos e gargalhadas, as mãos, na altura já infectadas e contagiosas, do bonacheirão e muito aventureiro amigo e confrade chileno, companheiro de luta e de ideário político-ideológico, amigo e guarda-costas do Presidente mártir Salvador Allende e partícipe activo da guerrilha revolucionária sandinista contra o sanguinário e cleptocrata ditador Anastasio Somoza.

Por isso, Germano Almeida foi o primeiro caboverdiano de todas as nossas ilhas e diásporas fora da China, da Itália e da Espanha (países já seriamente afectados pela COVID-19 nesses inícios de Março de 2020), a colocar-se, diga-se que de forma total e absolutamente voluntária, em quarentena institucional (que é como se costuma denominar a reclusão compulsiva ou auto-imposta por razões sanitárias, ainda não estavam popularizados e vulgarizados e não se tinham banalizado o termo confinamento e a expressão distanciamento (físico-) social de segurança, e nem sequer se pensava ou se imaginava que a auto-reclusão severa, por vezes agachada, e de longa duração a que se condenou e se sujeitou Adolfo Maria em tempos que já lá vão da sua impiedosa perseguição e busca, vivo ou morto, pelos algozes e torcionários da por ele amargamente denominada ditadura democrático-revolucionária na sua Angola natal, combatente e politicamente enredada em muito activas revoltas e dissidências várias, por vezes fortemente armadas, antes da sua abrupta exclusão física, e somente com a roupa do corpo, da sua pátria amada (e agora transcrita numa espécie de Diário intitulado Angola- Sonho e Pesadelo e de Poesia de Auto-Cárcere), se tornaria, nestes dias de hoje, de verdadeira mundialização do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e da COVID-19 e das suas potenciais vítimas, uma experiência comum e corriqueira da Humanidade, toda e inteira, e dos seus biliões de filhos e criaturas, ainda que com menos duração que o auto-cárcere de Adolfo Maria e por razões evidentemente outras, desta feita, e nestes nossos estranhos dias, ostensiva e pouco efusivamente sanitárias.

   Felizmente, Germano Almeida não foi o primeiro caso islenho caboverdiano de infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), como vieram a demonstrar, de forma irrefutável, insofismável e, por razões especialíssimas, para mim altamente apaziguadora, os testes então enviados ao Instituto Ricardo Jorge, de Lisboa, nem sequer (Deus livre! Credo abrenúncio!) a primeira vítima arquipelágica mortal da COVID-19 entre as criaturas humanas sahelianas filhas do povo das ilhas e diásporas, como satisfeitos e aliviados puderam constatar os seus inúmeros leitores, amigos e familiares, em especial os que, uma semana antes, disseram, quiseram e se fizeram presentes no Salão de Convívio da Associação Caboverdeana, sita na Rua Duque de Palmela, nº 2, oitavo andar, ao Marquês de Pombal, em Lisboa, a partir das 18,30 horas da sexta-feira, dia 28 de Fevereiro de 2020, para participarem numa lotadíssima sessão de lançamento de O Último Mugido, o seu mais recente romance, dado à estampa, como sempre vem acontecendo, desde a publicação de A Ilha Fantástica, com os livros da sua autoria, em edições simultâneas e/ou paralelas da Editorial Caminho, de Portugal, e da Ilhéu Editora, de Cabo Verde.

Depois de muito alarido e alguma (in) compreensível aflição, alguns impenitentes e ferrenhos participantes de ataques e contra-ataques, de controvérsias e debates associativos em circuito fechado de correio electrónico e presentes no acto de lançamento do livro de Germano Almeida (sendo que foram os ausentes da magna e solicitada presença do escritor ilhéu os mais ferozes contra-atacantes, ademais maledicentes difusores nos circuitos virtuais, acima referidos de fake news sumamente caluniosos e infecciosos), viam-se deste modo, e para já, excluídos do ainda estranho e assaz esquisito estatuto de suspeitos de contaminação pelo novo coronavírus (SARS-CoV- 2), estatuto que, na sua mais remota intimidade, alguns esperavam ter alcançado, certamente de forma indesejada e involuntária, por terem estado em contacto próximo com o escritor e com os exemplares do seu festejado livro, autografados obviamente pelas suas próprias mãos, ainda que, também é certo, respingados da sua insigne respiração e da sua bem-disposta conversa, e, com ele sempre sorridente, bem-humorado e em excelente disposição devidamente munida da sua branca e quase veraneante indumentária, terem sido figurantes também sorridentes, bem-dispostos e, sobretudo, bem-perfilados de inúmeros, entusiasmantes e festivos selfies.  

     Germano Almeida foi todavia o primeiro (auto) confinado nas ilhas da morabeza por causa da ameaça latente representada pela já anunciada pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e da COVID-19 com os seus efeitos já devastadores na China, a sua inicialmente minimizada presença em Itália e em Espanha, a eventualidade (tida ainda como possibilidade assaz remota) de disseminação nas ilhas do meio do mundo.

 É a esse status pioneiro, ainda que alcançado por mera cautela por alguém talvez motivado e tomado por compreensível receio e justificado medo de um ainda desconhecido mas muito mutante e letal vírus, é esse novo estatuto, dizíamos, de audaz e perspicaz peregrino pelos pouco cómodos e muito melindrosos meandros da auto-reclusão sanitária profiláctica (primeiramente no modo de auto-infligida quarentena hospitalar, e, posteriormente, depois da alta clínica, na forma, agora bonacheirona e auto-irónica, de auto-imposto recolhimento domiciliar), aliás, tempestivamente anunciada pelo Ministro da Saúde e da Segurança Social em pessoa, no horário nobre do Telejornal na Televisão Nacional de Cabo Verde e do Jornal da Tarde na Rádio Nacional de Cabo Verde (vulgo RTC, o popularizado acrónimo da unificada empresa Rádio e Televisão de Cabo Verde), ainda que sem menção expressa do nome do ilustre estreante nas sempre inesperadas e capciosas lides do novo coronavírus (SARS-CoV-2), certamente cogitando nos inalienáveis direitos à imagem e à intimidade da vida privada da célebre e muito estimada figura pública, agora em anónimas façanha e exposição públicas sanitárias, é a esse status sui generis, dizíamos nós, que devemos algumas promessas imediatamente posteriores do icónico contador de estórias (querendo-se todavia verdadeiramente transfigurado em romancista com a obra sucessora de O Fiel Defunto intitulado O Último Mugido (o tal que tantos alaridos sanitários e não poucas preocupações e apreensões humanitárias suscitou) porque construído inteiramente com base na imaginação criadora do seu autor e não inspirada em retalhos de vida das muitas personagens do real quotidiano com os quais se vem cruzando no agora e no antigamente na vida) e não sei se futuramente a se fazerem drama em gente em forma de memórias de um espírito, de testamento de um fiel defunto ou de um outro qualquer escritor à cata de celebridade e imortalidade, de estória de dentro do confinamento islenho ou de viagem pela história das ilhas e das suas muitas e recorrentes situações de calamidade pública, independentemente da sua controversa tradução e pouco consensual transfiguração jurídico-formais em estado de emergência ou em estado de calamidade.

Palpito (ou, melhor, auguro) que o mais certo é que a prometida obra venha a assumir as vestes literárias de uma demorada revisitação da ilha dos dourados areais e dos plangentes e chorosos violões, já que a sua ilha natal, a tal ilha fantástica recriada em primeira mão pela pena pseudonímica de Romualdo Cruz na revista Ponto& Vírgula, foi a primeira ilha caboverdiana contagiada pelo surto pandémico do novo coronavírus (SARS-CoV- 2) e da COVID-19, antes da trágica e pouco prestigiante primazia capitalina assumida pela assaz (depois, de forma galopante) infectada Cidade da Praia, tendo a ilha da solidão do poeta luso-caboverdiano Daniel Filipe sido ademais o principal, e, por vezes, displicente foco irradiador islenho da malfadada pandemia, em razão da sua recém-descoberta e radiante vocação turística, tendo esse mesmo foco irradiador sido chamado e convocado pelos olhos, pelas bocas e pelos olhos maduros de uma turista holandesa e de um turista inglês, imediatamente repatriados para as terras de origem afectados pelo contágio por um novo coronavírus sem nome próprio, e pelas mãos de um (quase) idoso turista inglês, certamente amoroso da sua amarela cintura do mar, turista esse depois alcunhado de paciente inglês e, por isso, tornado o primeiro caso importado de infecção e morte pelo novo coronavírus (já explicitamente identificado como SARS-CoV- 2) e pela COVID-19 na sempre amorável e muito arenosa, na orgulhosamente cabrera ilha da Boavista de Cabo Verde.

   Essa revisitação não deixará certamente de se fazer enriquecer com as devidas e pertinentes incursões por anteriores endemias, epidemias e pandemias, tais o tifo, a lepra, a peste negra, a malária, o paludismo, a cólera, a febre zica, o dengue, que, depois de terem sido europeias, continental-africanas, asiáticas, americanas, oceânicas, mundiais, e concomitantemente com as secas e as fomes, desde os longos e infindáveis tempos coloniais aos mais recentes tempos democrático-pluralistas, passando pelos severos e reconstrutivos tempos de mitigado regime político monopartidário, tanto amedrontaram e fustigaram o povo das ilhas e, por várias vezes, quase o dizimaram e ao seu corpo cadavérico estendido ao longo dos areais negros ou dourados das ilhas planas ou declivosas, nas profundezas de vales outrora verdejantes ou nas muito serranas alturas silenciosas e extáticas das nossas montanhas.

   Certamente que Germano Almeida se servirá, como documentação de consulta obrigatória e compilação bibliográfica de grande valia, da monumental História da Medicina em Cabo Verde, da autoria do Dr. Henrique de Santa Rita Vieira, médico que também foi estudioso e combatente paciente, vigoroso e eficaz contra várias endemias e epidemias em Cabo Verde e, exactamente por isso, viu-se agraciado com a atribuição do seu insigne nome ao Hospital Regional de Santiago Norte, sedeado no concelho de Santa Catarina de Santiago da sua vila natal da Assomada, fundada no mesmo ano de 1912 em que ele nasceu. Ilustrado com uma grande profusão de imagens e inundado de relatórios médicos, o acima citado livro da lavra do Dr. Santa Rita Vieira muito informa sobre outros grandes médicos que ajudaram a combater e a erradicar algumas endemias e epidemias do chão de Cabo Verde, com destaque para o Doutor Francisco Frederico Hopffer, nascido na então Vila da Praia, formado, em Lisboa, em Ciências Médico-Cirúrgicas e Doutorado em Medicina em Bruxelas e, ainda no século XIX, autor do primeiro livro de temática caboverdiana escrito por um caboverdiano e editado em Cabo Verde, na Imprensa Nacional instalada na Praia, alcandorada desde 29 de Abril de 1858 ao doravante indisputável estatuto de cidade-capital de Cabo Verde pelo Marquês de Sá da Bandeira (esse mesmo que, vinte anos antes assinara o decreto de transferência da capital para a ainda a construir cidade do Mindelo), no mesmo dia em que as povoações do Mindelo e de Bissau eram elevadas ao então almejado estatuto de Vilas na então portuguesa Província Ultramarina de Cabo Verde e Rios da Guiné.

E falando de médicos, de doenças, de endemias e de epidemias, Germano Almeida lembrar-se-á certamente do capitão-médico Dr. Baptista de Sousa, arribado à cidade do Mindelo integrado, tal como o alferes-estudante Manuel Ferreira, no Corpo Expedicionário que, temente de uma invasão alemã ou inglesa das pobres e miseráveis ilhas atlânticas, ferozmente assaltadas pela epidemia já endémica da fome, todavia de grande e contínuo valor estratégico, o Governo colonial-fascista do neutro Portugal mandou colocar na cidade do Porto Grande da ilha caboverdiana de S. Vicente. Politicamente cadastrado como antifascista e avesso à situação política opressiva então vigente no seu fantasmático país multirracial e pluricontinental, pouco acarinhado pelo regime autoritário então franco adepto e anfitrião afável da saudação nazi e das camisas verdes da Mocidade Portuguesa, o Dr. Baptista de Sousa foi alvo de incomensuráveis gestos de respeito, admiração, afecto e amor por parte da população mindelense de todos os extractos sociais, em razão da imensa, visível e desinteressada obra sanitária construída e desenvolvida na ilha, para o comum bem-estar de todos os seus habitantes, tendo sido o primeiro médico nas ilhas a fazer expressa menção da fome como a principal causa das mortes que vinham ocorrendo na ilha de São Vicente e no arquipélago todo de Cabo Verde, contra as proibições expressas, severamente fiscalizadas pela censura prévia e pela Administração colonial, de a mencionar nas milhares de certidões de óbito que na altura eram passadas, tal como se se vivesse numa verdadeira situação de guerra que, cominada de sangue, feridos, estropiados e cadáveres, efectivamente então decorria na Europa, no Norte de África, na Ásia, no Atlântico e no Pacífico com o, a um tempo, fogoso e ofegante nome de Segunda Guerra Mundial, proibições essas que nem os mais destemidos dos nossos literatos lograram publicamente ultrapassar, por isso vendo-se literalmente obrigados a socorrer-se de outros subterfúgios linguísticos e estilísticos para dar testemunho literário da tragédia que então assolava as ilhas e prestar homenagem e tributo de memória às suas silenciosas e silenciadas vítimas, tal como magistralmente descrito e narrado nos romances Chiquinho, de Baltasar Lopes, Os Flagelados do Vento Leste, de Manuel Lopes, e Famintos, de Luís Romano (este último muito mais marcado pela rebelde crueza e pela desassombrada agressividade das coisas virulentamente nomeadas porque não afectado nem temeroso das tristes e ignaras façanhas da censura prévia pois que editado fora da área de jurisdição repressiva do colonial-fascismo português).

   Humanista convicto e corajoso, inveterado e benquisto benfeitor do povo, por isso, detentor de mais que merecido prestígio no seio de todas as categorias sociais islenhas, ver-se-ia o Dr. Baptista de Sousa rodeado de imensa, efusiva e comovida multidão na sua hora di bai da cidade caboverdiana que aprendeu a amar, permanecendo porém para sempre na alma da ilha e no coração do povo do futuro país que tanto e tão bem serviu e, que, tomados de gratidão, no período pós-independência baptizaram o recém-concluído e recém-inaugurado Hospital Central da cidade talássica, da ilha nortenha e do barlavento caboverdiano com o seu imorredouro nome de médico militar humanista.

   E continuando a falar de médicos, de doenças, de endemias e de epidemias, Germano Almeida não deixará de se lembrar do Dr. Henrique Teixeira de Sousa, médico de grande reputação em razão da sua competente e laboriosa dedicação a combates sanitários vários, tanto na longínqua província ultramarina portuguesa de Timor, como também na sua ilha natal do Fogo, e na ilha irmã de São Vicente, de cuja Câmara Municipal foi Presidente por quase uma década e onde deixou memorável obra urbanística e de saneamento público, ele que, na sua mocidade, fora militante clandestino, em Lisboa, das Juventudes Comunistas Portuguesas e do MUD- Juvenil e frequentador assíduo das tertúlias neo-realistas, nas quais introduziu o confrade e patrício António Nunes que, a partir daí, alterou o seu paradigma literário até então ancorado em bem construídos e cuidados sonetos ultra-românticos ambientados na sua cidade natal da Praia e doravante radicalmente virado para poemas telúricos neo-claridosos bafejados pelo neo-realista optimismo da esperança em dias melhores para o povo das ilhas do “Poema de Amanhã”.

E reportar-se-á Germano Almeida que, no mesmo ano em que foi fundada a revista Claridade, Henrique Teixeira de Sousa foi também fundador, mas no mês de Dezembro, da folha liceal Juventude, no qual também colaborou um ainda ultra-romântico António Nunes, além de ter sido prestigiado colaborador das revistas Certeza e Claridade, um quase colaborador permanente do Boletim Cabo Verde, autor de numerosos artigos e ensaios sobre doenças infecciosas e saúde pública e, acima de tudo Escritor, enquanto cultivado cultor da palavra escrita, no seu único livro de contos Contra Mar e Vento, nos seus seis romances publicados dos ciclos foguense e mindelense (Ilhéu de Contenda, Capitão de Mar e Terra, Xaguate, Djunga, Na Ribeira de Deus e Entre Duas Bandeiras) e no seu derradeiro Oh Mar de Túrbidas Vagas (o único romance seu visando expressamente a reabilitação literária e político-cultural da geração nativista contemporânea de Eugénio Tavares e Pedro Cardoso, em correcção da sua própria visão anterior, muito rasuradora dessa mesma geração, dita pré-claridosa), conjugando na perfeição essas duas dimensões suas de médico e de escritor, e, por isso, merecendo inteiramente a rara, honrosa e prestigiante denominação de médico-escritor.

E lembrando-se do escritor-médico Henrique Teixeira de Sousa, Germano Almeida lerá de novo o romance Entre Duas Bandeiras, o último do ciclo mindelense da ficção do escritor foguense e escrito no contexto das mudanças políticas liberal-democráticas e da ressaca simbólico-cultural revanchista dos anos noventa do século XX caboverdiano, a aferir de que lado da barricada imaginada por Teixeira de Sousa se colocaria no hoje em dia dos nossos tempos, resolvida que está (aparente ou definitivamente?) a questão nacional caboverdiana, permanecendo porém outras ainda muito problemáticas e em constante ebulição, tais as relações entre o português e o crioulo, as rivalidades entre a Praia e o Mindelo, a orfandade continental crioula balançando entre África, a Europa e as Américas, e tantas e tantas mais questões ainda assaz candentes, aliás, igualmente recorrentes na ficção e nas, por vezes assaz controversas, tomadas de posição públicas de Germano Almeida.

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