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Por: Paulo Varela

 Paulo Varela Colunista

A dada altura de nossa história, fruto do iluminismo e das dinâmicas universais pelos direitos humanos e da humanidade, surge de entre os filhos de nossa terra, vários homens, determinados a combater a exploração e a dificuldade de acesso aos bens e riquesas de nossa terra, acabando por contagiar mulheres e fazer uma luta comum. Pelo menos, estas foram as duas principais conclusões a que o diagnóstico de Amilcar Cabral tinha chegado, para de forma científica e metódica, identificar os elementos condicionantes da liberdade em cada território e com isto criar uma narrativa coerente e real para os diferentes povos, quer na Guiné como em Cabo Verde.

Tal e qual como acontece hoje em dia com os estudos que anticipam programas de intervenção em diferentes áreas para o desenvolvimento levado a cabo pelos Governos e seus executivos, Amilcar Cabral, para pôr de pé o programa de luta pela libertação, começou por elaborar estudos em vários domínios... E um desses estudos, foi a definição de um quadro sociológico e antropológico minusioso, permitindo-lhe actualizar os parâmetros de comportamentos, dinâmicas e atitudes de cada etnia ou tribo, povo ou população nos seus respectivos territórios.

Este processo que acaba por ser sangriento, marcado por uma guerra a todos os níveis evitável, deixou-nos várias heranças, todas elas benéficas, se aplicarmos o princípio do aproveitamento positivo de Nelson Mandela: “ Eu nunca perco ... ou ganho ou aprendo”, dizia, uma das heranças é o legado de Amilcar Cabral e de seus companheiros, num rico acervo compilado e espalhado pelas bibliotecas e principais academias do mundo inteiro... Aqui uma palavra especial de respeito pelo trabalho da Fundação Amilcar Cabral de Cabo Verde.

Destes escritos, nos podemos beneficiar de um título muito forte – A ARMA DA TEORIA – que pelo contexto de guerra, percebe-se, rápidamente, o espírito que baptizou esta compilação de ideias, enquanto exercício teórico do líder - Cabral - para a definição de uma estratégia ponderada e metódicamente preparada até ao mínimo detalhe e sem margem para erros. Foi este legado é que Amilcar quis que fossemos capazes de continuar a aplicar depois da luta e da conquista da independência, como faz questão de realçar o próprio autor, chamando nossa atenção de que, o que estava ele a fazer, era um programa menor, pois o maior estava por vir... E quem seria o responsável por este novo programa, já que o nosso Amilcar tinha consciência de sua limitação, enquanto homem e mortal?

Hoje, certamente, podemos sentir, pelos desafios e pelo percurso de Cabo Verde, que estamos numa fase de transição dentro do programa maior, ou seja, criamos as bases necessárias, desde a educação do nosso povo, a formação de quadros, o desenvolvimento do nosso sistema de saúde, nossa administração, o sistema político-democrático, a nossa diplomacia, o nosso quadro legal, a cultura de paz social, a identificação de uma identidade cultural própria, enfim ... Dizia, sentimos agora que estas conquistas importantes “pós Cabral”, foram necessárias e determinantes para servirem de base de assentamento a um novo tempo que as circunstâncias universais e conjunturais nos conduziram.

Aqui vale a pena fazer uma pausa e gritar com voz de regozijo: VIVA CABO VERDE

Se o contexto dos tempos de guerra impulsionaram nossos filhos privilegiados por se entregarem à causa do povo, a produzirem pensamentos, gerando teorias que lhes serviram de arma... Nós, hoje, gestores do novo tempo, somos desafiados a moldar nosso espírito e ajustar nosso vocabolário a um tempo de paz. Por isso, aqui venho propor - A ALMA DA TEORIA.

Esta teoria deve atingir almas sem ferir corpos, deve se basear no afeto e aplicar a regra de ouro que aprendemos de Jesus Cristo: “Não fazer ao outro aquilo que não gostaria que lhe fizesse a si”, procurar ser portador do espírito da justiça, para que o judicial tenha menos processos e o cidadão tenha a capacidade de ajuízar positivamente cada ato cotidiano e que a gestão de conflitos seja uma pratica vulgar e natural entre os populares, gerando uma forte e estável paz social.

Cabo Verde precisa de uma abordagem espiritual fortissima que passa por uma injeção de humildade e mansidão na comunicação política. O nosso parlamento passa a maior mensagem de agressividade do país, os nossos principais actores políticos e administradores passam a maior mensagem de ostentação de riquesas que o país não possui. Isto significa que a riqueza está mal distribuida e que alguém anda a viver com grande parte do rendimento que devia estar ao serviço de boa parte da população tida como pobre. Enquanto, a nossa comunicação social dá destaque a todo este império e fazendo manchetes da desgraça e orelhas moucas aos gritos dos sacrificados e dos zelosos da paz social, da ecologia ... que dia a dia, dão combate aos danos que o império provoca. A hipocresia marchando ao lado da arrogância e do espirito da ganância impiedosa, foram sempre os condimentos que o homem precisou para erguer impérios, produzir diferenças de classes, humilhar, explorar, matar e no final, experimentar sua propria distruição. Isto não pode acontecer com uma nação frágil e bondosa como Cabo Verde.

O país deve considerar e os cientistas sociais provarem de forma acertiva que os fenómenos sociais agressivos, são o espelho de politicas sociais também agressivas ou a falta delas.

Amilcar Cabral sentiu que seu pensamento serveria de arma e funcionou. Este novo tempo nos desafia a aplicarmos as teorias com alma, sentimento, afeto e carinho... Também, é certo que funcionará... E venceremos, mas precisamos mudar, “baixar a crista”, rezar mais e portamo-nos como verdadeiros Cristãos!

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