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Operação voo da Águia - sexta parte
Cultura

Operação voo da Águia - sexta parte

XXIX CENA

TELEVISÃO – Senhores telespetadores, o crime de homicídio de que falámos na semana passada está a ganhar novos contornos. A primeira suspeita tinha recaído sobre o Sr. Paulo, um conhecido traficante da região. Tinha sido indiciado e preso pelo chefe da polícia local. Encontra-se, neste momento, internado nos cuidados intensivos do hospital regional. Pois, no decorrer das investigações, sob sevícias perpetradas pelo referenciado chefe policial e seus subalternos, furaram-lhe o olho direito, partiram-lhe um braço e três costelas e, sofreu uma lesão grave nos testículos, provocada pelo choque elétrico a que foi submetido. Entretanto, uma denúncia chegou à procuradoria da república e à polícia judiciária, indiciando novas pistas e um novo suspeito. Foram desencadeadas as diligências e, inacreditavelmente, encontraram na arrecadação do chefe da polícia local, uma quantidade significativa de estupefacientes, notas falsas e algumas armas de fogo, das quais uma de cujo cano, segundo a perícia balística, terá saído a homicida bala. Trata-se de uma arma de guerra, com silenciador incorporado, semiautomática, de calibre 9 mm, com grande precisão de tiro. O chefe da polícia já se encontra detido, à espera para ser interrogado.

Aparece a imagem do chefe na televisão, fardado e algemado.

XXX CENA

Droganesa está totalmente transformada, com uma indumentária tipicamente africana. Chega atrasada ao aeroporto de Nelson Mandela e está muito aflita. O nome dela está a ser chamado pelos altifalantes do aeroporto

ALTIFALANTES – Atenção passageiros do voo com destino a Bissau. Informamos que o avião fará a descolagem daqui a vinte minutos e que está a faltar a passageira Verónica Vieira Ntchamá. Agradecemos a sua comparência urgente na porta do embarque.

Esta chamada vai-se repetindo durante alguns minutos até que a Droganesa aparece um pouco atrapalhada, entrando pela porta de embarque.

XXXI CENA

Droganesa está hospedada no hotel Azalai em Bissau.

DROGANESA (telefona ao advogado) – Oi!

  1. FUNÇA [V. O.] – Oi! Como foi a viagem? Chegaste bem?

DROGANESA – Cheguei bem. Liguei-te só para dizer que cheguei e que este é o meu número.

  1. FUNÇA [V. O.] – Ok. Boa sorte.

DROGANESA – Obrigada. Depois ligo-te e conversamos melhor. (Desliga e liga para o número do Paulo, com indicativo de Portugal) Alô!

PAULO [V. O.] – Alô!

DROGANESA – É o Paulo?

PAULO [V. O.] – Sim. Quem fala?

DROGANESA – Sou eu…

PAULO [V. O.] (surpreendido) – Droganesa?!…

DROGANESA – Sim, sou eu. Estou na Guiné Bissau… estou fugida. Vê lá se me mandas aquele dinheiro pela Western Union porque estou a precisar.

PAULO [V. O.] – Eu estou em São Tomé. Atendi-te com o número de Portugal porque é roaming.

DROGANESA – E quando é que vais voltar para Portugal?

PAULO [V. O.] – Ainda não sei. Tu não deste conta do que se passou?

DROGANESA – Não dei conta e nem quero dar. Se julgas que vais ficar com os meus 300 mil euros, estás bem enganado. Mando limpar-te.

PAULO [V. O.] – Tu não ouviste o que se passou? Não soubeste de um rapaz que foi morto dentro da própria casa… e de um chefe da polícia que está preso?

DROGANESA – É sempre esta a vossa conversa. Mas para quê? É por isso que foste a S. Tomé? Foste guardar dinheiro, para fazeres uma boa casa e te exibires à minha custa? Ou foste desalfandegar algum carro topo de gama?

PAULO [V. O.] – Depois ligo-te. Através do roaming tu pagas a chamada e eu também pago. Vou arranjar um cartão daqui e ligo-te mais tarde.

DROGANESA – Não precisas de ligar-me. Se estás em São Tomé eu vou aí ter contigo. Tenho que receber o meu dinheiro, custe o que custar.

PAULO [V. O.] – Ok. Então quando chegares, dás-me um toque por este número, vou ter contigo onde estiveres.

Droganesa desliga o telemóvel.

XXXII CENA

Num restaurante, sentada à uma mesa, Droganesa telefona ao Paulo.

DROGANESA – Paulo?! (Pausa) Estou num restaurante junto ao atlântico.

Desliga o telemóvel. Uma empregada vai ter com ela.

EMPREGADA – O que é que a senhora deseja?

DROGANESA – Traz-me um Martini com limão, para abrir o apetite, e o cardápio.

EMPREGADA (serve-lhe Martini e dá-lhe a ementa) – Faça favor.

DROGANESA (observa a ementa) – Quero este peixe fresco grelhado com legumes e uma garrafa de vinho branco.

EMPREGADA – Tem preferência por alguma marca?

DROGANESA – “Estremus”.

EMPREGADA – Com licença.

Enquanto bebe o Martini, tira um livro de São Cipriano da mala e fica a ler. A empregada põe a refeição na mesa, ela guarda o livro e segura nos talheres, entram dois polícias: um comandante e um agente com um mandado de detenção em nome dela.

COMANDANTE – Droganesa Soares?

DROGANESA – Não!

COMANDANTE – Você não é Droganesa Soares?

DROGANESA – Não. O meu nome é Verónica Vieira Ntchamá.

AGENTE – Tem algum documento de identificação consigo?

Ela tira um passaporte da mala e mostra-o ao comandante.

COMANDANTE – Onde é que a senhora nasceu?

DROGANESA – Na Guiné Bissau. Não viu no passaporte?

COMANDANTE – Você não é caboverdiana?!

DROGANESA – Não. Sou guineense.

COMANDANTE – Em 2005 não esteve em Cabo Verde?

DROGANESA – Eu não.

AGENTE – Porque é que ela não nos acompanha à esquadra e lá esclarecemos isso melhor, senhor comandante?

COMANDANTE – Ok. Você não se importa de nos acompanhar à esquadra?

DROGANESA – Para quê, se não sou quem procuram? Só para me chatearem?

AGENTE – É só para a identificarmos e volta já.

DROGANESA – Não vos mostrei já o passaporte? Tirem a minha identificação e levem-na.

COMANDANTE – Você vem já. Garanto-lhe.

DROGANESA – Agora estou a comer.

COMANDANTE – Pode comer à vontade que nós esperamos. (Sentam-se a uma mesa) Bom apetite.

DROGANESA – É melhor irem-se embora. Daqui não saio para nenhum sítio.

COMANDANTE (para empregada) – Traz-nos duas cacharambas, por favor.

A empregada serve-lhes a cacharamba e o comandante paga logo. Droganesa não come nem um terço do apetitoso prato de peixe fresco grelhado com legumes.

COMANDANTE – Se não estou equivocado, a senhora Ntchamá não aprecia muito a nossa gastronomia.

Droganesa não responde, levanta-se e vai ao balcão pedir a conta. Os polícias levantam-se e posicionam-se devidamente.

DROGANESA (ao balcão) – Quanto é a conta?

EMPREGADA – A refeição custa 379.571,7 STD e o vinho 177.134,61.

DROGANESA – Posso pagar em euros?

EMPREGADA – Pode, sim, senhora.

DROGANESA – Quanto é, em euros?

EMPREGADA (faz as contas numa calculadora) – 85.00€.

Droganesa abre a carteira, tira uma nota de 50€ e duas de 20€ e paga. Deixa ficar o troco e sai sem dizer nada. Passa desaforadamente pelos polícias.

COMANDANTE – Senhora Verónica. (Ela não responde) Senhora Ntchamá…

Ela não responde novamente. O comandante segura-a num braço

DROGANESA – Mas, que violência é essa? Por que é que me agride?

AGENTE – Calma, senhora Ntchamá. Você está muito nervosa.

DROGANESA – Como é que não fico nervosa? Isto é falta de respeito. Foram pagos para me perseguirem?

AGENTE – Colabore connosco e acompanhe-nos à esquadra. Vai voltar já.

DROGANESA – Já disse que não vou a nenhuma esquadra de porcaria.

COMANDANTE – Então você está a obrigar-nos a detê-la…

DROGANESA – Sem que eu tenha feito nada?

COMANDANTE – Até este momento, pode até não ter feito nada. Mas se recusar acompanhar-nos à esquadra será presa e responderá pelo crime de desobediência às autoridades. (Para o agente) Algema-a.

DROGANESA – Não é preciso. Eu vou.

Fica no meio dos polícias e vai sem mostrar qualquer resistência.

XXXIII CENA

No tribunal de São Tomé, Droganesa está a ser ouvida por uma juíza.

JUÍZA – Acabámos de receber da procuradoria da república da comarca do Sal, a confirmação de que a detida, Droganesa Soares, é natural de Cabo Verde e responde também pelos nomes de Verónica e Veronique Vieira Ntchamá. Determino que, enquanto decorrem as diligências para o cumprimento de um mandado judicial do tribunal de um país irmão e amigo, a detida fique em prisão preventiva, na Cadeia Central de São Tomé.

EX-BASTONÁRIO – Meritíssima, esta medida fere de morte os princípios da competência jurisdicional santomense. A minha constituinte não cometeu crime no pátrio solo, nem foi flagrada em nenhum ato que se configure de ilícito criminal. Outrossim, de nada valerá os expedientes rogatórios, porque São Tomé não tem acordo de extradição com Cabo Verde; nem sequer tem uma lei de extradição. E esta medida pode provocar celeuma e ter consequências para o nosso país. A arguida pode recorrer para o T.P.I. (Tribunal Penal Internacional), invocando violação dos Direitos Humanos, e ser-nos-á, certamente, aplicada uma avultada multa e insuportável indemnização.

JUIZA – Cumpra-se. Está encerrada a sessão.

XXXIV CENA

Na prisão.

EX-BASTONÁRIO – Você não tem nenhum problema de saúde?

DROGANESA – Sou diabética.

EX-BASTONÁRIO – Então temos que nos servir disso. Você não pode continuar neste lugar imundo, promíscuo e sobrelotado, subjugada a este trato da idade das trevas.

DROGANESA – O que devo, então fazer?

EX-BASTONÁRIO – Hoje à noite, você inventa uma crise de diabetes, vai ao hospital e eu faço com que fique lá internada até que o processo se conclua.

DROGANESA – Muito obrigada, senhor doutor.

EX-BASTONÁRIO – Vai dar tudo certo. Você tem que sair daqui. Mal chegue ao hospital peça para chamar o seu advogado.

DROGANESA – Muito obrigada.

O advogado levanta-se e os dois despedem-se.

XXXV CENA

No hospital, Droganesa ocupa um quarto individual. Está acompanhada por uma guarda prisional.

DROGANESA – Senhora guarda, posso pedir-lhe um pequeno favor?

GUARDA – Sim!

DROGANESA – Quando a sua colega a vier render, não se importa de ir buscar-me algum dinheiro ao hotel?… eu pago-lhe.

GUARDA – Está bem. A quem devo pedir?

DROGANESA – Eu dou-lhe a chave do quarto onde as minhas coisas estão. Fala com a rececionista e diz-lhe que a senhora Ntchamá é que a mandou. Também leve a chave da maleta, a carteira está no bolso.

GUARDA – Tem que ser hoje? Não pode ser amanhã, quando vier entrar ao serviço, passo lá?

DROGANESA – Queria que fosse hoje. E gostaria de dar-lhe uma gratificaçãozinha por ter sido desde sempre muito atenciosa comigo… o dinheiro está na carteira.

O Ex-Bastonário entra, cumprimenta e senta-se.

GUARDA – Senhor Doutor, enquanto o Doutor está cá, não se importa que eu vá buscar uma coisa para a sua cliente, aí no hotel?

EX-BASTONÁRIO – Fico a cuidar dela. Pode ir.

DROGANESA – Obrigada a vocês os dois.

A Guarda acerta a farda e o boné e sai.

EX-BASTONÁRIO – Já juntei dois requerimentos ao processo: pedi que a mantivesse aqui no hospital até ao desfecho do processo; e fiz um pedido de Habeas Corpus, porque você está presa ilegalmente. E é uma vergonha! Mas infelizmente, assim entendeu a nossa juíza. É a nossa justiça no seu maior.

DROGANESA – Faça-me sair daqui, Doutor! E não me deixe ser extraditada para Cabo Verde. O Doutor não perderá por isso.

EX-BASTONÁRIO – Extraditá-la seria uma violação grosseira da legalidade. Mas com esses magistrados que temos… tudo é possível. Mas vou lutar.

DROGANESA – Pelo menos aqui no hospital estou melhor do que na cadeia. Lá cheira mal, com duzentos e tal presos, fazem muito barulho…

EX-BASTONÁRIO – Em princípio você vai continuar aqui. (Ele vê as horas e a guarda entra) Você já chegou, vou-me embora. (Levanta-se) Até amanhã.

DROGANESA – Até amanhã, Doutor. (A guarda entrega-lhe a carteira) Muito obrigada! (Ela abre a carteira, a guarda vê muito dinheiro e fica pasmada. Droganesa tira uma nota de 100€ e dá-lha) Isto é um agradecimento pela boa atenção que me tem sabido dar.

GUARDA (toma rápido e mete no bolso da farda) – O… o… o… obrigada!

DROGANESA – Posso ir à casa de banho, senhora guarda?

GUARDA – Pode ir… pode ir à vontade.

Na casa de banho, Droganesa tira um telemóvel da carteira, coloca um cartão e liga. Fala baixinho.

DROGANESA – Moringo! (Pausa) Liga-me para este número, porque senão fico sem saldo. (Desliga e, pouco depois o telemóvel vibra) Sim! (Pausa) Estou presa… (pausa) sim. Em São Tomé. Alguém me chibou e fui apanhada. (Pausa) Tenho… e é um bom advogado. Foi Bastonário da Ordem dos Advogados de São Tomé. (Pausa) Ele aconselhou-me a fingir uma crise de diabetes e estou internada no hospital… (Pausa) estou a falar da casa de banho. (Pausa) Vais organizar? (Pausa) Virá um avião do Gabão resgatar-me? (Pausa) Boa. (Pausa) Tudo certo. (Pausa) Sim. Uma guarda já está sob meu controlo. (Pausa) Agora mesmo dei-lhe 100€. (Pausa) Ficou… ficou muito contente. Coitados, ganham mal! (Pausa) Ok. Queres que lhe dê mais? (Pausa) Ok. (Pausa) Está bem. À noite venho outra vez à casa de banho, faço-te um sinal e tu ligas-me. (Pausa) Espero que já tenhas resposta quanto à fuga. (Pausa) Tchau, beijinhos. (Volta para o quarto) Muito obrigada, senhora guarda. Desculpe-me ter demorado na casa de banho. Estava com muita dor de barriga!...

GUARDA – Não faz mal. Sei o que é. E já passou?

DROGANESA – Um bocadinho. Mas vou tomar um comprimido. Como sabe… são coisas de mulheres.

GUARDA – Desejo-lhe as melhoras.

DROGANESA – Muito obrigada! Se precisar de mais algum apoio… de mais algum dinheiro, inclusive… é só pedir-me. Eu sei como é que a vida é… sei que ganham pouco e muitos de vós têm família numerosa.

GUARDA – É verdade. Eu tenho 8 filhos.

DROGANESA – Imagino o sacrifício que faz para os criar.

GUARDA – A senhora é muito generosa. Não vai demorar presa.

DROGANESA – Deus a ouça. (Dá-lhe mais 200 euros) Tome mais estes.

A guarda fica emocionada e chora de alegria.

XXXVI CENA

Droganesa sai pela traseira do hospital, encontra uma viatura à porta que a leva ao aeroporto internacional de São Tomé. Uma avioneta percorre a pista, preparando-se para descolar, a torre de controlo ordena: "Pare!" O piloto olha para Droganesa, a única passageira.

DROGANESA – Pronto! Acabou.

PILOTO – Também estou tramado!

Os polícias entram na pista e retiram a Droganesa algemada do avião.

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