Em Cabo Verde, tal como em muitas democracias jovens, a comunicação política ainda é muitas vezes reativa, feita ao sabor dos acontecimentos. Mas, à medida que o sistema amadurece, vai-se tornando mais estruturada. E é isso que veremos nos próximos meses: uma disputa não apenas de ideias, mas de narrativas. A batalha eleitoral de 2026 começou, de facto, muito antes da campanha inicial. E como cidadãos atentos, o nosso papel é justamente este: descodificar a política, explicar ao público o que está por trás dos anúncios, das medidas, dos silêncios e das manchetes. Mostrar que,...
De 2016 até agora, o MpD perdeu metade do seu eleitorado e, em vez de reflectir com seriedade sobre isto, prefere criar inimigos imaginários, como os comunistas e a extrema-esquerda a babar sangue nas esquinas à espera de assaltar o poder. A insanidade é de tal ordem que, reagindo à histórica classificação de Cabo Verde para o Mundial de 2026, já anda gente a agradecer a Ulisses pelo feito e a fazer analogias entre as datas de 13 de Outubro e 13 de Janeiro.
Um grupo de quadros e cidadãos no país e na diáspora está a promover uma Convenção por Cabo Verde, um espaço plural “mobilizador de diálogo e co-criação, reunindo cidadãos, especialistas, empreendedores, artistas, jovens, comunidades da diáspora e instituições, para debater e formular propostas inovadoras sobre o futuro de Cabo Verde”. A iniciativa, apartidária, terá apresentação pública nos próximos dias num jantar de confraternização nos núcleos na Praia, Assomada, Mindelo, Espargos e Lisboa,” símbolos de uma rede que ultrapassa fronteiras”.
...a verdade é que a democracia tem também contribuído para o crescimento notório da pobreza e da desigualdade social em Cabo Verde, a níveis incompreensíveis e até vergonhosos face às expetativas do “homem livre” dos anos 1990. As casas de lata em São Vicente, os bairros informais e as situações de miséria em que muitas famílias vivem são compatíveis com uma democracia que se proclama “exemplo” no mundo e digna de um monumento de milhões?
Para uma memória plural e uma nação unida, devemos ultrapassar o pensamento único, e a exigência de desculpas não é, na minha opinião, politicamente pertinente. Se assim fosse, então que se exijam desculpas à antiga potência colonial. Cabo Verde merece uma memória plural e construtiva, que reconheça os erros sem apagar os sucessos, e que permita a todas as gerações apropriar-se de uma história rica, complexa e digna, para um Cabo Verde para todos, como sempre sonhou Amílcar Cabral. O revolucionário morreu, mas as suas ideias continuam vivas e eternas.
Pensar não devia ser acto de coragem. É que nem dói pensar! Mas, em Cabo Verde, ainda é extremamente doloroso, perigoso e digno de super-herói, quem ousa usar a sua massa cinzenta. E, enquanto assim for, escreveremos como quem ta finca pê na tchom. Falaremos sem ajoelhar. Permaneceremos firmes nas convicções, mesmo que nos queiram invisíveis. Porque há quem incomode só por existir com lucidez. E a lucidez hoje, é a forma mais perigosa de militância.
O antigo embaixador, Luís Fonseca, que lutou pela independência e que o regime colonial prendeu, disse esta segunda-feira, 28, estar “indignado” com o discurso com que o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, abriu as comemorações dos 50 anos de soberania.