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Por: José Valdemiro Lopes*

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Os filhos destas nove ilhas cabo-verdianas habitadas, desafiando as secas persistentes e a situação do abandono colonial, não tinham outra alternativa e por motivo de subsistência a solução e oportunidade que se impôs foi a emigração, para terra longe, aliás, a longínqua metrópole colonial, pouca industrializada, baseando-se na política “protecionista” do Estado Novo, sempre subestimou, todas as potencialidades e oportunidades de negócios destas ilhas tropicais…

Por motivo de sobrevivência, grande parte dos cidadãos cabo-verdianos, foi obrigada a emigrar, para o estrangeiro, instalando-se nos Estados Unidos, Europa e nalguns países da Africa continental, enviando, sempre, remessas às famílias residentes no arquipélago, alimentando a pequena economia das ilhas…

O sistema fiscal e o código de trabalho colonial, constituíam o “enquadramento institucional”, que entre outros factores, reduziu o “trabalhador cabo-verdiano” á cultura de subsistência que nos tempos mais duros, “os tempos das fomes”, libertou “mão-de-obra”, a ser inserida no circuito de nova forma de escravatura moderna, chamada, de “serviçais”, que foram deslocados como “contratados” para as roças do sul, como “assalariados agrícolas” sobretudo em São Tomé e Príncipe, para trabalhar nas culturas e colheitas de algodão, cacau e café, que eram exportadas exclusivamente para a metrópole.

As precaridades das suas vidas económicas e sociais, vivendo em situação de simulacros de salários miseráveis, não permitiam a realização de poupanças …

Os cabo-verdianos que travessaram o Atlântico, nos barcos da pesca da baleia, criaram, relações socio culturais e económicas, entre Cabo Verde e os USA, desde os meados do século. XIX, suas poupanças foram, fundamentais para a vida socio económica das suas famílias que ficaram no arquipélago, graças às remessas.

Os primeiros emigrantes cabo-verdianos, cedo familiarizaram-se com os mecanismos, do capitalismo (católico-protestante), graças ao trabalho assalariado, os que regressavam á terra em férias, traziam novidades e utensílios domésticos, com impacto no melhoramento da qualidade de vida, dos que ficaram, os emigrantes, cabo-verdianos, aprenderam, o que o colono não teve capacidade de mostrar, aos nativos, a saber, os mecanismos da produção, do comércio e da poupança…

A própria relação intercontinental África, Europa, América da comunidade cabo-verdiana, podemos afirmar isso, solidificou a configuração internacional do caboverdianismo, um povo nação, com um perfil singular, manifestado internamente e culturalmente, com a instalação da literatura moderna nos anos 30 do século XX, citamos os CLARIDOSOS e muito tempo, anteriormente com a pratica popular da TABANCA, social, mutualista, musical, solidária, organizada como um estado dentro de um estado, amedrontando o colono que tentou em vão interditar esta manifestação cultural genuína do povo das ilhas, de um pequeno arquipélago de 4033 km2, espalhadas em dez ilhas, nove habitadas, com uma cultura socio linguista e musical típica, originária de vários quadrantes, vivendo uma existência com um núcleo global único, aberto ao mundo que cedo foi identificado como cabo-verdianidade ou morabeza, fazendo do cabo-verdiano, um cidadão existencialista do mundo…

A epopeia migratória fortaleceu-se mais ainda no século XX e hoje em pleno século XXI, a população não residente, isto é, a população cabo-verdiana no estrangeiro é maior que a residente e a maior comunidade vive nos USA, as dimensões dos efeitos socio económicos e culturais, nas vidas privadas e nos sectores públicos cabo-verdianos, graças aos retornos dos emigrantes, ainda estão para serem estudadas, mas a certeza porem é que a diáspora directa ou indirectamente, sempre participou na transformação desta nação, sobre todos os pontos de vistas.

Os filhos destas ilhas, na diáspora contribuíram na afirmação de “quem somos”, como construção colectiva. O valor da décima primeira ilha, para Cabo Verde, excede o emocional e emerge o estratégico, influenciando positivamente o desenvolvimento de Cabo Verde de hoje e mesma acção e influencia se processarão, no futuro. As remessas da emigração cabo-verdiana, superaram os valores do investimento externo (IDE) e as receitas do turismo em 2018 (dados da INE), A Nação deve investir mais nos seus filhos e contar menos com a cooperação internacional, que não é outra que um investimento de longo prazo, dos pressupostos “ajudas” para o desenvolvimento...

Cabo Verde tem de identificar e colocar em posição de destaque, a acção da sua diáspora no económico e cultural, para que dentro e fora do país, todos os cidadãos possam compreender, o valor relacional tanto da diáspora tradicional como as novas formas de emigração tais como a dos atletas desportivos, artistas musicais, escritores e outros…

A nação deve agendar uma política útil e enriquecedora da emigração, uma acção exterior, como aposta de coordenação interior exterior englobando as potencialidades dos quadros, artistas e intelectuais da diáspora, reforçando o perfil internacional de Cabo Verde….

A diáspora poderá ser o “elemento” útil na ajuda para debelar situações de “déficit” humanitario interno de quadros e também, participar para favorecer processos de desenvolvemento. Podemos fazer esta afirmação, sem preconceitos quando falamos de quadros já integrados, nos países desenvolvidos, com experiencias profissionais e com capacidade de produzir, ou partilhar experiencias que poderão ser uteis sem dúvida alguma, nos processos de desenvolvimento e modernização de Cabo Verde.

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