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Por: Gabriel Fernandes

Gabriel Fernandes

Hoje, sem que o previsse, descobri-me a divagar sobre a regionalização. Escusado será dizer que nunca acreditei que ela fosse solução e muito menos salvação para as nossas vicissitudes e mazelas. Sempre entendi que, em Cabo Verde, pela nossa dimensão, ethos e tradição, os atores políticos e as esferas de decisão estão naturalmente próximos da população. Poucos países no mundo podem gabar-se de os seus governantes e governados terem tanta probabilidade de se (entre)cruzarem, dialogarem e “mandarem recados”. De certa forma, as nossas relações são do tipo face a face, estando ainda profundamente marcadas pela chamada lógica comunitária, que difere em quase tudo dos “sistemas abstratos” da alta modernidade.

Por isso, sempre acreditei que o que faltava às nossas ilhas, algumas das quais minúsculas, não era tanto a montagem de novas estruturas político-administrativas, quanto a aposta numa melhor realocação de recursos. O aumento devia ser de bens, e não de “servidores públicos”.

Todavia, confesso que, por uns instantes, ao deparar-me com os dados da Res publica – designadamente os “Resultados Definitivos do III Inquérito às Despesas e Receitas Familiares”, publicados pelo INE, senti-me compelido a acreditar no “milagre” da regionalização. E engana-se quem julgue que é por ser “Dia de Todos os Santos”! Também engana-se quem pense que passei a acreditar na pertinência e relevância de mais estruturas político-administrativas e nos benefícios que delas adviriam para as regiões e suas populações. Nada disso. Na verdade, passei a acreditar na regionalização por uma razão muito simples: com ela, todos seremos “legitimamente” regionalistas. Isso pode parecer ridículo e tautológico, mas não é.

Repare-se que, desde os finais do século XIX até aos nossos dias, só os naturais de algumas ilhas/regiões estão moral e politicamente "autorizados" a ser e a proclamar-se regionalistas. Para os demais, o simples elogio do que de bom existe ou o mero sussurrar sobre o que de menos bom acontece com a sua ilha/cidade ou local de nascimento tende a ser visto como bairrismo, xenofobia ou regionalismo mórbido. Portanto, que venha a regionalização, pois tratar-se-á, acima de tudo, de mais um passo rumo à valorização do pluralismo e à radicalização do processo democrático.

Falando nisso, os dados supra-referidos apontam que Santiago é a mais pobre das “repúblicas”, albergando 59% dos pobres cabo-verdianos, e que Santiago Norte é a mais pobre das “regiões".

Texto  publicado por Gabriel Fernandes na sua página pessoal do Facebook e repescado por Santiago Magazine, com autorização do autor.

* Título da responsabilidade da redacção



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Comentários  

-2 # joão Gomes 02-11-2018 15:58
...com muita pena caro Gabriel- os "pobres da Ilha de santiago", não poderem ser pobres de espírito e de riquezas materiais...falta-lhes a humildade e são muito pouco cor[censurado]tivistas.
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+3 # SÓCRATES DE SANTIAGO 02-11-2018 14:13
Gostei do texto, Doutor. ALEA JACTA EST. E agora, santiaguenses, vamos sair à rua e defender a nossa ILHA? Ou continuaremos eternamente a trabalhar e os outros a mamar? BADIUS, UNDI NU STA?!
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-2 # Joaquim ALMEIDA 03-11-2018 10:15
Falando assim como o amigo Socrates De Santiago falou ou escreveu , nô ca ta bà pâ nenhum lado na sentido positivo !..Pâ o bem de nôs terra e de todos os caboverdianos , nô tem que tchegâ a um acordo pa o bem de todas as ilhas e também das populaçôes !..Pâ um Cabo Verde , màs justo !.;
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