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Por: Samilo Moreira

Não se compreende como é que o negócio da TACV foi feito em confidencialidade e nos bastidores (mesmo assim mal feito), e a política externa esteja a ser feita escancarada e em forma de “prostituição”. Estamos a criar um Hub para ditadores, racistas, anti emigrantes e homofóbicos?

 

“A ação política que estiver fora do código moral ao qual está submetido o comum dos mortais só se justifica se tem por fim "as coisas grandes”. 

“Os políticos mentem pouco quando confrontados com questões internacionais, e isso por uma simples razão: mentir para outro estadista em assuntos cruciais é muito arriscado, e quase sempre traz resultados negativos inesperados”.

John J. Mearsheimer, Por que os líderes mentem. 

SAMILO

A crítica ao encontro bilateral entre Teodoro Obiang e o Governo de Cabo Verde liderado na altura por José Maria Neves[i], e a presença da Guiné Equatorial na CPLP, foi motivo de protesto[ii] (e bem) por parte do MpD. No entanto, para resfriar o mau estar no seio dos Caboverdeanos que a visita de Viktor Orbán provocou, o governo/PR decidiu também convidar[iii]para o nosso País o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang. 

Qual o motivo do novo posicionamento? Será que é esta a formaencontrada pelo Governo para conseguir os 100 milhões de euros para a criação dívida pública, vulgo, Fundo Soberano de Apoio às Grandes Empresas?

Espero ver se o ministro Abraão Vicente vai recebê-lo com o mesmo entusiasmo com que recebeu Viktor Orbán, ou se vai posicionar-se contra, mantendo a sua coerência.

Uma das entrevistas de Nelson Mandela[iv] que mais me marcou, foi quando foi confrontado com o facto de ter relações com  KadhafiArafat e Fidel Castro. A sua épica resposta, deve servir para os nossos políticos não misturarem situações extremas e de interesse nacional, com a atual posição que o Governo e o Presidente da República de Cabo Verde têm tomado. Na palavra de Nelson Mandela, “um dos erros que alguns analistas políticos cometem é pensar que seus inimigos deveriam ser nossos inimigos. Nossa atitude em relação a qualquer país é determinada pela atitude daquele país com a nossa luta. Yasser Arafat, Coronel Kadhafi Fidel Castro apoiam nossa luta ao máximo. Eles não apoiam retoricamente. Eles estão alocando recursos á nossa disposição, para nós travarmos a luta. Essa é a nossa posição. (…) Pode-se chamar a isso de ser político ou de uma questão moral , mas para qualquer um que modifica seus princípios dependendo com quem ele está tratandonão é um homem que possa liderar uma nação”.

Em Agosto de 2017, o Primeiro-ministro de Israel “Bibi”, afirmava no Tweeter[v] que o Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, prometeu-lhe que Cabo Verde, “não mais irá votar contra aquele país do Médio Oriente, seja qual for o assunto em análise na Assembleia Geral das Nações Unidas”. Portanto, baseando-se nos estudos de John J. Mearsheimer, e no silêncio do Presidente da República de Cabo Verde, podemos legitimamente deduzir que tal garantia foi dada.

Ignorar o percurso histórico de Cabo Verde e as suas relações com o mundo é uma falha na diplomacia. Acredito que a verdadeira diplomacia faz-se nos bastidores, mas sem descurar da espinha dorsal epistemológica de Cabo Verde. 

A política de “não-alinhamento” na minha opinião, enquadrado no contexto atual, significa fazer uma política extremamente cautelosa. Isto é, que vai para além de quaisquer motivações de ordem política ou ideológica; não misturar jamais a política externa do Estado com a do partido (ou dos interesses de certas pessoas). O princípio de “não-alinhamento” deve continuar a ser ou não a linha de orientação de Cabo Verde? Queremos espantar o soft power?

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Na  política externa e em toda as relações (política), há um “carácter intrínseco que é o relacionamento com os outros”. Relacionar-se com Viktor Orbán, e no molde em que está a ser feita, para um país que vive da emigração, não tem classificação possível, porque estamos a ignorar a nossa relação intrínseca com outros estados. Esta tentativa inconcebível no novo posicionamento de Cabo Verde face a ordem internacional; este modelo de behaviorismo de grandes nações, simplesmente é demais para um estado como Cabo Verde, na sua atual conjuntura e estrutura.Qualquer cidadão minimamente informado perceberá e tem a compreensão dos comportamentos das superpotências. Somos uma tchota (baixíssima potência) a querer passar por águia (superpotência).

A emigração é das formas mais justas e eficientes de combate ao desemprego e à pobreza em Cabo Verde. Por razões económicas, políticas, históricas e de interesse nacional, entende-se quaisquer aproximações aos EUA e a UE (que têm contrapesos que faz a democracia funcionar, independente de o Presidente ser ou ter posições extremadas), onde há uma vasta comunidade Caboverdeana. E ao Viktor Orbán? Então temos mais a ganhar com a Hungria do Viktor Orbán de que com a CEDEAO e a UE? Receio as consequências políticas e económicas, em especialde países africanos e Oriente Médio, resultado dessa agenda brusca da política externa do MpD.

O exemplo que foi usado para legitimar esta aproximação do MpD ao Viktor Orbán, em nome do interesse nacional (ainda não desvendamos qual), foi o caso do dossier África do Sul, ocorrido antes da independência nacional. Na altura, os voos dos Sul-africanos do apartheid rendiam ao país, anualmente, mais de 25,4 milhões de dólares, equivalentes a 31% do PIB, na altura avaliado pelo Banco Mundial em 80 milhões de dólares (Lopes, 2002:478). Por outras palavras, na altura estávamos de facto perante um caso em que o que estava em causa era o interesse nacional, quiçá a sobrevivência dos caboverdeanos.

O PIB de Cabo Verde em 2018[vi] está estimado aproximadamente em 1,75 biliões de euros. Os 35 milhões de euros com que Viktor Orbán comprou a dignidade humana do Governo de Cabo Verde liderado pela troika - Ulisses Correia e Silva, Carlos Veiga e Luís Filipe Tavares, correspondem a menos 3 % do PIB. Onde está o interesse nacional?

 

 

[i]https://expressodasilhas.cv/exclusivo/2014/03/02/texto-de-primeiro-ministro-no-facebook-cai-mal-junto-do-mpd/41562

[ii]https://expressodasilhas.cv/politica/2017/05/15/abraao-vicente-critica-inercia-da-cplp-sobre-integracao-da-guine-equatorial/53222?fbclid=IwAR13tfAn1plNv0Sl1W9aRVfDDHFI18yuhKAEHnEPAs-bpOJxdn9VubTXwPM

[iii]http://www.rtc.cv/tcv/index.php?paginas=13&id_cod=77667

[iv]https://www.youtube.com/watch?v=HJcGTjAFGjk

[v]https://twitter.com/netanyahu/status/892822289678577667

[vi]https://pt.tradingeconomics.com/cape-verde/gdp



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Comentários  

0 # Pedro Alexandre Roch 18-04-2019 11:17
Acaso Carlos Veiga é embaixador na Hungria ou na União Europeia? Não se compreende a sagacidade odiosa do autor deste post contra Carlos Veiga, ao ponto de o implicar num processo que não tem nada a ver com ele. O ódio incontido de um ser humano contra o outro leva a essa irracionalidade incompreensivel que roça a baixeza e falta de carácter.
Por outro lado, Viktor Orbán é líder de um país da União Europeia e chegou ao poder pelo voto popular e não por via do golpe de estado como acontece em muitos países africanos e alguns deles mantêm relações com Cabo Verde e o autor deste post nunca questionou isso.
É a mania de certos caboverdianos e outros africanos não olharem para a sua própria casa e criticarem os males da governação de África e deitarem o olhar apenas sobre a Europa e América para deitarem culpas, enquanto que aos seus pés ditadores como Teodoro Obiang são recebidos em Cabo Verde, com pompa e circunstância, e ninguém, dessa banda, pia uma palavra de indignação e repúdio a favor do povo oprimido da Guiné-Equatorial.
Falam e só falam segundo as vossas conveniências políticas e ideológicas, sem o alcance da justiça e do humanismo revelando uma tremenda falta de coerências e convicções naquilo que expressam.
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0 # Carlos Lopes 16-04-2019 00:48
Samilo, deixa-me ver se percebi. Se o valor for de 30% do PIB, o país pode negociar com qualquer um. Se for de 3% não. Ou seja, o que conta é o peso do $ que se paga. Ou estais aqui da justificar uma posição passado do teu Partido. Aquilo que estais a pregar é hipocrisia e demagogia. Nisto, ou se aceita ou não se aceita valor nenhum.
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