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Por: Alípio Clarence Filho

Bob Marley

O racismo fez do creole Bob Marley num Global ícon, num génio músico, herói, idealista, Pan-Africanista, humanista e freedomfighter que lutou contra a injustiça social, opressão e a segregação racial tornando-se na voz do povo oprimido. O Rasta Prophet prega a filosofia do "The Black Messiah” todavia, fica por decifrar o “Djô di JAH” e cumprir a sua visão profética de One Love.

“Rastaman Vibration, yeah! Positive!”

Bob Marley transcende a vida e o tempo. Ecoou-o no ontem, no hoje e no amanhã. A sua vida é um épico de struggle, resistência, paz, música e amor pela sua Afrocentric mythic faith (fé). Saiu do ghetto slums gangs para consagrar-se em Music Legend, rebelde, exilado revolucionário, ícon Survival, anti-establishment, génio, herói, e freedomfighter na luta contra a injustiça social, a opressão e a segregação racial. Entretanto, para os seus críticos tudo isso esvanece quando este é o réu perante Pontius Pïlätus.

Em contraste aquela icon imagem do silly Bob high fumando um enorme “spliff” (xaru-kaya), como quem não se importa com a vida também continua eternamente viva, é persuasiva, alusiva pois, serve de “excuse”, para as chamadas famílias de “bons costumes”, para crucificarem, e ofuscar o carismático Homem.

Ela, não só vela o lado humano do génio músico como também denigra sobretudo, a sua fé no Rastafarismo que ele serviu, e moldou em perfeita simbiose com a sua vida. A vida de um fiel evangelista que prega o “Êxodos! The Movement of JAH People”, na sua luta para as causas de igualdades sociais, racial, paz, liberdade, contra o jugo estrangeira e da opressão colonialista, fascismo, guerra fria e ainda o neocolonialismo.

A vida de Robert Nesta Marley é um puzzle box. Mas isso não significa que não existe uma chave mágica que possa abri-la. Vamos abri-la e desmistificar a sombra do mítico subversivo "rudeboy” pintado pela Hollywood, e alimentada pela nossa sociedade cristã de faz de conta de “bons modus i kustumus,” mas, sabendo a priori, que os ideais defendidos por Bob foram vividos factum por Marley.

Acredito ainda que não é uma exaustiva reportagem sobre a sua vida que contemplara todas as suas nuances. A peça busca entretanto, exibir behind the reggae star, e ilustrar como os efeitos da miscigenação marcou profundamente a vida do jovem creole que por causa da humiliação sofrida converteu-se num humanista, evangelista, visionário e revolucionário Pan-Africanista que usufruiu da sua poderosa arma de guerra (Reggae Music) para lutar contra o racismo, opressão e segregação racial tornando-se na voz do povo oprimido. A voz do gettho, que grita pelo seu direito de viver, exige o direito a igualdade social. In Fact, Bob Marley, é hoje sinónimo de Revolução, Paz, Amor e Liberdade. Ele é uma das figuras mais veneradas do século XX.

Com as suas infectious rhythms sua obra são verdadeiras enciclopédias. Ela é universalmente irresistível, poderosa, denso e bruta. É um culto ao Ras Tafari (Haile Selassie I), é literatura mas é fácil de entender. A sua jornada é de triumph, amor, opressão, injustiça social, dor, guerra, de consolo e paz que inspira e incomoda. Na “Babylon System”, canta que “O sistema Babilónia é o vampiro; sugando o sangue dos que sofrem; construindo Igrejas e universidades; iludindo as pessoas continuamente; Eu digo: eles estão graduando ladrões e assassinos; ensina a verdade às crianças; rebel, (revolta-se), rebel; Babylon System is Vampire, Sucking' the blood of the sufferes, yeah”.

Antes disso, em 1974, Jamaica estava a beira do colapse por causa da guerra civil com “Revolution”, apela “Never make a politician grant you a favor; They will always want to control you forever; ..– Nunca aceitas favores dos políticos; eles sempre querem controlar você para sempre”. No obstante, quando o país parecia ir pelo esgoto abaixo opõe-se à “ism and skism game” causada pela guerra fria. Condena com a “Oh, Rat Race”; “Ah! Ya too rude!!! Oh, Rat Race, Oh, Rat Race; Some -a lawful, some a-bastard, some a-jacket, oh what a rat race, yeah; some a gorgon-a some a hooligan-a; some a guine-gog-a; in this is a rat race yeah; .. political violence fill ya city; yeah! Don't involve rasta in your say say I'm sayin'; Rasta não trabalha para a CIA; Oh, Rat Race; Oh, Rat Race”. Como estas todas elas são verdadeiras setas incendiárias no coração da Babilónia. Sua música são hinos de struggle e salvação, tirania, opressão e revoltas. Bob Marley faz da resistência à opressão e do combate à injustiça social o leitmotiv de toda a sua obra musical.

De Exilado a Herói

Em Outubro 1976, no meio de caos da guerra civil que se instalou no país decidiu, apesar de vários avisos de assassinatos que recebeu, apoiar a ideia do governo socialista de Michael Manley, da People National Party (PNP), que pretendia dar um concerto de graça que visava criar um clima de paz e acabar com a violência entre os gangs rivais dos partidos políticos. Na sexta-feira, 3 de Dezembro, dois dias antes do “Smile Jamaica”, gangs afiliados com o partido de Eduard Seaga, da Jamaica Labour Party (JLP), apoiado pela CIA, “they opened fire on me now”; com 83 disparos tentaram assassinar e calar o artista na sua mansão em 56 Hope St, Kingston quando a sua banda The Wailers estava ensaiando-se no seu estúdio.

O cantor, a esposa Rita, e o manager Don Taylor que leva 4 balas ao cobrir Bob Marley com o seu corpo. Todos escapam milagrosamente com ferimentos ligeiros como narra o “Ambush in the Night, So they bribing with their guns, spare-parts and money, Trying to belittle our integrity now".

Apesar do susto Bob Marley aparece no evento, canta por uma horas e meia, dança e mostra o ferimento da bala que raspou-lhe no peito e penetrou no cotovelo. Depois do show deixa Jamaica e exila em Londres onde o “Kaya” explode. Nos anos que seguem a CIA e a KGB infectam os gangs rivais com armas e fomentam a discórdia e assim o pais caí no abismo e entra numa profunda depressão social, com guerra civil, e fome.

Em Outubro de 2018 a Netflix lançou um filme documentário “Remastered: Who Shot The Sheriff”. Dirigido por Kief Davidson, a reportagem mostra detalhadamente o envolvimento da Central da Inteligência Americana (CIA) e de Washington em calar Bob Marley para quem ele era “subversivo e perigoso. Ele estava a fazer uma revolução de massa. Era a consciência do povo. E isso é um jogo perigoso”, indica com ênfase o documentário que foi nomeado a Emmy por Outstanding Arts & Culture Documentary Emmy Award.

Dois anos de exílio Marley vêem, sofre, têm sodadi, sente ansiedade, stress e a fim de por cobro a sua misericórdia regressa ao seu torrão no dia 26 de Fevereiro de 1978, depois do seu álbum “Kaya” ter conquistado os Top nº 1 na Europa. Regressa como “headliner” (cartaz) para o “One Love Peace Concert”, no Kingston National Stadium, com 300 mil pessoas. O show contou também com Peter Tosh, Big Youth, Dennis Brown, Mighty Diamonds, visava celebrar os 12º aniversário da visita do Imperador Haile Selassie I, à Jamaica, celebrar a assinatura de um memorando de paz assinado entre as “youth gangs”, e angariar fundos para os jovens desempregados do ghetto em West Kingstown.

Durante o show Bob Marley chama para o palco o primeiro-ministro Michael Manley e o líder do partido da oposição Eduard Seaga, e depois de ter-lhes “forçado” um aperto de mão entre os rivais, abraça os dois políticos e com as suas mãos no ar diz “Jamaica é nosso. Por isso, temos que unir-nos, temos que fazer a paz juntos. Vamos trazer a Paz; Peace, Love and Untity; JAH Ras Tafari”, rugiu ao mesmo tempo que uma trovoada e raio caiu do céu.

Recebeu no dia 15 de Junho de 1978, a medalha de Honra de “Third World Peace”, das mãos do Senegalês Mahammadu Johnny Seka, chefe da delegação dos diplomatas dos 48 países africanos representados nas Nações Unidas. Seka elogiou pelo trabalho em prol da liberdade, da igualdade social, justiça e paz e fez questão de frisar que a condecoração vai "em nome dos 500 milhões de africanos”. No final do mesmo ano, Bob Marley visita África, vai a Quénia e Etiópia onde participa numa manifestação contra a colonização da Great Britain na Rodésia, ou Zimbabwe. Termina o tour em Lomé, Togo.

Mystic Marley

A música de Bob Marley seduz, porque têm qualquer coisa de vivo, porque o seu criador deu-lhe o próprio sangue. Encheu-a de amor, sonhos, esperança, grito de revoltas, de dor e de protesto. Deu-lhe o hálito da vida, uma vida sofrida que espera um dia melhor no amanhã que canta. Marley não canta como a paz podia melhorar o mundo, em contrapartida, copla como a vida na terra é um verdadeiro inferno para muitos por causa do imperialismo e as desigualdades e injustiça a nível socioeconómico causada pela Atlantic Slave Trade (o triângulo da escravatura).

Na canção “Slave Driver”, assegura que “sempre que oiço o estalar do chicote; meu sangue corre e fica frio; Eu me lembro dos navios negreiros; de como eles brutalizaram as nossas almas; hoje eles dizem que somos livres; apenas para sermos acorrentados na miséria e pobreza; Oh bom Deus, acho que é o analfabetismo; ou é apenas a máquina que só sabe fazer o dinheiro; Slave Driver!!..”.

No dia 11 de Maio de 2020, celebrou-se 39 anos do seu desaparecimento físico e algo de extraordinário continua a acontecer com o Rei da Reggae Music. E com ela o “Boom” de 1,5 milhão de Rastas no globo. O seu status quo de Rasta Prophet continua a sua ascensão no mundo da Rock N' Roll Hall Fame. Bob Marley é sem dúvida o mais influente artista do pop culture de todos os tempos como confirma a Rolling Stone Magazine -Special Collection Edition on Bob Marley de 22 de Maio de 2020 “in fact, is the most influencial music figures in the last 20 years', assegura a prestigiada manchete. Todavia, cá entre nós não fica mal dizer nos últimos 50 anos.

Com cerca de 125 milhões de álbuns vendidos, não apenas as suas gravações continuam a gerar milhões de dólares, como também conseguem seduzir a nova geração que buscam inspiração para resistir, uma referência que inspira no combate contra as graves desigualdades socioeconómico e politico, bem como cultural e religioso provocadas pela escravatura, colonialismo e o neocolonialismo sobretudo nos recém-libertados países “do terceiro mundo” que ainda continuam asfixiados na miséria.

A mensagem do jovem rebelde que saiu dos getthos de Trench Town, Kingston continua viva, actual, pulsando e alimentando o coração de milhões de deserdados que continuam asfixiados subjugados por causa do modus operandi da besta predadora do capitalismo. Com hymns como “Get Up Stand Up”, “Wake Up and Live”, “War”, “One Drop”, “Zimbabwe', “Babylom System ou “África Unite”, e também o álbum “Uprising”, ou ainda, de salvação como “Exodus”, “One Love”, 'Natural Mystic”, “Give Thanks and Praises”, e o “Redemptions Songs”,.. etc, entre outros tantos, que cativam e brilham na mente, abre o coração da humanidade para a preservação da natureza, alerta para a pobreza e a exclusão social, a opressão, apela as pessoas para que elas sejam livres e independentes.

O seu décimo álbum “Survival” de 1979, é dedicado à luta pela independência dos países Africanos e a consequente criação em Adis Ababa, Etiópia a 25 de Maio de 1963, da Organização da Unidade Africana (OUA). Bob é o porta-voz do struggle e uprising na luta contra o colonialismo em África e no resto do mundo. A 21 de Julho de 1979, no Amandla Festival of Unity, em Harvard Stadium em Boston, nos EUA, exige o fim do Apartheid na África do Sul.

O evento visava angariar fundos para o partido político da African Nacional Congress (ANC), na sua luta contra as políticas do regime racista e fascista da National Party (NC) e a sua ideologia de White supremacy. O show atraiu 75 mil almas e nota-se ainda, que o ANC de Nelson Mandela, na altura era considerado uma organização terrorista pela CIA. E de acordo com Mundo, de 06/12/2013, “O Presidente Barack Obama retirou o nome de Nelson Mandela da lista dos terroristas em 2008, quando Mandela completaria os seus 90 aniversários”. Que vergonha!

De acordo com Reebee (Neill) Garofalo, da Free South África Movement um dos organizadores do certame numa entrevista a Boston Globe disse que “Queria-nos um súper star! Pensamos no Stevie Wonder, Leonel Richie ou Tina Turner mas numa das reuniões decidiu-se por Bob Marley. Tudo porque ele era um activista, idealista e progressista de peso internacional. Queríamos fazer a ligação entre a brutalidade policial e os issues racial e o racismo, que se vivia em Boston, em Massachusetts e só ele podia trazer a luz do dia estas questões sociais. Bob Marley era um Icon anti-stablishiment. Um verdadeiro freedomfighter”, assegura.

O concerto contou também com artistas como Nina Simone, Patti LaBelle, Roberta Flack, Babatune Olatunji, a banda da África do Sul Jabula e o actor comediante Dr. Dick Gregory e não havia um só polícia de Boston no local do concerto. O aparato de segurança foi orquestrada por um grupo de estudantes.

A 18 de Abril de 1980, financia a viagem e custeia um espectáculo free (de graça) no Rufaro Stadium, em Salisbury para o dia da independência da Rodésia (Zimbabwe). É a única banda a actuar e dedica uma canção ao recém-nascido pais “Zimbabwe”. “Every man gotta a right to decide his own destiny; And in this judgement there is no partiality, So arm in arms, with arms we fight this little struggle; 'Cause that's the only way; We can overcome our little trouble;.. brother your're right, your're right – E vai assim, Todo Homem tem o direito de decidir seu próprio destino; E nesse julgamento não há parcialidade; Então, de armas nas mãos, com o exército vamos lutar esta pequena luta; Porque esta é a única forma; De superamos nossos pequeno problema, … Irmão é o seu direito; o seu direito;”. The Real Revolutionary, é símbolo da resistência em países ainda sob o jugo colonial como África do Sul, Angola, Rodésia, Namíbia, e Moçambique.

Quer o desarmamento nuclear e prevê o apocalipse nuclear se a guerra fria entre o capitalismo vs comunismo/socialismo persistir. Marley viu cedo como que o struggle pela liberdade e justiça não se alcança sem que “sangui korri”. Sobre isso, profetizara que se “Se a Humanidade falhar em unir-se, falharia como Humanidade em si”. Para isso, está disposto a lutar e morrer se necessário. Se isso, no entanto, traria a tão desejada paz e a harmonia racial (One Love).

Black Skin, White Mask- O Virar da Pagina

Desde da infância que Robert Nesta Marley teve que lutar para sobreviver e impor-se. Robert, é filho de Norval Marley, um capitão militar inglês de 60 anos, que impunha a lei colonial nas roças de Saint Ann Parish, e Cedella Brooker, uma preta jamaicana de 17 anos que era descendente de Coromantee tribe, um grupo de Akan warrior escravos que em 1760, causaram a primeira major rebelião de escravos da Caribbean Islands. Ficou como Tacky's War, é a maior na história da Jamaica.

A relação amorosa entretanto não era aplaudida pela sociedade e numa terra colonial a irá, a ganância e o mito de melhor status quo e uma estabilidade económica sem dúvida pesaram na balança do coração apaixonado. Engravidou-a, casou, e dois dias depois abandonou-a. E isso, é tudo o que Nesta Marley sabe do pai. Não é preciso descrever o scenario da violência.

Cresce na vila de Nine Mile, em Saint An, com o avô Omeriah (Yaya) Malcolm. Aos 5 anos, se muda para Trench Town, um dos muitos ghettos de Kingston. Na escola Stepney Model Private School, off Hannover é constantemente bullying, é espancado por garotos mais velhos, é vítima de prejudices por ser ele fruto da miscigenação. Caí naquela tension entre os chiques White Creoles, Mulattos(assimilados) e Negros. Para os europeus brancos ele era um africano/creole, e para os africanos ele era um fidju branku, mulato e baixinho. Era “reproachful” (descriminação) por dois lados, e por isso, cedo ganhou fama de tough, e abandona a escola.

Marley sempre carregou consigo o estigma por ser creole (mestisso), a sina que o persegue ate á morte. Todavia, nunca expressou nas suas composições o ódio à raca branca. Condenava sim, o facto de uma raça ter o status quo e o previlégio económico de subjugar uma outra. Isso sim, isso, ele condenava, e com veemência.

O trauma infantil metamorfoseou o carácter do Robert Nesta Marley (Rob), que por essa altura ganhava uns trocados lendo a palma da mão na vizinhança. “Eu não tenho educação. Se eu tivesse educação escolar serei um tolo”, expressa para quem a educação que temos foi desenhada para servir os interesses dos colonialista que só quer nos manter oprimido mentalmente. “Emancipate yourselves from mental slavery; Nomes but ourselves can free our minds – Emancipem-se (Liberte-se) da escravidão mental; ninguém além de nos mesmos pudemos libertar a nossa mente”, lembra o Prophet.

É aí, entre a guerra de vigilância de gangs e repressão policial, que inicia com dois amigos do gettho, o seu primo-irmão Neville O' Riley Livingston “Bunny Wailers”, e Winston Hubert Mcintosh “Peter Tosh”, formam a banda musical The Wailing Wailers, iniciam a caminhada musical. Optam pelo estilo popular Jamaicano de Ska Rocksteady, com R&B e uma “pitada” de Soul flavor, e numa Jamaica pós-independente os dois LP's, “One Cup of Coffee” em 1961, e “Judge Not” em 1962, são sucessos imediato no Sound System e no gettho mas não morrão no top das rádios da upper middle class (kopu leti). A mesma sorte tem o “Simmer Down”, 64, “Chance Are” e “I'm Hurting Inside”, em 1965.

A 10 de Fevereiro de 1966, aos 19 anos, casa com Alpharita Consticia Anderson (Rita Marley), e dezasseis dias depois do matrimónio viaja para Wilmington, Newark - Delaware (EUA), para ficar com a mãe. É na terra do Tio Sam que a vida de Marley viria a mudar radicalmente. Por essa altura nos EUA a luta pela de segregação racial estava atingindo o seu clímax. Era no bloco 2313 na rua N. Tatnall, onde a mãe Cedella tinha um apartamento e aí ao lado, uma pequena “barraca” de negócio “Roots of Jamaica”. Rob, todavia, trabalhava no terceiro turno das 10:00 horas da noite até às 6 a.m, como condutor de forklift na fábrica de automóveis Co.- Chrysler, e das 7:00 da manhã às 12:00 limpava o chão no DuPoint Hotel.

Teve um acidente de trabalho num dos nos olhos e passou um tempo em casa sozinho tocando viola, lendo jornais e livros de pensadores radicais como “Black Skin White Mask”, de Frantz Fanon, “African Origin of Civilization- Myth or Reality”, de Cheikh Anta Diop, “The Equality of The Human Races”, do scholar Haitiano Anténor Firmin, e “Black Bourgeoise” de C. F. Frazier. Ouve na radio discursos de líderes e activistas do direito do Homem como Malcolm X, do Black Panthers Party como Huey P. Newton, Boby Seale, Eldridge e Kathleen Cleaver, Angela Davis, como também Assata Sakur. Assisti na BBC World News, os assassinatos de líderes como Fred Haptom, Martin Luther King e Robert F. Kennedy. Acompanha o horror da guerra no Vietname, e a luta pela independência nos “países do terceiro mundo”. Observa, in look "The American Dream" e com ela os acontecimentos de injustiça racial na terra da liberdade bem como a “gritante” disparidade económica entre os que têm, a petit bourgeoise e o resto dos páras que vivem em "hipnosis staged" perseguindo e alimentando o sonho de elevar o seu status quo para o nivel de Middle Class. Canções do seu primeiro álbum “Catch Fire”, de 1972 como “Concrete Jungle”; “Burning” e “The Bell is Full (But We are Hungry)”, são retratos vivos de tais factos.

Decifrar “o Djô di JAH"

Nos finais de 1967, Rob é laid off da Chrysler, recebe uma quantia monetária e com ela compra alguns instrumentos musicais, e usa como “excuse” que o seu visa (visto) estava se inspirando e regressa à Jamaica. No gettho muda o nome de Rob por Bob, segundo ele “Rob era muito feminino”. Influenciado pelo músico Joe Giggs, o trio começa a tomar aulas de música e ocasionalmente “pankavam” (fugir) para ir frequentar actividades sociopolítico, cultural e religioso no Rastafarian Movement Center of Sam Brown. A priori o interesse era só a música, as garotas e o 'chillim pipe” - cachimbo de “ganja-herb'.

Conheceu Mortimo St George “Kumi” Planno um poeta, drummer e filósofo da Divine Theocratic Temple of Rastafári de Kingston. Kumi ficou famoso quando a 21 de Abril de 1966, no aeroporto de Kingston acalmou um tsunami de 250 mil Rastas féis em white tarmac que quebraram todo o aparato de segurança e as normas de protocolo do Estado e invadiram o avião do Imperador Haile Selassie I, quando este visitou Jamaica. Kumi foi a primeira pessoa a apertar a mão do ilustre visitante. Marley, porém encontrava-se em Delaware. Com Bob, o rasta guru fala dos mistérios das civilizações Kushites, Núbia e Egipto.

Usa Revelação para garantir que o Girmawi-ya -Girmawi, (Black Messiah) é o Imperador de Etiópia Haile Selassie I. Explica que o Negus Nagast; The kings of kings; Lord of Lords; The Conquering Lion of the Tribe of Judah; Elect of God, Defender of the Faith – Rei dos Rei; o Defensor da Fé, cuja raiz estão finkadu na união do wise Rei David “Jedidiah” Salomão - Dinastia Salomónica de Jerusalém, em Palestina e da Imperatriz Al -Malikah (Makeda), Rainha do Reino de Sheba, Aksum (Exonym – Abissínia).

O “High Preast” Kumi leva Bob às profundezas das montanhas a sítios que sequer existem nos mapas como Castle Kelly para aprender sobre os myalistic ritual. A espiritualidade africana do Kumina, a ciência do Obeah, a rigorosa dieta Ital, o misticismo do Twi (akom-ana) e a thunder (trovada) do som do Niyabinghi drum chants. Bob sente-se em casa e fica fascinado com a determinação dos rastas na luta para igualdade e justiça social, liberdade e paz. O orgulho à identidade e a cultural Africana queima no peito. E a ideia de tomar consciência torna-se numa obsessão. Fica sufocado.

Em menos de dois anos, lê diversos livros entre eles: “The Philosophy & Opinion of Garveyism”, por Marcus Garvey, “The Black Moses”, de E. D. Cronin, o opus magum “Wonderful Ethiopians of Ancient Cushite Empire”, de Drusilla Dunjee Houston. Constam ainda, 'Great Book of Magical Art”, “Hindu Magic and East Indian Ocultismo”, de L. W. Laurence's. Estuda caprichosamente e meticulosamente the Holy Piby (The Black Man's Bible) e a Amharic Bibia “Kebra Nagast -The Glory of The King”, “The Book of Secret Hindu”, “The Ethiopian Book of Enoch”, “The Sixth and Seventh Book of Moses”, e “A História of Etiópia, Núbia & Abissínia vol. 1”. Não dorme. Revolta-se contra o status quo.

Escreve a sua primeira canção dedicado ao JAH Ras Tafari, “Selassie is the chapel” “Haile Selassie is the Chapel Power of Trinity; build your mind on this direction; Serve the living God and live; Take your trouble to Selassie; Is the King of kings; Conquering Lion of Judah; … I search and search on the book of Man; In The Revelation, look what I find.Yeah”.

Agarra no Levíticos 21:5 cria o seu dreadlocks, a confirmação da sua aderência ao “The Movement of JAH People”, a (r) evolução Ras Tafari. Todavia, não quer ser mais um outro entre milhares como avisa no “Roots”: “Some are wolf in the sheep's clothing, whoa look at that; Many are called a few are chosen - Alguns são lobo vestidos em cordeiro; Uau, olha isso, muitos são chamados mas só alguns são escolhidos”;.. roots natty roots. Não quer ser muito menos aquele Djô que só busca o próximo “high”, aquele “ki sta ao Deus dára; ki sta konfundi Djô ku JAH; Bu sta xeio di stravagansia; Faltou raiz pa bu ser Rasta; ..” como interpretou os Bulimundo no seu álbum “Êxodo”. Em Cabo Verde, isso de uma certa forma contribuiu para a criação de uma certo stigma contra o rasta, e aumentou também a intolerância e os preconceitos, passam a ser objecto de troça e desprezo. A canção ridiculiza aquele Djô que nem sequer conhece a sua raiz cultural, o funículo do rastafarismo.

Marley abraça ao rastafarismo de corpo e alma como “O Discípulo de JAH”. Em 1973, depois de uma viagem para ver o carnaval em Haiti e tratar uns music business, escreve com a namorada a estrela Jamaicana activista, filmmaker, photographer e actriz vencedora do “Trendsetter Award”, Esther Anderson, aquela que é considerada a mais revolucionária canção de sempre. O “Get Up Stand Up”. “Levante, Resista: Lute pelos seus direitos! Pastor, não me diga que o paraíso está debaixo da terra; Eu sei o que você não sabe; O que a vida realmente vale; Nem tudo que brilha é ouro; Só a metade da História é que foi contada; E agora que você viu a luz, eh! Lute pelo seu direito; Levante, Resista;.. A maioria das pessoas pensa que o grande Deus vai surgir dos céus; Levar tudo e fazer todo mundo se sentir feliz, high; Mas se você sabe o quanto vale a vida; Vai procurar o céu aqui na terra; E agora que viu a luz lute pelo seus direitos, JAH Rasta Fari".

Está claro. É poderosa, denso e bruta. Sentiu a trovoada? Mudou de “pussycat ska” (Soul R&B) para o thunder beat do Reggae. A sua música passou a ser parábolas, mensagens de fé e avisos que visam consciencializar a massa. O resto, assumo que você já sabe que nos últimos 50 anos, não importa o seu status quo de Norte a Sul dos dois Pólos, das selvas amazónicas às montanhas das Himalaias de Tibete, de Jerusalém à Nova Iorque, de Kingston à Praia, ninguém fica imune ao apelo da contagiosa música reggae de Bob Marley. Assim é que a Unesco considerou que “Reggae é intrangible cultural Heritage”. Robert Nesta Marley deixa um legado que dificilmente outro artista conseguirá igualar. Pudera, ele é um LEGEND.

Faça aqui o download da versão gráfica do texto.

To be continued .... (Part II)

Comentários  

+1 # Martinho 01-11-2020 21:40
Melior artigo. Bem escrito, Parabens
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+2 # Juliao silva 01-11-2020 16:16
Obg pela Linda biografia desta lenda da humanidade ,um Fenomeno da Musica planetaria e um inigualavel panafricanista, so que se estivesse Vivo estaria totalmente triste e decepcionado com os lideres africanos em quem ele acreditava serem capazes de tirar a Africa e o seu povo da miseria,que em vez disso , so trouve a corrupcao, guerra , doencas ,genocidio, analfabetismo e o exodo atravez do mediteranio.
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0 # Alipio C Filho 03-11-2020 00:53
Ola caro Juliao,
obrigado por ter gostado da peça. Aguarde que a Part II, ilustra detalhadamente o que está por detrás do "fracasso" da UNIA, do Pan-africanismo, Black Panthers e não só. Ela nos faz refletir sobre o status quo, no papel da petit bourgeois (kopu leti), assimilados e mulatos negros aquem Frank Fannon apelida de Black Skin, White Mask.
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