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Por: Armindo Tavares

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CCXXII CENA

Teresa está sentada, triste, quando Mana Vaz entra.

MANA VAZ – O que é que tu tens, minha filha?

TERESA – Ah, mamã… (abraça-a e chora) Desgraçamo-nos!

MANA VAZ – Porque, minha filha? Conta-me rápido o que é que aconteceu!

TERESA (afasta-se dela, segura-a por uma mão e sentam-se no sofá) A Rosalina, neta da Simoa, minha melhor amiga, está doente, à beira da morte, mamã. Os seus dias estão contados para ela ir à cova, se alguém não fez alguma coisa para lhe curar a moléstia.

MANA VAZ – O que é que ela tem? E tu… o que é que podes fazer por ela?

TERESA – A sua doença… mamã, só o Amândio a pode curar.

MANA VAZ – Pois! Ele é doutor…

TERESA – Não é por ele ser doutor, mamã.

MANA VAZ – Então não te estou a entender! Fala comigo mais claro.

TERESA – Amândio jurou a Rosalina de que ia casar com ela. (Mana Vaz tapa a mão na cara e encosta-se no sofá) Ele a enganou e a abandonou no leito da amargura. Deixou Rosalina em estado que, se ele não casar ela, só a morte será sua cura.

MANA VAZ – Meu Deus! A sério?!

TERESA – Temos que fazer com que o Amândio case com ela… custe o que custar. Parece-me que ele não vai recusar, porque eu, da minha parte, recuso terminantemente aceitá-lo por marido. Quanto a mim e a ti, mãe, assim que acabo de cumprir esta missão, iremos internar num convento até que Deus nos chame.

MANA VAZ – Sempre sabia que tens um coração de Anjo, mas nunca pensei que pudesse ser tanto assim, minha filha.

TERESA – Pelo que estou a perceber, a mamã apoia a minha decisão, é?

MANA VAZ – De corpo e alma.

TERESA – Assim sendo, sinto mais coragem. Quando o Amândio chegar, a mamã dá-nos licença e deixa-nos sozinhos.

MANA VAZ – Deus te dê forças para arrostar com um tão difícil transe, minha querida filha.

TERESA – Há-de mas dar, sim, porque a Ele aprazem sempre as ações boas.

MANA VAZ – Paciência, meu Deus! Afinal assim que o Amândio é? (Amândio entra, cumprimenta e senta-se ao lado da Teresa) Encontraste-me de saída… mas ainda bem que chegaste. Fazes companhia a Teresa.

Ela sai.

TERESA (esforça-se para poder controlar) – Não sabes, Amândio?… Já dei hoje princípio às minhas visitas.

AMÂNDIO – Ah, sim?!

TERESA – É verdade. Mas logo a primeira pessoa a quem visitei, e a qual estimava mais do que nenhuma outra, me surpreendeu…

AMÂNDIO – Pela positiva, certamente.

TERESA – Fui encontra-la num estado bem deplorável! Pobre moça! Quem a conheceu outrora tão bela e encantadora como a flor viçosa dos prados, e a vê hoje abatida e pálida como a triste violeta, à qual o sol ardente roubou o viço e a beleza!… Confesso-te, Amândio, que fiquei consternada.

AMÂNDIO – E quem é essa infeliz?

TERESA – Persuadia-me que já o sabias. É a Rosalina, aquela travessa rapariga doutro tempo, que fazia o enlevo de nós todos.

AMÂNDIO – Ah, sim?!… Coitado dela!

TERESA – E segundo ouvi dizer, o estado de adiantamento da sua moléstia é tal, que já poucas ou nenhumas esperanças há talvez de salvar a pobre vítima. Além disso o velho doutor, o Dr. Orlando, ou por já cansado de inteligência ou pela pouca prática de tais padecimentos, quase que nenhuns meios lhe aplica para a restabelecer…

AMÂNDIO – Doutor Orlando é um bom médico. Se ele não conseguiu…

TERESA – Talvez um outro, mais experiente, a pudesse salvar…

AMÂNDIO – Quem? A não ser que a leve a um Bruxo.

TERESA – Tu, por exemplo, que estás em princípio de uma brilhante carreira, cheio de fé e de recursos, estou certo que a restabelecerias e lhe darias a vida que principia a faltar-lhe.

AMÂNDIO – Estimaria isso muito, Teresa, mas, infelizmente, não tenho o poder de fazer milagres.

AMÂNDIO – Quem sabe? Hás-de experimentar. Amanhã, ou mesmo hoje iremos vê-la e então dirás se é de todo impossível a cura.

AMÂNDIO – Pela descrição que me fizeste, a ciência já não pode operar em tal caso; além disso, quando o meu velho colega não procura sequer um meio para debelar a moléstia, é porque ela decerto está no seu último período.

TERESA – E quem sabe se ele também se enganará nas suas suposições? Qualquer que seja o estado da doente, peço-te para ires vê-la, e, se por um feliz acaso conseguires salvá-la, confesso-te que a ciência, na tua pessoa, obterá mais um brilhante triunfo, que será ao mesmo tempo uma auspiciosa estreia para a tua humanitária profissão. Acedes ao meu pedido, não é verdade?

AMÂNDIO – Perdoa-me, mas não acedo.

TERESA – Então recusas?! Porquê?

AMÂNDIO – Por mais de um motivo: em 1º lugar, seria uma ofensa ao meu velho colega que a trata; em 2º, porque estou convencido que nada poderei fazer; e em 3º, finalmente, porque o seu estado doloroso mortificar-me-ia muitíssimo, sendo como sou também amigo dessa pobre rapariga.

TERESA – Pondo de parte os dois primeiros motivos, o terceiro deve concorrer, pelo contrário, para procurares todos os meios, senão de a restabelecer completamente, ao menos de lhe minorar os sofrimentos e de lhe prolongar a existência por mais tempo.

AMÂNDIO – Já te disse, e desculpa-me repetir-to: no estado em que ela está, nada poderei fazer e, por consequência, não irei vê-la.

TERESA – Estranho esse teu procedimento, Amândio, e com ele fazes-me supor a existência de algum mistério que pretendes ocultar-me.

AMÂNDIO – Enganas-te.

TERESA – Não engano, não, meu amigo. E a prova é esta tua repentina perturbação.

AMÂNDIO – Eu… perturbação?!

TERESA – Sim. Mas falemos com franqueza. Que há entre tu e ela?

AMÂNDIO – Nada. Absolutamente nada.

TERESA – E se eu disser que faltas à verdade?

AMÂNDIO – Como?!

TERESA – Eu sei tudo, Amândio!

AMÂNDIO – Sabes tudo?! O que é que tu sabes?

TERESA – O que eu sei é que já não se pode efetuar a nossa união.

AMÂNDIO – E porquê?

TERESA – Porque no leito do sofrimento se está finando uma desgraçada vítima, a qual roubaste não só o coração e a beleza, também a honra e a vida!

AMÂNDIO – Tereeeza!

TERESA – Não negues. Não tentes sequer, porque tudo averiguei!

AMÂNDIO – Mas…

TERESA – Sejamos francos, Amândio: tu tens uma bela alma, és incapaz de cometer uma ação que te desonre. Não é assim?

AMÂNDIO – Sempre me pugnei por isso.

TERESA – Pois, então, corre ao leito dessa desventurada e salva-a. Salva-a de uma morte certa. Pede-lhe perdão de a teres feito sofrer tanto e recompensa-a dos desgostos que lhe tens causado pelo oferecimento da tua mão de esposo.

AMÂNDIO – Enlouqueceste, Teresa?!

TERESA – Não enlouqueci, não, meu amigo. Se tu a visses como eu a vi… se soubesses quanto amor ela ainda te dedica, apesar do teu completo desprezo…

AMÂNDIO – Então ela disse-te que efetivamente tínhamos entretido relações?

TERESA – Disse… Mas com que custo eu lhe arranquei esse segredo!

AMÂNDIO – Mas porque querias vasculhar na vida da rapariga. De que te honra essa coscuvilhice?

TERESA – Não é coscuvilhice. Eu me apercebi.

AMÂNDIO – Apercebeste?!

TERESA – Sim, apercebi-me! A pobrezinha sabia que estávamos prestes a desposar-nos e não queria de forma alguma revelar-mo. Contudo, por mais esforços que empregou, não pôde deixar de trair-se, e por último, caiu que nem um patinho. Ofereci-me para mediar a situação… que faria para que tudo voltasse a normalizar-se, mas ela pediu-me, instou até, que não desse sequer um passo para tu a veres, deixando-a morrer, para mais de perto pedir a Deus pela tua e minha felicidade. Que bela alma é aquela, Amândio! E que sublime e santo amor ela ainda te consagra!

AMÂNDIO – Efetivamente, Teresa, entretive à falta de passatempo, algumas relações com essa rapariga. Mas foi uma leviandade de rapaz, que nada deve prejudicar as nossas tenções, dando-se ainda a circunstância de ela desejar o nosso casamento e a nossa felicidade.

TERESA – Leviandade, dizes tu? Chamas leviandade a uma ação degradante e que desenobrece e avilta o homem que a comete! Chamas leviandade de rapaz ao rapto da honra e da vida de uma mulher?!… Bem sei que essa resposta não é do coração, porque são muito outros os sentimentos que animam a tua alma. Pois bem: sê franco, não te contrafaças, desprende-te de todos os compromissos que te ligam a mim, e desposa essa pobre rapariga, porque, como te disse, a nossa união é completamente impossível.

AMÂNDIO – Principio a acreditar, pelas tuas palavras, que nunca me amaste. De contrário não te exprimirias desse modo e não renunciarias tão abertamente ao nosso enlace.

TERESA – Nunca te amei, Amândio?! Deus o sabe. Mas é que acima do amor e de tudo está a tua honra e a minha dignidade de mulher. Pois acharias airoso que eu te desposasse em face de uma infeliz a quem não só amaste, mas até roubaste o sossego e a felicidade? Que conceito fariam de mim? Além disso, persuades-te que a nossa união, a efetuar-se, não nos traria uma série de desgostos e desventuras, influenciada, como seria, por tão tristes circunstâncias e antecedências? E pensas mesmo que o remorso não havia um dia de roubar-te a paz do coração e o sossego do espírito? Ah! Amândio, pensa bem em tudo isto e verás se tenho ou não razão.

AMÂNDIO – Pois, Teresa, se estás decidida a recusar a minha mão, terás também o desgosto de não ver satisfeitos os teus desejos, porque não desposarei Rosalina; desta forma nenhuma de vós cantará vitória da sua conquista.

TERESA – Ah, Amândio, não digas isso! Acaso morreram em teu peito os nobres sentimentos que o adornavam?… Oh! Não o creio. E se as minhas palavras não bastam para te fazer mudar de opinião, aqui me tens a teus pés, com as lágrimas nos olhos, implorando a tua compaixão para aquela desgraçada. Tu és bom, Amândio; possuis uma bela alma, e a consciência há-de certamente aconselhar-te o teu dever: salva essa pobre vítima, e, além do amor que te consagro, a gratidão será eterna no meu peito.

AMÂNDIO – Levanta-te, Teresa, e falemos placidamente. Tu, na verdade, renuncias formalmente aos nossos projetos de união?

TERESA – Renuncio, porque assim mo ordena a minha dignidade e a compaixão que me inspira Rosalina.

AMÂNDIO – Muito bem: e, dado o caso que despose essa rapariga, que destino será o teu?

TERESA – Entrarei com minha mãe em um convento, e aí terminaremos ambas, em paz, a nossa existência.

AMÂNDIO – Pois tu, na verdade, farias isso? Não procurarias um outro homem?

TERESA – Nunca. Nunca. Juro-to pela minha honra.

AMÂNDIO – Mas, meu Deus! Que conceito farão de mim tua mãe, minha família e toda essa gente para quem não era já segredo o nosso casamento?

TERESA – Já pensei em tudo isso. À minha mãe já confiei todos os meus projetos, e ela não só os apoiou, como elogiou o meu procedimento; com relação a teus pais, eles não são ambiciosos, e, sabedores de tudo o que se passou, não se oporão ao teu casamento com essa pobre rapariga… essa defunta em potência. Enquanto a essa gente daqui, diremos que foi enganada, que lhe quisemos preparar uma surpresa. Estás satisfeito?

AMÂNDIO – E se por acaso eu, um dia, ficar viúvo, posso procurar-te?

TERESA – Encontrar-me-ias então de braços abertos para te receber, porque nesse caso estavas já livre e desquitado de uma dívida de honra?

AMÂNDIO – E tu esperarias por mim?

TERESA – Decerto.

AMÂNDIO – Então…

TERESA – Vamos, Amândio. Posso contar com a satisfação do meu pedido, não é assim?

AMÂNDIO – Calma!…

TERESA – Hoje a tarde posso ir dar essa boa nova à minha pobre amiga? Como ela ficará alegre! Parece-me que estou já vendo-a outra vez formosa como fora sempre, cheia de vida e de felicidade! (Olha para Amândio) Então… não respondes?

AMÂNDIO – Amanhã de manhã dou a resposta. Preciso pensar. Queres assim?

TERESA – Quero tudo, porque sei que a tua resolução não será outra senão o cumprimento dos teus deveres de homem de bem. Amanhã pela manhã, depois de me dares a resposta que caprichaste em não querer já confiar-me, iremos ambos ver essa pobre enferma do coração, e aí espero passar alguns dos momentos mais felizes da minha vida.

AMÂNDIO – Devagar, Teresa, devagar. (Sorri) Não te revelei ainda a minha verdadeira intenção.

TERESA – Mas se eu já adivinhei…

Dão palmadinhas, brincando.

CCXXIII CENA

Numa tardinha, Benvindo cruza-se com a Teresa numa rua.

BENVINDO – Ouvi dizer que vais casar… fiquei muito contente.

TERESA – Quem te disse?

BENVINDO – Tu sabes que agora nada passa despercebido. Sobretudo em lugar pequeno como aqui onde moramos. E ainda por cima, casamento de noivos importantes.

TERESA – Tu! Desde pequeno és inteligente, Benvindo.

BENVINDO – Deus há-de continuar a dar-te sorte, Teresa. Marido… tu já tens. Homem como Amândio está pouco. (Teresa baixa o rosto e caem-lhe as lágrimas) O que foi, Teresa? Desculpa-me! Ofendi-te? (Chega mais perto dela e abraça-a) O que se passa contigo? Estás a sentir-te mal? (Ela encosta-lhe a cabeça ao peito e soluça) Não estás a sentir bem?

TERESA – Desculpa-me, Benvindo! Não é nada não. Não é por causa de ti.

BENVINDO – Mas é por causa de mim… que tu choraste!

TERESA – Benvindo… (limpa as lágrimas) a ti eu conto. Vim da Praia, eu e a minha mãe e os nossos criados para virmos preparar o meu casamento com Amândio…

BENVINDO – Todo o mundo daqui já sabe… e espera ver-te vestida de branco. Eu não fui convidado, mas como o Sr. Padre Gil é convidado eu vou com ele.

TERESA – Mas… nós já não vamo-nos casar.

BENVINDO – Já não vão se casar mais?! Que escândalo, Teresa!

TERESA – Casamento haverá… e o Amândio será o noivo.

BENVINDO – Não!… E quem é noiva? Não és tu?

TERESA – A noiva será Rosalina…

BENVINDO – Rosalina?!

TERESA – Rosalina de Simoa.

BENVINDO (arregala os olhos) – Deixa-te de brincadeira! Todo o mundo sabe que és tu quem vai casar-se com o Amândio!

TERESA – Tens razão. Estávamos para nos casar.

BENVINDO – E porque é que já não está mais?!

TERESA – Porque é a Rosalina a noiva de Amândio. Ela é que o Amândio deve casamento. Eu, se mereço, Deus há-de dar-me o meu.

BENVINDO – Ave-Maria, cheia de graça!

TERESA – Voltaremo-nos ainda a encontrar mais vezes. Agora vou ver a Rosalina e já está tarde.

BENVINDO – Espero que ainda voltaremo-nos a ver antes de ires.

TERESA – Não vou ainda. Hei-de ir à igreja cumprimentar o Sr. Padre Gil, aproveito e falo contigo.

Abraçam-se e despedem com dois beijinhos.

CCXXIV CENA

Um estranho bate à porta. Calixto vai abrir e depara com um homem trajando um casacão, dando ar de velho.

ESTRANHO (com uma voz trémula) – O filho do Sr. Morgado está?

CALIXTO (segurando a porta) – Está, sim, senhor. Queria-lhe alguma coisa?

ESTRANHO – Faça-me o favor de lhe dizer que está aqui um pobre velho, que lhe vem pedir para ver sua mulher, que está perigosamente enferma.

CALIXTO – Mas a esta hora, e em tal noite?!

ESTRANHO – Oh! Não se demore… Diga-lhe também que já fui a casa do Doutor Orlando, mas que ele se recusou a vir ver a pobre doente, e que, em vista disto, apelava para o bom coração do Sr. Amândio.

CRIADO – Mas, meu amigo, isto não são horas de ir ver doentes; além disso o Sr. Doutor está talvez a dormir, e ir agora acordá-lo…

AMÂNDIO (surge) – Não será necessário esse trabalho. É de algum doente que se trata, não é verdade?

ESTRANHO – É sim, meu bom senhor. Minha pobre mulher foi há pouco atacada por um triste acidente, ou coisa que o valha, e jaz sem sentidos há já bastante tempo. Fui procurar o Dr. Orlando, mas ele negou-se a ir vê-la. Como soube que o senhor tinha vindo há dias de concluir os seus estudos, lembrei-me de recorrer ao seu bom coração, e é o que venho fazer. Oh, meu senhor, por quem é não se recuse a esta obra de caridade e não queira que minha mulher morra a míngua de socorros.

AMÂNDIO – Pois está bem. Irei vê-la. O meu colega Orlando foi muito insensível. Demonstrou muita falta de humanismo!

ESTRANHO – Ah! Deus lhe agradecerá esta boa ação, e, visto que o senhor vai ver a doente, pedia-lhe se me deixava ir para junto dela, porque a pobre ficou só e pode necessitar de alguma coisa.

AMÂNDIO – Pois vá, vá; mas primeiro diga-me aonde é que hei-de dirigir-me.

ESTRANHO – Não tem que saber: o senhor toma este caminho de baixo, chegando aí, vire à direita, desça a encosta e atravesse uma ribeira onde há um pequeno stufon [túnel, buraco onde a água da chuva trespassa uma estrada]. Passe por uma espinheira grande e, no fim, vê-se um renque de casas cobertas de colmo. Eu moro na segunda contar da esquerda.

AMÂNDIO – Bem, já sei. Agora pode ir, que eu daqui a pouco lá estarei.

ESTRANHO – Ora Deus o abençoe por este ato de tanta caridade.

O Estranho retira-se e desaparece na escuridão. Calixto fecha o portão.

AMÂNDIO – Ó Calixto, apronta-me já a mula ruça, enquanto eu me vou vestir convenientemente.

CALIXTO – Então o Sr. Amândio sempre vai?

AMÂNDIO – Pois não hei-de ir, homem?

JOÃO DE QUINA – Com esta noite e por esses caminhos abaixo!… Quer que o acompanhe?

AMÂNDIO – Não sei para quê…

CALIXTO – A noite está bastante feia, os caminhos são maus, e pode-se perder antes de chegar ao seu destino.

JOÃO DE QUINA – Além disso sempre é bom a gente não andar só em noites como esta…

AMÂNDIO – Tenho pouco medo, meu amigo; enquanto aos caminhos, conheço-os tão bem como tu ou outro qualquer; e pelo resto pouco receio.

CALIXTO – Mas sempre era bom que lhe fossemos fazer companhia…

AMÂNDIO – Não quero, já disse; e até logo.

Os Criados respondem “até logo” e Calixto fecha o portão.

 



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