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Por: Armindo Tavares

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CCXIX CENA

No quintal da Rosalina, onde habitualmente se encontravam, Amândio está vestido com uma gabardine preta e Rosalina envolta a um cobertor.

AMÂNDIO – Deves estar muito despeitada pelo meu procedimento, não é verdade, Rosalina?

ROSALINA – Despeitada, não, Amândio; mas ansiosa por saber os motivos do teu silêncio.

AMÂNDIO – Tens razão, filha; mas as minhas ocupações, porém, têm-me roubado todos os momentos.

ROSALINA – Não diga isso, Amândio: três minutos, sequer, lhe bastavam, de oito em oito horas, para me sossegar o coração; mas, quando se traz a cabeça desvairada por outros amores, chega-se a esquecer até a pobre aldeã, que lá longe se definha e se sente morrer de pesar por se ver assim desprezada e esquecida.

AMÂNDIO – Rosalina!

ROSALINA – Oh! Não tente negá-lo: adivinhou-mo o coração, primeiro; depois quase tive a certeza dos meus pressentimentos.

AMÂNDIO – Mas quem julgas então?

ROSALINA – Ora, quem hei-de julgar que lhe ocupa todas as atenções senão a filha da Sra. Mana Vaz!

AMÂNDIO – Mas…

ROSALINA – Não me enganei, não é verdade? Pode responder-me com franqueza, porque estou preparada para tudo.

AMÂNDIO – Pois bem, Rosalina: vou falar-te a verdade. Efetivamente existem entre mim e a Teresa, de há muito, relações de amizade.

ROSALINA – Diga-me antes de amor.

AMÂNDIO (atarantado) – Eh…

ROSALINA – Então, foi para dar-me essa agradável nova que vieste de Praia até aqui?

AMÂNDIO – Também para dizer-te que é preciso rasgar por uma vez o véu que tem ocultado as minhas intenções para contigo.

ROSALINA – É preciso rasgar o véu que tem ocultado as tuas intenções para comigo?!…

AMÂNDIO – Rosalina, por Quem és, perdoa-me se te enganei: tu não podes ser minha esposa. (Rosalina não responde) Não podes tornar-te minha esposa, Rosalina, não porque sejas indigna da minha mão e do meu nome, não porque não encontre em ti as qualidades necessárias para me fazeres feliz, mas porque, antes de travarmos estas relações, já existia um compromisso, uma espécie de pacto entre mim e Teresa, pacto esse que ainda há poucos dias foi autorizado e corroborado pela senhora Mana Vaz. Se for a comparar a igualdade do amor que nutro por ti e por ela, a diferença seria bem maior a teu respeito, com franqueza o digo. Não nego, contudo, que tenho alguma afeição à filha da senhora Mana Vaz, mas acima de tudo isso está a minha palavra e a minha dignidade de cavalheiro perante a sociedade.

ROSALINA (faz um sorriso amargo) – Palavra!… Dignidade!… E não terei eu porventura também o direito de perguntar-te pelos teus juramentos e pelo cumprimento das tuas promessas?

AMÂNDIO – Tens razão, Rosalina. Mas existe aí uma diferença bem sensível: é que as nossas relações têm sido tão secretas, tão ignoradas, que, dado o caso de eu não cumprir a minha palavra para contigo, o mundo nada me lançaria em rosto, enquanto com a Teresa dá-se muito o contrário.

ROSALINA – São realmente convincentes as suas razões, Amândio! Mas eu, nada mais necessito ouvir. Está tudo terminado entre nós, não é verdade?

AMÂNDIO – Desculpa-me, Rosalina.

ROSALINA – Ok. Seja feliz; case com quem lhe aprouver, porque eu não o impedirei nos seus desígnios. Oxalá que os remorsos não o martirizem um dia a existência.

AMÂNDIO – Espera, Rosalina: conheço que sou culpado, mas ainda assim não me condenes tão injustamente; é verdade que vou desposar outra mulher, porque a força das circunstâncias a isso me obriga, mas, apesar disso, o meu coração não deixará nunca de pulsar por ti, e, se queres uma prova convincente do que afirmo, poderei dar-ta, compartilhando contigo o melhor dos meus afetos. Que importa que eu esteja ligado a outra mulher, se o meu coração, a minha vida, só a ti pertencem?

ROSALINA – Cale-se, Amândio. Julga-me tão depravada que descesse a semelhante degradação? Oh! Antes a morte mil vezes.

AMÂNDIO – Sei que possuis uma alma nobre, Rosalina, mas nada mais queria senão provar-te que te amo e amarei sempre.

ROSALINA – Obrigada, muito obrigada por esse amor, mas permita que lhe diga que não posso crer em semelhante afeição, e, mesmo dado o caso que ele existisse, deveria acabar no momento em que se unisse a outra mulher. Enquanto a mim, eu já esperava tudo isto e a ninguém mais culpo senão a mim própria.

AMÂNDIO – Perdoa-me, Rosalina, perdoa-me, por quem és

ROSALINA – Perdoo-o, Amândio. Perdoo-o, porque o amo e amá-lo-ei até a morte; perdoo-o porque é um dever meu o perdoar. Lembre-se, contudo, de quanto fiz por sua causa e não se esqueça, sobretudo, que me roubou o mais precioso dote que uma mulher pode ter… a honra! Depois, quando eu já não for deste mundo, peço-lhe que não se esqueça daquela que tanto lhe amou, e, como prémio desses momentos felizes que passamos juntos, vai derramar uma lágrima só sobre o pedaço de terra que me cobrir o corpo inerte.

AMÂNDIO – Rosalina, filha da minha alma, não digas isso…

ROSALINA – Com franqueza, Amândio. Você, como médico, não pressentiu em mim alguma coisa que me deve encurtar os dias da existência?

AMÂNDIO – Eu não pressinto nada.

ROSALINA – Oh! Sei que não fala verdade, porque experimento os sintomas de uma enfermidade que muito breve me lançará na sepultura; a minha morte deverá até servir-lhe de grande alívio, e eu peço-a a Deus a todos os momentos.

AMÂNDIO – Enganas-te, Rosalina: tu não hás-de morrer; quero que vivas e que tenhas esperanças no futuro, já que o destino presentemente nos separa.

ROSALINA – Esperar?! Pois que posso eu esperar do futuro? Deixa-me morrer, para não ser a minha presença a ofuscar o brilho da sua ventura. E perdoo-o tudo. E tanto assim que o meu único desejo é que viva feliz com essa que Deus çhe destinou para esposa, e que é também um anjo de bondade. Não quero que prolongue por mais tempo este horrível martírio que me despedaça a alma e perdoe-me também algum mal que lhe tenha feito sofrer. Adeus, até à eternidade …

AMÂNDIO – Não me fales assim, porque me mortificas. É efetivamente preciso separarmo-nos, porque sofro; mas, antes de partir, queria apertar-te ao meu coração. Recusar-te-ás porventura a este pedido?

ROSALINA – Oh! Não, não!

Sufocada pelo pranto, lança-se nos braços do Amândio que, não menos comovido, cobre-lhe o rosto de beijos. Depois, Amândio diz adeus e parte. Rosalina começa andar para o seu quarto, cai desmaiada.

AMÂNDIO [V. O.] (vai um pouco afastado, triste e com o coração dilacerado)"Pobre Rosalina; fui bem cruel para com ela. Para que a vi eu?… E tinha jurado pertencer-lhe… Infeliz rapariga, és sacrificada aos preconceitos deste mundo!…

CCXX CENA

Jantar em casa da Mana Vaz em homenagem à formatura do Amândio.

MANA VAZ – Com que então, Sr. Morgado já tem um cirurgião na família, não é verdade?

MORGADO – É verdade. Mas também, ficou-me por bom preço o tal cirurgião. Se continuasse a estudar por mais alguns anos, e se os meus negócios, louvado Deus, não tivessem tido bons caminhos, sempre lhe digo, Srª Mana Vaz, que o Morgado ficaria certamente derrotado.

MANA VAZ – Ora, não havia de ser tanto assim. O Sr. Morgado bem sabe que não empobrece tão depressa como diz.

MORGADO – Enfim, Srª Mana Vaz, eu, quando o destinei para os estudos, abalancei-me ao que desse e viesse. Já sabia que me ia ser caro.

MANA VAZ – Efetivamente, aguentar um filho durante oito anos a estudar… não é brincadeira!

MORGADO – Mas, não choro o dinheiro que gastei. O que às vezes me metia medo, era se ele viesse fazer triste figura ao pé dos companheiros. Ele aqui está, que o diga: nunca me mandou pedir dinheiro que lho não mandasse, e as vezes até mais do que me pedia, e outras, mesmo sem mo requisitar.

MANA VAZ – Agora o que o senhor deve é procurar-lhe um bom casamento, porque isso mesmo se torna necessário para a sua profissão.

MORGADO – Disso é que eu não quero saber; ele que procure mulher a seu gosto, mas contanto que não seja por aí alguma desregrada que o torne infeliz.

MANA VAZ – Ele, segundo me consta, parece que já fez a sua escolha e creio que não foi desacertada.

MORGADO – Sim?! Então, pelo que vejo, ela é cá da Praia…

MANA VAZ – É, e tenho até estreitas relações com essa pessoa, se é a mesma que eu penso.

MORGADO – Ora bravo! E então, meu maroto, andavas com isso tão calado?!

AMÂNDIO – Eu, meu pai… (ri-se) não me tinha ainda atrevido a confessar-lhe…

MORGADO – Ora, vamos então a saber: quem é a escolhida? É nova, bonita, etecetera?

AMÂNDIO – Meu pai!…

Mana Vaz, Amândio e Teresa Riem-se.

MORGADO – Então, de que se riem? Acaso a minha pergunta foi inconveniente?

MANA VAZ – Não é isso, mas, como a noiva nos está a ouvir…

MORGADO – A ouvir?! (Olha para todos os lados) Não vejo.

MANA VAZ – Olhe bem para a pessoa que está à direita do seu filho, conhecê-la-á.

MORGADO – A menina Teresa?!

Dá um pulo na cadeira, surpreendido.

MANA VAZ – Sim: minha filha. Então que lhe parece? Acha que não fez boa escolha o nosso Amândio?

MORGADO – Oh, Senhora Mana! A Srª decerto está a divertir-se comigo.

MANA VAZ – Ora muito bem: visto isso, está tudo decidido, e desde já ficam ambos sendo meus hóspedes, ou, para melhor dizer, fazendo parte da minha família.

MORGADO – E a menina Teresa, que diz a isto? Não se desprezará por ter por pai um bakan [tolo, leviano, palhaço] como eu?

TERESA – O Sr. Morgado é uma pessoa honrada e sobretudo é o pai do meu Amândio.

MORGADO – Assim é que eu gosto de a ouvir falar… (Para o Amândio) Agora o que é necessário é tu escreveres à tua mãe e participar-lhe que espere lá por nós todos.

MANA VAZ – É desnecessário esse trabalho porque hoje mesmo partirão para a aldeia alguns dos meus criados a dispor tudo em casa para a nossa receção e a um deles incumbirei de participar a sua esposa o sucedido.

MORGADO – Como ficará louca de alegria a pobre velha! Ela, que adora tanto como eu, este nosso único filho!…

MANA VAZ – Então, da sua parte, não há impedimento de seu filho casar-se com a minha?

MORGADO – Sra. Mana, quando a senhora abre a boca, não é para pedir. É para ordenar… para mandar. Diga-me que mulher que o meu filho escolheria e que fosse melhor do que a sua Terezinha?

MANA VAZ – Então ouve-me: antes de tudo quero que o casamento seja o mais brevemente possível; por isso tudo está devidamente preparado. Pela semana que vem iremos à Conservatória e marcamos a data para a boda. Estando marcado o casamento, iremos a Porto Santiago, realizar a cerimónia e o copo de água. E o senhor Doutor e sua esposa irão morar na mansão na minha propriedade em Lém Pereira. Eu irei visitá-los sempre, enquanto Deus não me pôs travão. Concorda ou não com o meu plano?

MORGADO – Oh, senhora Mana Vaz, não pode haver maior felicidade para um pai, do que esta.

CCXXI CENA

Teresa bate à porta e Simoa vai abrir.

TERESA – Me dê bênção, D. Simoa!

SIMOA – Deus te ajude, Teresinha!

TERESA – Está tudo bem por aqui?

SIMOA – A minha neta, Teresa, que está muito doente e o seu estado é tal que já nem há talvez esperanças de a salvar.

TERESA – Oh! Deixe-me ir ver-lhe, então! Deixe-me ir ver a minha grande amiga. (Ela entra no quarto e encontra a Rosalina prostrada numa cama. Fica triste e chora) Rosalina, neste estado é que tu estás, minha amiga?!

ROSALINA – É verdade, Teresa.

TERESA – Imaginava encontrar-te tão contente, bonita e bem-disposta… para te encontrar assim neste estado, nesta cama de amargura? O que aconteceu contigo, minha querida?

ROSALINA – Eu não sei, Teresa. Deve ser constipação. Pode ser… que resultou-me nesta grave moléstia.

TERESA – Estás doente há muito tempo?

ROSALINA – Há muito que venho sentindo pequenos sintomas… mas de uma hora para outra… agravaram-se.

TERESA – Porque não os curaste logo no início?

ROSALINA – Porque não podia… ou não queria.

TERESA – Porque é que não queria?!

ROSALINA – Para quê preciso estar viva? Só para sofrer com os desgostos deste mundo? Quanto mais demorarmos a morrer, mais amargo fica no corpo o nosso fel; morrendo, o nosso martírio acaba mais de pressa, e talvez, deixamos de ser obstáculo para a felicidade de outras pessoas.

TERESA – Não estou te entendendo, Rosalina: estás a falar comigo de uma maneira muito esquisita!

ROSALINA – Oh! Nem quero que me percebas; o que te posso dizer, é que a vida só é bela para quem tenha um coração que o ame… como a Teresa por exemplo.

TERESA – Então já sabias?

ROSALINA – Sabia. Sei tudo porque me contaram: Sei que vais casar com o Amândio.

TERESA – E então, como achas o meu noivo?

ROSALINA – É uma boa criatura, que faz a sua mulher felicidade. Ele não disse de gosta muito de ti?

TERESA – Muito, muito! Coisa que mais ouço quando estou ao pé dele.

ROSALINA – Deus há-de defender que nenhuma nuvem negra surja no vosso caminho para não estragar a tua felicidade.

TERESA – O que é que queres dizer com isto, Rosalina?

ROSALINA – Oh! Nada; não ligues tolice de uma infeliz, cuja toda a esperança do mundo lhe fugiu.

TERESA – Minha amiga, estás a esconder-me alguma coisa; pela forma como estás a falar comigo, nota-se que a tua alma está amargurada.

ROSALINA – Tu és esperta, Teresinha.

TERESA – Então seja franca e conta-me o teu sofrimento; desabafa comigo sobre o que te está atormentar. Amaste algum rapaz que no fim pagou-te com desprezo e esquecimento?

ROSALINA – Pior ainda!

TERESA – Pior ainda… porquê?!

ROSALINA – Eu conto-te… mas não vale a pena. É melhor falarmos de outro assunto.

TERESA – Não, não quero; se tu és minha amiga, Rosalina, não me ocultes nada; chorarei contigo a tua infelicidade, repartirei contigo a tua mágoa, como tua grande amiga que sou.

ROSALINA – Então queres que te conte estória da minha desgraça?

TERESA – Pedi-te!

ROSALINA – Já que insistes, eu conto-te. Conheci um rapaz, um anjo, que pela doçura de suas palavras, pelo juramento que ele me fez, pela clareza dos seus dois olhos e pelo conjunto da sua beleza, tocou misteriosamente na mais fina corda do meu coração; fez-me sentir pela primeira vez, coisa que nunca sabia se uma mulher era capaz de sentir! E em nome de um amor sem mácula, amei-o e entreguei-lhe com toda inocência de uma criança, até que um dia, ele descobriu a minha parte fraca, não aguentei quando ele me tocava, ao mesmo tempo que jurava ser meu, e me pedia para ser sua, ceguei o olho da razão… aceitei-lhe. Depois disso, comecei a sentir-lhe a fugir de mim. Passado algum tempo, esse rapaz que jurou amar-me, só para poder roubar o que de mais importante possuía, a minha honra, disse-me pela sua própria boca, para esquecer-me dele, porque a sociedade e o seu compromisso o impedem de casar comigo. Desta forma, sem o seu amor, sem a esperança, sem o melhor valor que uma mulher pode conservar, o que é que achas que devo fazer neste mundo? Morro com o coração torturado, porque ainda gosto dele, e amar-lhe-ei até depois da minha morte». Terezinha, é esta a triste história da minha desgraça e o verdadeiro motivo que te fez encontrar-me neste estado.

TERESA – Pobre de ti, Rosalina. Foste deveras infeliz. Mas… quem sabe se ainda não há remédio que cure a tua doença? Já perdeste toda a esperança de voltar a conquistar o coração deste homem?

ROSALINA – Completamente.

TERESA – E ele sabe o que está a passar contigo?

ROSALINA – Talvez… não sei.

TERESA – Então não desanimes. Não há nenhum homem, por mais ruim que ele seja, que perante o sofrimento de uma mulher que está quase a ir para cova por sua causa, que não concerte o que estragou. Eu serei a primeira pessoa a interceder por ti, e creio que esse homem não irá recusar o meu pedido. Ainda que tenhamos que ajoelhar e chorar-lhe aos pés.

ROSALINA – Não há hipótese, Teresa. Nem penses!

TERESA – Porquê, Rosalina?

ROSALINA – Porque não vale a pena. Ele já escolheu com quem casar-se. Alguém que lhe faz sentir-se mais feliz.

TERESA – Então não queres que tentemos falar com ele?

ROSALINA – Não quero, não.

TERESA – Se não queres que tentemos juntas, eu tento sozinha. Diz-me só o nome dele e deixa comigo.

ROSALINA – Oh, não! Não quero.

TERESA – Porquê?

ROSALINA – Porque não quero e nem devo mencionar o nome dele. É um segredo que irá morrer comigo, e, se tu és minha amiga, peço-te que respeites a minha decisão.

TERESA – Não há hipótese… vou vasculhar até descobrir.

ROSALINA – Não canses. Ninguém o saberá dizer.

TERESA – Ninguém?!

ROSALINA – Só uma pessoa é que sabe, mas ela não te vai dizer.

TERESA – Rosalina, intui-me que esta tua história, todo o enredo deste teu romance, e porque não me queres dizer o nome desse homem, não é outra pessoa que não…

ROSALINA – Não é quem estás a imaginar. Ele não é daqui…

TERESA – Não é ninguém mais, que não Amândio! (Rosalina quase que desmaia. Tenta falar mas a língua fica-lhe pesada) Rosalina, pela nossa amizade, não me maltrates mais com este teu silêncio. Se és minha amiga como dizes, conta-me a verdade: esse homem de que falas é o Amândio?

ROSALINA – É… Perdoa-me! (Ela desmaia, Teresa tira um leque da sua mala e abana-a. Ela desperta a chorar) Perdoa-me, Terezinha, perdoa-me por amor de Deus…

TERESA – De quê é que me pedes perdão, minha infeliz amiga? Será que não sou mais culpada do que tu?

ROSALINA – Vocês é que merecem um ao outro. Podem casar-se e sejam felizes. Lá da eternidade abençoarei o vosso matrimónio e pedirei a Deus que vos proteja.

TERESA – O que disseste, Rosalina? Estás maluca ou tens o quê na cabeça? Mandas-me casar com um homem que foi namorado de uma outra rapariga e que a deixou desgraçada? Nem penses; ninguém mais do que tu merece casar com o Amândio. E ele está obrigado a isso.

ROSALINA – Não fales assim porque torturas-me o coração. O que ganharás se recusares um casamento que te tornará ainda mais importante?

TERESA – Tornar-me-á ainda mais importante! E a ti ele roubou o que tinhas de mais importante.

ROSALINA – Não reparaste que a mim me restam poucos dias de vida? Não vale a pena obrigares o Amândio a casar-se com cadáver.

TERESA – Tudo vai ser de forma que o vosso casamento parece uma coisa natural. Eu tomo conta disso.

ROSALINA – E tu, Teresa?

TERESA – Quando estiverem casados e felizes um com o outro, eu e a minha mãe iremos internar num convento até Deus nos convidar a abandonar este mundo.

ROSALINA – Mas isto não pode ser; é um sacrifício desesperado.

TERESA – Deus há-de de dar-me força e coragem suficientes para suportar.

ROSALINA – Eu é que não aceito. Nem que estivesse boa, quanto mais doente, quase a morrer.

TERESA – Ainda tens muito tempo para viveres, Rosalina; dentro em breve o Amândio te curará essa doença.

ROSALINA – Já te disse que não aceito, Teresa. A tua ação é muito bonita… e é generosa. Mas é como envenenar um bem para remediar um mal.

TERESA – Combinaremos isso da melhor maneira. E deixa-me ir porque ainda tenho mais visitas a fazer antes do almoço. (Levanta-se) Adeus, Rosalina. Da parte da tarde venho novamente visitar-te. E parece-me que já te trago boas notícias.

ROSALINA – Adeus, Teresa. Não te esqueças do que te disse; parece-me que nada me fará mudar de ideia.

TERESA – Depois falamos.

Ela sai.



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