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Por: Armindo Tavares

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CENA CLXXXIX

Dário realizou o seu exame de 2º ano do Ciclo Preparatório há 2 semanas. Chega da horta (de Jaracunda) com um cacho de banana ao ombro e encontra o irmão Nande à porta, ansioso à espera dele para lhe dar boas notícias.

NANDE – Passaste nos exames, Dário.

DÁRIO – Pasei!!!

NANDE – Dispensaste com a melhor nota de todos!

DÁRIO (põe o cacho de banana no chão) – Com quantos valores?

NANDE – Vocês são quatro que dispensaram. Atrás de ti foi a Suzete de Beija Alves e Pepinha. Ela dispensou com 14.

DÁRIO – Então eu tive quantos?

NANDE – Tu tiveste 15. Vais a oral só a Português com 15 também. (Dário pula de contente) Aquele rapaz manco… que anda com o rabo a arrastar no chão…

DÁRIO – O Djegui?

NANDE – Sim. Aquele que veio de lás dos Saltos. Ele dispensou com 13. Um outro teve 12, mas não o conheço.

DÁRIO – Estou muito contente, Nande. Obrigado. (Chora de emoção) Obrigado mesmo.

NANDE – Gosto muito de ti, mano.

DÁRIO – Agora não vou parar. Vou concorrer para professor e vou matricular-me numa secção do 5º ano.

NANDE – Tu vais conseguir, mano. Vais ser um grande homem.

DÁRIO – Se eu conseguir vaga como professor, pago-te escola se o papá não te puser.

Abraçam-se carinhosamente.

CENA CXC

NARRADOR – Dário foi professor numa Escola Primária enquanto estudava a secção de letras do 5º ano dos liceus. Fê-la num só ano, sem deixar nenhuma cadeira em atraso. Matriculou-se no curso do magistério Primário e, durante os dois anos do curso, concluiu o 5º ano e fez mais duas cadeiras do 7º. Isso possibilitou-lhe lecionar no Ciclo Preparatório. Foi colocado em São Vicente e levou o Nande consigo. Nande tinha feito a 4ª classe havia já 6 anos. Tal qual Dário, o pai não o deixou continuar. Em São Vicente Dário matriculou Nande na Escola da Igreja Batista, uma instituição privada, gerida pelo Pastor Evangélico, Sr. Ramos. Pagou-lhe as mensalidades e ele fez o 2º ano do Ciclo Preparatório. Prosseguiu os estudos na Escola Técnica e fez o curso de Eletricidade, ao mesmo tempo que completou o 5º ano dos liceus. Como eletricista trabalhou na Eletra em São Vicente. E concluiu o 7º ano como aluno externo. A Isa, entretanto, que havia chumbado na Pré-Primária, chumbou também 5 vezes na 4ª classe e 3 vezes no 2º ano do Ciclo. E já é mãe de duas filhas de pai incógnito, pese embora, mora ainda com a mãe e o padrasto. Aos vinte e tal anos de idade, invejando o sucesso do Dário e do Nande, Berta insistiu, com muito custo, que a filha fizesse o 2º ano. E fez a questão de migrar para São Vicente e acompanhá-la enquanto estudante de Contabilidade na Escola Técnica do Mindelo. Com o 7º ano dos liceus, Dário obteve um visto de turista para Portugal e por lá ficou. Estudou e formou-se em agronomia. Enquanto estudante, trabalhou nas obras de Construção Civil e nos armazéns dos Hipermercados e das lojas dos chineses. Cinco anos depois, voltou com um diploma de Engenheiro Agrónomo e continuou em casa do pai e da madrasta, em São Vicente.

CENA CXCI

Uma jovem santantonesa chamada Diana, cruza-se, numa rua do Mindelo, com o Dário. Dário diz-lhe “bom dia” mas ela não responde. Ela anda uns três metros mais à frente, esbarra numa casca de banana e cai. Dário vai ajudá-la a levantar-se.

DÁRIO (com ar cavalheiresco) – Magoaste, amiga?

DIANA (embaraçada) – Acho que não foi muito grave. (Arregaça um pouco a saia) Apenas me ardem estas escoriações… mas passam-se.

DÁRIO – Olha se não tens mais dores! Se te dói alguma parte mais, levo-te num posto médico, serás observada e tratada.

DIANA – Obrigada. Sinto-me bem. Muito obrigada.

DÁRIO – Espero que não passe de um simples susto.

DIANA – Não deve ser mais do que isso.

DÁRIO – Felizmente. Já agora… eu chamo-me Dário. E tu?

DIANA (ainda sem jeito) – Muito obrigada. Eu sou Diana.

DÁRIO – És daqui de São Vicente?

DIANA – Não. O meu pai e da Praia e a minha mãe de S. Nicolau. Nasci em S. Antão, onde o meu pai era professor e a minha mãe enfermeira.

DÁRIO – O teu pai é da Praia… Praia cidade, ou ilha? É que eu também sou Badio.

DIANA – Os Badios não precisam dizer que o são. Basta falarem-se.

DÁRIO – É verdade. Mas responde-me: O teu pai é da Praia cidade, ou da Praia ilha?

DIANA – Desculpa. Não me lembrava de que cá diz-se da Praia todas as pessoas da ilha de Santiago como e a ilha chamasse Praia! O meu pai é de Pedra Badejo, no concelho de Santa Cruz. A minha avó é de Chã de Níspre e o meu avô é de Achada Fátima.

DÁRIO – Então… estás cá de férias?

DIANA – Também não.

DÁRIO – Então?!…

DIANA – Conheces Santo Antão?

DÁRIO – Conheço alguns concelhos.

DIANA – Eu sou da Ribeira Grande.

DÁRIO – Conheço Ribeira Grande. Conheço Porto Novo e Ribeira Grande.

DIANA – Deves saber que em S. Antão só se estuda até o 5º ano dos Liceus.

DÁRIO – Infelizmente. Também é assim no interior da ilha de Santiago e, num passado não muito longínquo, mesmo na Capital só se estudava até a admissão. Quem quisesse estudar no liceu ou na Escola Técnica tinha que vir para São Vicente. E na Escola Técnica até ainda.

DIANA – Pois. Quando eu fiz o 5º ano – há dois anos – os meus pais mandaram-me para S. Vicente estudar o 6º ano. Fiquei hospedada em casa de um tio, irmão da minha mãe. Mas a minha tia, a mulher do meu tio, fazia-me muita descriminação com a minha prima, a filha dela.

DÁRIO – Infelizmente! E o teu tio lhe permitia isso?

DIANA – Coitado do meu tio! Lá em casa, e também nele, quem mandava era a mulher. O meu tio só lhe bancava e sustentava-lhe os caprichos.

DÁRIO – Os teus pais sabem disso? Não lhes chegaste a contar?

DIANA – Contei-lhes tudo. Por isso, este ano resolveram arrendar uma casa cá e vieram me acompanhar.

DÁRIO – E o emprego deles lá em Santo Antão?

DIANA – Já são reformados.

DÁRIO – Interessante! O teu pai é da Praia… a tua mãe é de São Nicolau… tu nasceste em Santo Antão! E de qual das ilhas tu consideras pertencer?

DIANA – Considero-me simplesmente uma cabo-verdiana.

DÁRIO (ri-se) – Não és Badia nem Sanpadjuda!

DIANA – O sangue Badio corre-me nas veias, mas do Sanpadjudu!… Népia!

DÁRIO – Não tens sangue Sanpadjudu?! A tua mãe não é de São Nicolau?

DIANA – A minha mãe é de São Nicolau. Não é Sanpadjuda.

DÁRIO – Se ela é de São Nicolau… não é Sanpadjuda?!

DIANA – Sanpadjudus são apenas os habitantes da ilha do Fogo. Como Badios são apenas os habitantes da ilha de Santiago.

DÁRIO – O quê?!

DIANA – Quando essas denominações surgiram, há cerca de 500 anos, apenas essas duas ilhas ainda eram povoadas.

DÁRIO – Não sabia disso!

DIANA – Pouca gente o sabe.

DÁRIO – Afinal a nossa História é muito mal estudada.

DIANA – Pois é. Os nossos governantes só se preocupam em distanciar-se e parecer-se diferentes de nós… mesmo sendo mais burros do que nós. Não se preocupam com o país, quanto mais com a História! Há muitos que se confessam enojados por serem de África e, muitos negam a sua africanidade.

DÁRIO (ri-se) – Os teus pais foram trabalhar para Santo Antão e nunca mais voltaram para suas Ilhas? 

DIANA – Definitivamente… não. Edificaram por lá um ambiente familiar com as pessoas, fizeram uma casa, tiveram filhos e acabaram por fixar ai a residência. Vão de vez em quando de férias, matar as saudades e rever famílias e amigos.

DÁRIO – Pelo que percebi, tens mais irmãos!

DIANA – Mais cinco: três rapazes e duas meninas. A minha mãe teve três partos… três casais.

DÁRIO – Teve gémeos três vezes seguidos?

DIANA – Eu não sou gémea de ninguém.

DÁRIO – Se são seis?!…

DIANA – No primeiro parto, ela teve um par de rapazes. Depois teve-me a mim. Por último deu à luz três gémeos: duas meninas e um rapaz.

DÁRIO – Que grande mulher!

Ele olha para o relógio.

DIANA – Já vi que estás com pressa. Obrigada mais uma vez.

DÁRIO – Não tens que me agradecer.

DIANA – Seria demasiado injusta e bastante deselegante se assim procedesse! Não achas?

DÁRIO – Não! Fiz o que qualquer pessoa do bem faria.

DIANA – Por isso é que te devo agradecer! Obrigada mesmo… do coração.

DÁRIO (estende-lhe a mão) – Adeus. Prometo ver-te mais vezes. Gostei de te conhecer e espero que não venhas a sentir dores mais tarde.

DIANA – Muito obrigada!

DÁRIO (começa a andar, para de repente e olha para trás) – Tenho por hábito ir todas as noites dar umas voltas na Praça Nova.

DIANA – Eu moro precisamente na Morada, naquele edifício atrás dos CTT.

DÁRIO – Então um dia desses a gente encontra-se e fala melhor. Tomamos um chá com Suzuda!

DIANA – Quando quiseres. Estar na Praça é o meu vício todos os dias, das 18 às 21 horas.

DÁRIO – Combinado.

DIANA – Adeus.

CXCII CENA

Diana dá voltas na Praça com algumas amigas. Dário está sentado num banco a ler um jornal.

DIANA (passa por ele) – Olá, Dário!

DÁRIO (levanta a cara) – Oi, Diana!

DIANA – Desculpa-me por ter-te desviado das tuas filosofias.

DÁRIO – Não faz mal. Já estás melhor?

DIANA – Olha… pronta para outra.

DÁRIO – Não brinques com essas coisas. Se soubesses como fui para a casa preocupado naquele dia!

DIANA – A sério?! Não acredito que assim ainda estejas! Estás com uma cara sorumbática! Como quem já não tem onde aconchegar lindos sorrisos.

DÁRIO – Neste mundo, e nesta terra em particular, dificilmente a gente tem motivos para sorrir.

DIANA – Porquê? O que aconteceu? (Dário mostra-lhe o jornal) Ave-maria! Dário?! Mais crianças raptadas?

DÁRIO – No jornal diz que o P.G.R. disse que elas estão todas bem.

DIANA – Então… graças a Deus. Que voltem o mais rapidamente para suas casas.

DÁRIO – Já estás boa? Totalmente recuperada?

DIANA – Completamente recuperada.

DÁRIO – Quando cheguei a casa, muito melancólico, o meu pai perguntou-me o que é que eu tinha, contei-lhe… coitado, ficou tão triste!

DIANA – Meu Deus!… O que é que foste contar ao teu pai?

DÁRIO – O que achas que eu lhe ia contar?

DIANA – Que tive um acidente?

Diana dá uma gargalhada.

DÁRIO – Contei-lhe que escorregaste, caíste e eu te ajudei a levantar.

DIANA – Mas não lhe contaste que atolei a mão na bosta do cão?! (Riem-se) Eu também contei à minha família como foste gentil comigo e ficaram contentes.

DÁRIO – Muito obrigado.

DIANA – Não me leves a mal… mas tu és um borracho. (Dário estende-lhe a mão e fá-la sentar-se) A minha família quer conhecer-te. E pediu-me ainda…

DÁRIO – O quê?

DIANA – Para convidar-te um lanche lá em casa um dia desses. Pode ser?

DÁRIO – Claro que pode. Para quando?

DIANA – Vou-me avir com eles, depois digo-te. Dá-me o teu número de telefone, ligo-te ainda hoje. Também se quiseres levar o meu!…

DÁRIO – Claro que levo. Aponta lá o meu: 311827. Se eu não estiver em casa pede para falar com o meu pai e deixa o recado. Se outra pessoa atender, não precisas de entrar em detalhes.

DIANA (acaba de apontar o nº do Dário) – Ok. Também aponta o meu número: 312718. Estou sempre em casa a partir das duas da tarde. E, ao contrário, se por qualquer eventualidade, também me ligaste e não estiver em casa, podes deixar o recado a quem te atender, que te ligo assim que eu chegar. Lá em casa ninguém esconde segredos de ninguém.

Diana levanta-se e despedem-se com aceno de mão.



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