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CENA CLXIX

No consultório do Mendinho Mendes estão vários clientes sentados numa sala à espera que chegue sua vez. Mendinho está num quarto contíguo, sentado num cadeirão, vestido com uma bata branca, com sete velas acesas em cima de uma mesa. E a frente dele está um cliente chamado Gaby. O quarto está atulhado de utensílios de trabalho como: sacos com ervas diversas, caveiras, ossos, crucifixos, imagens de Santos, calcinhas e soutiens de senhoras, ceroulas e peúgas de homens, envelopes com cabelos, fotografias, livros como a Bíblia, Santo Agostinho e São Cipriano; garrafas com aguardente misturado com: ervas, centopeia, perceves, limão, alecrim, alho e sangue-draga; uma caixa de cerveja e alguns maços de tabaco, entre outras coisas, fazem, também, parte do acervo.

MENDINHO MENDES (assopra 3 vezes numa garrafa de cerveja vazia e deixa-a cair. Levanta-se de seguida e começa a falar numa linguagem esquisita)Caraveiacaraveia! (Apanha duas garrafas de cerveja e abre uma com a outra) Tchigalotchigalo, moleque! (Abre um maço de tabaco, coloca 7 cigarros entre os dedos e leva-os à boca. Com o lume de um isqueiro ele acende todos os cigarros de uma vez e fuma) Bonas dias, moleque. Djoi soi Mobinga. O que é que o moleque quer?

GABY – Eu quero saber como é que a minha vida está?

MENDINHO MENDES (cheira-lhe toda a parte superior e frontal do corpo, segura-lhe na mão esquerda e observa-a atentamente) Daqui há três dias o moleque vai preso! Vai pro xilindró!

GABY (assustado e incrédulo) – O quê?! Vou preso! (Retira-se irritado e Mendinho acompanha-o até a porta) Mentiroso, sem vergonha! Vagabundo! Vai meter a boca naquela parte da tua mãe, lá de onde saíste!

MENDINHO MENDES (descontraidamente, volta outra vez e Pudoca entra atrás dele) – O que é que a Maria deseja?

PUDOCA – Eu vim trazer aquelas coisas que você me pediu. (Dá-lhe um envelope) Lá dentro está o pentelho do meu homem…

MENDINHO MENDES (devolve-lhe o envelope) – Isto é com o meu colega. Com o Mulatinho Preta. Ele já vem. (Cai na cadeira, pende o pescoço e levanta de um pulo) Eu é que sou o Mulatinho Preta de Achada Grande. (Passa a mão pelo cabelo como se está a pentear-se, apanha uma garrafa de grogue, serve um cálice e bebe) A Maria trouxe aquelas coisas?

PUDOCA – Trouxe, sim, senhor! (Dá-lhe o envelope, tira uma calcinha de dentro de um saco e dá-lha também) Esta é da mulher dele. Paguei a um puto para ir rouba-lha no secadoiro.

MENDINHO MENDES – Muito obrigado. Esse rapazinho é muito esperto.

PUDOCA – E no envelope está o pentelho que o Mulatinho me pediu. Consegui tirar-lho, porque ele estava moco. Pedi-lhe que deitássemos e fizéssemos a coisa nunpriti, ele concordou e, quando já estava a dormir, a ressonar, eu que já estava toda preparada com a minha tesoura debaixo do travesseiro, tosquiei-lhe o pentelho e ele nem se apercebeu.

MENDINHO MENDES – Podes ficar descansada, que ele vai deixar a mulher, e vai ficar só contigo.

PUDOCA – Mas eu não quero que demore muito, Mulatinho! A mulher dele está muito atrevida, só porque ela é casada com ele.

MENDINHO MENDES – Não vai demorar nada. Eu não brinco. O marido dela vai ficar só contigo. Ele ainda vai morar contigo.

PUDOCA – Isso mesmo! Deus lhe oiça, Mulatinho.

Ela mete a mão no bolso, tira umas notas e paga pelo serviço.

MENDINHO MENDES (conta as notas e guarda-as) – Muito obrigado.

Pudoca sai com a cara séria, Mendinho encosta a cabeça no cadeirão e fecha os olhos. Entra Nha Branca.

NHA BRANCA – Bom dia, Mobinga.

MENDINHO MENDES – Bonas dias, Maria.

NHA BRANCA – Mobinga, eu vim cá para você me ajudar, por que o meu homem já me deixou e vai-se casar com outra mulher.

MENDINHO MENDES – Muito bem. (Cheira-lhe, igualmente, toda a parte superior e frontal do corpo, segura-lhe na mão direita e olha-a fixamente) Abre os olhos; (Nha Branca obedece) tira a língua de fora. (Idem) Ok. Agora você vai ter que dar-me 28 tostões. (Ela abre a carteira, conta 28 tostões e dá-lhos. Depois de fazer alguns truques e orações, ele devolve-lhe as moedas) Vai guardar exas moedas muito bem guardadas e, durante xete xemanas, todos os domingos, tu vais mandar pôr um-crujado no xesto do peditório na mixa.

NHA BRANCA – Tenho que ir à missa, Mobinga?

MENDINHO MENDES – Não. Manda uma pexoa que xeja da tua confianxa.

NHA BRANCA – Vou mandar o meu filho Capede. Mas Mobinga, eu não quero que ele case com aquela xurika… com aquela nanprésta, bandida e vagabunda!

MENDINHO MENDES – Ele não vai cajar mesmo. Mas tens que fajer como eu te mandei. Tudo irá dar xerto.

NHA BRANCA – E quanto é que é o seu serviço?

MENDINHO MENDES – Xetenta e xete escudos.

Nha Branca paga pelo serviço, diz obrigado e sai.

CENA CLXX

O Curandeiro e uma Jovem de nome Tché estão sozinhos no consultório.

TCHÉ – Eu quero que você me ajude.

CURANDEIRO (com baralho de cartas na mão) Como é o teu nome?

TCHÉ – Tché! Chamo-me Tché de Praia.

CURANDEIRO (baralha as cartas, põe em cima da mesa) – Corta a carta. (A Tché obedece) Vou ver nestas cartas o que está a acontecer.

TCHÉ – Eu não sei o que está a passar, mas essa coisa não é limpa, senhor.

CURANDEIRO – Não te preocupes. Vamos já saber.

TCHÉ – É muito estranho, senhor! Já estamos com o casamento quase marcado… tudo já está preparado, e ele já não tem aparecido lá em casa há duas semanas!

CURANDEIRO (olha pelas cartas e franze a cara) – E nem vai voltar se não levantares os pés firme do chão.

TCHÉ – Credo, senhor! O que é que eu vou fazer? Então já ele não quer casar comigo?

CURANDEIRO – Se não fizeres nada… casar-se… ele casa. Mas com outra.

TCHÉ – E o que é que eu tenho que fazer? Eu quero que ele se case comigo e com mais ninguém!

CURANDEIRO – Posso impedi-lo de casar com outra, mas, que fique claro, que esse tratamento é demasiado delicado. É demasiado exigente.

TCHÉ – Demasiado delicado como? Por que é que é exigente? Se eu não tiver o dinheiro que chegue para lhe pagar, vendo a minha txubara. Ela está prenhe, mas não me importo!

CURANDEIRO – Não é por isso, minha filha. A questão é muito mais séria do que parece.

TCHÉ (muito nervosa) – Então é por quê? Diz-me! Diz-me, que eu faço tudo para lhe fazer casar comigo.

CURANDEIRO – O problema é conseguir material para esse tratamento.

TCHÉ – Que material? Então diz-me lá para eu ver se consigo arranjar.

CURANDEIRO – Tens a coragem?

TCHÉ – Não sei. Mas acho que tenho. Tenho sim.

CURANDEIRO – Embora não seja nada assim, doutro mundo, se na verdade estás interessada.

TCHÉ – Então diga-me. Diga-me, por favor. Claro que estou interessada. Interessadíssima!

CURANDEIRO – Vou precisar do teu líquido pós-orgasmo… do teu sémen para invocar e amarrar o espírito do teu noivo à Cruz do Santo Sacramento. Vocês foram vítimas de um poderoso feitiço, que só desse jeito poderá ser destruído.

TCHÉ – Mas como é que vou fazer isso, senhor. Eu nunca tive relações… o meu noivo já nem aparece…!

CURANDEIRO – Pois! E nem vai aparecer. Enquanto esse malfeito não for completamente quebrado, se ele aparecer em tua casa é para te dizer que já não quer casar contigo.

TCHÉ – Ave-maria! Prefiro morrer, senhor. Se ele casar com outra… eu morro.

CURANDEIRO – Tens é que ser forte. Muito forte.

TCHÉ – Mas, ser forte como? O que é que eu posso fazer para conseguir o que você me pediu, meu Deus?

CURANDEIRO – Nunca fiz esse favor a ninguém, mas dado a tua aflição, posso abrir uma exceção à regra.

TCHÉ (fica boquiaberta por uns instantes) – Sim, senhor. Pode, sim. Pode. Pode abrir a exceção. E muito obrigado. Deus lhe pague!

CURANDEIRO – Posso dar-te uma ajudazinha se na verdade queres fazer tratamento.

TCHÉ – Mas, que ajuda? Quero! Quero, eu quero, sim.

CURANDEIRO – Posso tentar ajudar-te a atingir o orgasmo e aproveito já do sémen para fazer o tratamento. Vais já daqui curada e o casamento vai realizar-se brevemente.

TCHÉ – Então vamos lá. Eu quero. Eu quero sim, senhor. Casar-me com ele… é tudo o que eu quero.

CURANDEIRO (levanta-se e vai até ela) – Vai-te encostar ali na parede e fecha completamente os olhos. (Tché obedece) Vais sentir uma mão a passar-te pelo corpo, a acariciar-te, mas não te assustes. Concentra-te firmemente, pense no teu noivo. Imagina que estão a namorar e que estás com vontade de fazer sexo com ele. (O Curandeiro passa-lhe a mão por todo o corpo e às tantas, tenta despir-lhe a calcinha. Ela vacila e o Curandeiro afasta-se, fingindo estar chateado) Já estragaste tudo.

TCHÉ (contrariada) – Desculpe… desculpe. Pode continuar. Não vou estorvar. Desculpe, por amor de Deus!

CURANDEIRO – Vou invocar o espírito do teu noivo e é com ele que tu vais estar por uns instantes. Concentra-te!

TCHÉ – Obrigada. Obrigada, senhor. Muito obrigada.

CURANDEIRO – Pensa nele. Somente nele.

TCHÉ – Ok. Estou a pensar nele. Só nele.

Tché começa a gemer e o Curandeiro a gaguejar. Depois ele prepara um amuleto e diz a Tché para meter dentro do seio e quando chegar a casa para deixa-lo à entrada.

CENA CLXXI

A Tché chega a casa e encontra o Noivo, Xibial, à sua espera. Fica com medo se o Noivo terá ido para lhe dizer que já não quer casar.

XIBIAL (levanta e vai ao encontro da Tché. Dá-lhe um abraço bem apertado) – Estás zangada comigo?

TCHÉ (indiferente) – Quando é que chegaste?

XIBIAL – Há bocado. Estás zangada comigo?

TCHÉ – O que é que vieste cá fazer?

XIBIAL – Vim te ver. Ou não queres que te veja?

TCHÉ – Vieste cá para me veres?!

XIBIAL – Sim.

TCHÉ – E porquê só agora?

XIBIAL – É que senti umas loucas saudades tuas.

TCHÉ – A sério?! Sentiste saudades minhas, na verdade?

XIBIAL – Sim. Há bocado estava a dormir, tive um sonho pior do que pesadelo.

TCHÉ – Que sonho? Que encontraste uma outra noiva melhor do que eu?

XIBIAL – Sonhei que estávamos a namorar e que chegamos mesmo a fazer aquilo que nunca quiseste que façamos.

TCHÉ – Ah, eh! Ok. Isso faremos quando nos casarmos.

XIBIAL – Quando acordei, tive que ir mudar de ceroulas.

TCHÉ – E o que andaste a fazer, que já não vinhas cá há duas semanas?

XIBIAL – Muito ocupado, querida.

TCHÉ – Ocupado?!!!

XIBIAL – Ocupado, sim, Tché. Sabes que tenho horta para cuidar, tenho alimárias e os meus pais já estão velhos. E sou o único filho que ainda vive com eles. Tive que ir a Assomada por três vezes, e ao Tarrafal duas vezes, destratar a papelada.

TCHÉ – Papelada para…

XIBIAL – Para o casamento. O dia já está marcado e os padrinhos já aceitaram o convite.

TCHÉ – Então queres casar comigo?

XIBIAL – Não quero casar-me contigo. (Tché arregala os olhos e, incrédula abre a boca) Vim dizer-te que eu vou-me casar… (faz uma pausa e a Tché fica transtornada) contigo.

Em lágrimas e soluços reiterados, Tché cola-lhe a cabeça ao peito.

TCHÉ – Desculpa-me. Desculpa-me, por favor.

XIBIAL – Desculpar-te por quê, querida?

Abraçam-se ternamente.

CENA CLXXII

Gaby está num bar, na companhia de Frank, um amigo que todos os fins-de-semana vai da Praia passar com ele em Pedra Badejo. Frank está acompanhado da Lumena, sua namorada. A Lumena é conhecida também pelo nome de Bem Boa.

FRANK (já um bocado ébrio e com uma garrafa de cerveja aberta à sua frente)Pocha, pah, Gaby! Tu não estás a beber e o homem que só bebe sumo é maricas! Quem bebe sumo é mulher. (Para Lumena) É ou não, Bem Boa?

GABY (com uma garrafa de sumo à frente) – Eu já vos disse porque é que não estou a beber hoje.

LUMENA – É verdade, Frank. Ele nos contou. E ele tem toda a razão.

FRANK – Ele não tem razão! Não está a beber porque agora ele é maricas.

GABY – Tem calma, Frank. Os três dias completam hoje. É só para Mostrar ao Mendinho que ele é mentiroso.

FRANK – Por causa do Mendinho tu sacrificas a vontade de um amigo? Bebe pah, caralho!

GABY – Não Frank.

FRANK – Mas não, porquê?

GABY – Amanhã bebemos.

FRANK – Pocha, pah. Já não estás mais aquele gajo porreiro que eras, pah!

LUMENA – Deixa o rapaz sossegado, Frank! Ele já não te disse que não quer?! E já não te disse porquê?

GABY – Sim. Ele já me disse. Mas porque é que ele não bebe pelo menos um copo? Pelo menos uma cervejola?

GABY – Amanhã eu bebo cervejolas. Vais ver.

GABY (seca a garrafa e aponta o dedo para balconista) – Traz mais uma cervejinha geladinha, Nha Preta!

LUMENA – Não, senhor! Nem mais uma. Já está bom de beber por hoje. Estás a ficar moco, e lembra-te que estás com carro e que vais conduzir!

FRANK – Ok. (Levanta-se) Então vamos embora.

LUMENA – É melhor mesmo.

GABY – Vocês podem ir, eu fico mais um bocadinho a ouvir música. (Entrega a chave à Lumena) Levem a chave, quando eu chegar eu bato à porta.

LUMENA – Ok. (Abraçada ao Frank) Vamos, Frank. (Frank fica a dar de lodo) Segura o corpo, rapaz!

Frank e Lumena saem, Gaby pede mais um sumo e continua sentado entre outras pessoas a ouvir música.

CENA CLXXIII

Gaby bate por várias vezes à porta, mas a Lumena e o Frank estão embriagados de sono. Ele vai trepar à parede do quintal, que também pertence à uma outra casa e umas pedras caem-se. A Joana, que é vizinha e co-proprietária do quintal, vai ver o que se passa e põe-se a brigar com Gaby.

JOANA – Mas o que é isto, Gaby?

GABY – Desculpe, Joana. Desculpe.

GABY – Viste como já arrombaste o quintal?

GABY – Foi sem querer. Amanhã eu mando arranjar a parede.

JOANA – Amanhã mandas arranjar a parede?! Não sei qual é a tua manha, mas alguma coisa estás a querer aprontar! Saltar o quintal a estas horas da madrugada?!

GABY – Não, Joana. Dei a chave ao meu amigo para ele vir deitar, ele está moco e não me ouviu a bater à porta. Como consigo abrir a porta do quintal, fui trepar o muro para entrar. Mas logo cedo mando arranjo a parede.

JOANA – Vagabundo! Não deixa uma pessoa dormir em paz em sua casa!

GABY – Desculpe-me, Joana. Desculpe!

A Joana entra e fecha a porta estupidamente à cara do Gaby. Mas ele não liga e vai para a sua casa dormir. Levanta por volta das 9h00 e vai a um descampado, à Ponta da Rocha de Covão de Salina, fazer necessidade. Depois, segue-se em direção à casa da avó para ir tomar o pequeno-almoço. Vê uma aglomeração de pessoas na rua da casa da Joana, vai lá ver o que se passa, é preso e levado para o Posto de Polícia, debaixo de AKM, espada e cassetete de Milicianos, sob ordens do chefe da Comissão de Moradores. Passa 24h00 detido.

CENA CLXXIX

Nha Branca prepara Capede para ir à missa. Depois de tudo preparado, dá-lhe um cruzado [4 tostões] para pôr no cesto do peditório.

NHA BRANCA – Leva este um cruzado e põe no cesto de oferta na missa. É para pagar uma promessa que fiz à Nossa Senhora de Fátima e ao Nhu Santiago Maior para fazerem de te um menino bonito e feliz.

CAPEDE – Ok. Tchau.

NHA BRANCA – Deus vai na tua companha.

Capede vai à missa e, mal chega à porta da igreja compra doces e rebuçados com os 4 tostões. Na missa, quando o cesto de oferenda passa por ele, às vezes ele está a chupar o rebuçado que comprou com o dinheiro. Nunca põe um centavo no cesto.

CENA CLXXX

Numa sala enorme está uma exposição com os materiais apreendidos ao Mendinho Mendes. Ele aparece algemado, dentro de uma cela no Posto de Polícia. Está rodeado de Polícias e de Milícias. O Advogado reúne-se com Bodona e Pedro Sabininha.

ADVOGADO – Porque lhe prenderam e têm os seus materiais em exposição?

PEDRO SABININHA – Porque é charlatão e anda a enganar os coitados.

ADVOGADO – Enganar coitados… como assim?

BODONA – Senhor Doutor, ele não pode ficar a enganar as pessoas dessa maneira e nós a assistir impávidos e serenos. Sem olhar para o lado.

PEDRO SABININHA – Ele não pode continuar a burlar os bens das pessoas do bem.

ADVOGADO – Burlar os bens das pessoas do bem! Já agora, quem é o senhor?

PEDRO SABININHA – Sou Juiz do Tribunal Popular.

ADVOGADO – E quem deu ordem de prisão ao senhor Mendinho Mendes e mandou apreender os seus materiais.

PEDRO SABININHA – Eu e o camarada Bodona. E nós responsabilizamos.

ADVOGADO – Tiveram um mandado do Juiz para o efeito?

BODONA – Tenho.

ADVOGADO – Posso ver? Podiam mostrar-mo? (Bodona tira o mandado da pasta e exibe-o perante o Advogado) Este mandado não tem validade.

PEDRO SABININHA – Não tem validade?!

ADVOGADO – Não está assinado.

BODONA – O Doutor não viu a impressão digital? Não viu o dedo na tinta?

ADVOGADO – Dedo na tinta?! Porquê?

PEDRO SABININHA – Fui eu quem assinei.

ADVOGADO – Este documento não está assinado! É preciso que volte a repetir?

PEDRO SABININHA – Não está assinado como, camarada. A minha assinatura é essa. É o meu dedo na tinta.

BODONA – Senhor Doutor, ele não sabe ler nem escrever, portanto é essa a assinatura dele.

ADVOGADO – Mas ele, por N razões, não tem competências para extrair um mandado desta natureza.

PEDRO SABININHA – Mas por que não? Eu não sou Juiz? (Tira do bolso da camisa uma folha do Boletim Oficial, muito velha, desdobra e apresenta ao Advogado) Olhe lá. A minha nomeação no B. O.

ADVOGADO – Isto não quer dizer nada, meu amigo. Pode estar nomeado no B. O. como Juiz, mas este processo não é da alçada e nem da competência dos Tribunais Populares. Outrossim, o meu constituinte não cometeu nenhum delito, nenhuma infracção, muito menos crime que implicasse esse tipo de procedimento… para não dizer: desrespeito.

PEDRO SABININHA – Então enganar as pessoas já não é crime mais?

ADVOGADO – Ainda que fosse, não seria da competência dos Tribunais Populares. Repito: não seria da competência dos Tribunais Populares, nem de um Juiz que não sabe assinar o próprio nome.

BODONA – A ordem foi dada por mim, camarada.

ADVOGADO – O senhor também já dá ordens judiciais? Posso saber onde está a base legal?

PEDRO SABININHA – Porque ele é chefe do Partido aqui na zona e é Combatente da Liberdade da Pátria.

BODONA – Sou Combatente e Primeiro Secretário do Partido deste concelho.

ADVOGADO – O que é que isso tem a ver? A Justiça é independente e por si só é um Poder. Ela não deve servir para engrandecer os seus agentes, mas para regular os quesitos e proteger os prejudicados. As vítimas.

BODONA – O Senhor Doutor não anda, certamente, a ler com atenção. Não anda atualizado. Anda desatento, distraído e, consequentemente, bastante desenformado.

ADVOGADO – Não admito ofensa, senhor Comandante e Primeiro Secretário do Partido.

BODONA – Não vejo ofensa nisso.

PEDRO SABININHA – Quem nos está a ofender é o senhor, que não quer que eu assine conforme sei.

ADVOGADO – O senhor não assinou coisa nenhuma.

PEDRO SABININHA – Está a ver que me ofende?! Não está assinado com o meu dedo indicador na tinta?

BODONA – Senhor Advogado, seja como for, na qualidade de Combatente da Liberdade da Pátria e Primeiro Secretário do Setor do Partido, com poderes conferidos no Artigo 4º da nossa Constituição da República, que diz: O Partido é a Força Política que dirige o Estado e a Sociedade, Eu me responsabilizo por esta prisão e apreensão.

ADVOGADO – Muito bem. Então já não vale a pena continuarmos com a conversa.

PEDRO SABININHA – O senhor é que sabe. Quando o camarada Comandante andava no mato, com AKM em punho a dar tiro contra os Tugas, você, certamente, estava a andar atrás da irmã, ou prima dele para fazer sua mulher. Cagüete!

ADVOGADO – Vou entrar imediatamente com um pedido de Habeas Corpus para o meu constituinte.

Vira-lhes às costas e vai embora.

BODONA (para Pedro Sabininha) – Este gajo está armado em carapau de corrida! Mas como já lhe demos lição, já lhe mostramos que também percebemos de leis, vamos soltar o homem e entregar-lhe os seus materiais.

PEDRO SABININHA – Mas o seu tio quer que ele fique preso.

BODONA – Eu vou falar com o meu tio.

PEDRO SABININHA – Então está bem.

Aproximam-se e abraçam ternamente.

 

 



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