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Por: Armindo Tavares

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Novamente, Lala está no consultório do Curandeiro.

CURANDEIRO – Então? Resultou ou não?

LALA – Não! Estava quase, mas não resultou!

CURANDEIRO – Por que é que não resultou? O que foi que falhou?

LALA – Coisa estranha, senhor!

CURANDEIRO – Ah, eh?! Que coisa? Estranha porquê?

LALA – A comadre levou-me para o quarto, eu já nunpriti e com o candeeiro apagado, senti chicote a vergastar-me nas costas e na mama-cadeira… sai assim como estava e corri como um doido.

CURANDEIRO – O finado do teu compadre cascou-te?

LALA – Só pode ser ele, senhor.

CURANDEIRO – Espera aí… (olha para as cartas e finge verifica-las) Já vi porquê.

LALA – Porquê?

CURANDEIRO – Não devias ter ido para o quarto que já foi dele. Quando se destouca uma viúva, pela primeira vez não se deve entrar no quarto dela, nem usar a cama onde ela e o marido se deitavam.

LALA – Então porque não me avisou naquele dia?

CURANDEIRO – Não me disseste que ias entrar no quarto. Eu mandei-te experimentar falar com ela, mas não fazia ideia de que ias conseguir tanto.

LALA – E agora?…

CURANDEIRO – Agora tens que ir falar de novo com ela. Inventa lá uma desculpa qualquer.

LALA – Já sei como lhe vou dizer.

CURANDEIRO – Como?

LALA – Vou dizer-lhe que, como ela se recusou ficar nunpriti, o compadre se chateou.

CURANDEIRO – Muito bem! Já vi que és perito em destoucar viúvas!

LALA – Já destouquei mais de não sei quantas!

CURANDEIRO – Também o Lala não é feio… nem é mariadu! Dificilmente uma viúva consegue resistir a esses teus olhos carambolados!

LALA (ri-se) – Até me apelidam de Larachado. E João Cirilo pôs-me na gaita: Filho amaldiçoado / Destoucador de Viúvas / Homem sem piedade / Homem sem consciência / Viúvas, ele reservou para ele / Os vizinhos expulsaram-no.

CURANDEIRO – Valeu! Mas agora já sabes: no quarto dela e em cima da cama onde ela dormia com o teu compadre, só depois do terceiro encontro.

LALA – Agora já sei. Vou levá-la para trás da cocheira onde amarro o burro.

CURANDEIRO – Mais uma coisa: quando estiverem a matar o porco… não a deixes chorar antes de ti.

LALA – Para não deixar que ela chore antes de mim?! Então eu tenho que chorar?!

CURANDEIRO – Tens… tens!

LALA – Mas porque é que eu tenho que chorar? Chorar sem mágoa?!

CURANDEIRO – Se ela chorar antes de ti, voltará a ficar viúva outra vez.

LALA – Credo, senhor! Ela voltará a ficar viúva?! Morrerei?

CURANDEIRO – Como dois mais dois são quatro. Destoucar uma viúva não é coisa de brincadeira.

LALA – Mas eu já destouquei tantas… não chorei e ainda não morri!

CURANDEIRO – E elas choraram?

LALA – Algumas… sim.

CURANDEIRO – Então não deve ter sido tu o primeiro. O caminho já havia sido, certamente, desbravado.

LALA – Fui eu, sim. Elas juram que fui eu que as destouquei!

CURANDEIRO – Diz-me o nome de uma, por exemplo, para eu ver nas cartas.

LALA – Tantarutxa, Rixéla, Xipiróta, Maria Poi-Tudo, Tché, Fatona…

CURANDEIRO – A Rixéla disse-te que foste tu que a destoucaste?

LALA – Disse. E é uma das que me dá remoque sempre que me encontra. Mesmo agora que ela vive com outro marido, sempre que encontra comigo, desafia-me: mofino! Tiraste-me o véu da viúva e nem responsabilizaste. Quando a destouquei o marido dela ainda não tinha um ano morto.

CURANDEIRO – Coitado! A Rixéla andava com o meu irmão, quando o marido ainda era vivo. E no dia que ela enterrou o marido, o meu irmão dormiu em casa dela. Como é que ela pode dizer que foste tu que a destoucaste?

LALA – Ah, é! Então ela é mentirosa?

CURANDEIRO – Mentirosa e grande bandida. E não é só ela! Todas as outras que também estavas convencido de que destoucaste, são Pixinguinhas. Grandes bandidas. Tu encontraste sempre foi korkoróta no fundo da caçarola.

LALA – Mas a comadre Nhamina eu tenho a certeza que ela ainda está viúva. Ela é muito séria. Muito religiosa. E a ela vou destoucar de certeza.

CURANDEIRO – De qualquer maneira, põe-te a pau. Fica ciente. Tens que abrir mais as pestaninhas! Este mundo não é de macacos. É para macacos.

LALA – Você já me meteu medo. E já me pôs no trabalho a sério!

CURANDEIRO – Se não queres ir morar para a Casa Para Todos, faz como te disse. Senão vais ficar vizinho do teu compadre, e é aí que ele vai chicotear-te.

LALA – Credo! (Riem-se) Ok. Com a comadre vou tentar chorar. É claro que não quero morrer! A Casa Para Todos que fique para quem a fez ou para quem quer aproveitar-se dela para o proveito próprio.

CURANDEIRO – E deves levar uma faca, antes de começares o açougue, aplica sete golpes ao colchão.

LALA – Para quê?

CURANDEIRO – Para espantares o espírito do falecido.

LALA – Tá bem. Muito obrigado.

Levanta-se e despede.

CENA CLXVI

O Curandeiro, a mulher e os filhos, o Bodona e o Pedro Sabininha estão na sala de jantar, sentados à mesa a almoçar guisado de mandioca e massa de milho com carne de capado acompanhado com xerém. Para beber, têm vinho, grogue, sumo de Calabaceira e Tamarindo. Enquanto vão comer, vão conversando.

BODONA – A fama do tio está a correr o mundo. Todos estão a dizer que é um grande mestre.

CURANDEIRO – Eu já dei provas do meu trabalho, sobrinho! (Para Pedro Sabininha) E o Sr. Juiz que o diga! (Para Bodona novamente) Ele sabe.

PEDRO SABININHA – Então não sei?! Eu sou testemunha.

CURANDEIRO – Ainda bem!

PEDRO SABININHA – Bebia que nem um funil… não foi você quem me curou?…

BODONA – O papá contava-nos, também, que havia um tal Mulatinho Preta de Achada Grande, que era muito bom.

CURANDEIRO – Conheço muito bem a estória do Mulatinho. Era funcionário da Imprensa Nacional e tinha manias de ler livro de Santo Cipriano. Ele só praticava magia negra para conseguir mulheres.

PEDRO SABININHA – Tenho ouvido algumas estórias dele e confesso-vos que me metem medo.

CURANDEIRO – Muitas coisas que dizem sobre ele não é verdade. Ele era farompeiro, sim, as pessoas acreditavam nele.

BODONA – O papá costumava contar-nos que, certo dia, dois pescadores estavam no alto mar a pescar, que fazia muito calor e um deles resolveu dar um mergulho para refrescar-se. Que mal cai à água, voltou assustado ao bote, a dizer: - «Vi o Mulatinho Preta no fundo do mar, deitado de costas, a ler o livro de Santo Cipriano!»

PEDRO SABININHA – Ele não era limpo, certamente!

O Curandeiro ri-se.

BODONA – E contou ainda, que o meu avô lhe contara, que uma vez o Sr. Fernando Sousa, que era branco e tinha um navio que fazia viagens para Lisboa, cruzou-se com Mulatinho Preta no Rossio. Que Mulatinho esticou-lhe a mão para o cumprimentar, mas que o Fernando Sousa o deixou com a mão no ar, e disse-lhe que não ia sujar a sua mão na pele de um negro.

PEDRO SABININHA – Também costumo ouvir essa estória. Dizem que Mulatinho era preto, mas que tinha a pele brilhante e textura fina. Que o cabelo também era negro, liso e que ficava ondulado quando o untava com vaselina.

CURANDEIRO – Estilo de pessoas impostoras.

BODONA – O meu pai disse que Mulatinho virou-se e disse ao Fernando Sousa: - «Este Preto ainda há-de fazer com que o Branco deixe de ser enxergado». – Que três dias depois, Fernando Sousa arrancou o seu navio ruma a Cabo Verde, que já nas águas do arquipélago o navio deixou de ser visto. Que esteve três dias à deriva, com barcos e aviões à sua procura, sem sucesso. Que a Rádio Clube de Cabo Verde não parava e nem se cansava de noticiar o facto.

PEDRO SABININHA – Credo! Ele não era limpo, não.

CURANDEIRO – O navio não tinha desaparecido nada. Já me contaram isso várias vezes e já lhes disse que era no mês de Dezembro e que fazia nevoeiro.

BODONA – Mas o meu pai acreditou. Ele disse-me que uma irmã do Fernando Sousa, que assistira a cena no Rossio, pediu aos familiares na Praia para que fossem pedir desculpas ao Fernando Sousa e pedir-lhe de esmola que retirasse o feitiço ao navio do seu irmão. E contou-lhes o que se passara em Lisboa. Que o Mulatinho disse aos familiares, que tal dia, às tantas horas, o navio haveria de aparecer em tal sítio. E que no timing estabelecido, a Rádio Clube de Cabo Verde anunciava insistentemente que o navio do Fernando Sousa havia aparecido no local anunciado, e que toda a tripulação se encontrava bem.

O Curandeiro serve mais uma rodada para todos, bebe o dele de um só gole e levanta-se.

CURANDEIRO – Vocês dão-me licença. (Vai dar ao Pedro uma palmadinha no ombro) Anda cá, Sr. Juiz.

BODONA (levanta-se) – Não, tio.

CURANDEIRO – Não, porquê?

BODONA – Nós é que saímos. Vocês ficam aqui, nós é que vamos para sala. Vamos ouvir um pouco de música. (Para a mulher e os filhos do Curandeiro) Vamos, tia! Primos vamos ouvir música na sala.

CURANDEIRO – Obrigado, meu sobrinho!

Saem todos, ficam o Curandeiro e o Pedro Sabininha. O Curandeiro serve um grogue para ele e um sumo de Tambarinas para Pedro. Apanha dois nacos de carne, dá um ao Pedro e come o outro.

CURANDEIRO – Pois, Sr. Juiz, preciso de um apoio seu.

PEDRO SABININHA – Com certeza, evidentemente, off course.

CURANDEIRO – Os clientes estão a fugir de mim…

PEDRO SABININHA – Porquê?

CURANDEIRO – Dizem que um fanfarrão que veio de São Tomé e Príncipe…

PEDRO SABININHA – Ah, eh?!

CURANDEIRO – Está a armar-se em mestre e as pessoas agora vão quase todas para ele.

PEDRO SABININHA – Acho que já ouvi falar desse mestre. Não é aquele que trabalha com espíritos?

CURANDEIRO – Exatamente. Mendinho. Chama-se Mendinho Mendes. Mas é mentira, Sr. Juiz. Ele bebe grogue e cerveja, fica bêbado e engana as pessoas.

SABININHA PEDRO – Dizem que ele encarna um espírito que se chama Mobinga, espírito de um médico, que bebe uma caixa de cervejas e fuma sete cigarros de uma vez só antes de começar o trabalho.

CURANDEIRO – Tudo montagem… Sr. Juiz. Ele está a enganar as criaturas.

PEDRO SABININHA – Um primo meu disse-me que foi lá, por causa de uma menina por quem ele estava apaixonado, e que o homem trabalha com sete finados que encarnam nele.

CURANDEIRO – Sete mentiras saindo da boca dele. Por isso mesmo é que me lembrei, agora que estamos a falar do Mulatinho Preta de Achada Grande.

PEDRO SABININHA – É precisamente o espírito desse Mulatinho Preta de Achada Grande que o meu primo disse que o homem invocou para tratar do seu assunto.

CURANDEIRO – É um grande mentiroso!

PEDRO SABININHA – Ok. Então… em que é que eu lhe possa ajudar?

CURANDEIRO – Quero que arranjem forma de o prender… de estorvar-lhe de me concorrer.

PEDRO SABININHA – Irei estudar o caso e verei o que fazer. (Olha fixamente para o Curandeiro) E para isso irei precisar do apoio do seu sobrinho. Do Comandante Bodona.

Neste momento Bodona chega com o seu copo vazio.

BODONA – Desculpem-me. Vim só encher o meu copo.

Pega na garrafa e serve no seu copo.

CURANDEIRO (seca também o dele e pega na garrafa) – Já agora… mais uma peça que leva.

Ele enche o seu copo, pega na garrafa do sumo de Tamarindo e enche o copo do Pedro.

PEDRO SABININHA – Muito obrigado! (Para Bodona) Camarada Comandante…

BODONA – Em quê vos posso ser útil?

CURANDEIRO – Senta-te aqui. Por acaso já te íamos chamar.

PEDRO SABININHA – Camarada Comandante, o seu tio está a precisar de um serviço nosso.

BODONA – Onde está o problema? E qual é o serviço que de nós o tio está a pretender?

PEDRO SABININHA – Tenho uma tarefa a executar, quando regressarmos à base, mas espero contar com o seu habitual apoio.

BODONA – Com certeza, claro, evidente e off course. De que trabalho se trata?

CURANDEIRO – O sobrinho sabe daquele mestre, daquele impostor que veio de São Tomé e Príncipe há coisa de dois anos?

BODONA – De quem o tio está a falar?

CURANDEIRO – Chama-se Mendinho Mendes?

BODONA – Aquele que dizem que trabalha com os espíritos.

PEDRO SABININHA – Sim, senhor. É ele mesmo.

CURANDEIRO – Não sabias que ele anda por aí a enganar muita gente?

BODONA – Não!… Antes pelo contrário. Até tenho ouvido falar muito bem dele! E curiosamente, dizem que o espírito do Mulatinho, que há bocado estivemos a falar, também encarna nele!

CURANDEIRO – Mentiroso é o que ele é!

PEDRO SABININHA – Ele anda a ratoneirar as pessoas e já aldrabou todos os clientes ao seu tio. Ouvi dizer que a casa dele está sempre cheia de gentes.

CURANDEIRO – Ele está a concorrer-me descaradamente. Por isso acho que vocês devem ajudar-me a dar um jeitinho nele.

BODONA – Que jeitinho? De que maneira?

PEDRO SABININHA – O seu tio quer que o prendamos. Como acha o camarada Comandante?

CURANDEIRO – Todos os meus clientes agora só vão para a casa dele.

BODONA – Ok. Então se a solução está nas nossas mãos, o tio vai recuperar já os seus clientes.

PEDRO SABININHA – Então vou mandar os meus milicianos prendê-lo com toda a sua bugiganga.

BODONA – Apoiado.

CURANDEIRO – Aleluia. Deus te oiça, sobrinho!

BODONA – Até porque, existem queixas contra esse homem. Duas pessoas terão morrido quando regressavam da casa dele.

CURANDEIRO – Eu sei disso.

BODONA – Tinha dito que toda a gente gostava dele, mas agora me lembrei disso. Que é suspeito de dois homicídios.

CURANDEIRO – Disseram-me que o Hospital mandou desenterrar o corpo, retirou alguns órgãos para mandar examinar em Portugal.

BODONA – É verdade. E estão à espera dos resultados.

CURANDEIRO – Por favor arranjem uma forma de o prender. O senhor juiz não fica a perder comigo.

PEDRO SABININHA – Você pode ficar descansado. Como lhe disse, vou já ver como mandar prendê-lo, ele e todos os seus materiais.

CURANDEIRO – Muito obrigado. (Apanha a garrafa de aguardente) Vai mais um pé.

Brindem-se.



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