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Por: José Luis Hopffer Almada

 José Luis Hopffer almada

  1. NOTAS INICIAIS SOBRE O BILINGUISMO CABO-VERDIANO COM PARTICULAR INCIDÊNCIA SOBRE AS COMUNIDADES CABOVERDIANAS DA DIÁSPORA

     É sabido que o bilinguismo é uma das características fundamentais das comunidades caboverdianas residentes nas ilhas e nas diásporas, consideradas em conjunto ou de forma isolada.

   Se no solo pátrio das nossas ilhas, a língua materna caboverdiana convive com o português, desde há muito, desde a hora inicial do seu parto a partir também do ventre co-matricial dessa língua europeia que era o português arcaico desses recuados tempos quinhentistas, persistindo esse convivio até à actualidade dos nossos dias, no quadro da diglossia ainda predominante no nosso país, nas diásporas a língua caboverdiana e as suas diferentes variantes dialectais insulares e regionais andam de mãos dadas com as línguas dominantes nas respectivas comunidades dos países de acolhimento dos expatriados caboverdianos, também eles muitas vezes, se quiserem, pátrias natais de acolhimento dos descendentes dos imigrantes das nossas ilhas afro-crioulas.

     Neste contexto, diferenciado e linguisticamente multifacetado, o crioulo ou, melhor, a língua caboverdiana, foi e continua a ser o principal signo identitário e, por isso mesmo, ainda que em alguns casos somente em potência, o principal elo de ligação, de identificação e de comunicação entre os caboverdianos de todos os tempos e lugares, situados nas ilhas e nas diásporas, localizados nos lugares do passado, do presente e do futuro do nosso povo disperso pelo mapa-mundo da sua alma migratória e dos pés andarilhos do globo dos seus filhos emigrantes na sua demanda de sempre de uma vida cada vez melhor.

     Língua plenamente oficial da nossa república independente e soberana, língua de escolarização e de formação das nossas crianças, dos nossos jovens e dos nossos adultos no ensino formal ministrado nas nossas ilhas, língua propiciadora do mais imediato acesso das populações do nosso arquipélago aos repositórios e aos cativantes mundos das ciências e da técnica moderna, o português tem sido igualmente língua depositária de grande parte (talvez de parte esmagadora) da nossa literatura e da nossa cultura erudita bem como dos arquivos escritos da nossa memória histórica, política, jurídica, social, económica, cultural, técnica, científica, jornalística, etc., acrescendo ainda e ademais em seu favor a sua condição de língua seladora da nossa pertença à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), bem como a sua função de mais importante instrumento linguístico de comunicação formal oficial e internacional do nosso povo soberano e dos representantes do nosso Estado independente com a Comunidade Internacional das nações soberanas e independentes e com as suas inúmeras organizações intergovernamentais e supranacionais.

   Adite-se ainda a favor do português a circunstância de ele se ter tornado língua materna ou primeira de muitos descendentes de caboverdianos nascidos nas diásporas caboverdianas radicadas em países lusófonos, com destaque para aqueles nascidos e crescidos em Angola, no Brasil e em Portugal, sendo de se destacar que, neste último país, é cada vez mais crescente a tendência para os pais caboverdianos comunicarem directamente em português com os seus filhos nascidos ou em processo de crescimento nesse país. Tal circunstancialismo, novo em vários aspectos, deve-se a vários factores, devendo-se sublinhar de entre eles:

1) O facto de as novas vagas de emigrantes caboverdianos integrarem pessoas escolarizadas em português no país natal e, deste modo, serem detentoras de capacidades reais, ademais susceptíveis de rápido aperfeiçoamento, para um domínio suficiente dos códigos oral e escrito da língua portuguesa - sublinhe-se que ao contrário das primeiras vagas de “lisboetas” (termo dantes utilizado nas ilhas para designar os emigrantes caboverdianos radicados em Portugal) constituídas maioritariamente por monolingues, nativos em idioma crioulo.

2) Uma assumida vontade de integração na sociedade de acolhimento, favorecida por uma cada vez maior e mais plena consciência dos seus direitos humanos de moradores do mundo e acelerada pelo progressivo desaparecimento dos bairros degradados de segregação social, habitacional, cultural e linguística, e por uma nítida melhoria das condições de acesso aos instrumentos jurídico-legais, sociais, económicos e políticos da cidadania, incluindo a residência legal e a nacionalidade portuguesa.

3) Uma maior exposição das crianças de origem caboverdiana à cultura e à língua portuguesas dominantes no país de acolhimento, com destaque para as creches, os jardins-de-infância, as escolas de diferentes níveis, os espaços públicos de trabalho, de lazer e de diversão e os meios audiovisuais de comunicação de massas, com concomitante diminuição da influência da cultura e da língua dos pais imigrantes. Sendo visível a exacerbação desses processos no seio das franjas de caboverdianos regressadas do antigo Ultramar Português e daquelas detentoras de um mais elevado estatuto social e económico, as quais quase sempre incutiram nos seus descendentes residentes em Portugal o valor da língua portuguesa como língua primeira, ela é igualmente potenciada com o surgimento das segundas e sequentes gerações de caboverdiano-descendentes de diversificadas pertenças e categorias sociais. Nestes casos, a maior ameaça ao bilinguismo característico (mesmo se somente em potência) das comunidades caboverdianas passa a residir no risco adveniente da cada vez mais escassa utilização da língua caboverdiana pelos caboverdiano-descendentes, tendendo a língua das nossas identidade e unidade (trans)nacionais para a rarefacção e o progressivo desaparecimento no tráfego linguístico das diásporas, caso se não tomem as medidas adequadas a essa situação de emergência cultural. Sendo a situação acima descrita detectável nos demais países das diásporas, com destaque naqueles onde se vem processando uma melhor integração cidadã das comunidades caboverdianas, pode-se concluir que existe um real risco de a língua caboverdiana deixar de desempenhar cabalmente o seu papel de principal símbolo e testemunho da nossa identidade nacional crioula e de essencial elo linguístico entre as diferentes comunidades caboverdianas das diásporas e entre elas e as nossas ilhas afro-crioulas.

     Nesta óptica e neste contexto, parece-me pertinente assinalar-se a publicação num tempo relativamente recente de uma versão trilingue (português, caboverdiano e inglês) do livro de poemas Sonho Sonhado, de Carlota de Barros, por isso e doravante transmutado em Sonho Sonhado, Sonhu Sonhadu, Dreamt Dream. Cabe aqui sublinhar, pela sua particular relevância, a circunstância de se fazer constar do mesmo livro uma versão (ou, se quiserem, uma tradução) em inglês dos poemas integrantes da obra acima referenciada. Língua segunda da grande maioria daqueles integrantes das nossas comunidades nos Estados Unidos da América originários das ilhas, quiçá, língua terceira daqueles expatriados caboverdianos portadores de uma formação secundária, superior ou, por outra forma, erudita lusófona adquirida nas ilhas e/ou em outros lugares do estrangeiro, e língua primeira dos seus descendentes nascidos e/ou crescidos na América, o inglês é, ademais, a principal língua de negócios, do entretenimento mediático, de vários ramos das ciências contemporâneas, da diplomacia e da comunicação internacional. Deste modo, a versão em inglês dos poemas de Sonho Sonhado permite satisfazer de algum modo a eventual curiosidade de caboverdianos-americanos, de outros integrantes das nossas diásporas e de estrangeiros anglófonos que não dominem de forma suficiente a língua portuguesa e, em menor medida, a língua caboverdiana, e assim contribuir para o conhecimento de um bom exemplo de poesia caboverdiana contemporânea por não falantes do português ou do crioulo caboverdiano. Também nesse desiderato, o livro trilingue dado à estampa sob o triplo título Sonho Sonhado, Sonhu Sonhadu, Dreamt Dream afigura-se-me como portador de elevado valor simbólico no que respeita às muitas pugnas actuais dos caboverdianos das diásporas na busca da sedimentação da sua dupla (múltipla) pertença identitária, da sua bi(multi)patridia político-estadual e da sua cidadania do mundo.

     É neste contexto que também devem ser encaradas as recenes traduções para inglês dos romances A Louca de Serrano, de Dina Salústio, e Chiquinho, de Baltasar Lopes, na senda, aliás, de traduções de obras de ficção e de poemas avulsos de autores caboverdianos para outras inúmeras línguas, tais o francês, o alemão, o russo, o castelhano…

     Traduções que, aliás, dão continuidade a trabalhos anteriores, de carácter pioneiro, como, por exemplo, a recolha e a tradução para o inglês por Elsie Clew-Parsons de contos tradicionais caboverdianos cultivados na comunidade caboverdiana dos Estados Unidos da América e a tradução para o inglês por Rendall Leite de alguma poesia, quase que exclusivamente em português, de Jorge Barbosa.

   2.BILINGUISMO LITERÁRIO E ELITES LETRADAS CABOVERDIANAS

       País africano e Nação crioula soberana em resultado de um longo processo histórico de emancipação social, cultural, cívica e política, Cabo Verde viu desde cedo grande parte das suas elites letradas reconhecerem o valor do nosso idioma materno nas suas inalienáveis e intransmissíveis funções identitária e estabilizadora da multissecular singularidade cultural do nosso povo (sublinhe-se que ao contrário do ocorrido e observado em outras latitudes tal como nós igualmente submergidas pelas tentativas de etnocídio e de genocídio culturais e pelas políticas de assimilação às culturas metropolitanas opressoras).

     Simultaneamente e no mesmo tempo histórico, os integrantes das mesmas elites empenharam-se, por vezes com o rigor do gramático (como diz Dulce Almada Duarte no seu festejado livro Bilinguismo ou Diglossia?) e a desenvoltura do estilista abalizado, acrescentamos nós, no estudo aprofundado com vista ao domínio seguro de todas as nuances, de todas as maravilhas e de todas as armadilhas da língua da pátria imperial de então, que era o português, e dos seus maiores cultores, com destaque para Luís Vaz de Camões, desta língua portuguesa tida, então como agora, como meio imprescindível para a promoção económico-social das nossas gentes e para a chamada aristocratização cultural do negro, do mulato e do branco caboverdianos, na antiga terminologia de Baltasar Lopes da Silva e dos demais claridosos.

   Deste modo, laborando no seio de um povo antes de mais (auto) identificado como nativo da terra e da língua crioulas caboverdianas, convivendo com uma população maioritariamente monolingue numa terra de elites culturais, sociais, económicas e administrativas assumida e orgulhosamente bilingues e dilaceradas pela cissiparidade pátrida (na feliz expressão de Manuel Ferreira), testemunhas quotidianas e espectadoras privilegiadas das muitas e, por vezes, hilariantes incongruências da diglossia, alguns desses letrados das fases nativista, claridosa e nova-largadista (todas, aliás, situadas na época colonial do tempo da nossa multissecular História), para além de terem lançado os caboucos para a edificação do nosso sistema literário nacional, logrando posteriormente inventar o chamado português literário caboverdiano de feição claridosa e de contínua e sempre criativa reinvenção na literatura caboverdiana que se lhe seguiu, puderam cultivar o seu entranhado bilinguismo com engenho e arte, com esforços mil e muito espírito de missão. Não só, por um lado, no quadro da oralidade lusófona dos hábitos elitistas dos intelectuais de outrora, aliás tradicionais e conformes com os seus tempos de vida e de História, e da escrita lusógrafa do seu ofício e do seu labor de letrados, e, por outro lado, no quadro da oralidade em língua caboverdiana na domesticidade do lar e no tráfego quotidiano com os patrícios de diferentes estratos sociais, mas também num outro patamar, mais elevado, designadamente o da criativa conjugação da lusografia com a crioulografia. Deste modo, puderam esses nossos escritores contribuir de forma relevante para que, no domínio da escrita, a língua portuguesa e a língua caboverdiana pudessem exercer funções complementares, se bem que no restrito, desequilibrado e instável quadro propiciado pela diglossia, então como agora, ainda dominante, e em espaços vizinhos, se bem que claramente delimitados e assaz circunscritos e compartimentados, como atestam as temáticas, as linguagens e as estilísticas diferenciadas dos poemas em português e em crioulo de Eugénio Tavares, Pedro Cardoso ou Francisco Xavier da Cruz (o B. Lèza das belíssimas mornas, destacando-se de propósito, neste momento e neste contexto específicos, a morna “Ondas sagradu di Teju/Ondas sagradas do Tejo”).

     Destaque-se na retrovisão desses tempos pioneiros iniciais, a obra de António da Paula Brito que, com rara coragem e profícua competência, empreendeu o primeiro estudo aprofundado e científico da língua cabo-verdiana na sua variante-matriz santiaguense, em especial da sua morfossintaxe, para tanto utilizando tanto o português como o caboverdiano como línguas de elaboração do ensaio-estudo resultante do seu labor e publicado em 1887 na revista da prestigiada Sociedade de Geografia de Lisboa. Ademais e de forma surpreendente, logrou António da Paula Brito criar um alfabeto de base fonético-fonológica para a escrita do idioma das nossas ilhas (o primeiro, diga-se, da História na grafia da língua caboverdiana). Infelizmente, o fecundo labor de António da Paula Brito parece não ter tido continuadores no que respeita a cultores do alfabeto por ele criado, o qual parece ter sido vítima, se não de deliberada ocultação, pelo menos de uma ampla amnésia colectiva durante quase um século. Felizmente que o seu interesse pelo estudo da língua cabo-verdiana teve muitos e competentes émulos que, todavia, na sua esmagadora maioria, sempre utilizaram a chamada escrita tradicional fundada num alfabeto e numa grafia de base etimológica até à realização do Colóquio Linguístico de 1979 que procedeu à adopção de um alfabeto de base fonético-fonológica (o chamado Alfabeto do Mindelo), o qual, mesmo se largamente rejeitado também por acérrimos defensores do crioulo, em razão da utilização dos chamados chapéus (acentos circunflexos ou diacríticos aparentados com esses acentos) para marcar a palatização de certos fonemas, foi utilizado na escrita de inúmeros volumes de recolha das tradições orais, conduzida por Tomé Varela da Silva e pela sua equipa do Departamento de Tradições Orais da Direcção Geral da Cultura/Instituto Nacional da Cultura, bem assim em várias obras literárias, como as Cantigas de Trabalho, recolhidas por Oswaldo Osório, as finasons de Nha Násia Gómi, Nha Bibinha Kabral e Nha Gida Mendi, organizadas em livro por T. V. da Silva, para além do romance Odju d’ Águ, de Manuel Veiga, a colectânea de contos Natal y Kontus, de T. V. da Silva, o livro de poesia Vinti Xintidu Letradu na Krioulu, de Kaká Barboza, e da paradigmática obra ensaística Diskrison Strutural di Lingua Kauberdianu, de Manuel Veiga, escrita inteiramente em língua caboverdiana. A lição de António da Paula Brito viria de alguma forma a reflectir-se quer no abandono do chamado Alfabeto do Mindelo tanto por parte das entidades oficiais do sector da cultura como também por parte de alguns escritores que, desconhecendo o alfabeto de António da Paula Brito, dele e dos muito famigerados chapéus fizeram uso em alternativa radical à chamada escrita tradicional, muito dependente do português também do ponto de vista ideológico-cultural, quer ainda na adopção de um novo alfabeto de base fonético-fonológica, mas aberto a contribuições de raiz etimológica e, por isso mesmo, denominado Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Caboverdiana (ALUPEC).

3.BILINGUISMO LITERÁRIO E LITERATOS DAS DIÁSPORAS CABOVERDIANAS

     Como anteriormente aventado, o bilinguismo é igualmente característico das comunidades caboverdianas da diáspora.

     Se, nos países lusófonos, esse bilinguismo é marcado pelo convívio entre o português e o crioulo, em outros países não lusófonos o bilinguismo integra-se do crioulo e da língua dominante no respectivo país de acolhimento, sendo de se realçar o caso da comunidade caboverdiana do Senegal, em que ao binómio linguístico crioulo-francês se agrega o uolofe (wolof), língua étnica e franca dominante na vida quotidiana desse país africano, nosso mais próximo vizinho.

   Também nessas comunidades elevaram-se alguns habitantes da nossa crioulidade, (quase) todos originários das nossas ilhas, para fazerem as línguas internacionais dominantes nos países do seu acolhimento e no mais vasto mundo línguas de expressão da nossa cosmogonia, das nossas interrogações metafísicas, das nossas reivindicações sociais, da nossa indagação de cidadania e de nacionalidade políticas e das nossas relações igualitárias com os habitantes do mundo largo e alado. São disso ilustrativos a vasta obra poética em língua francesa de Mário Fonseca, integrada pelos livros Mon Pays est une Musique, La Mer à Tous les Coups e L´Odifirerante Evidence de Soleil qu´est une Orange, e os Exemple Restreint e Exemple Irreversible, de João Vário, acrescendo deste último autor os anunciados, ainda inéditos e quiçá não concluídos European Example e American Example. Convém, nesta circunstância, relembrar que José Lopes, por alguns considerado um dos poetas caboverdianos lusógrafos mais eruditos na compreensão e no manejamento dos meandros da cultura e da versificação neoclássicas de feição euro-ocidental e de matriz greco-latina, fora autor de alguns poemas em francês, em inglês e, até, em latim e que lhe fizeram merecer diversas e altas condecorações, por exemplo, da França, para além, obviamente, de Portugal, a mãe-pátria de outrora. Outros poetas caboverdianos nossos contemporâneos, e não só, têm publicado poemas em francês, em inglês e em espanhol, de forma esparsa (como Arménio Vieira, José Luís Hopffer Almada e Filinto Elísio Correia e Silva) ou de modo mais sistemático (como nos casos de António Lima e Misá Kwasi).

4.BILINGUISMO LITERÁRIO E CONTEMPORANEIDADE CABOVERDIANA

   Ultimamente, tem-se evidenciado uma outra faceta da conjugação entre a língua portuguesa e a língua caboverdiana na escrita poética dos nossos criadores, moradores das nossas ilhas e diásporas. Não esperando por tradutores que, aliás, se têm mostrado demasiado renitentes ou reticentes quanto à sua vontade prática de traduzir para outras línguas as obras escritas em crioulo ou em verter para a nossa língua materna as obras escritas em outras línguas (com as devidas excepções ilustradas, por exemplo, na tradução (ainda inédita) para português por José Eduardo Cunha do livro também ainda inédito Na Boka Portu, de poemas em crioulo (alguns deles publicados em 1998 nos nrs 10/15 da revista Fragmentos) da autoria de Xan (nominho e pseudónimo de Alexandre Herculano Conceição), alguns poetas e escritores caboverdianos (alguns deles detentores já de grande renome literário) têm optado não só pela utilização das duas línguas como línguas de labor literário em obras distintas, mas também em verter nas duas línguas as obras originalmente criadas e escritas numa delas, isto é, em crioulo ou em português. Aconteceu em tempos mais recentes com Paraíso Apagado por um Trovão, de José Luiz Tavares (curiosamente sem título próprio em crioulo), doravante obra bilingue português-caboverdiano; aconteceu igualmente com algumas peças de teatro constantes de três livros de Armindo Tavares; aconteceu também com o Danny Spínola de alguns dos contos da sua autoria publicados na revista Fragmentos e no livro Lagoa Gémia; acontecera já na década de sessenta do século passado com a obra bilingue Negrume/Lzimparin, de Luís Romano (sublinhe-se com o devido respeito e a merecida homenagem pela memória imprescritível do escritor que se assim se tornou pioneiro nestas andanças do bilinguismo de obras de lavra própria e, acrescente-se, também alheia, pois que foi o organizador, em 1983, da antologia bilingue crioulo/português Contravento, a qual reuniu nessa altura quase todos autores de poesia em língua caboverdiana, incluindo algumas letras de canções).

     Ademais, muitos novos poetas, escritores e criadores da palavra escrita têm seguido o exemplo do Eugénio Tavares tradutor da “Endechas para a Bárbara Escrava”, de Luís de Camões, do Cónego Costa Teixeira tradutor e recriador de algumas passagens de Os Lusíadas para a variante de Santo Antão da língua caboverdiana e, mais recentemente, do Arnaldo França tradutor para o português de alguns poemas em crioulo de Corsino Fortes, e recriador, sob o pseudónimo de Guedes Brandão, de algumas versões em crioulo de poemas de David Mourão-Ferreira ou Fernando Pessoa, destacando-se deste último a tradução da “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos. É assim igualmente que Horácio Santos traduziu A Espingarda da Senhora Kahrar, de Bertold Brecht (Die Gewehre der Frau Kahrar, no original em alemão) a partir da sua versão em português, Danny Spínola traduziu o longo poema “A Invenção do Amor”, do poeta luso-caboverdiano Daniel Filipe, o inesquecível e icónico “Capitão Ambrósio”, de Gabriel Mariano, e o lírico “Madrigal”, de Jorge Barbosa; José Luís Tavares traduziu os Sonetos, de Camões, e a “Ode Marítima”, de Fernando Pessoa, e, mais recentemente, organizou uma antologia de textos intitulada Dez Poetas Cabo-Verdianos Vivos Mais Um (infelizmente ainda inédita), traduzindo os originais em português para o idioma caboverdiano. Ouso introduzir um pequeno parêntesis, para confessar que foi uma circunstância particularmente feliz o ter-me deparado, no blogue Aulil, com os meus “Mikro-puemas kriolu” (do caderno “Ta Madura na Spiga” do segundo volume da obra À Sombra do Sol-Seis Cadernos de Poesia) traduzidos para a língua portuguesa por Rui Guilherme Gabriel, actualmente um muito reputado estudioso da poesia, da literatura e da cultura caboverdianas e que, na segunda década de 2000, organizou um número temático da revista DiVersos dedicado inteiramente a Cabo Verde e com traduções para português de poemas de Ezeami di Sant´y Águ (pseudónimo para escrita de poesia em crioulo de José Luís Hopffer Cordeiro Almada) e Kaká Barboza, para além de traduções para o português de poemas em francês de Mário Fonseca e João Vário.

     Assinale-se ainda o fecundo trabalho que tem sido o labor de tradução (presumivelmente a partir da sua versão em português) para a língua caboverdiana de peças de grandes dramaturgos de impacto universal, como Shakespeare, Garcia Lorca, etc., bem como de adaptação de obras de ficção de vários autores caboverdianos à linguagem do teatro encenada no idioma nativo das ilhas Levado a cabo no âmbito do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo e das actividades do Mindelact, e sob a responsabilidade do dramaturgo, encenador, ensaísta e académico João Branco, esse labor tem tido relevantes e indesmentíveis resultados para a dignificação, a nobilitação e o alargamento da área de jurisdição da vertente literária da língua caboverdiana, lamentando-se todavia que as mesmas traduções, versões e adaptações não estejam ainda publicadas em letra de forma.

     Deste modo, tem-se prosseguido no caminho também encetado por alguns escritores da Reforma Protestante e do Renascimento Europeu no sentido de verter nas respectivas línguas nacionais algumas grandes obras universais, como, por exemplo, a Biblía, agora e entre nós, não necessariamente com o intuito de tornar essas obras mais acessíveis ao público falante do crioulo ou a permitir a comunicação do povo com a palavra divina do seu Deus, sem necessidade da intermediação de padres e de outros sacerdotes do saber e das coisas divinas e terrenas, mas com o declarado objectivo de promover o prestígio da língua caboverdiana, de aperfeiçoar a sua ductilidade literária, de fazê-la marchar ombro a ombro com as chamadas grandes línguas de cultura (somente no sentido de serem portadoras de cimentadas e longas tradições de escrita literária). Sublinhe-se neste contexto o excelente trabalho que vem sendo feito pelos integrantes da Equipa para a Tradução da Bíblia para a Língua Cabo-Verdiana que, eles sim, visando tornar acessível ao povo caboverdiano a palavra do seu Deus, e na sua própria língua materna (do povo caboverdiano, não de Deus!), puderam apresentar à nossa curiosidade e à nossa voracidade dois livros de grande qualidade, entre os quais Nobidadi Sábi di Jizus (tradução d´O Evangelho de São Lucas), deste modo prosseguindo de forma profícua o labor pioneiro de Sérgio Frusoni com o seu Vangêle Contóde de Nós Moda (tradução para o crioulo-variante da ilha de São Vicente-da recriação em dialecto romano d´O Novo Testamento). Sérgio Frusoni que também foi pioneiro a outros também inolvidáveis títulos, designadamente quando nos legou em livro bilingue crioulo-português os poemas da sua lavra própria depois publicados pelo malogrado Professor Mesquitela Lima no livro Uma Análise Antropológica da Poesia de Sérgio Frusoni.

   De se assinalar ainda como de grande relevância para os nossos tempos de agora é a circunstância de um grade número de escritores caboverdianos da actualidade (com destaque para os poetas) serem escritores bilingues e profícuos cultores de obras literárias (e até ensaísticas) diferenciadas e de qualidade tanto em português como em língua caboverdiana, coexistindo com alguns poucos escritores monolingues em crioulo e um maior número de escritores exclusivamente lusógrafos.

  1. PARA CONCLUIR

     Para culminar e concluir, assinale-se um facto que, certamente, terá consequências de monta na percepção da língua caboverdiana e das suas capacidades no reforço da cidadania e na comunicação nas instâncias formais oficiais do exercício do poder. Trata-se da edição, em Maio de 2013, da tradução do português para o caboverdiano da Constituição da República de 1992 na sua mais recente redacção resultante da revisão constitucional de 2010, designadamente para uma versão (diga-se, em abono da verdade, assaz basilectal) da variante-matriz santiaguense da língua caboverdiana. Tal facto constitui um passo fundamental nos trilhos da dignificação e no paulatino processo da oficialização plena da língua cabo-verdiana, isto é, da superação do seu estatuto actual de língua materna parcialmente oficial e de feição e tráfego predominantemente orais para o seu alavancamento nas instâncias formais de comunicação e a sua oficialização plena porque em paridade com a única língua da República actualmente oficial na plenitude (completude) das suas funções que é o português, como, aliás, se vislumbra do estatuído no artigo 9º da Constituição, desde a revisão constitucional de 1999.

       Como demonstra de forma assaz eloquente o caso de Timor-Leste em que o tétum é língua oficial plena ao lado do português, a oficialização plena da nossa língua materna requer a adopção de uma série de medidas práticas, algumas já realizadas ou em vias de realização, como o seu estudo científico aturado (o qual importa consolidar e prosseguir com mais recursos humanos e institucionais e de forma mais sistemática e planificada), a definitiva normalização do seu alfabeto e da sua escrita, a sua introdução no sistema educativo quer como objecto de estudo (disciplina curricular) quer ainda como língua de ensino em contexto desejavelmente bilingue, etc.  

   Nesta óptica, deve ocupar um lugar de relevo a tradução para a língua materna caboverdiana dos mais importantes códigos e textos legislativos, como, aliás, vem ocorrendo em Timor-Leste graças ao muito meritório labor do seu Instituto de Línguas.

     Que a tradução para a língua cabo-verdiana da Constituição da República, muito devida ao empenho da Fundação Direito e Justiça, do seu Presidente Mário Silva e de um grupo de abalizados linguistas e especialistas da língua caboverdiana (Bernardo de Carvalho, Frutuoso de Carvalho e Raimundo Tavares), seja um auspicioso sinal de um futuro, que se almeja ocorra em breve, em que a língua caboverdiana terá inequivocamente assegurado o seu estatuto de língua plenamente oficial em paridade com o português, como, aliás, augura e preceitua de forma programática a Constituição da República, deste modo enterrando de vez os muitos malefícios da diglossia para ambas as línguas e a sua plena e descomplexada expansão nas áreas formais e informais de comunicação e, assim, contribuindo para a emergência de um efectivo e produtivo bilinguismo nas ilhas e diásporas caboverdianas.

Lisboa, Agosto de 2014/Fevereiro de 2019

(Nota do autor: constitui o presente artigo uma versão revista e adaptada do meu texto sobre o bilinguismo literário caboverdiano constante da parte 1 do meu ensaio "Sobre Sonhu Sonhadu, Sonho Sonhado, Dreamt Dream, de Carlota de Barros", publicado em www,buala.org)

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