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Por: D. Tavares

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Joaquim Soares Almeida nasceu em Praia Branca, freguesia de Nossa Senhora da Lapa-ilha de São Nicolau no dia 24 de Julho de 1931, filho de Cláudio Duarte Almeida e de Júlia Eugénia de Brito.

Aos dez anos de idade, após concluir o primeiro grau de instrução primária, transferiu residência para a Ilha de São Vicente.

Morgadinho tem a sua vida musical ligada à palavra fatalidade.

Em 1942 ingressou a Escola de Oficinas Navais, em Pontinha, para aprender serralheiria mecânica. Como a maioria dos aprendizes desta instituição frequentava a Escola de Música do maestro José Alves dos Reis, por curiosidade e a convite do colega Artur Cavaquinho, acompanhou-o à escola. Tempos depois, já executava com mestria, trombone, trompa e trompete.

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Mas foi com o trompete que se afirmou, cuja paixão nasceu do cinema, quando, nos anos 40 do século XX, conheceu o trompetista norte-americano Henry James.

Músico de segunda classe na Banda Municipal de São Vicente, pela sua excelente prestação, foi promovido a “chefe de naipe” designação conferida a cada uma das secções musicais, em estruturas do género.

Em 1957, integrado numa equipa de basquetebol, deslocou-se à então Guiné Portuguesa e levou consigo o seu trompete. Tocou e agradou, insistiram para que ficasse e conseguiram-lhe um emprego nas Obras Públicas de onde transitou depois para a Repartição da Fazenda Pública.

Em 1963, chega a Dakar para participar nas festividades do “Foyer des Portugais du Sénégal” e decide também ficar. Actuando profissionalmente em boîtes, aproveita e frequenta, durante dois anos, a Ecole des Arts de Dakar, por onde obteve o curso médio em música.

Num dueto com Luis Morais, interpretou a música para o genérico do documentário “Lala Quema”, um filme que aborda o desenvolvimento da luta do PAIGC na Guiné-Bissau, realizado pelo cineasta francês Mário Marret.

Em Maio de 1966, participa em Roterdão-Holanda na fundação do conjunto “Voz de Cabo Verde”, executando trompete, viola baixo e voz, e ainda apoia Luís Morais na concepção dos arranjos musicais. Com a extinção do grupo, fixou-se em França, onde em 1972, com os patrícios Mário Pop e Toy de Bibia, os portugueses Tony Fragoso e Tony Ribeiro e o nigeriano Freh Khodja, fundou o conjunto de música pop, “Les Flammes”, de que foi líder musical até à sua dissolução em 1978.

Vocalista de grande reputação e conceituado compositor, Morgadinho compõe vários estilos musicais. Iniciou-se em 1953, com sambas e modinhas para os grupos carnavalescos de São Vicente, período em que também deu música ao poema “(...) Ponta do Sol/Meu tenro berço/Sinto que as tuas rochas altivas/Bradam nos ares ao céu de anil/Lugar mais lindo não pode haver (...)” da autoria de Caldeira Marques e compôs a sua primeira coladeira: “Minijupe câ tâ que mute valor/Minijupe tâ moda or/Minijupe câ tâ que respeit/ Minijupe câ tâ que respeit/Ques sainha bem minijupe/Bocis na devera é que pode que terá/Boca calode/Pamô és câ pensa devera/Tâ passeá na mei d’ morada/É tude minininha qu’és sainha/Mota Carmo já da n’ as alma/Nem és sainha tem bainha (…)”.

Já na Guiné, compôs unicamente mornas de inspiração amorosa:

“Um raio di luz

Sentá na bô rosto

El lumian’ caminhu

Di nha distinu

Ami jâ n’ conché f’licidad

Oh! Deus

Mas que pura verdade

És bu odjinhu

Di luz sim c’mâ prata

És bô rostinho

Tâ parcen’ um santa

Óh! Cize

Bô qu’é luz di nha vida

Djan’ cré morré

Si bô negan’ querida

(…)“

Na Europa elege a coladeira de temática que evocam cenas do dia-a-dia da emigração, distribuídos dois momentos diferentes:

- Primeiro, na Holanda, critica a conduta prodigalizante dos conterrâneos: “Bôdebélembrá/C’mâbôcâ holandês/També câ bô s’quecé/C’m bô tâ na s’tranger/Ganhá bô vida/Câ bô gastal dumavez/Quem guardásé guilda/El tâ vivécuhonradez/Quem bem quel lorgue/Quel bá dritim pâ Pick Bar/Hora quel cabâ/É outravez pâ mar (...)”;

- Segundo, em França, já aborda as dificuldades do fenómeno da emigração e a questão da integração nos paises de acolhimento: “M’ saltá nesse terra/Num segunda-fera de madrugada/M’ tchi de comboi/Que nha mala na mô/E nha enxada/M’ t’mâ um táxi/Bâ p’tame na rua de sperança/Qual foi na s’pante/M’ descobrí c’um táva na França (…) Um semana depôs/M’ sei qu’ideia de spiá trabói/Spiá traboi nês terra/É mesma cosa que s’pia guerra/Mi só má Deus/Que nha mala na mó e nha enxada/Ess dor na costa/É moda dor d’ um pancada/J’ame perde sperança/Jáme perde tude nha fé/D’nher jâ cabáme/J’áme câ tem prope que t’mâ café/Plica p’tâme mô/El perguntame pâ papel/M’ d’zel papel: - “Onde que bô cré p’me sei quel”.

Tentou também revolucionar a coladeira guarnecendo-a com subsídios buscados a ritmos estrangeiros, particularmente ao estilo yé-yé, então na moda: “Bem, bem dançá nova coladera/Nova coladera/Bem,bemdançáIlhade Madera/Ilha de Madera/Dançá nova coladera/Ésód’nhernagilbera/Dançá nova coladera/É só d’nher na gilbera”.

Inspirado nos efeitos do choque petrolífero que afectou a Europa nos inícios de 1970, caricaturizou o ambiente de então: “Pitrol na Europa jâ vra or/Pitrol na Europa jâ s’bi di câmbio/Pitrol nés terra jâ vra fera/Pitrol nés terra ti tâ dâ guerra/S’ um litre pitrol tâ custa dôs dola/Dôs litre agora é pâ um pistola/Se cinq litre pitrol é pâ um canhão/Um bidon bem chei tâ matá um pelotão/Óh pove, óh pove/Munde jâ vra d’ asvessa/Óh pove, óh pove/Gente jâ perde cabeça”, comparando-o ao do seu país: “Se pitrol na nôs terra é pâ cander/Pitrol nês terra câ tâ custa mute d’nher (…)”.

Nos finais da década de 1970, voltou de novo à morna, não a cobrir o amor de cariz sentimental, mas já a transpirar um sentimento patriótico:

“És vida tâ c’mâ um navio

Sem rume e sem destine

Vida de criol é navegá

Nés mar sem fim

Num viagem sem rume

                 (...)

E sem um ligria navegador

Nôs vida foi sempre assim

Nés mar só di amargura

Um vida na balança

Sem contrapeso nem um criatura

Pesal um dia

Pesal di mansim

Dal si alegria

Lembrâ c’mâ el é sofredor

                 (...)

Si vivé é um missão

Se vivé é cumpri um destine

Jal cumpri de seu

Gora faltal é só morré

                 (…)

És munde é um munde ingrote

Óh que munde triste

Óh que munde de maldade

                 (....)

És munde d’gora

Câ conché um sentimente

Óh sol, sol de Cabo Verde

Sol de one 2000

Lembra de nha terra

Lembra de sés gente

S’paiá bôs raios

Mâ s’paiá que más alegria

S’paiás cu certeza

Má pâ tude gente

Em reconhecimento pela sua relevante contribuição para o engrandecimento da Nação Cabo-Verdiana e para a afirmação dos valores da cabo-verdianidade e de identidade nacional, no dia 5 de Julho de 2006, no âmbito das comemorações do XXXIº Aniversário da Independência nacional, Morgadinho foi condecorado pelo Presidente da República de Cabo Verde com a Primeira Classe da Medalha do Vulcão.

Em 2014, foi homenageado pela na 6.ª Edição do Kriol Jazz Festival (KJF), na cidade da Praia.

E como reconhecimento pelo contributo dado em prol da elevação da cultura cabo-verdiana dentro e fora do país, Morgadinho foi, no dia 13 de Janeiro de 2019, foi condecorado pelo Presidente da República de Cabo Verde com o primeiro grau da Ordem do Dragoeiro, a maior distinção atribuída a artistas pelo Estado de Cabo Verde.



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Comentários  

0 # Francisco A.Carvalho 18-01-2019 00:04
Parabéns, Daniel! Um excelente contributo para dar a conhecer o rico panorama musical caboverdeano e, em particular, este artista extraordinário que é o Moragadinho!
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