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Por: José Luiz Tavares

Jose Luis Tavares

Foi-se-me o Djedji, o Bilin. Djedji Bilin. Ele me era a porta e a janela, a entrada para as tardes de lisboa, rossio pleno de mistérios.

Cedo o conheci nas andanças deste exílio, na bisca da tarde e da vida. Benevolamente matreiro, tratou-me primeiro por estudante, depois professor, poeta por fim. Mininu di fora arribado a uma lisboa quase pátria, sabia-o da outrora mal afamada Ponta Belém, de riba Praia, da não menos execrada quintalona, quintal de guerra, poiso de putas e larápios.

Era ele quem vestia as minhas tardes de fagulhas, fizesse frio, sol ou chovesse, no tio António (quando trabalhava, brincamos nós, recordando a canção), o mais humano e gentil taberneiro desta cidade, cais de acostagem de tanto nauta à deriva; ou no Isidro, da central de s. domingos, ou no Adriano, a sacristia, lugares onde se ia ao vinho e à cerveja, benditos, nessas tardes de fuga à tristeza e ao desamparo.

Em dias amodorrados acordava-nos com o sol da sua impertinência, a doce maledicência com que fingia a retirada quando a noite deitava as suas capas sobre os telhados e terreiros desta lisboa que já não escuta o rumor dos negros, suas canções evocando os horizontes largos, pois já só vive para a fauna turística, e seus milhões, reais ou fantasiados.

Quem com ele não terçou memórias dessa praia de antigamente, com seus valentes e trafulhas, ou duma certa esvanecida lisboa, que tinha o seu epicentro nessa s. bento de obreiros e embarcadiços, chulos e sopeiras, naifistas e gravateiros (oi, ka nhos da-m gravata, n ben di lonji, n ben kunpra disku)? Lembram-se, Du e Santinho, Fatinha e Zutai, Ratxa e Bakuba, Kaká e Baromeu?

Divirto-me a imaginar a trabalheira que terá dado a S. Pedro, guardião das portas celestes, fazendo a habitual finta de corpo, antes de lhe aplicar o nocaute verbal que o levaria a relevar (por uma vez) quaisquer faltas impeditivas da entrada no reino dos céus.

Não o imaginarei longe nas tardes futuras de lisboa, mas coreografando o gesto levar à boca a taça de tinto, fingindo o engano ou desacerto com que mal disfarçava a idade e a cegueira.

Não prometo ir visitar-te ao condomínio Casa para Todos, no alto de S. João, domicílio 6345, pois sei que não é aí que repousas, mas no meio de nós, quando a tarde cerra as suas cortinas e nós, infantes da brisa e da maresia, buscamos um cais onde nos retemperarmos dos desalinhos desta vida.

«Tio António, é uma taça e uma preta, se faz favor.»

 



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Comentários  

0 # JLT 29-11-2018 10:16
O propósito, para além da homenagem ao Djedji, foi também homenagear certos tipos sociais, tanto dessa Ponta Belém de outrora, como dessa S. Bento que o avanço turístico-imobiliário vai desertando da sua antiga moldura caboverdeana. Bebamos ao Djedji e a esses que ainda resistem às trevas do mundo
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0 # JLT 29-11-2018 09:52
Senhor J.E dos Reis, não se melindre com as referências a certos tipos sociais (habitantes ou não de quintal de guerra) que referi no meu texto. A referência tinha como finalidade homenagear também esses deserdados da vida, e nunca lançar um anátema moral sobre quem habitou tal quintal. Quanto a conhecer o Djedji melhor do que eu, deixo essa coroa de glória para si, já que faz questão disso. Eu quis apenas homenagear um amigo muito querido que partiu.
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0 # J.E. Dos Reis 28-11-2018 19:31
Sr. José Luiz Tavares...
Li o seu artigo foi muito bem escrito sobre o Djédji di Bilim, muito meu conhecido, vizinho de infância de Ponta-Belém desde nascimento do mesmo quintal, até partida dele da Praia para Lisboa. Sô que eu gostaria que rectifica-se (Quinta da Guerra)... como Poiso de [censurado]s é Lalápios, porque não é verdade... Se o Sr não sabe que perguntasse. Quintal da Guerra foi de gentes honradas, como Nha Bilim mãe do Djédji, Nha Tété mãe do Djédji, Nha Anália mãe do Abner, Nha Chica mãe do Naturino,que actuamente vive em Lisboa... etc etc. Eu conheco o Djédji mais do que o Senhor....muito Obrigado
José Eduardo dos Reis - Roterdão Holanda - Djédji Tété di Ponta Belém
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0 # Érico Veríssimo Ramo 28-11-2018 14:03
Grande! Grande texto!
Um "trindóki" na boca dessa "taça para Djedji Bilin" seria, estou certo, uma merecida sinfonia de despedida ao amigo Djedji!
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0 # Paulo 28-11-2018 11:23
José Luiz ka tem.
Por isso ki Corsino Fortes
recomendan pa le ses livros.
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0 # Mana Guta 28-11-2018 09:21
Sublime o texto.
Os poetas são, logu divera, gente de outro reino: fazem-nos sentir, com eles, a dor, que se leva, sem ferir, a um mundo em que a saudade é a felicidade de se sentir triste.
Não tive o prazer de conhecer Djedji Bilin. Mas JLT apresenta-nos o melhor que existe dessa personagem - que são os afetos. Que ele descanse em Paz.
Bonito gesto. A isto se chama Poesia...
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+2 # O Poeta 27-11-2018 15:24
Belmiro, registámos as tuas palavras. quanto à ida a Tchan, não é muito provável, pelo menos no âmbito da morabeza, pois o puto bitchento nunca mais esquecerá o açoite de vara de mamulero que levou. Ainda há tempos, em luanda, andou a dizer à boca pequena, como é próprio dos covardes, que enquanto ele for ministro da cultura o poeta não participará no morabeza. O grupo raiz di polon tem um projecto de gravar a peça feita a partir do livro no local. Mas todos estão lembrados que esta peça, que estava programada no âmbito da primeira edição do morabeza, foi retirada do cartaz por pura e inadmissível vingança contra quem nada tinha que ver com a lição que o bocudo levou
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+1 # Belmiro Preto 27-11-2018 11:57
Sabia que os homens sao seres sensiveis mas nao conhecia nenhum poeta de Cabo Verde que lida desta forma com as palavras: Quem nao se lembra dos teus textos de 2016 e mais recente 2017 puxando a orelha ao teu menino e amigo, hoje Ministro da Cultura Abrao Vicente, em defesa da valorizaao dos autores cabo-verdianos!? Mas, pena eh que estes homens de pena, nada entenderam!! Este a segudna cronica tua que leio e fico a deliciar o texto. é sobre a morte, mas eu senti apenas uma despedida entre fieis amigos. Apreciei o "Foi-se-me". Nao é por acaso que com apenas 50 anos te convidaram para o juri do prémio camões para tu avaliares a obra dos grandes escritores da CPLP. Também estou no mundo da literatura mas infelizmente so publiquei um livro ha 7 anos, mas estou a escrever e vou publicar uns contos.Para o ano quero assistir ao Festival da Morabeza na Tchan, para te ouvir falar do teu livro sobre o Vulcão do Fogo e sobre a poesia. Deus abencoe a tua fina pena. De um escritor para O poeta.
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0 # J.E. Dos Reis 28-11-2018 20:26
Sr. José Luiz Tavares...
O seu livro ou artigo sobre, Djédji di Bilim gostei bastante é muito bem escrito... Sô que nesse mesmo artigo o que o Sr. disse sobre Quintal da Guerra, não é verdade ou então o Sr. foi mal informado acerca do mesmo... Esse mesmo Quintal tinha o nome da Guerra, mas lá sô morava pessoas de muita honra e honestas, como Nha Bilim, mãe do Djédji, Nha Isabelinha, mãe do Sr Damião Cardoso, Nha Anália mãe do Abner de Pina, Nha Tété mãe do Djédji, Nha Chica mãe do Naturino, que actualidade vive em Lisboa... etc etc muitos outras pessoas sérias... Muito gostaria que o Sr rectifica-se o Quintal de poiso de [censurado]s é Larápios, porque não verdade, o Sr está mal informado. Um muito Obrigado
José Eduardo dos Reis
(Djédji di Tété) di Ponta-Belém
Rotterdam - Hollanda
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