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Por: Armindo Tavares

Tudo começou como se fosse um dia normal ou como qualquer outro oponente da noite para o jovem Edmilson Fernandes Tavares, o qual, sobre o seu peso da idade somava apenas mais 35 doze luas. Gozava de uma férrea saúde e tinha uma postura descontraída para com todos: colegas, mais velhos, mais novos, homens, mulheres e até pelas crianças. Fisicamente era tão possante como mais nenhum outro mancebo. Dotado de uma compleição mediana, mas todos se reconheciam que, mano a mano, nenhum outro pelejava com ele. Plácido e inconscientemente ditoso, parecia uma criatura emoldurada com um objetivo claro e específico. O cabelo que outrora era um pouco do tipo black ou hippie dos anos 60/70, acabou-se por despedir do seu couro cabeludo tão cedo quanto ele deste mundo. Pois, era calvo ou careca e, quando não rapava a barba parecia o mago Gaspar, o representante bíblico da raça amarela ou asiática. A tez era bastante clara, resultado de uma perfeita mistura ou acasalamento entre uma Europa branca e uma África Negra.

Eram primeiras horas do dia 24 de Outubro de 2017, pouco depois de 3ª feira ter recebido a chave do alvor das mãos de 2ª feira, quando Edmilson entrou na casa do falecido pai, onde, também, morava uma irmã, um filho menor e alguns sobrinhos. Mudou de roupa, saiu e foi comprar uma tigela de sarabulho numa vizinha, uma açougueira que, normalmente, usa um maçarico de labareda azulada, como as chamas do fogo cuspido por um dragão, para chamuscar porco ou mãos e cabeça de vaca para preparar o sarabulho. Levou o sarabulho para a casa, comeu e deixou um pouco de sobra na tigela dentro do seu quarto. A casa do pai, onde ele morava, não tem terraço algum. É uma casa simples, de único piso, contendo alguns compartimentos o teto lajado com betão de cimento armado.

Sob o manto negro daquela 3ª feira que mal acabara de receber a chave noturna das mãos do seu predecessor (2ª feira), Edmilson rumou-se, acompanhado de um vizinho e colega da infância, para uma parodia num quiosque denominado NHAFRÓZA, em Cutelinho, arrabalde da cidade de Pedra Badejo em Santa Cruz, depois de se deambularem de taberna em taberna, quiosque em quiosque acervejando, e o pagador, sempre o assinalado para receber a insígnia do último e eterno adeus para o Hades.

Por volta das três horas da manhã, ou da madrugada, se quiser, o Olavo de Nha Menininha Soares, técnico da construção civil, despediu-se da malta, daí do quiosque, entrou na sua viatura para ir dar trabalho por umas horas aos seus olhinhos sonâmbulos. ATENÇÃO! Eram três horas da madrugada, já do dia 24 de Outubro de 2017, uma TERÇA-FEIRA. E o Edmilson continuou lá no quiosque impávido e sereno, sempre ao lado do acompanhante e de mais vivalmas saciando o apetite. Quiçá, se alguém lhe dissesse que a sua vida estaria por uns segundos, certamente, em duelo por uns momentos entrariam.

A caixeira, balconista ou vendedeira do quiosque confirmou a presença do Edmilson aí nessa fatídica noite-riba.

Durante todo o clarão do portentoso Hélio de 3ª feira, dia 24/10/2017, muito pouca gente, não mais do que meia dúzia, certamente, terá visto Edmilson, e pode-se jurar, de pés juntos, que o viram com o corpo já distante da vida.

Nos primeiros alvores de QUARTA-FEIRA, 25 de Outubro, apenas um dia após a paródia no quiosque NHAFRÓZA, acompanhado do amigo e colega de infância, eis-que Edmilson Tavares é encontrado comodamente colocado numa lixeira, atrás da casa onde morava, com um lado da cara completamente esmagada, o pé direito serrado, os olhos furados, a língua cortada, os dentes arrancados e os testículos esmagados. A parte da cara que ficara exposta estava com queimaduras como se tivessem usado, para o efeito, um maçarico. E estava pintada de negro. ATENÇÃO! Terá caído de um terraço que nem existe? O pé direito não partiu, mas sim, sapou? (Arrancou?) O queixo estava intacto, mas os dentes quase todos arrancados e a língua sapada (cortada); uma parte da cara esmagada, a outra queimada e pintada. Entretanto, não havia uma gota de sangue no local onde o corpo foi encontrado. Ou será que num período de tempo não superior a 30 horas o sangue terá sumido por completo? Ou, conforme a médica legista, que nem ao local para proceder ao levantamento do corpo foi, disse ao irmão mais velho que a pata do pé, que nunca apareceu, terá sido comido por um cão, esse estúpido cão, que preteriu as pernas, as coxas, as nádegas e a barriga para roubar apenas uma pata ao Edmilson, terá também bebido todo o seu sangue e lambido o chão? Edmilson terá caído de um terraço e não ficou sulcado nenhuma marca ou sinal de que o corpo terá escorregado ladeira-abaixo? E por que é que o corpo não estava sujo e coberto de pó, nem os lixos sobre os quais ele jazia inerte estavam espalhados ou remexidos? Contem melhor as estórias, senhores da Judiciária, por que hoje já não se engana uma criança em como nasceu de uma flor da laranjeira.

Caros leitores, como nós os familiares do Edmilson somos uns asnos, pelo menos assim nos consideram os senhores da Polícia Judiciária e o Porcariador da República da Comarca de Santa Cruz, ajudem-nos a equacionar algumas questões. Para tal, colo aqui o extrato, na íntegra, do Comunicado:

«Em comunicado a Policia Judiciária  diz que está convencida  que a morte do guarda-noturno Edmilson Tavares  cujo corpo foi encontrado numa ribanceira na localidade de Achada Fátima, em Santa Cruz, teve morte por acidente, provocado por queda do terraço da sua própria residência, no dia 25 de Outubro. A convicção da PJ está baseada no exame pericial que revelou “a causa da morte foi queda acidental, que gerou um Politrauma e amputação traumática do membro inferior.” Quando foi encontrado   cadáver encontrava-se em avançado estado de decomposição e sem identificação“. O mesmo estava em estado de liquidificação, com protusão da língua e ocular, e de uma forma geral, aumento da volumagem do tecido do corpo. O exame médico constatou, ainda, fletenas (ampolas com conteúdo fétido de coloração escura), característico de putrefação, edema de escroto e deformidade da face, constatações resultantes do exame de autópsia, devidamente documentado”.

Perante estes dados, a PJ enviará as conclusões desta investigação ao Ministério Publico para avaliação e decisão»

Vejamos:

«A causa da morte foi queda acidental, que gerou um Politrauma e amputação traumática do membro inferior».

Agora, ou aliás, em Cabo Verde uma pessoa cai e o pé sapa? Ou o pé foi amputado pela médica legista depois de o corpo estar já sem alma?

«Quando foi encontrado cadáver encontrava-se em avançado estado de decomposição».

Será verdade? Se na 3ª feira foi visto a beber e a pagar cervejas ao colega, é possível que apareça morto na 4ª feira, pelas 9h00, já assim tão pútrido?

«O mesmo estava em estado de liquidificação, com protusão da língua e ocular, e de uma forma geral, aumento da volumagem do tecido do corpo».

Quem teve, ou tiver acesso às fotografias pode-se constatar que o cadáver não deitava pus, a barriga estava lisa e normal, inclusive, conserva intacta a coloração da sua pele. Assim como arrancaram-lhe os dentes e furaram-lhe os olhos, também cortaram-lhe a língua.

O exame médico constatou, ainda, fletenas (ampolas com conteúdo fétido de coloração escura), característico de putrefação, edema de escroto e deformidade da face, constatações resultantes do exame de autópsia, devidamente documentado.

O corpo não estava pútrido, tanto que, até a carne do pé que lhe serraram com uma rebarbadora vê-se vermelhinha. O edema de escroto aconteceu porque lhe esmagaram os testículos enquanto o torturavam.

CONCLUSÃO:

O acompanhante do Edmilson foi ouvido? Qual foi a sua versão?

A Judiciária disse ao irmão mais velho da vítima que a morte terá acontecido, supostamente, no domingo, dia 22 de Outubro. Que por isso, quando foi encontrado na 4ª feira estava completamente putrefacto. Então o Olavo e a balconista do quiosque NHAFRÓZA mentiram ao afirmarem-se de que Edmilson esteve entre eles na 3ª feira dia 24?

O irmão mais velho deixou o nome do Olavo na Polícia Judiciária desde o dia 7 de Novembro. O Olavo foi chamado a depor? O que foi que ele disse?

O referido irmão disse ainda à Judiciaria que, uma senhora afirmou ter encontrado, dia seguinte ao macabro assassínio, roupas sujas e muito sangue no interior de uma casa, embora tenha sido lavada toda a noite com creolina.

Um outro irmão da vítima fez comunicação ao “Porcariador” e este disse-lhe que não era nada com ele e que tinha delegado toda a competência para Judiciária. Entretanto, essa senhora foi chamada a depor? O que foi que ela disse?

No dia 16 de Novembro, a mesma casa foi lavada com água e cal. Os familiares filmaram a enxurrada, chamaram a Polícia Nacional que, por sua vez, recolheu as amostras, elaborou um auto e enviou à “Porcariadoria” de Santa Cruz. Terá o “Porcariador” solicitado um mandado de busca à essa casa? E as amostras recolhidas foram inspecionadas? Qual o resultado?

Organizaram uma manifestação no passado dia 08 de Dezembro à porta do tribunal de Santa Cruz e não houve nenhuma reação nem explicação, como se o ato fosse ilegal e não um direito constitucionalmente instituído.

No dia 13 de Dezembro do ano findo, o irmão mais velho solicitou, por escrito, uma audiência ao Sr. Procurador-geral da República, escrito no cabeçalho «URGENTE», por acaso, neste momento, verificou a sua caixa de correio electrónico e viu que já está marcada para o dia 12 de Janeiro.

Talvez a razão que fez a Polícia Judiciária emitir essa monstruosa mentira, esteja relacionada com o anúncio de uma manifestação que irá haver, solidariamente com todos os familiares vitimas de injustiça, no próximo dia 26, 6ª feira, pelas 14h00, à porta da Procuradoria-Geral da República, do Ministério da Justiça, da Organização das Nações Unidas, Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania, Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental e ainda, irão fazer uma adenda para incluírem a Assembleia Nacional onde se irão dispersar.

Também, neste preciso momento, o irmão mais velho acabou de receber, através da Comissão Nacional para os Direitos Humanos, a informação da Comissária para os Direitos Humanos que trabalha na Procuradoria-Geral cuja parte do conteúdo vai aqui transcrita:

«Fomos informados que foi aberto um processo-crime na Procuradoria da República da Comarca de Santa Cruz, cuja competência para a investigação encontra-se delegada na Polícia Judiciária, por suspeita de crime de homicídio».

 «A Sra. Comissária adiantou que “não houve e nem haverá negligência em relação aos procedimentos legais, neste ou em qualquer outro caso, por motivos raciais ou outros não legalmente admissíveis, porque o Ministério Público de Cabo Verde é um órgão de administração da Justiça sério, que se move, sobretudo, pelos princípios da legalidade, imparcialidade e objetividade”».

“Relativamente à presença do médico legista no ato de levantamento do cadáver, informamos que tal não é obrigatório nem humanamente possível em Cabo Verde, bastando a presença de um médico/ normalmente o delegado de Saúde da localidade, até porque a nível nacional existem apenas dois para 9 ilhas, subdivididas em 16 Comarcas.”

“A legislação vigente, determina os casos em que devem ser realizadas autópsias médico-legais, pelo que estranha-se a informação dos familiares no sentido de duvidarem da sua realização. Caixão fechado, por motivos de saúde pública, claramente percetível, dado ao estado de decomposição do corpo.”

 «“Importa referir que existem indícios evidenciados pelo cadáver que fazem com que médicos e investigadores definam com elevado nível de probabilidade a hora da morte. Por exemplo, se o cadáver estiver em elevado estado de decomposição e haver testemunhas a afirmar que estiveram com a vítima 4 ou 6 horas antes, este testemunho é submetido a um rigoroso teste de credibilidade que certamente terá dificuldades em ultrapassar. Sem se afirmar que muitas vezes há testemunhos “na rua” que não se confirmam no processo.”»

São as palavras da Srª Comissária que representa a Comissão Nacional para os Direitos Humanos junto da nossa Procuradoria-Geral da República

Edmilson deixou dois filhos menores. Um fez 8 anos no dia em que lhe cobriram com a terra e o outro tem 12 anos de idade. Por isso a luta irá até ao desfecho final. Até a exaustão para que a verdade seja conhecida, a justiça feita e esse “Porcariador”, médica legista e Polícias Judiciárias que querem tramar esse processo, em troca não se sabe de quê, nem por quê, sejam trancados atrás das grades, que é o lugar onde eles ficam melhor.

Uma ação irá ser intentada já contra o Estado de Cabo Verde, pelo que o apoio de todos é imprescindível. A exumação do corpo e a realização da autópsia irá ser imediatamente solicitada. Podem é ignorar e não autorizarem tal ousadia. Mas os familiares estão dispostos a levar o caso até ao Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. Vão organizar uma comissão para angariar apoios para o efeito, pelo que, querem, desde já, contar com o vosso apoio.

Cidade de Pedra Badejo, 05 de Janeiro de 2018

Armindo Martins Tavares

Irmão da vítima

Comentários  

0 # Tarrafal 19-01-2018 11:23
Ki rivolta.ku tantas provas
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0 # Manuel S. Mendes 06-01-2018 15:05
É mesmo incrível que com a exposiçâo de todos esses dados para simplificar aquilo que tem e deve ser feito, não se querer fazer nada.

Quem consegue acreditar que este caso não seja de um homicídio?

E quem é que dá crédito às nossas autoridades competentes se não se averiguar e por tudo a limpo?

Naaaa divagar na mundu propi!
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+1 # democrata 05-01-2018 15:19
causa da morte queda? Só se for queda de um aviao! Pelo amor de deus! um cadavér com sinais claro de tortura, perna cortada, parte da cara queimada, escoriações por todo o corpo e a Pj como sempre com as suas ligeirezas nas investigações apesar de existir meios de provas suficiente para descobrimento da verdade, justifica desta forma! Estamos entregues a bicharada mesmo!
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0 # Jose Lopes 05-01-2018 15:12
Havendo todos estes elementos do crime quanto mais "atribuidos" as instancias judiciais porque que ate ainda, fica simtomatico, perante a opiniao publica de que os mesmos elementos incriminatorios sao quase que propositadamente ignotados.

"Diaxi nho" deixa ouvir as versoes dos familiares, as provas e as testemunhas e concluir invalidando ou suportando-as.

Quais as razoes para deixar entender que so as autoridades imformamtes estao correctas e deixar arrastar as angustias familisres em banalidades.

Acho um assunto muito perigoso para o nosso estado de justica(?)
e a sua creditacao.

Forca Dr Armindo e familiares, isto podera avontecer a qq um.

Agora parece-me passou a moda os presumiveis homecidios serem apelidados de quedas acidentais
Pois, o caso mais recente do estilista, na Praia teve a mesma sorte (?)
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