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Por: José Gabriel Mariano

Cabo Verde vai contra a corrente da História, contra os movimentos populacionais ocorridos séculos atrás, contra toda e qualquer espécie de investigação histórico-linguística, seja ela credível ou pouco credível. Simplesmente nunca houve. Cabo Verde vai contra o próprio movimento da História de Portugal no Ultramar e da História Universal. Corre o risco de cair no ridículo perante o resto mundo e perante Portugal. Achava bem que se tomasse atenção a esse pormenor que julgo passa despercebido. Claro que com quem não se preocupa com estes problemas, não alcança o bem ou o mal. Anda preocupado com outras coisas que não com o seu país, as gentes e a sua união. Mas é hipótese muito real que CV tenha que explicar o inexplicável à História de Portugal e à História Universal. Vão ter que explicar por que razão são afro-europeus e por que razão o crioulo é africano, por exemplo entre outras aberrações ou a razão da falta de explicações históricas, antropológicas e linguísticas. Para onde gastaram o dinheiro dos empréstimos: Educação, História, Línguas, Cultura?

As autoridades cabo-verdianas têm descurado a sua própria História/Crioulo, ao ponto de nada ou pouco se saber sobre as origens, as causas, a proveniência das pessoas, as razões históricas, antropológicas e culturais que estão na base de uma quantidade de usos e costumes, na forma de estar, no temperamento, na comida, na doçaria. Cabo Verde não surgiu por geração espontânea, não surgiu do nada e de repente surgiu já feito. Não! Cabo Verde tem as suas causas e origens históricas, culturais e linguísticas bem identificadas. Cabo Verde não é baralhação nenhuma, nem confusão nas suas origens, língua e cultura. Tudo está bem identificado historicamente.

Neste sentido, apelaria aos homens e mulheres intelectuais, da cultura, académicos, pensadores do Arquipélago e Ultramar, incluindo o PR JCF e sua esposa, sendo também pessoas cultas e muito bem informadas academicamente, que refletissem sobre esta realidade, que a criticassem, que tomassem posição pública sobre os temas ou tema História/Crioulo, como lhe chamou JCF. É natural. Depois de eu ter oferecido ao Povo cabverdiano, na pessoa do seu Presidente da República, tanto material pertinente, é consequente a sua afirmação. Na verdade, convidaria JCF a divulgar e a partilhar aquela documentação e informações. Não que seja a solução de todos os problemas, mas que abre caminhos a muita outra e mais investigação histórico-linguística, elucidando graves e pertinentes incertezas, desconfianças que assolam todos os cabverdianos, não tenho dúvidas nenhumas. Será um enorme contributo para o Território cabverdiano quando o Presidente da República se resolver a disponibilizar e a devolver ao Povo o que lhe pertence legitimamente, por legítima justificação histórica. Como também fará cumprir um dos imperativos de Baltasar Lopes da Silva. Fundamental e essencial para Cabo Verde.

“O LÍQUIDO A APURAR DA QUESTÃO É QUE É EXTREMAMENTE DIFÍCIL AFIRMAR COM SEGURANÇA SE ESTE OU AQUELE TRATAMENTO RESULTA DO INFLUXO ESPECÍFICO DE LÍNGUAS NÃO EUROPEIAS. PARECE-ME QUE SÓ QUANDO DISPUSERMOS DE UMA BAGAGEM DE ESTUDOS QUE ABRANJAM A LINGUAGEM DAS ZONAS ULTRAMARINAS QUE FORNECERAM O SUBSTRATO, A HISTÓRIA DAS SUAS CULTURAS, AS RELAÇÕES ENTRE LÍNGUA E CULTURA, ENTRE RAÇA E CULTURA, AS CIRCUNSTÂNCIAS DO POVOAMENTO E DA VIDA HISTÓRICA DAS SOCIEDADES FORMADAS COM O DESCOBRIMENTO EUROPEU, PODEREMOS DETERMINAR A MEDIDA EM QUE AS LÍNGUAS NÃO EUROPEIAS CONTRIBUÍRAM PARA A FISIONOMIA ACTUAL DE TIPOS DE LINGUAGEM ULTRAMARINA COMO OS CRIOULOS”. - Baltasar Lopes da Silva, in Introdução ao Dialecto Crioulo.

Ora, nada disto foi feito. Foi sempre escamoteado e desprezado o ensinamento, como se não existisse. Nunca quiseram saber, as autoridades cabverdianas, com a cumplicidade calada da classe culta e intelectual do Arquipélago. Parece que ninguém em Cabo Verde, dos esclarecidos, académicos, pessoas de cultura, escritores, artistas quer tocar neste assunto. A razão não consigo bem vislumbrar, apesar de haver umas suspeitas. Há muito tempo em Macau trabalhava eu no arquivamento de processos judiciais, com relevância histórica para aquele Território, e lembrei-me que podia até fazer algo de útil para o público em geral. Um grande e ilustre amigo meu macaense disse-me logo para esquecer. Iria como que mexer em bosta de vaca seca. Muita gente importante da Terra não iria gostar. Desisti dos meus intentos. Mas em relação a Cabo Verde não desisto nem desistirei do meu intento em esclarecer e elucidar os meus conterrâneos sobre a sua História/Crioulo. Porque, o dano maior que pode haver para um ser humano é andar-às-cegas, sem saber quem é!

Enquanto não se cumprir este imperativo, Cabo Verde continuará a viver de invenções, de mentiras, a boicotar a História e a censurá-la, a boicotar as investigações linguísticas sérias e necessárias. A desinformar, continuando a esconder informação pertinentíssima à sua evolução espiritual e filosófica.

Um Governo e um Presidente da República que não tenham a História/Crioulo como um dos fatores chave para o conhecimento do seu próprio Território e gentes, então, permitam-me a expressão, não servem para Cabo Verde. Quando veem as pessoas desunidas, desavindas e nada fazem para pôr cobro ao “divisionismo” instalado, então não são bons governantes. Quando não percebem que História/Crioulo é fator de união das gentes, do povo, então não podem estar a frente dos destinos de uma comunidade, porque a tornam mais desunida, perpetuando a divisão, abismos exacerbados, desnecessários e prejudiciais.

José Gabriel Mariano, Lisboa, 07/11/2017

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