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Por: Eusébio Varela

Exactamente às 4:30 da manhã, em plena sexta-feira, ouço o som de uma música em volume máximo e potente, vindo diretamente de uma casa particular. Esta casa que fica situada imediatamente atrás do único hospital do concelho de Santa Cruz, onde habitualmente se encontra doentes, incluindo crianças, em repouso, em recuperação e em cuidados intensivos.

Curiosamente, dirijo-me ao local e fico a saber que era baile festa dos finalistas do liceu de Santa Cruz.

Ora, não pude conter a minha indignidade diante da tamanha insensibilidade. Primeiramente, porque as autoridades locais deviam proibir que a festa prolongasse até aquela hora, sendo que o espaço é aberto e obviamente incomoda os vizinhos e os doentes internados. Adicionando, o facto da existência de um código de postura municipal que legitima a proibição de tais atos.

Segundo, o que mais me indigna é a profunda insensibilidade, ao ponto de ninguém parece incomodar-se com aquilo. Reparem que ao redor daquela casa tem várias outras residências habitadas, contendo famílias, crianças e pessoas que estão a descansar para o trabalho no dia seguinte. No entanto, eles não reclamam. Preferem selar as janelas e as portas e tapar os ouvidos com o travesseiro do que chamar os responsáveis e exigir o cumprimento do código de postura municipal. Do mesmo modo, o médico em serviço e o seu staff não saem em defesa dos pacientes, que manifestamente estão incomodados. E a polícia? Eu mesmo vi um agente na berma da estrada, mas ele não foi suficientemente sensível para discernir que o berro exagerado e a guitarra do Rock de Linking Park e obscenidades do hip hop de Eminem e Lil Wayne podia estar a tirar o sono de uma criança ou ferir o ouvido do doente ao lado. E isto é um mau sinal. Atualmente, temos uma sociedade que já é bastante insensível e ao invés de virarmos o leme, continuamos a insistir como se fossemos zombies na mesma direção.

Se isto acontecesse numa sociedade mais civilizada socialmente e mais sensata, a polícia estaria à porta do seu apartamento se pelo menos o volume do seu televisor estivesse um decibel acima do permitido. Já vi um casal ser preso porque gemiam relativamente alto, e os vizinhos do prédio precisavam descansar.

Desta vez, o incomodo veio da classe estudantil ao nível universitário. A classe que esperançosamente, acredita-se contribuir com respostas para os desafios de hoje. Contudo, eles nutrem e reproduzem o mesmo mal. Esta classe, que tem extenso contacto académico, devia também ter desenvolvido a sensibilidade para agir de modo cauteloso e exemplar.

Frente ao sucedido, esforço-me para não concluir que continuaremos a ter por um bom tempo, licenciados, mestres e doutores insensíveis, para não dizer mal-educados. Diplomados que sem serem pisados nos seus calos, não hesitam em lhe atirar um gato na cara. Diplomados que cospem por força de hábito na rua, e para fora da janela dos transportes públicos. Diplomados que continuam a andar na rua com uma garrafa de cerveja na mão, nas festas de romarias. Diplomados que continuam a mandar crianças comprar lhes cigarros ou grogue na loja do vizinho. Diplomados que continuam a organizar e aplaudir festivais e “misses” onde crianças atuam no palco com danças sensuais e demonstrando atitudes de gente grande. Temos que ser bons exemplos e agentes da transformação social que somos esperados ser para formar uma sociedade mais civilizada. Não temos que diluir com a massa para mostrarmos que somos simples e humildes. A sensibilidade complementa o diploma, assim como uma cereja em cima do bolo.

Comentários  

0 # Olho Vivo 04-08-2017 17:05
Diplomados, são pessoas a quem foi atribuido um diploma. Como tudo em Cabo verde virou um negócio.Quem pode pagar tem um. A educação é uma farsa em Cabo Verde. E o culpado não são estes jovens, mas quem a custo de um enriquecimento rápido, anda a atribuir diplomas sem qualquer criterio
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+2 # Manuella Gomes 15-07-2017 20:13
Têm formação académica, não formação pessoal. Como se diz, a educação vem do berço. Não a tiveram em casa e nem se mostraram dispostos em moldar ou melhorar o comportamento através dos estudos académicos. Consequentemente, temos a sociedade que temos. As pessoas se sentem incomodadas, mas ficam impávidas e serenas. Por que será que há algum receio em agir?
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+3 # Elsa Furtado 15-07-2017 14:19
Isso é so a ponta do iceberg! Muitas festas estas festas são organizadas à revelia da Direção, com conivência de alguns pais e professores irresponsáveis. Aqui em Santiago principalmente, já se meteu na cabeça que se não houver griitaria não é festa. As festas de romaria estão a perder sentido (Vem aí Nhô Santiago!); nos hiaces já é insuportável andar; os condutores dos carros para ostentarem a posse têm que ter música nos últimos brados! Caso para se dizer, o diploma é apenas mais um meio de arrecadar dinheiro e status social. Temos que denunciar, pressionar a quem de direito para que se ponha cobro a esta situação.
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+2 # Aristides Brito 15-07-2017 12:44
Uma bela viagem a nossa sociedade de hoje e sua coconsequencia para o proprio amanha, parabens Eusebio, pela sua contribuiçao a esta sociedade.
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+2 # Aroldo va 15-07-2017 13:57
OI pior ainda é que a casa onde havia a música que encontravam as pessoas localiza s escassos metros da Polícia que como sempre não assume a responsabilidade de fazer cumprir o código da postura. Muitas vezes a denuncias escusam-se de fazer, pois que enumeras vezes o denunciante tem sido vítima e ataques e represália da parte dos promotores informados pela própria Polícia de sremautores da denuncia.u
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