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Por: David Veiga

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Hoje, 25 de Maio, estamos todos a parabenizar o nosso continente – África – com fotos, frases feitas e declarações de amor. Amanhã voltaremos a cabeça para o nosso umbigo.

O dia 25 de Maio é considerado o Dia de África porque foi neste dia, em 1963, que se criou a Organização de Unidade Africana (OUA), na Etiópia, com o objetivo de defender e emancipar o continente africano. Nove anos depois,em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 25 de Maio como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África – a OUA acabaria por dar lugar, em 2002, à União Africana mas a celebração da data manteve-se.

Só para refrescar algumas ideias, o dia de hoje recorda a luta pela independência do continente africano, contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid, assim como simboliza o desejo de um continente mais unido, organizado, desenvolvido e livre - em países como o Gana, o Mali, a Namíbia, a Zâmbia e o Zimbabwe, o Dia da África é um feriado.

E lembrei-me, então, da mensagem desta manhã do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres: “neste dia de África, exorto todas as nações a apoiarem uma África pacífica e próspera. O que é bom para África é bom para o mundo".

Sim, reflecti sobre isso, porque vejo que África tornou-se num argumento, virou uma moda sazonal com discursos agendados, tornou-se, pela palavra, num auto de defesa. Acontece na Europa, sucede o mesmo em Cabo Verde, curiosamente, um país africano.

Se dermos uma espreitadela na rede social facebook crioula encontramos neste dia centenas ou milhares de frases de apoio ao continente, mas raras vezes durante o ano todo se notam posts ou artigos a defender o melhor para o continente, a denunciar atropelos dos caciques políticos contra a população ou textos a pedir aos nossos governantes mais atenção para este nosso continente, onde pagamos quotas e somos membros de pleno direito das principais organizações pan-africanas.

A culpa é nossa. Porque insistimos em ser brancos, quando estes só precisam de nós se formos genuínos, pretos. A cada dia que passa Cabo Verde ‘mata’ a sua ligação umbilical com a África, com a cultura africana, entretanto, nas efemérides, lá estamos a ler os mais brilhantes discursos, a apregoar tudo de bom para uma região que decidimos, por capricho, virar as costas.

Os sucessivos governos deste país têm falhado e muito na sua relação com o continente. O actual executivo, depois do vexame de perder a presidência da CEDEAO por não pagarmos quotas nem participarmos nas reuniões da comunidade regional, resolveu criar uma pasta governamental para se dedicar à Integração Regional. No entanto, este mesmo governo acena descaradamente a bandeira da integração europeia, quando nos fora regionais afirma de cara limpa que está sim interessado na futura moeda única da CEDEAO, quer liderar a comunidade por ser exemplo de paz e boa governação, e fala numa embaixada em Adis Abeba (Etiópia), sede da UA. Tudo para alargar as relações com os restantes países vizinhos. Só que na prática não se vê nada.

Enfim, continuamos a ignorar todos os dias um continente rico, com 30.230.000 km² de extensão territorial, distribuídos em 53 países, e que é o segundo continente com mais população do mundo. Mas onde também está a grande parte da população desnutrida do planeta e onde se apresentam os maiores problemas sociais da actualidade.

Todavia, lembramo-nos dela hoje, 25 de Maio. E amanhã, quem se lembrará? Qual de nós dirá algo sobre África a não ser falar do seu próprio umbigo nas redes sociais? Claro, de África só convém falar em dias de pseudo-festa. Mas um dia – é minha convicção – este continente vasto e multicultural será Wakanda. Literalmente.

 

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