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Por: António Alte Pinho

Toda a gente fala da liberdade de imprensa, direi mesmo que este é o tema recorrente da última semana. De uma ponta a outra do espectro político, passando pelos opinadores de serviço e indo até algumas lêndeas do jornalismo, tecem-se loas, cantam-se hinos ou exibem-se números manipulados segundo os diversos interesses particulares ou as conveniências das variadas freguesias.

Uma semana antes, já nos haviam inundado com a aritmética politicamente correta dos bitaites do relatório do Departamento de Estado norte-americano a propósito dos direitos humanos – ironicamente parido por um dos países que mais os viola.

No mundo da manipulação e do faz de conta, tudo vale para iludir os papalvos e exibir as maravilhas da democracia formatada, politicamente correta e imaculadamente branca.

Ora, Cabo Verde - fiel aluno do ocidente e obediente usufrutuário da generosidade dos grandes do mundo - não poderia ficar de fora e, consoante as sensibilidades ideológicas em confronto, participar na grande farsa do deve e haver dos bons costumes democráticos...

A liberdade de imprensa – um dos ícones ideológicos das sociedades ocidentais – acantona-se no conceito de democracia, conquanto nesta matéria subsistam dois pontos de vista diversos e, mesmo, absolutamente antagónicos.

Segundo um dos pontos de vista (aquele no qual me revejo, mas que é absolutamente minoritário), assume-se uma conceção de democracia balizada no princípio de que os cidadãos devem participar de forma ativa na discussão e orientação dos assuntos que lhes dizem respeito, num contexto em que os meios de comunicação social sejam abertos ao debate e à participação cidadã, expressando com total liberdade todos os pontos de vista. Um conceito, aliás, que remonta à primeiras definições da natureza intrínseca da própria democracia.

O outro ponto de vista (massificado durante decénios, mas com maior relevância desde os anos 80 do século XX), releva um conceito de democracia musculada, onde apenas às elites e às classes dominantes está reservado o direito de participar na condução dos assuntos públicos que interessam a toda a comunidade, bem como ter garantido o acesso aos media, financiados, suportados e dirigidos pelas classes dominantes e pelos grupos de interesse sistémicos.

Neste contexto, é evidente que falar em liberdade de imprensa não passa de uma acabada falácia, de uma flagrante manipulação e perversão dos princípios fundadores da democracia.

As sociedades modernas funcionam com um sistema de filtros, desde a mais tenra idade no sistema de ensino, há coisas das quais não se fala, por isso é que, já no fim do processo educativo, saem das nossas universidades, grosso modo, seres acríticos, sem pensamento próprio, e com uma certa visão massificada do mundo. Neste caminho, a comunicação social, maioritariamente controlada por grupos de interesses económicos e/ou políticos, faz também o seu trabalho de massificação e formatação do pensamento único.

O sistema nem sempre funciona, mas no essencial reproduz a carga ideológica que as pessoas transportam já desde o mais remoto início das suas vidas. Quem foge deste padrão, normalmente, é visto como problemático, inadaptado, senão mesmo louco, e os jornalistas que questionam as versões oficiais são colocados na prateleira ou alvo de orquestradas e subtis campanhas de descredibilização do seu trabalho. Outros, embora considerando os media uma grande farsa, ainda assim procuram aproveitar algumas brechas e fazer o seu trabalho num registo fora da formatação. Às vezes, consegue-se.

Recentemente, os media de todo o mundo noticiaram o ataque norte-americano à Síria, tendo como pretexto o uso de armas químicas pelo regime de Bashar al-Assad, uma circunstância contestada por organizações internacionais presentes no terreno e por observadores da própria Organização das Nações Unidos. Ou seja, o pretexto não era mais do que uma grande mentira!

Anos antes, sob o mesmo pretexto, as grandes potências atacaram o Iraque, depuseram o regime de Saddam Hussein e transformaram o país num território ingovernável. Anos depois, sob a capa da implantação da democracia, foi a vez da primavera árabe, que destruiu nações inteiras e tornou o mundo mais inseguro. No essencial, os media de todo o mundo reproduziram a versão oficial, desta feita agitando o papão do terrorismo, não raras vezes financiado e apoiado na sombra pelos novos cruzados da democracia ocidental, imaculadamente branca e pura...

Liberdade de imprensa?! Mas estamos a falar de quê?

António Alte Pinho
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Comentários  

0 # Lém de Galo 07-05-2018 09:57
Não é só a falta de liberdade de imprensa que é preciso combater. É preciso também combater os hábitos antigos, os preconceitos e jogos de interesses que desembocam sempre no mesmo lado. Para quando uma abertura no seu país para permitir que os imigrantes acedam aos jornais para contarem a sua história, a partir do seu próprio ponto de vista? Cabo Verde está à frente nessas matérias e dá lições a muita gente pretensiosa por este mundo fora. Em Cabo Verde qualquer um pode opinar sem qualquer restrição, porque não se olha para cor da pele como critério de aferição qualitativa. Viva Cabo Verde, cosmopolita livre e tolerante!
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0 # António Alte Pinho 07-05-2018 10:42
Como é sabido não sou nada complacente com o que se passa no meu outro país. E, com toda clareza, devo dizer-lhe que sempre me bati (pela escrita e pela ação) pelos direitos dos imigrantes que vivem em Portugal - e não é de hoje!
Vivo em Cabo Verde há muitos anos, tenho família caboverdiana, sou pai de caboverdianos e caboverdiano por opção e pelo coração.
Certamente não leu com atenção o que escrevi.
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