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Por: Avelino Rodrigues de Pina

“Eu não sonhei com sucesso. Eu trabalhei para ele” – Estée Lauder, (1908 – 2004) - Empresária

 Avelino

As mulheres têm conquistado, ao longo dos tempos, espaços em todos os quadrantes de vida humana, marcando pontos e somando sucessos, com consequente impacto no desenvolvimento de vários países do mundo. Tal como noutras paragens, em Cabo Verde também se tem notado, cada vez mais, mulheres a assumirem cargos políticos e de gestão, em que muitas delas, merecem aplausos e incentivos por parte da sociedade cabo-verdiana, por tê-los conseguido, através de MÉRITOS PRÓPRIOS. Ganhos que vêm sendo alcançados, paulatinamente, desde a luta de libertação nacional. E, a própria evolução e dinâmica da vida, continuarão, obviamente, a acompanhar todos aqueles que, independentemente de serem homens ou mulheres, traçam os seus “projetos de vida” para, através de esforços e determinação, conseguirem realizar os seus desígnios. Exemplos são muitos, de forma que seria difícil aqui enumerá-los.

Porém, “como não há bela sem senão”, nessa luta pela igualdade de direitos (diria até de deveres e de oportunidades também) entre homens e mulheres – o que seria exemplar e salutar, surgiram pequenos “movimentos” ligados à política partidária e à “emancipação feminina”, que tentam, a todo custo, ultrapassar o limite daquilo que seria “o normal”, procurando igualar os géneros humanos (biologicamente impossível) e obrigar os responsáveis cabo-verdianos a colocar pessoas em lugares de responsabilidade, preocupando-se mais com sua condição humana (homem ou mulher), sem primeiro procurar saber: i) se a pessoa está interessada para o lugar/cargo existente; ii) se está, devidamente preparada para esse lugar; iii) se existem condições para lá estar; iv) se está à altura de assumir desafios que irão surgir e de corresponder às legítimas aspirações do povo; v) se a colocação da pessoa irá trazer benefícios para a Nação Cabo-verdiana. Seria, do nosso ponto de vista, um contrassenso, agir dessa forma, e colocaria em causa, a própria emancipação e a democracia, até agora conquistadas.

Sob fundamentação (!?) de várias ordens (democracia, direitos humanos, igualdade de género, etc), conseguiram levar e fazer aprovar, a tão discutida e contestada proposta de Lei (a qual viera dar lugar à Lei nº 68/IX/2019, de 28 de novembro). Sem prejuízo pelo respeito para com as liberdades de cada um, pergunta-se, se os promotores dessa “determinação” chegaram de pensar na sua aplicabilidade e nas consequências que traria para o país. Quando e quem terá sido impedido(a) de ser aquilo que quer ser e que REALMENTE o terá conquistado, por MÉRITO próprio? Já se pensou na sobrecarga que o nosso setor da Justiça irá ter, nessa matéria (sobretudo na constituição das listas pelos partidos políticos)? E as qualidades técnicas pessoais daqueles(as) que irão constar dessas listas, deixarão de ser consideradas? A “imposição” que se pretende levar avante, irá coadunar com a propalada democracia e com a competência para o exercício de qualquer cargo?

A essência dessa própria Lei é a de “…garantir uma efetiva igualdade de direitos e deveres, entre homens e mulheres… e a criação das mesmas oportunidades…” (cfr. § único do seu art.º 1º). Portanto, em abono da verdade, está-se a querer exagerar nessa estória de “igualdade de género”, algo bastante polémico e que exige uma reflexão séria, cuidada, desapaixonada e “despolitizada”, no seio de todas as classes sociais cabo-verdianas. Somos sim, “todos iguais, mas todos diferentes” - seres humanos complementares. E é dessa diferença/complementaridade que surge a FAMÍLIA – uma das mais belas criações de Deus/Natureza e a base de TUDO.

É de se ressalvar que, regra geral, as grandes instituições/empresas (de sucesso) no mundo, contratam/nomeiam as pessoas com base em critérios como, a formação, a capacidade técnica, o espírito de criatividade/inovação, etc, sem discriminar “géneros” - que, obviamente, não depende de nós, mais sim, do Criador.

Como dizia alguém, devemos deixar de imitar e/ou impor determinados “modelos” que poderão não servir para Cabo Verde.

Em suma, o mérito não se consegue através de “decretos/imposições” mas sim, se conquista, com muito trabalho, sacrifício, dedicação e a vontade livre de querer colocá-lo (o mérito) ao serviço deste amado país, que muito precisa de nós. Isto para qualquer um, independentemente da nossa condição humana (homem ou mulher)

3 de setembro de 2020

Comentários  

0 # Domingos Monteiro 16-09-2020 12:02
Para além de não haver paridade para o serviço militar obrigatório também não existe, por exemplo, na idade de reforma entre homens e mulheres
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0 # Então? 06-09-2020 10:01
Pare quê se preocupar com a questão da paridade se todos sabem que as mulheres,do tipo que precisam nos partidos, pela via da ondulação horizontal, podem chegar a onde quiserem?
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+1 # Jorge Lopes 05-09-2020 21:04
Excelente e oportuna reflexão. Estou na sua linha do seu pensamento.
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0 # Tony 05-09-2020 17:38
Será que os pontos ii - v não deveriam ser aplicados, em contexto normal (de não paridade).
Pois, se a questão não é o mérito que vá pela paridade.
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+4 # Emilio Rousseau 04-09-2020 16:53
Um artigo técnico e cientifico que tenta explicar obviamente que é necessário maior aprofundamento, tendo em conta toda essa problemática da equidade e do género. Esta questão deve ou devia ser muita discutida e explorada antes da sua aprovação e entrada em vigor sob a forma de lei. O povo caboverdiana pela sua essência não vê muita diferença entre homens e mulheres sobretudo na ocupação de cargos públicos. Prova disso temos muitas mulheres Diretores Gerais, Diretores de Serviços, Administradoras, De[censurado]das, PCAs de empresas publicas e privadas, Vereadoras, algumas já foram Presidentes de Câmaras Municipais e Assembleias municipais etc, etc. Na minha ótica «Tudo devia depender da aptidão, experiência, boa vontade, formação na área específica, etc etc). Foi dito
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+3 # Daniel Carvalho 04-09-2020 15:51
Gostei do artigo.
Em Cabo Verde, andamos muito empenhados em imitar realidades muito diversas da nossa, o que nos coloca muitas vezes no ridículo, como é o caso do assunto em apreço: questão da paridade ou igualdade de género.
Esse ridículo já embaraçou de forma vergonhosa, tanto o MPD como o PAICV, que aprovaram uma lei que agora objectivamente não podem cumprir. Claro que em Cabo Verde, a motivação da mulher para participar em actividades politico-partidárias não depende de qualquer decreto, mas tão somente da elevação do nível de educação, da ética e na delicadeza no trato dos nossos políticos, muitos dos quais não passam de "matxu burro", que procuram impor pela via da agressão.
São essas condutas que a lei não quis regular, que afastam as mulheres da politica, e enquanto essa maneira de estar na politica se mantiver, serão sempre muito poucas as mulheres a se interessarem pela vida politica.
Refiro-me às mulheres competentes, que não precisam da politica para se afirmarem, pois de outro modo, é sempre fácil ter mulheres de[censurado]das ou em qualquer outros cargos importantes, sem qualquer explicação plausível sobre a forma como lá chegaram e quando assim é, não se deve perguntar pelos resultados do desempenho.
Mas a Mulher Caboverdiana está bem e se não está na politica é porque não quer, não se sente confortável. Vejam que elas estão a dar carta em vários sectores chaves da nossa administração: Educação; Saúde; Justiça;e Sector Financeiro e outros.
Deixem as mulheres em paz, para escolherem o caminho que pretendem seguir, longe de aliciamentos perversos que caracterizam o machismo caboverdiano.
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+5 # Aguinaldo Monteiro 04-09-2020 14:38
Caro amigo, Dr. Avelino Rodrigues de Pina, Um excelente artigo de opinião. Realmente, a formação, as capacidades técnica e profissional, o espírito de criatividade (inovação), acrescentaria... o ser são atributos que não se impõem por lei, decreto-lei, decreto legislativo e outras normas jurídico-constitucionais.
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+4 # Sim Senhor 04-09-2020 14:30
Eu só pergunto porquê que não se briga pela paridade no serviço militar obrigatório? É somente onde haja alguma teta para mamar?
Pois, a política em Cabo Verde e em muitas partes do mundo é vista como vaca leiteira e/ou galinha dos ovos de oiro. Estamos a caminhar para uma sociedade feminista, cujas consequências são muito perigosas.
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+8 # Benvindo 04-09-2020 12:03
Um artigo muito importante para reflexão. As medidas de acções afirmativas podem ser um presente envenenando. Se for ver, esta discussão começou a muito tempo, sobretudo nos EUA, com a Affirmative Action, e foi para o campo das nações mundiais, com o SDT, Special and Differential Tretament, mas qual tem sido o avanço na luta contra a discriminação e no desenvolvimento das nações? praticamente nulas, porque? porque estas medidas afirmativas (quotas, incentivos, etc.) tem sido impostas no topo da hierarquia social e económica e não nas condições básicas das pessoas e das nações.
Para que haja efeito prático, e os mentores sabem disso, é preciso começar por igualar as condições na base da educação, das condições materiais primárias das pessoas, no inicio das formação nas familias, etc. e não quando no acesso ao ensino superior, politica, etc. que deve ser o resultado do mérito que vai se conseguir quando se coloca todos no mesmo ponto de partida para a corrida. Por isso, como com o nivelamento na base, senão dificilmente o prédio vai ficar na linha. Parabéns Alves Meu Amigo pelo artigo.
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+6 # José Lino Vieira Fur 04-09-2020 08:41
Bem pensado e sabiamente escrito. Uma análise prudente, muito embora pense que há algo mais por dizer que esteja sendo poupado, para não ferir sensibilidades opostas.
Assunto é muito sério. Trata-se da questão da governança e, efetivamente, a condução do destino do país e do seu povo para um porto seguro. A nossa constituição não impeça nenhum(a) cidadão (ã) de formar grupos ou partidos para serem sufragados e, assim, assumir o pretendido cargo político.
As mulheres são competentes sim. Mas que demonstrem isso pelas suas dedicações e méritos, sobretudo para assunção de cargos políticos que pretendem, através da formação dos partidos em que são elas mesmas líderes ou fundadoras ou através da conquista da liderança dos mesmos.
Não é esconder atrás das bandeiras dos partidos criados por bravos homens, que sacrificam a sua propria vida, humilhação, perseguição, represália, corte de salários ou destituição de cargos por defenderem ideias contrárias, para exigirem a sua participação por cota ou paridade na formação da lista. Isto se chama "feminismo exacerbado" imbuido, ainda, dum certo grau de complexo de inferioridade feminina. A luz dos novos tempos isto acabou. Cargos políticos é para quem demonstre zelo, competência para tal, independentemente da condição de gênero. Ou seja, não deve ser definido pela condição de gênero. Afinal a política é a capacidade do bem servir ao povo. Que cada um trabalhe e desfrute do seu trabalho. NADA CONTRA MULHERES. SÓ DISSE AQUILO QUE TEM QUE SER DITO, QUE POR QUESTÃO POPULISTA OU ELEITORALISTA OS DE[censurado]DOS E A GRANDE CAMADA INTELETUAL NÃO SENTEM A CORAGEM DE DIZER.
VIVA as mulheres que encabecaram a lista do seu próprio partido ou grupo para exercerem a sua cidadania. Que fique como exemplo pra as demais.
Contem comigo.
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+6 # Adalberto Varela 04-09-2020 07:27
Excelente artigo. Não é por acaso que os partidos estão com problemas em constituir as listas porque muitas Mulheres (com perfil que se exige) não querem aceitar e aquelas que se mostram disponíveis, não tem o perfil desejado.

Portanto esta lei simplesmente veio para enfraquecer o nosso sistema político/administrativo.
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