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Por: Mana Guta

Conto dedicado às crianças portadoras de paralisia cerebral e a todos os educadores, diplomados ou não, que acreditam no milagre da sala de aula.

 CAPÍTULO I – CASA DE TRANÇAS

Artigo 2º.

  1. Os Estados Partes comprometem-se a respeitar e a garantir os direitos previstos na presente Convenção a todas as crianças que se encontrem sujeitas à sua jurisdição, sem discriminação alguma, independentemente de qualquer consideração de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra da criança, de seus pais ou representantes legais, ou da sua origem nacional, étnica ou social, fortuna, incapacidade, nascimento ou de qualquer outra situação.

(Convenção sobre os Direitos da Criança Adotada pela Resolução No. 44/25 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de novembro de 1989)

           

- História, história.

- Fortuna do céu amém!

Uma vez tinha uma menina que era eu, a Clara, e o meu irmão, Camões.

A história que te vou contar é para o meu irmão dormir.

Este é o meu irmão Camões. Ele tem cinco meses. Ele só tem um nome de igreja e um nome de casa.

Nossa Mãe me contou que havia um homem muito sabido que se chamava Camões e ela gostava muito que o Camões se chamasse Camões, como o mais velho dos livros. O Chefe lá do registo civil mandou dizer à minha mãe que ninguém se chama Camões. Era preciso chamar o menino de Luís, então. A minha mãe achou que Luís não tinha nada a ver com Camões:

- No registo manda o senhor, no meu filho mando eu.

- Minha senhora, Camões é o apelido de um homem muito sabido, deveras, mas não é nome. Ele se chamava Luís de Camões. Era um grande homem, um escritor e tudo, assim como a Professora lhe contou…

- Camões, Sr. Chefe. O filho é meu. O pai dele viajou eu ainda grávida. Não há de ser o senhor a escolher o nome para o meu filho, se faz favor.

- Luís, senhora. Luís é que é o nome próprio. Tenho dito, em nome da Lei.

Nisto a minha mãe mandingou e quando ela fica assim não responde um piu.

O Chefe deu as costas e foi lá para dentro. A senhora do registo queria era obedecer ao Chefe. Minha Mãe deu as costas e foi chamar Tio Sim. Essa não era uma razão para se decidir sozinha. Trouxe o homem da família.

Mas Tio Sim achou que não tinha precisão de incomodar o Chefe. E o Tio Sim, que sabia assinar, assinou. E a Tia Segunda, que sabia assinar, assinou.

E Mamã que não sabe assinar não assinou. Chegou à casa e disse:

“Vamos dar banho ao Camões”. “Vamos dar de mamar ao Camões.” “Camões já fez xixi.” “Camões já sabe sorrir.” “ Camões é um menino sabido. Daqui a pouco come cachupa.”

E ficou Camões.

 A história que te vou contar é para o irmão Kodê dormir.

Eu sou a Clara, tenho cinco anos e vou estudar a 1ª classe. O meu nome de casa é Preta, mas meus irmãos e nossa Mãe me chamam de Netinha, porque tem semanas que a Vovó vem passar conosco e então, assim, ninguém se confunde. Vovó conta que, antes de se casar com Papai Velho, todos a chamavam de Clarinha de Dona Tuda de Compá António. Diz que o Pai dela foi um grande emigrante mercano que tinha muitos afilhados cá na terra. Depois que se casou, passou a ser Clara de Gregório Simas.

Foi assim que Vovó se chamava quando se casou, por procuração, com o Marinheiro de Mar Alto. Ela tinha 15 anos. Aos 20, já mulher arredondada, conheceu Nhô Gregório na missa de sete dias do seu Pai. Diz que o marido ouviu dizer que já não havia nenhum homem na família para cuidar da honra da sua esposa; e resolveu dar a sua razão para voltar para a terra. E veio mesmo.

Então, sim. Foi aí que nasceram todas as tias da família. Tio Sim veio no fim. Tia Rosa, Tia Rosinha, Tia Rosita e Tia Rosenda; Tia Maria Sábado, Tia Domingas, Tia Quinta. Então Mamãe Velha não era mais a Clara. Passou a ser Mãe de Sete Filhas. Nominho: Mãe de Sete.

Só depois ficou para ter Tio Sim, lembrança das últimas férias que Papai Velho passou em Cabo Verde. Tio Sim era um menino muito bonito, muito calmo e muito trabalhador. Só numa coisa Titio não parecia um menino de Santiago. Tudo o que lhe perguntavam, respondia “Nhor Sim” ou “Nhara Sim”. Nunca respondia “Ayan”, nem para os meninos traquinos:

“Posso brincar com seu carro de lata”? “ Sim, Noi”. E Noi se sentia importante.

“ Traz-me doce de mancara da Praia, Titio?” “ Sim, Preta”.

 Deve ser porque ele lia muitos livros. E estava habituado a falar com os livros em Português. Era afilhado da Professora e puxava com as crianças à sabatina de tarde, no quintal. Mas, mesmo assim, as crianças o chamavam de Mano Sim. Mano, por respeito; e Sim - porque sim.

Mamã é a Kodê de Mamãe Velha. Tio Sim ainda tinha dois anos quando ela nasceu. Diz que ela estava sempre doente. Então a parteira ficou com medo de ela morrer e mandou Papai Velho e Mamãe Velha batizarem Mamã de FICA, que era para ela ficar. Nhu Padre não entendia nada de assuntos de parteiras; mas era um padre velho e bom e ficava sempre feliz quando batizava crianças. Disse que desquecia se havia uma santa chamada Fica, mas quem não se lembra de Maria Mãe de Deus? “Vai ser Maria.” Mamãe Velha insistiu que queria uma garantia, no nome, que Mamã não ia morrer. O Padre fez que sim e disse, com duas bochechas rosadas:

- Vai ser afilhada de Nossa Senhora do Socorro e de São Miguel Arcanjo. Eu te batizo Maria Porfica: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.

Todos gostaram. E Ficou FICA, como nominho. E FICA, como nome de casa também.

Só a Mamãe Velha da minha Mãe que, quando viva, a chamava de: Morti Nega, Furtuna Tôma. Nominho: Morti Nega. Mas isso já não sei por que.

Mamãe Velha diz que Mamã é a filha mais profeta que ela já teve. Desde criança que tinha resposta debaixo da língua. Foi pena sua madrinha de xarém ter achado que Mamã era muito fraca e que poderia não aguentar andar oito km para ir à Escola. Ela ficou em casa e só sabia ler de cabeça. Sempre que via as imagens, dizia a história de cor. Mamã era do tempo em que as madrinhas, mesmo as de xerém, eram consultadas pelas mães, para se tomarem grandes decisões:

- Nhara está, comadre.

- Nhara está… (E as duas fincam mesuras e levam a bênção às cabeças).

- E a Afilhada, está melhor?

- Está mais melhor, comadre. Na vontade de Deus.

- Comadre, estou a pensar em pôr a Fica na Escola e vim tomar troga com a senhora, comadre.

- Eh Comadre. Eu também venho matutando nesta razão, há muito tempo. Menino fêmea agora todas vão para a escola. Só no nosso tempo é que nossa gente grande pensava que meninas na escola iam mas é aprender a escrever cartas aos noivos. Hoje, quem tem filho fêmea, Comadre, deve dar-lhe escola que é a melhor herança de filho de coitado.

- Nhara sim, Comadre. Então, por comparação, a senhora acha que devemos mandar a Fica? Quero tomar troga consigo, antes de falar ao Marido.

- Bem, comadre. A Fica tem aquele corpinho fraco. Precisamos matutar bem neste pensar.

Tu não sabes, ainda, mas as mamães velhas, desde que mundo é mundo, quando dizem que precisam matutar bem no assunto é porque a conversa vai findar com um não muito educado. E foi assim que a Mamã ficou sem conhecer nem um Ô que o burro põe no chão. Suas outras irmãs todas têm Escola. Mamã apanhou tanta raiva disso que ela sempre diz:

- Na minha casa, tudo o que tem fôlego, come e anda, vai ter Escola.

Até o Tejo, nosso cão amarelo, se começar a aprender, a Mãe lhe compra um caderno. Uma pessoa sem Escola não é nada nesta vida.

 CAPÍTULO II - A FINTA

                                   Artigo 2º.

  1. Os Estados Partes tomam todas as medidas adequadas para que a criança seja efetivamente protegida contra todas as formas de discriminação ou de sanção decorrentes da situação jurídica, de atividades, opiniões expressas ou convicções de seus pais, representantes legais ou outros membros da sua família.

 

(Convenção sobre os Direitos da Criança Adoptada pela Resolução No. 44/25 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de novembro de 1989)

 

Nã Mininu nã…

Mininu está com sono

Sua Mãe pariu largou

Sua dona criou

Com papa de farinha milho 

Com leite de cabra preta

Como podes ver, nós moramos numa casa grande, muito bonita e cheia de tranças. É uma casa pintada de cor-de-rosa, por dentro, e de cor-de-branca por fora. Do lado de fora da casa, guardam duas janelas: uma janela azul e uma janela amarela.

As janelas são os olhos da Casa. As mulheres sabem que, quando a janela azul está fechada, é porque a minha Mãe foi para a lida e estou sozinha com o Kodê Camões. Ficam de guarda, mas fingem que a Mãe está lá dentro. Então, comparação, elas estão a fazer trancinhas à Casa, para fintar o Guarda. Andam mas é a tomar conta de nós.

À noite chegam sempre os vizinhos, de Santo Antão a Brava. Até o Dibididó, gigante ranhoso de Santa Luzia, quando tem mister, vem e põe medo ao Guarda Kapronto.

Então, deixa-me falar-te: a cada trança, há uma história. Para ninar o Camões Kodê:

- Era uma vez um rapaz forte e sabido chamado Mané Quim _ contou Tio Manel.

Era muito linda, muito verde e cheia de montanhas a sua ilha. Ribeira das Patas, então, onde Mané Quim morava, que lugar farto, cheio de frutas sabes!

Logo deveras. Lá cheira a manga madura e banana maçã. Maresia lá é feita de melaço. Barulho se ouve são cantigas de trabalho; mulheres batendo roupa, meninas apanhando água, ou velhotes contando histórias. Rapazes novos animando bois no trapiche, ou água limpa descendo a ribeira, na azágua. Buraco no chão se enche com milho e feijão… e batata-doce era chegar, escolher e levar. Conforme a força de cada um.

Mas o tempo mareou muito por lá. E Mané Quim tinha uma razão importante para matutar: um dia parou de chover e Ribeirãozinho, seu melhor amigo, começou a secar. Como abandonar sua família? E sua horta bonita?

Não faria sofrer Mãe Joja. Nem de fome nem de saudade. Tinha também a Escolástica, menina séria e trabalhadeira, que não queria que ele fosse, porque era noiva dele. Mas ele mandingou e foi. Que remédio? Sem chuva, há que procurar um pão de cada dia no Brasil.

De repente, o Tio Manel, antes de terminar a trança, mandou vir uma Chuva Braba que alegrou a todos. E Mané Quim casou-se com Escolástica e foram felizes para sempre.

Então sim. Foi assim que ficaram para ter filho e foram visitar a tia Dina de Nhô Salústio, que lhes levou lá na sua parteira de Serrano, que muitos achavam era louca, mas era a Mãe dos meninos da ilha. Não deixava ninguém zombar dos costumes. Fazia tranças à noite, para acompanhar as Filhas do Vento. O vento era forte e frio, mas quando todos se uniam, na fogueira de S. João, Mornas eram as noites.

Kodê Camões ficava, assim, calmo. Nem se faz a segunda trança, e ele já roncava o sono. Eu ainda não sei ler. Mas Camões pensa que eu sei, sabes? É que Camões também não sabe ler e pensa que ler de cabeça é igual ler de verdade.

Nã Mininu nã…

Mininu está com sono

De repente um susto _ o barulho do carro. Fez lembrar Nhô Roque com seu casaco de ganga. Todo fashion. Foi assim: Uam! Vindo do nada.

O Mais Velho parou de fazer tranças. “Não se separa o sujeito do predicado” (ponto final). As Virgens loucas do bairro erravam na pontuação. E a cada Recaída, parava a trança, para corrigir seus textos.

Mas coragem! O domínio da língua portuguesa é uma Terra de Promissão.

A vírgula é uma menina sabida: há que poder lidar com ela. Exemplo: “O Enterro de Nha Candinha Sena (sem vírgula nenhuma) aconteceu ao som das músicas mais lindas de São Vicente” (ponto).

Difícil a vírgula? Ná…

Mamã sempre diz que difícil é procurar os três por dia, sem marido e sem escola, e ainda assim ter leite bom no peito para o Camões. Mas deixa quieto:

Mamã só se preocupa com comida, Escola e Camões.

E Nhô Roque só se preocupava com as redações da vida e Nhô Baltas se preocupava com as explicações do tempo. Tu ainda não sabes? Gente grande tem sua própria forma de se preocupar com tudo. Não dá nem para falar sua razão. Nem “Chiquinho” Moço Sabido entendia seus modos de viver…

Chiquinho matutava muito nas aulas de Nhô Baltas. O Sr. Professor insistia que a língua portuguesa não era, não senhor, a língua mais difícil do mundo.

- Então, Chiquinho, com quantos anos começa a falar um menino chinês?

- Por volta dos dois, Sr. Professor.

- E um menino inglês, Chiquinho?

- Por volta dos dois, senhor Professor.

- E um menino do Caleijão, moda você, Chiquinho?

- Acho que com a mesma idade, senhor.

- Muito bem, Chiquinho. E você acha que Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Raquel de Queirós, Germano Almeida e Fátima Bettencourt começaram a falar com dez anos?

- Não, senhor professor. O Senhor também…! (Chiquinho coçou a cabeça).

- Então, rapaz, por que razão o português é a língua mais difícil do mundo, se todos eles falam português desde a tenra idade?

Houve risos e gargalhadas. Só Chiquinho mandingou. Gostava do Sr. Professor, mas, às vezes, as gargalhadas o faziam sentir mais burro que bosta de burro.

E cheiro de chão lhe lembrava sua terra, São Nicolau.

Sodádi oi, Sodádi! Sodádi es nha terra…  Ai Caminho longe!

Camões dormiu. Está ferrado no sono. Não vale a pena mais histórias. Daqui a pouco Mamãe chega.

CAPÍTULO III - O QUINTAL

Era uma vez um quadro preto, uma árvore enorme e um quintal de crianças.

Atrás do quadro preto, havia uma janela. Em cima da janela, uma caixa laranja bem grande. Dentro da caixa, uma capa também laranja com letras grossas de cor preta e de cor branca; havia desenhos de dois livros um em cima do outro e outros desenhos coloridos que não entendo.

Dentro dessa capa, outra capa laranja, que também parecia o segundo vestido do livro, que ele podia tirar ou colocar conforme lhe desse na cabeça.

Será que livro tem cabeça?

Então sim. Dentro dessa capa colorida é que ficava o livro.

O livro era bem grosso, tinha uma capa dura vermelha, com mais letras grossas. Na pele do livro, as grossas letras são de ouro.

Esse foi o primeiro livro que eu vi. E o mais bonito.

Durante toda a minha vida, o livro falava comigo no sonho. E falava comigo acordada. Tio Sim diz que lá dentro estão todas as palavras do mundo.

- Mas como é possível?

- É possível sim.

- Que coisa maravilhosa!

- Maravilhoso é o mundo das palavras!

Foi a frase mais longa que o Tio Sim já disse.

De vez em quando, por tudo e por nada, ele repetia: maravilhoso é o mundo das palavras.

Mamã já não pensava bem assim. Tudo o que Tio Sim acha de um jeito, Mamã acha que é de outro jeito. Para ela o mundo das palavras era muito complicado. Tão complicado que, quando Tio Sim tomava lições dos manos velhos, ela me engodava para assistir, a ver se eu tomava o gosto pelos livros.

- Vais aprendendo tudo. Criança aprende rápido. Guarda bem direitinho na tua cabecinha e repete para ti mesma até aprenderes. Que é para quando fores para a Escola, saberes tudo.

Por isso que fiquei com a mania de contar as histórias dos livros para o Camões.

Então sim.

Passou-se um mês e eu já sou criança da Escola. Tenho responsabilidades. Não posso passar a vida só nas brincadeiras.

Meus manos chegam hoje da Praia. Agora todos estudam por lá. Por isso todas as noites que a Mamã vai para a lida, ela me deixa com o Camões. Tio Sim embarcou e Vovó vai ficar na Praia até ficar boa. Assim que o Doutor lhe passar papel de alta, ela volta.

Mamã me contou que o livro vermelho com letras de ouro também foi para a Praia com os manos. Eh. Na cidade, uma pessoa tem que saber entrar e saber sair. O peixe morre pela sua boca e quem fala parvamente peca parvamente. O Livro Grande vai ajudar os manos a encontrar as palavras certas de falar os modos de viver. Pois é. Numa coisa, por acaso, ela achava que o Tio Sim tinha razão: nem tudo o que se diz se escreve.

Mas eu acho que tudo o que se escreve se diz. Foi assim que pensei, quando vi novamente o livro de letras de ouro, sobre a janela, naquele sábado à tarde.

Os manos ainda tentavam convencer a Mamã a lhes deixar dar um mergulho no mar: era muita saudade para guardar até amanhã; vida de Praia é frontado: uma pessoa não tem tempo para mais nada, Mamã.

- Primeiro vocês estudam em voz alta para a Preta ir aprendendo os assuntos da Escola. Ela tem que guardar tudo na memória, pois vocês só voltarão daqui a um mês. E continuaram assim, cada um com a sua razão.

- D…i – Di; c…i.. – CI; o; ene…á…NÁ; r…i…_RI…o: DI-CI-O-NÁ-RI-O

- Mãe! (Gritou Mano Velho e viraram-se todos para mim).

- A Preta leu! Diz lá, Preta!

- Dicionário!

- E depois, filha?

- DA - LÍNGUA - PORTUGUESA

- Agora lê tudo de uma vez, Preta!

- DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA

- Nhor Deus, oh Nhor Deus: a minha filha sabe ler…Manda chamar a madrinha. Chama Titia também.

- Zenta, Zenta, vem cá! Hoje eu sou uma grande mulher: a Preta sabe ler.

E foi uma festa. Os vizinhos e familiares mais próximos compareceram.

- A Vovó acabara de descer do Hiace e Mamã puxou-a pelo braço.

Vem Mamã, vem rápido. Entra vem ver uma coisa. (Estavam ambas exaustas, a Vovó assustada, sem saber que tipo de notícia esperar).

- Diz lá Netinha. (Mamã pediu)

- Mas o que foi, Fica? Que desespero é esse?

- Ouça Mãe. Fique quieta. Escute só. Diz lá Preta.

- DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Mamãe Velha olhou para o Mano Velho:

- É isso que está escrito!?

- É, avó.

- Mamãe Velha e Mamã se abraçaram e choraram.

Fui puxada para o abraço.

- Minha Neta Querida. Tu és muito sabida. Vais ser uma grande mulher!

 

Toda a criança deve crescer num ambiente de amor, segurança e compreensão. As crianças devem ser criadas sob o cuidado dos pais, e as mais pequenas jamais deverão separar-se da mãe, a menos que seja necessário (para bem da criança). O governo e a sociedade têm a obrigação de fornecer cuidados especiais para as crianças que não têm família nem dinheiro para viver decentemente.

(Artigo 6º da Convenção sobre os Direitos da Criança Adotada pela Resolução No. 44/25 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de novembro de 1989)

 

CAPÍTULO IV - MATERNIDADE

Catorze quinze, dezasseis,...vinte e três, vinte e quatro e meio pedaços de fita adesiva de cor laranja-rosa, para segurar uma tomada de telefone na parede. Uma secretária e uma cadeira sozinhas, uma conversando com a outra. Na parede, logo à frente de quem entrava, o mesmo cartaz antigo, feito à mão, com as letras mais vagabundas do mundo, dizia: “Não é permitido às grávidas entrarem na Maternidade com objetos de valor. Não podem comer nem beber.” Do lado direito, um outro cartaz mostrava um doente na maca, moribundo, e, ao lado dele, um braço musculoso e uma agulha enorme:

“Doe sangue. Sangue é vida!”

Cruz, credo!

Fiquei ali plantada, à espera que aparecesse vivalma. A cadeira cansou-se de falar com a secretária sobre o livro velho de entradas que reclamava das folhas arrancadas no outro dia. Eis que chegam uma touca verde, uns óculos grandes, um uniforme azul-claro, um par de luvas amarelas que carregavam uma mulher. Ela deixou um balde ao canto da sala com um cheiro insuportável de creolina.

- Bom dia, tudo bem? _ Sorrio para o rosto deformado com óculos.

Um olhar desconfiado me responde exatamente como o balde e o pano de chão. Cara séria de um rosto bonito, que já foi simpático, mas que se fez duro. É preciso manter o respeito e a sobriedade da casa.

- “Bom dia”. Insisto. Arrisco um sorriso.

- Bom dia. _ Ela responde, muito seca.

- Por favor, eu queria saber de uma doente que deu entrada aqui ontem para ter filho

- Visita só às três da tarde.

- Sim, obrigada.

Tento de novo:

- Mas é possível saber como ela está? O nome dela é Maria Sábado Tavares.

- Sinhora, N fla Nha ma visita é só di tardi.

- Ok. Ma N kre sabi si ê ka mesti nada. Por favor! Nha faze-m es favor, li, Deus ta pága nha (Mais uma vez utilizo o Santo Nome de Deus em vão) Si djê tem fidju, si mininu sta dretu (matxu ô femia)...
- Nome?

- Clara Miranda.

- N fla Nha, nomi di doenti.

- Ah, desculpa! Maria Sábado Tavares

- Di undi?

- De Calheta S. Miguel.

- Nha Spéra.

Uma senhora de azul passa com uma maca para fora.

- P....! Krê ê só mi kês ta odja p-ês manda!

Outra grita com as parturientes:

- Eh, suas porcas! Não deixem pingar o sangue no chão. Concerteza não fariam isso se estivessem na vossa casa. Quem sujar o chão, faz favor de limpar. Aqui vocês não têm criada. Pensam que a gente é doida ou quê?

- Vá, Dona, Nha toma baldi ku panu nha limpa kau ki nha xuxa!

Mais tarde fiquei a saber que “a porca” que deixava o sangue cair no chão era a minha sobrinha que tinha acabado de dar à luz. E que a primeira coisa que ela fez depois de ter parido um menino de 4 quilos e levado 10 pontos foi limpar o chão.

Essa gente tem alma?

Então voltam o rosto deformado a touca e os óculos. As luvas vieram arrastadas, mas já o balde continuava quietinho no seu canto. Obediente. Não fosse a servente ralhar com ele também.

- Sábu já teve um filho macho. Ela disse que precisa de camisa de noite, fraldas para criança e roupinha de menino. Desde as 3 da madrugada que o menino está nu prite. A senhora faz favor de trazer lençol também porque aquele lençol nosso que pusemos ela já encheu ele de sangue.

- Trouxe tudo. Agora lençol tenho que esperar abrirem as lojas para comprar. Não têm nenhum do hospital que a possam emprestar?

- Eu já lhe disse que ela sujou. Temos outras doentes. Outras com febre. Cesarianas. Ela é parto normal. Mas traz lençol porque ela está no corredor, não encontrou cama e lá faz muita corrente.

- Tenho que esperar até às nove horas?

- Tem uma senhora aqui que vende tudo. A Dona tem dinheiro?

- Chama a mulher que eu falo com ela.

Então sim. Ela veio.

- Dona, então que novas me dá sobre aquela menininha Maria Sábado?

- Ela está bem, mas ouvi dizer que o filho dela é deficiente. Vai ficar uns dias que a Doutora mandou.

- Deficiente como?

- Nasceu com problemas na cabeça. Paralisia na cabeça. Parece que não vai ter serventia nenhuma.

- Como assim? Quem disse isso?

- Ka nha fronta-m. (Não me afronte)

E foi-se embora. E eu fiquei ali atarantada. Como se faz numa situação destas, Nhor Deus? Começar por onde? Será que querem dizer p…c…? Aburnúcia! Agu tuntum.

Então decidi que não era essa a primeira vez que eu, Clara-Preta, iria ficar à espera que o problema tomasse assento para começar a resolver. Ayan. Vou falar onde tem que falar, vou andar com os meus pés, até descobrir o que tem esse menino.

Bati em todas as portas, pedi por favor sim senhor obrigado não tem de quê, Dios ki ta paga nhôs, até chegar a uma conversa boa, com uma pediatra filha de Deus, mulher de bom coração.

- Dra., faz uns bons dias que o bebé nasceu. Sempre com exames, e análises e tudo o mais. Obrigada pelo seu tempo, mas explique-me, dizimola, o que se passa com ele.

- Sente-se. Quer um copo de água? Bom, veja bem…(ela fez cara de quem escolhe as palavras): Nós suspeitamos _ e estamos a tomar todas as precauções para fazermos um bom diagnóstico _ mas é muito provável que o menino tenha, sim, paralisia cerebral.

- Sim. Bom, Dra., afinal aceito aquele copo de água, se faz favor, obrigada.

- Mas, veja. (E ela me olhou de cima a baixo e disse): “Veja bem”.

Então ela própria tomou o seu copo de água.

“ A paralisia cerebral é uma doença de foro neurológico, provocada por uma lesão no cérebro e no sistema nervoso que pode ocorrer antes do nascimento, durante o parto ou pouco depois do nascimento”.

“ Neste caso, ela se manifestou logo à nascença. Então estamos a fazer um diagnóstico precoce, para realmente avaliarmos a situação concreta do bebé, uma vez que, conforme a área da lesão, ele pode ter dificuldades na visão, na audição, na inteligência, na fala. Pode ter também perturbação da marcha…”

- As chances dele, Doutora?

- Não percebi.

- Quero saber quais são as chances do Victor, por favor.

- Victor é o nome do bebé?

- Sim. Victor passa a ser o nome dele, sim Sra.

- Que nome bonito! Então, o Victor, ele ainda vai fazer mais exames e dependendo desses exames, falarei de novo com a família. Existem terapias que ele poderá fazer e que aumentarão muito as chances dele.

- Então sim. Quando posso aqui voltar, Dra.?

- Dê-me os seus contatos. Eu hei de chamá-la.

Dei todos os meus contatos. Obrigada mais uma vez. Que Deus lhe pague. Havemos de nos ver, então. E saí. Quero olhar para o Céu. É preciso agir.

Então sim, Victor. Vai se chamar Victor!

Chegou a hora de avisar a Mamã e toda a família. Virgem Maria Parida que nos proteja nesta batalha. Não tenho medo, não, Victor!

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! Porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de
quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte,
essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta
como uma velha amante
Mas recuará em veus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço
para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem
diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens
(Vinicius de Morais)

Vamos dar a nossa razão. Resolver as nossas boitas. Cada um com seu merecimento. Baka sem rabu, Diós ki ta bana.

- Vais comigo, Camões?

 

 CAPÍTULO V - A PRISÃO

 

REPÚBLICA DE CABO VERDE

 

BILHETE DE IDENTIDADE DE CIDADÃO NACIONAL

EMISSÃO 08/03/2011- PRAIA

NOME: CLARA TAVARES MIRANDA

PAIS: MARIA DA PURIFICAÇÃO TAVARES MIRANDA

NATURALIDADE: SÃO MIGUEL ARCANJO

RESIDÊNCIA: PALMAREJO – PRAIA

DATA DE NASCIMENTO: 15/08/1981

ESTADO CIVIL: CAS.

ALTURA: 1.70

VALIDADE: 08/03/2021

- Sim, senhora. Acredito que a senhora doutora é filha da Fica. Mas, ela não me deixou outro jeito senão prendê-la. Já avisei muitas vezes que agora é proibido apanhar areia. Ela me passa má resposta.

- Que resposta ela passou?

- Que era para eu cuidar dos bandidos e deixar os honestos trabalharem em paz. Que ela não rouba areia. Que a areia é do mar e o mar é de Deus. Que ela tira areia, mas faz isso de noite, na base do respeito. Que nós sabemos que ela criou todos os filhos dela sozinha, com suor do seu rosto, mas nunca lhes faltou com um pão de cada dia, etc, etc, o que todas as mães dizem.

- Mas o senhor lhe prendeu assim mesmo?

- Claro. Então, mas se ela até confessou tudo?

- Entendo, Sr. Agente. (Conheço bem a minha mãe e sei que o Guarda não exagerou nem um pouco).

- Mas, Dra., me diga: vocês são tantos irmãos, todos bem empregados, com vida digna, por que não tiram a vossa Mãe desta lida de areia?

- Porque ela agora tem sobrinhos, afilhadinhos, vizinhinhos, etc, e ninguém a convence de os deixar aqui.

- Mas então por que ela não fica aqui? Vocês não a ajudam a sustentar esse povinho dela?

- A questão não é essa, Sr. Agente. Deixe quieto. Quero saber como tirá-la daqui. O senhor pode ajudar como então?

- Ela cometeu um crime ambiental…acho melhor a senhora convencê-la disso, primeiro.

- Crime, Sr. Guarda? Também não exagere…

- Crime sim, senhora. Deixo-lhe falar com ela, mas as duas têm que deixar de cabeça rija. A Sra. tem estudo. Tem mais Escola do que eu. Sabe que é proibido…

E o Guarda foi lá para dentro. E chamou minha Mãe.

- Fica, venha ver quem está aqui  - ele disse.

E ela veio. E é a mesma Mamã que me abraçou quando eu tinha seis anos. Uma pessoa cria seus filhos para o mundo. Eles têm que ser melhor do que nós. Não há nenhum filho de parida, pronto de cabeça, que cria os seus filhos para ela. Principalmente menino fêmea.

Mas é. Difícil é criar nossos filhos na casa dos outros, só para serem homens e mulheres de amanhã; mas esta é a vida de um filho de parida, cansada de ser mãe e pai. Cansada da água gelada até a cintura. Todos os dias na lida da areia e do cascalho. Mas pior que tudo é chegar o Guarda, na noite da venda, e fazer perder nosso dinheiro.

Abraçámo-nos. Senti falta da Mamãe Velha. Ela se foi há muito. Só agora fazem sentido as palavras que ela me disse aos seis anos.

- Minha Neta Querida. Tu és muito sabida. Vais ser uma grande mulher…

Vais segurar a mão da tua Mãe e lhe mostrar o caminho que ela não teve. Quem tem estudo tem seu destino dentro das mãos. Agarre-o txapu! Fica tem os seus olhos fechados. Mas ela vai abrir os teus, agora, para lhe servires mais tarde. Põe sentido no que te vou dizer: Não vais deixar tua Mamã como pintão que morreu no ovo.

Da orelha até os olhos são quatro dedos.

 

CAPÍTULO VI - AJUSTE DE CONTAS

 

            Artigo 5.º

Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.

                                                                       (In Declaração dos Direitos Humanos)

 

O meu nome é Isabel, mas me chamam Bel Quintel.

Sempre fui muito atrevida, muito intrometida e muito txantxueta.

Por isso, como sempre fui assim, entro nesta história de profeta que sou, de txuska que sou, porque detesto injustiça, ou situação mal resolvida. Ou razão mal compassada.

Acho que, se esta história terminasse assim, como a Clara lhe contou, não seria a mesma coisa. Mas eu chamo a Clara de Preta, como sempre lhe chamei, desde que mundo é mundo. Preta sempre foi minha amiga. Sou um ano mais velha do que ela e sempre me aproveitei disso como último argumento de resolver as coisas como deviam ser resolvidas.

Agora somos cunhadas. E é minha comadre também. O mundo diz que mais parecemos irmãs do que cunhadas. Quando eu tinha 11 anos e ela 10, criámos um grupo de teatro: ela é ótima para organizar coisas e tomar decisões e agir; eu ajudo na hora de argumentar, pedir licença aos mais velhos e dar as respostas quando ela mandinga. E assim crescemos uma ao lado da outra. Ajudando companheiro em tudo o que precisamos. Até meu nome de casa foi ela quem pôs.

Isso foi desde o tempo que lhe chamavam Netinha Sabida, por causa da Avó, e morávamos todos em Calheta. Em Calheta começou esta história de solidariedade e superação. Mas a Clara-Preta não gosta de se mostrar e, quando tem mesmo de o fazer, fá-lo sempre pelos outros. Tudo o que seja orgulho, beleza e fantasia, ela guarda para si e, ao se dirigir aos outros, só mostra desprendimento e ação.

Quando lhe fazem mal, ela mandinga. Quando fazem mal aos seus, ela age.

Sempre cobrei muito dela as palavras certas aos pretensiosos. E ela sempre diz: “Boka kaladu tem 25 rasposta”. E eu sempre repliquei: “Mas e se 25 respostas não forem suficientes, não vais dar a tua? Se fosse comigo, eu teria dito: ‘Djô li djô!”

E nós duas rimos.

- Então sim. (Ela diz). E passamos adiante.

Essa é minha comadre Preta. Se temos duas orelhas e uma boca, deve ser porque devemos ouvir duas vezes mais do que falamos _ é o que ela pensa. Diz que é um ditado chinês. Mas também disse ao seu ex-futuro noivo que se temos dois olhos e uma boca, deve ser porque devemos olhar duas vezes mais do que falamos. Então não sei mais como era o ditado original. Só sei que a Preta prefere falar o menos possível. Deve ser porque, de tanto conviver comigo, e de tanto eu conviver com ela, distribuímos bem as funções e os defeitos.

Essa do ex-futuro noivo era segredo também, mas eu resolvi contar, porque chegou a hora de terminar esta história.

Era uma vez uma menina que era a Preta e um rapaz que era o Kanhu. Kanhu era nome de casa de Ka nhu Bai que, para quem não sabe, é nome que se põe aos rapazes que adoecem muito na infância, ou nasceram depois de vários irmãos terem morrido, ou quando acontecem as duas coisas.

Normalmente os kanhu costumam ser muito convencidos e têm a mania das grandezas. Isso quando as mães deles pegam na nosentesa de cuidar deles mais do que a conta.

Mas, mesmo assim, a Preta se apaixonou pelo Kanhu, já era na febre da internet e dos emails. Ele estava no curso, ela quase a terminar o liceu. Eram mensagens e fotos todos os dias. Uma troca de emails que não acabava mais. Tudo fizeram para que a Preta fosse para o Porto, onde Kanhu estudava. Tanto fizeram que conseguiram.

E ela foi. E ele faltou às aulas para se encontrar com ela, lá em Lisboa. E tudo ia às mil maravilhas: a Preta conseguiu uma bolsa de mérito, na cidade onde estava o Kanhu, mesma universidade: uma perfeição! Até o momento em que os seus olhos se fizeram quatro.

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Mamãe Velha sempre dizia que da orelha aos olhos são quatro dedos. Mas nunca mediu a distância dos olhos ao coração. E nunca dantes navegou do coração até os olhos. Como avaliar a dor de Preta que sentiu os olhos de Kanhu no seu corpo?

O sorriso dele foi-se diminuindo. Da orelha passou para as bochechas e depois para as boqueiras e depois para os beiços e depois sumiu. Foi-se amarelando até secar, seco raganhadu. Kanhu olhou para Preta com olhar assustado. Aterrorizado.

O abraço de Preta, do tamanho do oceano, assim virou mar, que entrou na lagoa e virou poça. E sucumbiu. Ela deixou cair as mãos, a bolsa e até os óculos. Ambos tiveram cortamento de barriga. Estava desferido o golpe do namoro, ainda os dois a cinco metros de distância. Já só faltava o luto:

ELI, ELI, LAMA SABACTÂNI?

Pensaram os dois ao mesmo tempo. Foi o único momento em que suas almas se juntaram – na dor.

A caminho do Porto, ainda longe de se recuperar do primeiro encontro, ele quebrou o silêncio:

- Preta, por que não me contaste?

Preta mandingou.

- Preta, querida, meu amor, por que nunca mencionaste nada?

Preta mandingou.

- Não me vais responder?

- Tu tens todas as respostas que precisas. (Disparou Preta)

Foi aí que Kanhu escolheu as palavras.

- Olha, Clara. Eu não sei como conversar contigo, se te fechas assim. Vamos resolver isto a bem?

- Como é resolver isto a bem? (Bam!)

- Sem reservas, Clara. Comecemos a confiar um no outro. Tiveste vergonha de me dizer?

- Nunca tive vergonha de mim, desde que conheço o meu nome. (Uam!)

- Então, porquê?

Foi aí que Preta decidiu que iria responder ao Kanhu igualzinho à maleta que trazia ao colo: Yam Pedra. Ele falou, rodou, escolheu palavras e, de mansinho, disse:

- Por que nunca me disseste que eras deficiente?

Ela passou 10,11,12,13 minutos para engolir, pelo rabo, a palavra deficiente. E engoliu-a: letra por letra. E, então, disse:

- Por que nunca me disseste que NÃO eras deficiente?

E ela tomou seu próprio rumo. E seguiu seu próprio curso. E se fechou em seu próprio mundo. E pensou, com Pepetela: “Só os ciclos são eternos!”

 

CAPÍTULO VII – SENHOR EDITOR

Data de hoje:

Dizem-me os jornais que chove em Cabo Verde: Forti sábi!

Se a esperança d’azágua se renova a cada dia e a boa nova da chuva é promessa de ano bom, então à minha boca vêm palavras como milho, fartura, feijão, saúde, festas e certeza.
Que o nosso Cabo Verde se faz em segunda sementeira: na monda e na ramonda; e que as bonecas de milho, as cordeiras de feijão, o milho verde assado e a katxupa de cada dia se cozinham, nas três pedras do fogão, no tomar a bênção e no rabo da enxada.
Semear e colher, com o coração de pescador e a certeza do chão que pisas, está também nos livros, cada vez mais, cada vez sim, nos livros. Porque é nos livros que somos! _ e foi contada a nossa história de azeviches. E, nos livros, a morabeza se dá a conhecer para o mundo.

Chove em Cabo Verde.

O Contador de Histórias me disse que choveu também em S. Vicente. Sinal de boas águas. De Pe. António Vieira a Mané Quim, haja testamentos de muitos
Napumocenos para iluminar a nossa história de azeviches. E haja também Gracinha(s), que herdem, no feminino, uma estória para se contar: com as nossas próprias cabeças e com os pés bem finkados na TERRA: Terra chão, Terra mar, Terra céu.
É que, segundo Princezito, mar é prolongamento de terra, só que na versão molhada. Para verdianos e crioulas, nosso mar e nossa terra… é tudo uma coisa só. E os nossos sonhos…nosso orgulho é tão grande, porque amparados por mil águas: o doce da chuva e o salgado do mar.

Então sim, como dizia a Preta. Decidi me meter nesta história de kunfiada que sou.

Eu era para lhe falar de uma bela mulher, dessas que não mais nascerão e que nos deixam uma saudade sem dor, um alívio pelo fim do sofrimento de sete anos e uma morte _diga-se, mesmo que pareça estranho _ tão digna quanto a vida.  

Se eu contasse uma história da menina que nasce, cresce e se casa lá pelos interiores de Santiago, forçada à situação de analfabeta, e depois separada, pelo machismo do seu tempo: e que pare e cria cinco filhos machos e cinco filhos fêmeas, e faz deles dois médicos, duas freiras, um jurista, quatro professores, um eletricista e um psicólogo; e todos muito unidos; se somar a estes milagres as deslocações de oito kms diários de ida mais outros de volta, a pé, para se completar o Ensino Básico na Vila, e depois no Liceu da Praia; e depois os estudos na Europa, nas Américas e nas Áfricas, conforme o destino de cada filho, sem que nunca se tenha perdido nem a fé e nem a ligação afetiva entre os membros da família, pode-se entender a grandeza de certas mulheres.
Fica aí uma breve estória do tipo de heroína que a História nunca registará. Estou, sim, de luto; dizem-me que posso ficar até o dia da missa de 7º dia a receber visitas de pêsames, sem trabalhar.  Fora o fato de que os últimos meses foram muito sofridos para ela, honestamente, não há o que se lamentar a sua passagem. Mas talvez haja: certas renúncias inconfessas, muitas abnegações escondidas, em nome da educação dos filhos...vá-se lá saber…

Lembro-me do dia em que, contando a sua vida de filha de um grande proprietário, sem dificuldades financeiras, não pôde estudar como seus irmãos. Jurou a si mesma que, no dia em que tivesse sua casa, até os cães iriam para a escola. Os cães, concerteza, não devem ter sido aceites; mas os filhos foram todos.

Com ela, a Preta aprendeu a lutar como os outros. Com ela, o Victor se vingou do seu destino torto. Por ela, as vizinhas se uniram em redes infindáveis de djunta-mó. A vida seguiu seu curso. Fica chegou a ser presa por ajudar os outros. Não era com ela o defeito da ingratidão. Julgava-se sempre em dívida com a família de professoras que acolheram seus meninos: desde a geração da Falecida que lhes doou um quadro preto e um livro grande.

Como não ajudar? Então, se o Victor, que até a mãe perdia paciência com ele, a Professora aceitou! Quando Fica se aprontou para criar o Victor, pediu dá licença por favor e obrigado e Victor entrou na escola: como no tempo da Preta, como todos os meninos. Então chegada a vez da Professorinha fazer seu cantinho, as mães iam largá-la sozinha? A Professorinha não precisava saber. Queriam ajudá-la boca a boca. Toda a madrugada as mães iam para Calhetona. Já era muito material: areia, cascalho, para oferecerem à Professorinha, de surpresa, no fim do ano. Um dia, o guarda Kapronto ficou sem sono e saiu a passear. Pronto: foi cadeia.

Mas cada um com seu merecimento. Quem não deve obrigação aos professores é um desorelhado barriga de batata.

Então sim. E se passaram anos. E Victor cresceu. E aqui estamos nós na hora do Adeus.

Por Fica e pela Preta, nunca se saberia desta história de superação. A seu tempo, vieram para Preta: o marido certo, o sucesso, a felicidade, as conquistas diárias. Um ciclo de cada vez. Fica claro que não faço este atrevimento por elas. Faço-o por nós, os limitados de espírito. Todos os que se admiraram e ficaram estupefactos como o Kanhu.

E faço isso por Cabo Verde. Há muitas sementeiras por fazer. E depois das sementeiras, as mondas e ramondas. Cabo Verde tem ainda um longo caminho pela frente. E andaremos esse caminho: ilha a ilha, dor a dor, AMOR A AMOR!

Muitos ainda precisam ser levados ao colo, até poderem caminhar com seus pés. E seus olhos verem. E seus ouvidos ouvirem. É hora de dizer:

- Cabo Verde, DJÔ LI, DJÔ!

Que me perdoe a Preta por mais esta indiscrição, de me permitir entrar nesse mundo só dela. Então sim eu entro, com o preto no branco, para fazer justiça. Em nome da Mãe. Para os filhos, ela é a Rosa Mística, mas, para mim, ela é, concerteza, a Torre de Marfim.

Sr Editor, o senhor vai publicar? Responda-me por email, por favor. Tenho uma viagem para daqui a uma hora.

 

Crianças com deficiência física ou mental devem receber educação e cuidados especiais exigidos pela sua condição particular. Porque elas merecem respeito como qualquer criança.

(Princípio 5º da Convenção sobre os Direitos da Criança Adotada pela Resolução No. 44/25 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de novembro de 1989)

 

CAPÍTULO VIII - ADVENTUM

P.S: Já ia me esquecendo. Temos outra razão para dar:

O Victor decidiu, já, que falta um engenheiro na família.

SEJA DIFERENTE, APADRINHE UMA CRIANÇA. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários  

0 # Pena Ben Bella 06-10-2017 12:37
Ó Mana Guta, nós vamos degustar toda essa sua doce prosa, mas se calhar em doses menores, ou seja, com metade de tamanho por cada publicação. Sabe que há muita gente nova com preguiça de ler hoje em dia. O que acha da ideia? Outra coisa: estamos inclinados a endossar a tese de Brito Semedo em como se está perante uma ficção de personagens vivas. Bom, esta é a conclusão preliminar da leitura desta de outras peças suas, nomeadamente aquela em que nos contava a cena da noiva que teve receio de ir para o leito com o marido na noite de núpcias. O importante é que tudo isto bate certo, sabe bem e nos remete para o essencial da nossa cultura. Mantenha daqui do limbo.
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0 # Mana Guta 07-10-2017 16:07
Boa tarde, Pena Ben Bella e todos os leitores.
A todos agradeço as leituras e os comentários.
Passo a dar dois esclarecimentos que se impõem:
1 - Ao protocolo de leitura dos contos, o leitor pode acrescentar a informação de que eles são de auto-ficção, o que ajuda a responder aos comentários e análises que têm sido feitos, inclusive os do Prof. Doutor Manuel Brito Semedo, por quem nutro muito respeito e consideração.
2 - Às questões sobre edição, tamanho e extensão ou não, preferia responder em privado, pelo que se poderá utilizar o email acima, para estes e outros comentários que envolvam crítica literária, textual ou de recepção da minha obra. Por razões que me ultrapassam, não poderei responder aos comentários que aqui se publicam; por isso, aproveito para deixar o meu apreço a todos e sublinhar que o vosso encorajamento fica registado.
Mana Guta.
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