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Por: Mana Guta

Eu sou o que vejo de mim em sua face. Eu sou porque você é.

(Provérbio da tradição Zulu - África do Sul)[i]

CAPÍTULO I - SUMARA

Cutelo Miranda, Calheta de S. Miguel, ano de 1945

Quinta-feira, 24 de maio, 4 horas da manhã.

Napoleão era branco, raskon, bem nutrido e de corpo limpo.

Estava ainda a dormir. Ouviu o ranger do portão, pôs-se logo de pé. Abriu os olhos cor-de-rosa, atentos.

Parecia entender a responsabilidade que lhe cabia e estava sempre pronto. No topo da sua nobreza, cumpria com orgulho as missões da família e pavoneava-se aos domingos, quando ia à missa.

Kuza sertu ê sabi fla - Nos dias de função, era mais difícil manter a pose: o trajeto curto virava longo. Tantos compadres, tantos afilhados, tantas mantenhas a falar. Emigrantes que chegam, cheios de notícias. Era insuportável esperar, esperar, esperar…e manter a classe.

- Forte sol forte, nha gente!

Mas era de boa estirpe. Disfarçava o cansaço se as mantenhas e sociais demoravam por demais. Mantinha-se ereto, digno, de crina erguida e porte soberbo. Um gentleman.

Sumara!

Fecharam o portão por dentro. Assim desprevenido não conseguia reconhecer o vulto. Sempre alerta, não desistiu de olhar à volta e focar seus astutos olhos na vulta que se aproximava. Sim, era uma mulher e não era Brancaflor. Quem seria?

Quem será?

Quem é?

Preparou-se para tudo. Ele era o chefe do grupo. Deu um jeito de acordar os outros. Uns bakams que continuavam a dormir, sem dar por nada. - “Esperar o melhor e preparar-se para o pior” - lema de líder atento:

- Acordem! - Disse ele na sua linguagem de cavalos.

E eles, assustados, puseram-se de pé.

 

CAPÍTULO II - OZERBA.

 O coração tranquilo é a vida da carne; a inveja, porém, é a podridão dos ossos.

                                                                                                                                             (Provérbios 14:30)

Era mister era levantar-se dentro do nepu-nepu, ainda sem se ver o cabelo do braço. Desse de beber aos cavalos. Desse de beber aos cavalos todos. O mais certo era que Napoleão levasse Brancaflor à Igreja.

- Mas, se eu fosse a ti, daria água com açúcar a toda a alimária. Todos bastados de água, barriga cheia. E se lhes desse na cabeça de resolver trocar de cavalo na hora de ir à igreja? Seguro é no bolso. Da orelha até aos olhos são quatro dedos.

- Nhara sim.

Napoleão bebeu bastante. Afinal, devia ser gente amiga e, nos dias que correm, os donos deviam estar ocupados demais e, então, mandaram uma criada. Napoleão bebeu. Todos os companheiros beberam. O Chefe é quem manda. Cavalo Hora, bebeu. Cavalo Vento bebeu, Cavalo mijão, que gostava de água e de mijar, certamente não levaria a noiva. Mas mesmo assim, pelo sim pelo não, deu-lhe também de beber. Bebeu até se fartar. Mais bem tratado que muitos filhos de parida, esses animais. Mais gente que seus filhos que eram todos sangue do dono.

Fosse preciso, ainda voltaria no fusca-fusca da manhã, para reforçar a dose de água. Os animais tinham que estar afrontados durante todo o dia. Um deles, certamente, levaria a noiva. Não podia falhar. Tinha que mijar.

Foi preciso. Ela voltou. Mais água com açúcar. E Napoleão bebeu. E os outros todos beberam até não querer mais.

Guardou no pára-seios o dinheiro do fogueteiro. Tudo estava planeado. Fechou a porta do Curral. Olhou dos dois lados e esquentou os pés. Faxi-faxi, chegou ao terreiro e disfarçou a cara de preocupação. As mulheres nem notaram. Já se estava a arrumar os bancos, para se preparar a noiva.

Aqui se fez, aqui se paga.

Durante todo o milho no pilão, tiveram Nha Flana debaixo do olho. Todos os passos foram vigiados. Ela era mãe de filho do noivo e afilhada do pai da noiva. Foi por longos anos protegida por este, que a acolheu nos momentos de afronta. Mas, depois, as duas famílias se esqueceram dela e apoiaram o casamento de Brancaflor com o seu homem. Da mesma maneira que eles se esqueceram dela, ela também se esqueceu que seus filhos eram sangue do mesmo sangue.

A fome chegou. Havia dias em que tomavam coada de feijão da casa da Dinha. Na casa do seu padrinho, a fome não tinha chegado. Mas nem ela nem os filhos punham lá os pés.

Mamãe criticava que era mania dela. Que seus filhos tinham parte na herança do avô. Que, de qualquer maneira, todos eram parentes e que não havia lugar para ódio e rexas:

- Ficas só com o título sem cabedal – dizia a velha.

- Deixa-me assim. Nem os dedos das mãos são iguais entre si.

 Mas pensava consigo: eles não são melhores do que eu. Os filhos deles não serão melhores do que os meus. Não vou lamber os pés a ninguém. Pão-pão, queijo-queijo.

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Em Cutelo Miranda, já era hora de cada uma ir cuidar dos seus afazeres. Umas subiam o cuscuz, outras ferviam café preto, outras fritavam filhós. As mais velhas refogavam xanfanas de bode e estrelavam ovos de terra. O quebra-jejum teria que ser farto.

Nunca se verá festa tão rija por estas bandas. As mulheres deslumbradas com tanta fartura; mas, mesmo assim, olho no gato olho no peixe, todas a tinham sob controle. Ninguém se distraía. Nhara Sakedu diz que, neste mundo de hoje em dia, nem os vizinhos têm medo de fazer mal uns aos outros. E quando um dá um fôlego, o outro ressente na sua casa. A inveja está sempre em jejum, Titia vivia repetindo, como que botando piada para ela.

 

CAPÍTULO III – MATUTA

Ao invejoso, emagrece-lhe o rosto e incha-lhe o olho.

(Provérbio popular)

Nhara Sakedu, era como chamávamos Titia, às suas costas. Os homens das redondezas e as mulheres de jeito manso a chamavam assim, primeiro às escondidas e depois claramente, por causa do seu feitio. E assim ficou.

Ao assumir a alcunha, parece que virou ainda mais firme e autoritária. Mas o fascínio que todos nutriam por ela vinha da sua mania de tomar conta de tudo e de cuidar da sua família mais do que de si mesma.

Da autoridade dos seus cabelos brancos, dava ordens e fazia-as cumprir. Quem mexesse com a sua família, provaria sempre, mais cedo ou mais tarde, a mão firme de uma viúva destemida.

Começou a terceira reunião que fazia desde que puseram o milho no pilão. Escolheu a dedo, dentro do círculo familiar e das pessoas de confiança, aquelas mulheres mais preparadas para a missão. Sim, porque  casar a filha de Gregório era missão difícil. Os convidados eram os homens e as famílias mais ilustres da terra. Ou ia correr tudo bem ou não lhe chamavam Nhara Sakedu.

Retomou as recomendações que ainda faltavam:

- O xarém tem que estar muito bem guardado; fechado a sete chaves, num quarto à parte e a chave seja trazida para Titia. Duas mulheres de confiança é que tinham que fazer o xarém: alguém da família. Não pode desaparecer um grão de xarém.

- Nhara sim.

- Outra coisa. Ponham uma pessoa sempre à beira de Nha Flana, durante todo o dia do casamento, mas principalmente na igreja. Depois do casamento, assim que Nhu Padre disser “vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe”, dois homens gordos, rijos e valentes têm que estar na porta da Igreja, para vigiar, para que ninguém venha acenar com um lenço preto. Os homens que façam tudo o que for preciso com quem quiser dar para doido.

- Nhara sim.

- Nhôs ozerba. Madrinha de batizado, que é uma pessoa já grande e não se vai esquecer da sua obrigação na hora da cerimónia, fique sempre alerta ao fim da missa, para correr com Brancaflor da Igreja. Ela tem que ser a primeira a sair. Todas de olhos bem arregalados, porque este mundo não é por-si. Odemónio tem muitas manhas e filho de parida, hoje em dia, tem coração sujo. Não deixem que as outras noivas a ultrapassem.

- Nhara sim.

- Bom, agora cada uma vai dar a sua razão e chamem-me os rapazes aqui para o quarto. Chamem daqueles que não tomam nem um pinguinho.

- Nhara sim. Então nós já vamos.

- Então sim.

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Brancaflor foi acordada pela sua madrinha de batizado. À porta do seu quarto, a sua antiga parteira, a mulher que a trouxe ao mundo, estava pronta para ela. Caso precisassem. Se precisassem.

Na sua vestimenta de noiva, tinha que levar uma peça que fosse emprestada por alguém (melhor seria se fosse da vizinhança do marido); outra peça de uma mulher mais velha da família e outra peça que fosse velha, independentemente do dono. Essas três peças eram as mais importantes.

As restantes já estavam sobre a cama, estendidas à sua espera. Ela foi vestida, penteada e perfumada com água de cheiro. Conselhos não faltavam. As poucas pessoas que puderam entrar no seu quarto àquela hora eram as mais importantes da sua vida.

Estava aflita. Todas diziam que casamento é merecimento. Mas ela temia o dia depois de hoje. Na verdade, já temia a noite de hoje, para começar. Pronto, está pronta.

Entrou Titia com o matabicho. Coisa leve. A Noiva não pode se fartar, no dia do casamento.

- Mas porquê, Titia?

- É ka bum.

Brancaflor começou a petiscar e Nhara Sakedu saiu de novo e fechou a porta do quarto. Tinha razão importante para tratar com os pais dos noivos.

Noiva no assento é bonito, é bonito, é bonito.

- Nã, mas Brancaflor está feia. E olha gente, ela não chora. Olha, casamento é coisa grande…!

- Corda fraca é que amarra rijo. Pensa bem e vá de uma vez. Que teus ouvidos sejam surdos, tua boca seja muda, teus olhos sejam cegos. Só verás o teu marido e ele só te verá a ti.

- Certo, mesmo.

E assim continuaram as mulheres a brincar com Brancaflor. Diziam graças e piadas, mas, debaixo do pé, passavam conselhos e sabedoria. Noiva na sentu pode ser o momento mais descontraído do dia do casamento. Todas se riem um pouco, mas espera-se que a noiva se mostre chorosa e pensativa. Alguém deve ter inventado que as lágrimas da noiva trazem sorte e felicidade:

- Quem não chora antes, chora depois.

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Enquanto a mulherada se divertia e passava o bastão, Nhara Sakedu, que desta vez estava sentada, preparava-se para falar com os homens, como se ela também fosse macho. Sentou-se para ganhar coragem; o corpo tremia-lhe, mas ninguém podia saber. Esticou as pernas. Alisou bem as sete saias com ambas as mãos, à procura de um jeito de começar.

Pensava coisas que só podia dizer para si mesma. Os homens da sua família têm sangue quente e cabeça leve. Essa não era uma razão para se tratar kuali-kuali. Quanto a mais no dia de um casamento. Era escolher as palavras, matutar bem numa forma de dar aquela boita sem reboliço.

Logo devera, estava certo quem dizia que todos têm medo do Diabo, mas o Diabo tem medo é dos rapazinhos. E ainda bem. Bazalisco viu Nha Flana sair do curral hoje de madrugada. O que ela foi lá fazer? Bazalisco seguiu-a até Monte Terra e disse que ela entrou na casa do fogueteiro. O que ela foi lá fazer? Deixem-na comigo _ pensava.

Os homens estavam nervosos. Olhavam para ela expectantes.

Já era a quinta reunião que fazia, para resolver problemas do casamento. Desta vez só o pai de Brancaflor e o pai do noivo foram chamados. Ela não encontrou nenhum jeito de contar o acontecido sem que causasse uma desgraça. Ia resolver do seu jeito. Deixassem Nha Flana com ela. Os homens só precisavam resolver o sucedido; não vale a pena saberem o acontecido.

- Nós precisamos de um cavalo e de um fogueteiro – ela disparou logo para os dois.

- Mas porquê? Napoleão é o melhor cavalo da região. O mais forte e o mais bonito.

- Porque sim. Faz como eu te disse. _ retorquiu.

- Mas a esta hora o cavalo já deve estar pronto. Falta pouco tempo para o casamento. Onde vou arranjar cavalo a esta hora?

- Não sei: compra, empresta… nos teus cavalos Brancaflor não sobe!

- Mas a minha filha vai se casar e os meus cavalos são os melhores de toda a região e me pedes para arranjar outro cavalo?

- Compadre! _ Chamou o sogro de Brancaflor à parte e segredou-lhe algo. Voltaram ambos decididos a seguir as ordens de Nhara Sakedu.

- Está bem, Mana. Vamos ver o que fazer sobre os cavalos.

- E o fogueteiro também, não é? _ Ela lembrou.

- E outro fogueteiro. Paciência, nhô.

Noiva na Sentu.

E quando todos os convidados estavam prontos para irem à igreja, os dois compadres, pais dos noivos, quebravam a cabeça para arranjar um fogueteiro e um cavalo.

- Eu próprio dou os foguetes, compadre. Decidiu Nhu Artur. Assim ninguém vai ficar grabadu.

- Faz-me este favor, compadre? Então, agradecido. Vou arranjar o cavalo.

E os dois se separaram. Saiu o pai da noiva, pela porta de trás da casa. O pai do noivo saiu pelo portão lateral, que ligava com o seu caminho. Foi à casa buscar seus próprios foguetes.

Nhu Gregório, ainda um tanto perdido de ideias, pensava consigo: ninguém merece ter uma irmã fêmea mais velha naquela idade, e ainda por cima viúva, sem nenhum homem para mandar nela. Nhara Sakedu tomava conta de toda a família, é certo, mas havia horas em que ela era simplesmente inconveniente.

_ Palavra de honra!

Nhu Artur pensava, de seu lado: que não se discute com Nhara Sakedu. Aquela mulher de sete saias tem sete olhos e sete ouvidos. É uma bruxa do bem. Melhor não porfiar com ela. Ela ouve o que ninguém vê e vê o que ninguém pensa. Sonha com o futuro e sabe ler no espelho de água. Dizem que ela nascera no saco e que foi sobrevivente de casal de gémeos. Tinha tudo para ser bruxa. E depois de ficar viúva, parece que ganhou poderes de outra raça de criaturas. Melhor não porfiar com ela…

E Nhara Sakedu fechou-se no quarto com o Falecido. Os homens que corressem atrás dos cavalos e foguetes. Ela ia tomar troga com o Falecido. Caso vocês não saibam, o marido de Nhara Sakedu era muito mais útil morto do que quando era vivo. Entrava nos sonhos da sua viúva e dava-lhe conselhos. E, quando era de dia e o assunto fosse urgente, a mulher acendia duas velas, uma de cada lado do seu retrato, segurava no rosário de osso e tecia seus segredos. A solução sempre aparecia.

- Todas as vacas foram novilhas – pensava ela. Tinha que colocar a sua experiência a gritar mais alto que a língua de criatura. Deixassem Nha Flana com ela. Mundo não é de macaco e Deus não é rapazinho. Desta vez, nem com cavalos, nem com foguetes, nem com xarém, haviam de sujar o nome da sua família. Nem estragar a sorte da sua sobrinha. Havia de haver um jeito de salvar Brancaflor sem muito reboliço. Nunca ia deixar que fizessem com sua sobrinha um mal daquele tamanho. Benzeu-se.

- Marido, o Senhor lembra de quando foi o casamento de Feia? Tão bonita era a minha prima, tão séria, mas ficou desgraçada da vida? Deve lembrar, Marido. Um ano depois que nós nos casámos. A kumbosa fez ela passar por velha. Toda a família ficou na vergonha quando o cavalo mijou. A sogra mandou logo ela descer do cavalo. A coitada tinha só 16 anos e ficou na cruz do caminho grande. E ainda mandaram dizer Nhu Padre que não tinha precisão de vir compor as coisas. A família se sentiu ofendida e Titio quis lavar a honra da sua filha, mas não deixaram. Embarcaram todos para as terras de costa baixo e nunca mais voltaram. Eu tenho raiva daquela bruxa até hoje. A sogra foi mais runha que a kumbosa. Deve estar a arder no inferno. Se eu pudesse matava-a e depois dava-lhe pancada!

Nhara tirou o lencinho do bolso e assoou o nariz. Cheirou outra pitada de tabaco. Aproveitou para colocar a fotografia do Marido mais de frente dela, mais ao meio das velas:

- Também os foguetes do casamento já puseram muitas famílias umas de cabeça para cima e outras de cabeça para baixo. Não foi assim com a afilhada da Mamãe? Essa você lembra, Marido. Passou por mulher antes de entrar na igreja, porque o foguete não rebentou. Sorte que o marido era estrangeiro e vergonha ela só passou aqui na terra. Foi viver nas ilhas e nunca mais pôs os pés em Cauverde. Eu já vi muita coisa nesta minha vida. Já comi muitos barcos de sal, para deixar Nha Flana, menina que conheci com o ranho no nariz, a estragar a sorte da minha sobrinha. Malfeito de xarém também ninguém vai fazer. Está tudo trancado aqui, Marido; aqui sei que ninguém entra. É só agora é que vou entregar o xarém da festa. E para cozinharem aqui mesmo no nosso quarto. Você dá licença?

E o Marido respondeu na sua língua de defuntos: fez um longo discurso, cheio de conselhos de sabedoria. Falava num hebraico latinizado que só Nhara Sakedu entendia. E então ela deu um novo nó no lenço. Benzeu-se com o retrato do Marido:

- Que o anjo da nossa guarda, santo do nosso nome e espírito do nosso corpo nos acompanhem no dia de hoje.

Tirou a sulada e amarrou o pano. Apagou as velas e saiu. E então sim. Estava serena. O Marido tinha razão. Ele no mundo da verdade, ela no mundo da mentira. Os defuntos sempre sabem o que dizem. E conhecem os modos de viver, sim senhor. Tomar troga com o Falecido não era como falar com um simples filho de parida. E tomou as decisões que tomou:

- Então sim! Estava tudo compassado.

E nada de cavalos. Marido não tinha a certeza se o cavalo que vão emprestar ao Gregório não estava moco de água também. Jesus é antes de queda e bezerro de sina tem a ponta do rabo vermelha.

CAPÍTULO IV – SETE SANTIMO SACRAMENTO

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.
                                                                                 
(Génesis 1:26-28)

  1. Faustino Moreira dos Santos chegou uma hora antes da cerimónia e recolheu-se em oração. Na sua mania de buscar parentesco, Mamãe Velha dizia que o Sr. Bispo era nosso patrício de nascimento. Também era natural de um S. Miguel mas de Gandra (Paredes, Porto). No dia 29 deste mês de maio, completaria 60 anos.

Estava no seu dever, tanto de idade como de ofício, rezar e pedir a Deus que grandes cerimónias como aquela decorressem em paz e harmonia. Enquanto refletia e rezava, vinham-lhe à mente as suas memórias de seminarista no Seminário Missionário da Formiga (em Ermesinde), em Carnide e em Paris.

Era espiritano. Os problemas da África eram-lhe familiares. Chegou a ser missionário no Congo e servia em Cabo verde desde 1941. Mas sua caminhada começara bem antes, ou não fosse ele Prefeito Apostólico do Congo Inferior, desde 1919. Estava efetivamente na idade da sabedoria. Dignou-se a celebrar o casamento da filha do Sr. Gregório Tavares Miranda com o filho do Sr. Artur Lopes Furtado, homens tementes a Deus e que tiveram a felicidade de juntar as duas famílias mais tradicionais de Santiago.

Em Galeão, na casa do Pai do noivo, estava hospedada outra ilustre figura: o Exmo. Senhor João de Figueiredo, governador de Cabo Verde. Estava a meio de uma conversa agradável com o dono da casa, quando o seu anfitrião fora chamado à casa do pai da noiva, para uma espécie de emergência.

Nhu Artur não tinha tido oportunidade de se conferenciar com o Sr. Governador, mas estava interessado em entender bem o que significava exatamente a tal da iniciativa de novembro do ano passado.

- As notícias aqui no interior nos chegam a conta-gotas e uma pessoa não sabe que opiniões ter sobre coisas importantes que acontecem na cidade. Fala-se de um Rádio Clube de Cabo Verde que está para ser criado ou já foi criado, não se sabe ao certo, mas queria aproveitar a distinta presença de V. Excia., Sr. Governador, para me informar sobre os últimos acontecimentos.

- Pois com certeza, Senhor.

Ao Sr. Governador, dava-lhe muito prazer prosar com o distinto cavalheiro. Um senhor que cultivava o espírito e sabia a arte de bem receber. Não houve tempo, todavia, de se referir ao Alvará 2/945 e aos estatutos da Rádio Clube de Cabo Verde. Mas não faltaria ocasião. Foi até a janela da sala de visitas e contemplou o mar. Lá em baixo ficava o Porto, de areias brancas e meia dúzia de lanchas. As amendoeiras pouco-mal aguentavam a seca. Ao longe um barco-falucho. E, em todo o lado, a fome que paira no ar. Cheiro de miséria, mesmo num dia de tanta abastança.

“Tanta abastança e muito desperdício em plena estiagem” eram os pensamentos de um ilustre parente, professor primário, homem respeitado de Santa Catarina, que se hospedou em Veneza, na casa de familiares comuns. Figura inquieta porque muito consciente do sofrimento das suas gentes, partilhava a alegria desse grande momento com a sensação de culpa de haver um banquete numa época de fome. Juvenal António Lopes da Costa Cabral contava 56 anos, sentia-se angustiado e preferiu olhar o mar. Revoltava-lhe o futuro incerto deste arquipélago, angustiava-lhe a inércia das autoridades.

Pai de filhos e filhas, pensava naquele momento especialmente no Amílcar, que vivia uma frase crucial da sua vida. A sua firmeza de carácter e o seu percurso estimável eram o orgulho que acalentava o seu coração de pai. Olhava ainda uma vez o mar e recordava o sorriso desse seu filho de vivacidade impar e de uma audácia destemida. Ele havia terminado o Liceu com a média de 17 valores, de um máximo de 18; era Presidente da Associação dos estudantes do Liceu de Cabo Verde e Secretário de “Boa Vista Futebol Clube” de S. Vicente: tudo ao mesmo tempo, sem ser medíocre em nada. E ainda escrevia versos.

Queria ser engenheiro agrónomo, o que certamente conseguiria, como conseguirá tudo, por seu empenho e dedicação. Um líder nato, um jovem determinado. Ele, como todos os seus filhos, como todos os caboverdianos, merecia outra sorte de terra. Outra casta de dirigentes. Outra sina de vida.

No planalto de terra massapé, o vermelho do chão, o azul do mar e os raios alaranjados do Sol comporiam um quadro de rara beleza, se não lhe lembrassem a seca e as mortes.

À sua direita, uma praia linda, mansa, de areia preta. Coqueiros e uma fonte contrastavam com a desolação do resto da paisagem. Ria Benexa (areia de Veneza, na linguagem da sua gente) era o nome da praia. À sua esquerda, uma baía pequena de águas quentes e profundas, Kasa Bedja (Casa Velha) era o nome da Baía. Amílcar estava na iminência de conseguir uma bolsa de estudos para Agronomia em Lisboa. Terá um futuro brilhante e será um filho útil a Cabo Verde.

Ouviu os foguetes. Certamente a noiva ia sair da casa dos pais para ir à igreja. Tinha que se despachar. Foi ter com os familiares e dirigiram-se ao Porto Calheta.

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Foguetes e mais foguetes, um atrás do outro, rebentavam nos céus de Cutelo Miranda. Logo a seguir, de Pizarra, residência da Madrinha de Batismo, respondia-se aos foguetes. E para que ninguém pensasse que ele era um mufino filho de gafanhoto, em Ponta Verde, o padrinho de batizado, replicava. Então Veneza, centro de ramboia, poiso da madrinha de casamento, respondia, por sua vez.

Mulheres de Ponta Ribeira saíram com o seu batuque, num terreiro ambulante que foi até Barreira e atravessou toda a Rua da Frente. De Achada Batalha, saiu outro grupo de batuque em direção ao Galeão; o terceiro grupo partiu exatamente da casa dos pais da noiva, em Cutelo Miranda. E os três grupos se encontraram no largo do Covão de Coelhos. As mulheres competiam na txabeta e no torno, coisa linda nunca antes vista: eram pam-pam e rapikada que não acabavam mais.

De repente uma voz soou, entre admiração e espanto.

- Eh, eh, nhôs odja noiva (Vejam a noiva).

A txabeta parou de repente. As mulheres todas assustadas olhavam umas para as outras esperando entender o acontecimento. A noiva vinha a pé: sem cavalo nenhum. A pé, com o seu longo vestido branco, mais parecia Nossa Senhora. E a Madrinha e as companhas, todas ricamente vestidas, todas a pé.

Branca Flor usava um Henri BENDEL-1941-New York, completo: com vestido, véu e bouquet; a Madrinha trajou um Eastman-1943-New York que combinou com um lindo chapéu Schiaparelli-1940-Paris; e as comadres, as mães dos noivos, usavam ambas um longo vestido cor de ovo de Jacques HEIM -1940-Paris.

Ela chegou. Elas chegaram. Todas passaram e as batucadeiras ficaram de boca aberta. Desfez-se o terreiro.

Os homens, também muito bem-postos, preferiram um velho alfaiate da terra: não tinham paciência para esperar virem roupas do estrangeiro.

Claro está que as moças de Calheta não saberiam esses detalhes de indumentária, ainda mais em maré de tempo cansado como aquele, quando a felicidade de uma mãe de família era levar a panela ao lume e aguentar até o dia seguinte. Mas sabiam que a madrinha, as companhas e principalmente a noiva estavam bem vestidas: muito bem vestidas.

Brancaflor casara-se de branco. O vestido era lindo, de cauda longa, e o véu era fino, de rendas. Mas, mesmo assim, começou um fla-fla discreto, que passou a ser indiscreto; e depois, pouco a pouco, se ouviam mulheres botando piadas.

- Napoleão está doente?

- Mas se está, onde estão os outros cavalos: Hora, Vento, Sentido…?

- Coisa galante destas, a noiva não vir montada num cavalo! Gente rica desse jeito?

- Que se passa? Será que o fedor vai cheirar?

As más-línguas esperavam a última prova, para tirarem suas conclusões e taxarem Brancaflor de má fama.

Mas os foguetes rebentaram-se todos. E foram muitos. Então por que Brancaflor vinha a pé?

Atrás delas, sim, vinham todos os homens das duas famílias: a cavalo. Devia ser alguma moda do estrangeiro.

- Mundo vai papiar, Mana – lembrara a Mãe da Noiva à cunhada, na última tentativa de a convencer.

- Deixa mundo papiar, Mana _ respondeu Nhara Sakedu, educada e calmamente.

- Vão pensar minha filha não é nova. Não posso com a boca de mundo.

- Eu posso, Mana. Deixa a boca de mundo, comigo. Manda dizer que venham tomar satisfação em Nhara Sakedu.

E a Mãe da Noiva, que ainda não tinha aparecido na história até agora, voltou a sair da cena sem dar mais piu. Melhor não porfiar com Nhara Sakedu.

Afinal das contas, ninguém entendeu a Titia. Primeiro, queria outro cavalo; depois que se arranjou tudo, mandou Brancaflor ir à igreja a pé. Mas àquela hora, compadre Artur e compadre Gregório não pensavam mais em cavalos. Era agir e esperar para entender depois.

As bocas ferviam. Umas disseram que era moda na Europa; outras disseram que se tinha visto um dia Brancaflor mais o noivo sozinhos em Bela Sombra (talvez não fosse mais nova); outras ainda disseram que ainda bem que ela ia a pé: um desperdício aquele vestido em cima dum cavalo. Melhor assim, varrendo o chão, para todo o mundo ver. Deixem o vestido arrastar. Casamento é um dia. E o vestido é só por hoje.

Ao fim das contas, todas concordaram: ela parecia uma princesa e, atrás dela, todos os seus súditos, a cavalo, prontos para a servirem. E, a partir daí, antes mesmo que o diabinho esfregasse o olho, inventaram-se mil lendas sobre Brancaflor e o casamento mais rico S. Miguel já vira.

As mesas armadas, o povo farto, os homens bêbados e as mulheres carregando marmitas para as respectivas casas e funcos, o certo é que todos se esqueceram de controlar a virgindade de Brancaflor. E até o mais interessado da história, o noivo, estava muito mais impaciente pela noite de núpcias, viesse como viesse, fosse como fosse, do que com os panos brancos, saiotes, combinações ou camisas de noite. Por isso, quis logo ir com a noiva para sua casa. Tinha saudades do mar.

E ergueu sua casa branca de janelas azuis em Achada Batalha. Abriu o chão na ponta de praia, onde se ouvia a txabeta das ondas e o finason da Encantada.

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade) 

CAPÍTULO V - MAMBÁ …?

Domingo, 27 de maio de 1945

Oh Mundo!

Calheta de S. Miguel era silêncio e expectativa. As boquinhas corriam soltas. Três dias depois do casamento, nenhum foguete a arrebentar e nenhum pano branco a ser transportado. A Mãe da noiva jazia na cama, à espera que os homens da família tomassem uma decisão.

Desmaiava, subia-lhe a tensão, tremia a cada vez que alguém se aproximasse do pé de subida.

As madrinhas todas se mudaram para Achada Batalha, à espera de uma resposta. Todos esperavam algum sinal, e ninguém sabia de nada.

Várias senhoras, umas de muito respeito, outras linguaradas profissionais, foram tentar tomar lume. Inácio fez bem em escolher um chão afastado de todos, para se livrar de fla-fla. A 30 passos da casa do noivo, estava Nhara Sakedu, de plantão. Ao verem Titia, disfarçavam e tomavam bênção:

- Nhara sta.

- Deus te livre do perigo – ela dizia de propósito.

Todas voltavam na mesma: nem fumo, nem mandado. Nhara Sakedu parecia não dormir nunca. Não comia e estava sempre alerta. Ninguém conseguia se aproximar.

Uma festa tão rija, um casamento tão desejado, duas semanas em que todas as famílias tiraram a barriga da miséria, não podia acabar em tragédia. Nhu S. Miguel Arcanjo, livre-nos do perigo e guarde-nos da desgraça. As mulheres todas assustadas. Os homens todos em silêncio; só Nha Flana conseguia se manter alegre e cada vez mais tranquila: suas preces tinham sido respondidas (pensava).

Essa demora, vinda de gente tão importante, só podia ter uma explicação: sua vingança foi feita, mesmo contra a vontade de todos. Da sua casa, conseguia ver a casa do noivo, e, de longe, pensava: de plamanhã até à noite do Sambrás, ninguém saiu, ninguém entrou. As mesmas mulheres do piquete de núpcias mantiveram-se lá: tanto segredo não podia ser por-si.

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Já se tinham passado duas noites e, no terceiro dia, Titia resolveu intervir. Nenhuma das madrinhas conseguia lhe dizer direito o que tinha acontecido. Os homens da família, cada um no seu canto, esperavam ambos a primeira iniciativa do compadre.

E os olhos de Nha Flana não acreditaram, quando a mula de Nhu Padre apareceu. Ele desceu com a sua bengala e, antes de bater à porta, surgiu Nhara Sakedu que lhe fez entrar. Daí a pouco foram aparecendo, um a um: o Pai da Noiva, o Pai do Noivo, a Parteira e a Mãe do Noivo. Ninguém viu entrar a Mãe de Brancaflor.

À noitinha, a reunião parecia ter acabado, pois saíram todos os familiares. Nhu Padre saiu no fim. E só ficaram as madrinhas, a parteira e Nhara - Sempre Sakedu!

Quando Nhu Padre saiu, as mulheres da redondeza tentaram falar-lhe, botando verde. Mas ele desconversou e disse que estava com pressa:

- Não, ninguém está doente. Nada se passa. Preciso ir para a casa de Nhu Artur e tenho pressa; tenho pressa, estão à minha espera.

Enquanto isso, lá dentro, a madrinha de casamento, reconfirmada que foi pela parteira da virgindade de Brancaflor, desde manhã, e depois, à frente de todos os interessados, aproveitou a reunião de família, à tardinha, e pediu-lhes um prazo a todos - até amanhã de manhã, para lhes dar uma resposta.

Depois que todos foram ouvidos, pediu que regressassem às suas casas e aguardassem tranquilamente, sem fazer comentários com ninguém.

- Olhe não me faça passar vergonha, sobrinha (disse o Pai da noiva a sós com ela). Dá-me a sua palavra?

- Yes, of course! Respondeu ela à americana.

A madrinha pediu licença e se fechou no quarto com a jovem por duas horas.

Mary Elizabeth Miranda Hamilton, 35 anos, nasceu nos EUA e veio, de feito, para ser madrinha de casamento dessa prima. Filha de pais caboverdianos, boa parte dos seus ascendentes diretos, emigrantes das diferentes ilhas de Sotavento, fixaram residência em Providence. A avó de Elizabeth, Nha Bete de Souto-Amado, era costureira, ofício que ensinou à filha. Das duas, ela herdou o gosto pelas tesouras. Estava ligada ao mundo da moda e, pode-se dizer, a bem da verdade, que gastava boa parte do seu dinheiro em vestido e calçado. Mas o seu grande sucesso devia-se mesmo à sua ousadia, apesar de mulher, sua postura dinâmica na sociedade e sua beleza crioula. Uma mulher lutadora, de mente aberta e elegância inconfundível. Deus lhe deu um bom marido, o que nos dizeres da Avó Nha Bete significava um homem educado e rico. O leitor deve ter adivinhado as razões de tanta elegância na vestimenta das ladies no casamento de Brancaflor. Pois acertou: todas trazidas da América.

Então sim. A madrinha descobriu que Brancaflor simplesmente não consumou o matrimónio porque o noivo “era muito grande”.

- Oh dear! Não me digas. Ele é “muito grande”? So what?

- Não consigo, prima. Tenho medo! Não vai dar certo.

- Mas ouviste o Padre? Ouviste a Titia?

- Viste o nervosismo do Gregor e do teu sogro?

- Sim.

- Então…

- …

De Ponta Calhetona a Rabo de Pilão-Cão, a curiosidade era a rainha da noite.

Mas ninguém nunca soube o que Mary Elizabeth falou com Brancaflor. O mundo viu que todas as pessoas saíram pela porta da frente e que o noivo entrou de novo em sua casa. Até Nhara Sakedu foi-se embora. O piquete fez questão de passar perto do amontoado de mulheres e, em cada esquina, diziam-lhes:

- Deus nos dê boa noite.

- Deus nos amanheça com paz – respondiam as curiosas em coro, mortas de vergonha. E ia cada uma para sua casa.

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- Anda ver o céu, Branca! _ Chamou Inácio.

E Brancaflor foi ver o Céu. E a Lua.

Inácio sorriu:

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
                                                                                                                                              (1 Coríntios 13:4-7)

Então sim. Olhou para si mesmo orgulhoso. Era a sua casa e lá estava Brancaflor. Deixou-a distrair-se com a Lua e foi até o quarto. Olhou-se. Apalpou-se. Olhou-se, de novo…

E achou que sua mulher ia aceitá-lo desta vez. Era preciso era ter jeito com ela. Mas ficar calmo era tarefa difícil. Logo devera.

Inácio tu és um rapaz sabido, um homem culto que já leu muitos livros. Mas depois pensava consigo que esse assunto de mulher e homem não estava escrito em nenhum livro que lera. Ficar calmo – repetia-se.

- Mano…

Brancaflor chamou.

- Ela me chamou! Eh eh, boita dja fila.

Achou engraçado ter uma esposa que o chamava de Mano. E riu. Pensou consigo que, desta vez, seria tudo diferente. Já era pai de dois filhos, um macho e uma fêmea, gémeos feitos numa só noite. Os meninos pareciam mais com a família dele. Como sempre, os filhos que podem vir a ser negados nascem logo com a cara do pai. Gostava muito deles e, bem lá no fundo, sentia de certa forma agradecido à Edite, digo Nha Flana, por isso. Mas agora ia viver uma nova vida, sem enganos, sem traições e sem mentiras.

Ele e Edite nunca mais se falaram. Mas ele descobriu, por interposta pessoa, o nome de batismo dos gémeos e passou para o nome deles boa parte dos seus bens. Tudo seria esclarecido na hora certa. E esta é a hora certa de sabermos porque Edite passou a ser Nha Flana (Senhora Fulana).

CAPÍTULO VI – SUKUTA

Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo.

(Pitágoras)

 

Calheta de S. Miguel, anos antes

O grande sonho de Inácio-menino era ter uma casa branca de janelas azuis. Queria plantas trepadeiras no quintal a fazerem sombra ao pote enterrado na areia. Um dia se casaria com uma mulher bonita, preta de coxas largas e leite doce, para parir seus filhos. E teria um cachorro branco, que se chamaria Tejo e um cachorro preto que se chamaria Amigo.

Na sua meninice, os rapazes aprendiam a pelotar o rabo da enxada, para garantir o pão de cada dia. Nas propriedades do seu pai, havia muitos trabalhadores, e Naxe aprendeu com todos eles as lidas do campo. Para o caso de um dia precisar. A família conseguia viver bem, mesmo nos tempos de maior carestia. Mas nunca desejou viver às custas do Pai. Nem queria se beneficiar dos seus haveres.

Por volta das 4h00 da tarde, ia sempre à casa do Padre: aprender a ler, a pensar e a agir (como dizia o Pai). Foi admitido no Liceu Gil Eanes e lá estudou até o 5º ano. Decidiu voltar para a sua terra, na ocasião de uma doença séria de Nhu Artur. Nunca mais saiu de Calheta. Lia jornais, frequentava a igreja e os bailes e passava as tardes de Domingo na casa do Padrinho. Ele tinha livros. Inácio leu todos os que lá havia, mas voltava sempre: gostava de conversar com o Padrinho. Era seu segundo pai.

Tinha 15 anos, quando reparou na Edite. Era contentinha e tinha um corpo bonito. Só que era dois anos mais velha e se julgava uma mulher feita. Um dia aconteceu estarem os dois sozinhos e ele meteu conversa de Mano. Então se os dois tinham o mesmo padrinho, deviam era ser amigos. Ela achou que sim. E sorriu. Sorria sempre para ele. Mas não deu pé para mais nada.

Quando Naxe voltou de vez, Edite já era maior de idade, mas ainda era menina solteira. Disseram-lhe que ela nunca quisera se casar. Apareceram pretendentes, mas ela fazia sempre uma manha para não ser dada em casamento. As línguas diziam que ela tinha sentido era no Naxe.

Um sorriso aberto, um coração grande, mãos para sempre calosas. Alto, corpo robusto, peito largo, cheio de força. Por pouca coisa, dava gargalhadas. Era engraçado. As pessoas gostavam dele. Era dado a todos, não tinha soberba por ser filho de Nhu Artur. Quando Inácio reencontrou Edite, anos depois, na casa do Padrinho, ele desejou-a logo:

- Vais ser minha mulher – ele disse na primeira oportunidade.

Ela deu-lhe as costas e foi ter com a madrinha na cozinha. O Padrinho voltou e continuou a conversa com ele. Inácio não ouviu mais nada e não viu mais ninguém. Sonhou com Edite naquela noite e em quase todas as noites que se seguiram. Nunca mais se encontrou com ela a sós. Ela fintava-o. Quanto mais o fintava, mais ele a desejava.

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Mulher bonita é como manga bijagó: quando verde, é amarga e ácida; quando madura, é cheirosa e amarela. Se colhida antes, sabe mal; se não colheres a tempo, cai madura aos teus pés: sabedoria de Naxe-homem, na réstia de lua que cobria os seios de Edite. Já era madrugada de 15 de agosto. Ela dormia, esquecida da vida. Ele sorria um riso suado. Passou a mão no peito e na barriga e sorriu de novo. Sentiu, sim, que estava acordado e que aquela preta de ancas largas e coxa redonda era mesmo Edite. Era o que importava.

Nem chovia tanto assim e Edite aceitou entrar pelo portão que dava para o quarto do Inácio. Tinha medo de pegar uma constipação. Trabalhadeira como sempre, acabara de ajudar Titia nas boitas da festa e passava por trás do seu quintal, dentro da noitinha. Andava apressada pois queria chegar à casa, antes de o escuro fechar de todo. Mas choveu. Ele viu-a atarantada debaixo daquela aguinha e convidou-a para entrar e se abrigar da chuva. Entraram os dois, apressados. Ela ainda fez questão de sair umas duas vezes. Ele atalhou: espera mais um pouquinho. Não te vás constipar por-si. Protegeu a mana. Estava no seu dever de homem.

Na casa de diante, os pais do Inácio jantavam com os hóspedes que vieram passar o 15 de agosto de véspera. Ela não se importou de esperar no quarto. Só lhe faria mal ficar de roupa molhada. Precisava de qualquer coisa para se trocar. Naxe não entendia bem como tinha acontecido, entre tentar encontrar qualquer coisa de vestir e ver, sem querer, parte do corpo de Edite. Não evitou o velho hábito de passar a mão pelo próprio corpo, como sempre fazia quando estava ansioso. Não foi intencional provocar Edite, nem foi desrespeitoso ao olhar depois para ela, vestida de uma combinação branca de rendas, a única roupa de mulher que encontrou guardada no quarto ao lado. Rendas, laços e bordados faziam-no sentir tonto. Um dia tentou explicar a um amigo como seus olhos se perdiam nas rendas e bordados de roupa de mulher e como, às vezes, era preciso devolvê-los ao sítio certo, quase com as mãos, porque, senão, nunca mais voltariam à sua cara. Já passou muita vergonha com seus olhos.

Ela devia estar tonta com alguma coisa também, porque não conseguia atinar com apertar o laço da combinação. Ele quis ajudá-la, mas, depois, esqueceu o decoro. E Edite também, afora as resistências da praxe, a manga estava madura e doce. E Naxe-homem, cheio de fome, sentiu-a. A última lembrança sóbria que ele tem do acontecido foram as mãos dele a tentar fazer o laço sob os peitos de Edite. Depois se confundiu todo, ainda mais do que ela. Ele nunca soube lidar muito bem com laços e rendas, já disse. Daquela vez as rendas roubaram seus olhos e os laços roubaram suas mãos. Não atinou em segurar os olhos com as próprias mãos, para colocá-los de volta à cara _ as mãos estavam ocupadas. E estavam perdidas no laço de fita.

E ele então sonhou que a manga madura tinha virado prova de mel e, depois, cuscuz quente com manteiga derretida. Alguém lhe trazia o leite fresco de cabra e, noutra mão, papa quente de milho novo. Viu o xarém da kunda com bonje-fava e barriga de atum velho, cozinhado na pedra de fogão. Pelo seu nariz, passou o cheiro a fornalha em ano de fartura. Sua pele sentiu a maresia fresca em noites de lua cheia; e a serenata ao longe, vinda do Porto, cantava no violão de cordas “ Forsa de Kretxeu”. Estavam os dois como navio no mar.

Bem à sua frente, tanta fartura em corpo de mulher. Assim a morna virou txabeta e foi aí que o luar entrou pelo quarto adentro e lhe mostrou uma expressão de mulher que mais era sorriso que medo. Espiou para os olhos fechados dela, e esperou o famoso “não!”; e ainda passou a mão pelo próprio corpo, a ver se ouvia direito, mas só sentiu os calores e o que julgou ser o bater do coração. Os dois eram café quente de bule.

Então tomou-a.

E assim Inácio lembrou os últimos momentos em que Edite ainda se chamava Edite e dormia feliz na sua casa do Galeão. Ele ainda sentado na sua cama, nu prite os dois; Naxe segurava a queixada com ambas as mãos e cuidava em acordar Edite, enquanto era tempo. Em vez disso, foi à janela ver a Lua e pensou que devia ser isso o que chamavam de amor: ter uma mulher, desejá-la profundamente, poder estar com ela uma e outra vez e, ainda assim, querer viver com ela, todos os dias, melhor dizendo: todas as noites do resto das suas vidas.

- Quero me casar com Edite. Vai ser minha mulher! Vou falar ao Papai, vou dar uma satisfação às famílias, minha e dela. E tudo se vai resolver pelo melhor._ Tudo no perfeito sigilo, claro; ninguém, para além dos pais e da mãe dela, precisava saber daquela noite. Então os dois formariam a sua família e ele não só se responsabilizaria pelo acontecido, como teria a mulher dos seus sonhos. Edite, todas as noites.

Já via Edite fazendo sua comida, parindo seus filhos. E ele trabalhando muito, fazendo tudo o que fosse necessário para que não lhe faltasse nada; fazendo-a feliz, como Mamãe e Papai eram. Inácio-homem-que-honra-as-calças-que-veste voltou para cama decidido a reparar o mal. E acordou Edite. Ela parecia assustada e ia-lhe fazer uma pergunta importante…, mas nisso entraram pelo quarto adentro e viraram ambas as vidas do avesso. O resto foi um pesadelo. Primeiro a mãe dele; depois a parteira; depois ele foi expulso, para que conversassem com Edite sozinha. Depois, no fim, todos da sua família e mais Edite, que não conseguia justificar a sua verdade de que Inácio teria sido o seu primeiro homem… Ela chorava, e chorava, e dizia que não: não ia voltar para a casa da Mãe, assim.

- Assim como, Edite? Vais voltar assim como chegaste: MULHER!

- Não senhora, eu entrei aqui, menina, não vou sair daqui mulher, como se não fosse séria. Minha mãe não vai aceitar isso. Eu vou parar na boca de mundo.

- Menina, Edite?! Se eras menina, então onde está a tua prova? Aqui ninguém entrou e ninguém saiu. Inácio não te deve nada. Eu vou dar satisfação à tua mãe, porque sou mãe, e ela deve estar preocupada com o teu desaparecimento. Mas Inácio não te deveu. Coitada da tua mãe! Que vergonha vai sentir por ti…!

Edite chorava só. E chorava muito, sem saber o que dizer.

A sabatina de Edite podia ser mais dolorosa, mas a sabatina de Inácio não era menos vergonhosa. Nhu Artur levou o filho para outro quarto a ver se, longe das mulheres, ele diria a verdade.

- Inácio, meu filho – reclamava o pai, com ele a sós _ tu não sentes uma mulher quando ela serve um homem pela primeira vez?

- Papai, ela me disse que nunca tinha tido outro e eu acreditei.

- Mas sentiste ou não a diferença? Tu és um moço viajado, filho. Não me digas que não sabes sentir essas diferenças!

- Não senti, Pai. E não me lembrei de pensar em sentir isso. Eu acreditei nela. Antes disso, ela tinha todo o jeito de menina nova.

- Jeito é uma coisa, filho; mas corpo… corpo de mulher é outra coisa. Estou a falar do corpo dela, tu me entendes, Naxe.

- Mas eu não senti nenhuma diferença. Nem no corpo dela, e nem no seu corpo de mulher

- Inácio, não me atrapalhes a cabeça: não sentiste a diferença entre ela e as mulheres, ou a diferença entre ela e as meninas novas que te serviram?

- Oh Pai, paxenxa…eu esqueci de me lembrar de pensar nessas diferenças. Mas eu assumo as minhas responsabilidades. Eu sou homem, eu dei a minha palavra a uma mulher; e vou assumir as minhas responsabilidades.

- Pois, claro! Desde que mundo é mundo, nenhum Furtado deixou de cumprir com as suas obrigações. Mas primeiro, há que ver quais as tuas responsabilidades. Porque também nenhum Furtado serviu jamais de chacota, nem tomou os restos de outro homem.

Pela primeira vez na vida, Inácio sentiu que a sua vida não era dele e que, definitivamente, não estava nada compassado: nem os seus sonhos, nem os seus planos, nem a sua palavra de honra. O pai pediu que ele esperasse no quarto. Ainda ouviu seu pai chamar sua mãe para a sala e os dois saíram de lá e não lhe disseram um piu. Ele num quarto, Edite e as sentinelas no outro.

Depois disso, eram só reuniões. Chamaram a Mãe de Edite, chamaram a Madrinha…parece que todas foram ver a tal combinação que ele tinha trazido e tinha ajudado Edite a vestir. Soube também que os lençóis e tudo o mais foram entregues à família de Edite, como prova da não responsabilidade de Inácio. Ele, realmente, não tinha visto sangue nenhum, mas teimava em dizer que aquilo era tudo muito estranho. Edite não era mentirosa e não se tinha metido na sua cama como uma mulher que já era mulher. Havia algo de especial nela. Todo o jeito dela parecia estar a descobrir o mundo pela primeira vez. A manga de Inácio foi colhida na hora. Mas como se fazer entender se não havia a prova? Não podia provar, realmente. Mas não estava tranquilo.

A mãe de Edite passou semanas na cama. E, depois de melhor, ficou meses sem ir à igreja, único lugar que frequentava, desde que ficara viúva. Edite passou a ter má fama, ficou na boca do povo e, pior do que isso, Edite odiava-o. Nunca mais se encontraram. Nunca puderam conversar sobre o assunto. Ela evitava-o.

Encontraram-se um dia no Tribunal, para onde o Tio dela lhes levou. Não fossem os Furtado pensar que, só porque o pai dela tinha morrido, ela não tinha a quem recorrer.

- Sr. Artur - disse o Tio de Edite ao seu Pai numa tarde de Domingo: eu sempre tive muito respeito pelo senhor. Mas venho dizer-lhe que não é porque meu irmão é morto e Edite é órfã que ela vai ficar por-si, na boca do mundo. A partir de hoje, o senhor me considere seu inimigo, que é para o senhor saber que a minha sobrinha tem praquenha. Vou andar com os meus pés. O Senhor terá notícias minhas, através da autoridade; e, desde já, vamos enterrar a nossa amizade num buraco fundo e cobri-lo com mil pedras.

- Papai ainda fez questão de convidá-lo para entrar: que conversassem lá dentro, que entrasse. Mas ele deu as costas. E recebemos uma intimação depois. E lá fomos nós ao Tribunal, corcotir aquela ferida toda, outra vez.

O sangue que não estava nos lençóis, jorrou do peito de Inácio por meses e meses. Sofreu muito e culpou-se ainda mais. Sentia falta dela, do seu sorriso, e de estar com ela.

As duas famílias deixaram de se tratar. Nhu Gregório acolheu Edite em sua casa, para livrá-la das bocas do mundo, pois sabia que a comadre era fraca para essas coisas. Por outro lado, sempre era padrinho dos dois jovens, parente também, cada um de um lado da família. Não lhe cabia condenar e doía-lhe ver a afilhada desamparada, na cruz do caminho grande. Deu uma satisfação ao compadre Artur e lá se entenderam os dois.

Mas Inácio não chegou a se entender consigo mesmo e passava noites e noites em claro. Passaram a existir dois inácios: um que desejava profundamente Edite e outro que desconfiava de todos, inclusive dela. E foi assim que os dois inácios se apresentaram no Tribunal. Então sim.

Só que houve a última vez, a mais injuriada de todas. Chegou o dia em que Edite mentiu em Tribunal e disse que entrou no portão para talhar a chuva, sim, mas que fora Inácio que a tinha puxado para o quarto e se tinha servido dela à força. Que tudo tinha sido feito contra a sua vontade, dela Edite, e que tinha sido feito porque ele a ameaçara com um maxim. Mais disse que as mulheres da família dele trocaram os lençóis da cama, onde estava a prova de sangue, e os esconderam não se sabe aonde. Disse que a combinação que mostraram era da mãe do Inácio, não dela Edite. Pois que Calheta, Veneza e Ponta Verde sabiam que a sua mãe, viúva, coitada, não podia comprar uma combinação rica daquelas para a sua filha. Que, mais dizia: estava grávida dele, mas que não queria um mufino como Inácio Furtado para pai do seu filho. Que preferia passar fome e comer bosta e que não mestia esse estapor nem como pedra de limpar cadeira (traseiro).

Essa foi a primeira vez que uma mulher de Calheta havia pronunciado na sua boca a palavra cadeira, na frente de outras pessoas, e chamava um homem macho de mufino.

Essa foi a primeira vez também que alguém havia ofendido assim, com tanta gravidade, um tribunal e tratava, com desprezo, a respeitável família do Sr. Artur Furtado. E foi assim que Edite passou a ser chamada de Nha Flana.

Logo devera! E foi assim que Inácio Furtado, homem de vergonha na cara e de juízo na cabeça, deu vários nós às suas tripas e concluiu que, efetivamente, Edite era bem diferente do que ele havia pensado que fosse; e era capaz de tudo. Ficou de uma tristeza de Jó, pela sua mais recente descoberta. E foi assim que a deceção afogou a culpa. Afinal as pessoas tinham razão: Nha Flana era sabida e ele havia sido um tubabu ao se preocupar com ela. Daí para diante, passou a haver apenas um Inácio: Inácio Furtado, filho de Nhu Artur, que honra as suas barbas e ia esquecer Edite:

 

Depois sentiu Amnom grande aversão por ela, pois maior era a aversão que se sentiu por ela do que o amor que lhe tivera. E disse-lhe Amnom: Levanta-te, e vai-te.
                                                                                                                     2 Samuel 13:15

CAPÍTULO VII - MARIA DE BRANCAFLOR

- Mano!!!

Insistiu Brancaflor.

- Já lá vou! _ Inácio voltou a si.

Foi ter com sua mulher. O mar de Batalha estava azul. A Encantada tinha na voz o doce embalo da morna. O cheiro da maresia entrava em sua casa de homem casado. E estavam a mais de 300 metros do mundo:

- Estou aqui, Branca.

- Estes vestidos estrangeiros têm muitos botões. Desculpa, mas como estamos só nós dois, eu preciso da tua ajuda. Fecha os olhos e desaperta aqui.

Realmente, que vestido mais complicado: amarrava à frente, dava mil voltas por trás, amarrava de novo. Abotoava aqui, apertava acolá; havia tantos botões, meu Deus…e laços e rendas…

As mãos tremiam-lhe. Parou, respirou fundo. Passou a mão pelo peito e pelo abdómen…

Laços e rendas eram realmente a sua sina. E Inácio finalmente sorriu o seu grande sorriso branco e reto:

Labão lhe respondeu: Se tenho achado graça aos teus olhos, fica comigo; pois tenho percebido que o Senhor me abençoou por amor de ti.
                                                                                                            (Génesis 30:27)

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Do fundo de Calhetona uma bananeira pariu. Os sapos esconderam-se todos e os figos das figueiras eram mais doces. As calabaceiras vergaram-se para que se colhessem seus frutos e os meninos de txuskema foram-se deitar. Um sono profundo desceu sobre os olhos dos velhos. Os casais se amaram. Só o mar e suas ondas espreitavam o luar, que estava de visita. Cardumes de peixes vestiram-se de prata e as tartarugas, vendo que estava tudo bem com seus ovos, foram repousar preguiçosamente no mar.

 

 

GLOSSÁRIO E NOTAS

GLOSSÁRIO

CONTO 1 – NHA FLANA

Sumara – esperar e refletir; aguardar algo com paciência.

Raskon – Elegante; bem vestido; às vezes é pejorativo.

Kuza sertu ê sabi fla – A bem da verdade; (tradução literal: o que é verdade é gostoso de ser dito).

Festa (de) função – Festa grande de Santo e de Guarda (S. Miguel, Nossa Senhora do Socorro, Páscoa, Natal)

Bakam, tubabu – otário

Ozerba – ouvir, observar, prestar atenção

Nepu-nepu – antes de o dia clarear; de madrugada, ainda escuro

Faxi – rápido; Faxi-faxi – bem rápido

Xanfana/Chanfana – petisco feito de fígado, coração, pulmões e rins de animais

Botar piada – mandar indiretas

Matuta – reflita, preste atenção

Nhara Sakedu – Nome de uma planta; Nhara (senhora) e sakedu (firme, de pé)

Xarém - Xerém/xarém é um prato à base de milho que é acompanhado de guisado de carne e mandioca. Na ilha de Santiago, não existe festa de casamento ou batizado sem xerém. A não ser a proibição das segundas núpcias.

Por-si – À toa; simples; sem governo

Ka bum – pode ser corruptela de Ka bom (não é bom); utiliza-se para denominar um ato cuja superstição aconselha que se evite, mas sem que se queira esclarecer as razões

 

Kuali-kuali – sem cuidado, à-toa

Bazalisco – Diabo ainda jovem; utilizado também para denominar rapazinhos muito levados

Grabadu/o – ofendido, magoado

Tomar troga- Pedir conselho ou conferenciar-se com alguém, antes de decisão importante.

Txabeta/torno/Finason/ pam-pam e rapikada - A txabeta é o som e ritmo que, junto com a canção da Cantadeira e a dança do torno, compõe o batuque. Ela, por sua vez, é composta de dois ritmos que se misturam no terreiro: um grupo de mulheres fazem o pampam e outro grupo a rapicada (de tempos diferentes); e há as palmas dos assistentes que seguem qualquer um dos tempos. O finasom faz parte do batuque e é uma poesia cantada, com traços épicos, mas enriquecida no momento do batuque com acontecimentos que se vão desenrolando no ato.

Mambá – Será que..? Não me digas que…!

Tomar lume – Tentar obter, disfarçadamente, informações sigilosas

Fla-fla – Fofoca, diz que me diz

Sukuta – escute com atenção

Nu prite – completamente nu; nu em pelo

Corpo de mulher – órgão sexual feminino (Expressão que indica pudor e respeito)

Praquenha – pode ter-se originado da locução prepositiva  “para quem” ou “a quem” em português; não ter “praquenha” significa não ter quem olhe por si, ou a quem recorrer; ser solto no mundo; estar/ter sido abandonado pelos seus.

Corcotir  - de Korkoti em Crioulo de Cabo Verde: raspar, tirar a casca, magoar a ferida em fase de cicatrização.

Maxim – parente de catana; facão utilizado em trabalhos do campo: para cortar madeira, plantações em geral; ou de uso doméstico: para cortar grandes peças de carne, osso, etc. mede entre 80cm a 1 metro

Combinação: roupa interior normalmente de seda, tevê ou outro tecido, do tamanho de um vestido, utilizado especialmente debaixo de roupas transparentes.

Estapor - estupor

Txuskema – uma brincadeira de crianças.

 

NOTAS (I)

CALHETA DE SÃO MIGUEL - CABO VERDE: NOTAS HISTÓRICAS E CULTURAIS

VIRGINDADE, SEU PERCURSO E IMPORTÂNCIA - Na primeira metade do século XX, as noivas zelavam, com muita discrição, para que ninguém desse de beber aos cavalos que as levariam à igreja. Havia também a preocupação de se escolher o melhor fogueteiro da região. A superstição de que se o cavalo urinasse significava que a noiva não era virgem era tão temida como aquela de que os foguetes tinham que “rebentar” quando ela saísse de casa.

Os costumes mudaram um pouco depois da independência. As noivas passaram a ser transportadas de carro para a igreja e quase ninguém continuou a se importar em verificar se os foguetes explodiam sempre; mas os guardiões da virgindade continuaram firmes. Ainda em plena década de 1980 do século XX, montava-se um piquete nas proximidades da casa onde acontecia a noite de núpcias, em que não costumava estar presente a mãe da noiva, mas sempre a mãe do noivo ou alguém de muita confiança dele, para se testemunhar a prova de sangue. A noiva chamava a madrinha ou algum familiar mais velho e lhe entregava o pano ou anágua/saiote, saia interior ou camisola/camisa de noite com sangue. De novo o foguete - que era um aviso principalmente à mãe da noiva que, até àquele momento, ficava na sua casa, à espera de notícias.

A madrinha ou alguém de confiança da mãe da noiva também ficava por perto e, confirmada a prova de sangue, com ou sem foguete, mandava o seguinte recado à mãe da noiva:

“Diga-lhe que venha com os pés fincados no chão e com o pano amarrado à cintura!” - que quer dizer que venha segura e orgulhosa. Era um código usado entre as mulheres e que significava que a filha era virgem. Não havendo prova de sangue, é costume a mãe da noiva ficar de cama por semanas e receber pêsames, como se de uma morte se tratasse.

Durante muito tempo, os homens podiam, no dia seguinte (no Sambrás), arregaçar uma “perna” da calça até o joelho, comunicando a todos que a noiva não era virgem. Durante décadas (e talvez séculos) nunca existiu a figura de hímen complacente: caso relatado no conto e que envolveu a personagem Edite, depois Nha Flana.

Algumas demonstrações de virgindade passaram a ser mais agressivas, nas suas estratégias de defesa, com a afluência das meninas às escolas de Ensino Secundário.

O Cabo Verde da era pós-independência encorajou as famílias a investirem na escolarização das meninas. Na década de 1980, apenas os centros urbanos tinham os chamados liceus e esses eram para meninos e meninas. Apesar de as turmas serem mistas, as alunas tinham que se vestir de branco: as batas. Tal exigência não era feita aos rapazes. O símbolo da obrigatoriedade à castidade, e sobretudo da virgindade, subtil mas sempre presente, estava subentendido como condição de frequência às instituições públicas. Lembramos que no Ensino Básico Complementar, dois últimos anos anteriores ao Liceu, em que as escolas eram frequentadas por ainda crianças, eram exigidas as batas azuis quer aos meninos quer às meninas. Mas no Liceu, quando se tratava já de moças dos 13-17 ou mais anos, elas eram obrigadas a usar batas brancas, de comprimento um pouco abaixo do joelho (na verdade, quanto mais comprida era a bata, mais felizes ficavam os adultos). Os rapazes vestiam como quisessem.

 Até o início da década de 1990, as meninas das zonas rurais onde a virgindade era mais fiscalizada, passaram a ser suspeitas de se desvirtuarem, sobretudo as que frequentavam o Liceu. O fato de terem de deixar a casa dos pais para viverem nos centros urbanos (com todo o preconceito que havia no interior sobre as cidades da Praia e do Mindelo, principalmente) começou a colocar em xeque a “pureza” das moças. Chega-se a assistir a cenas públicas vergonhosamente violentas em que o sangue da moça, suspeita antes do casamento, é colocada num haste, no Sambrás, fazendo uma bandeira, literalmente falando, que passava a circular da casa do noivo até a casa da mãe da noiva. Esta, com os olhos rasos de lágrimas, pelo alívio e pelo orgulho, considera ter cumprido a sua missão e recebe os parabéns de todos os familiares e vizinhos. Nova festa.

Ou a virgindade deixou de ser tabu, ou a moda da lua de mel calhou bem a muitas meninas modernas. O fato é que os pais e sogros do Sec XXI deixaram de ter coragem de perguntar se a menina é moça, quando se fala em casamento. Pelo menos se o fazem, fazem-no às escondidas.

 

PUREZA, MATRIMÓNIO E RELIGIÃO

A Igreja assumia um papel decisivo quando a moça, na primeira noite, e na segunda e na terceira não “consumasse” o casamento através da “aceitação” do seu marido: podendo dar o casamento por nulo. Raras foram as vezes em que isso aconteceu: porque, perante a presença dos conselhos da igreja e as estratégias persuasivas das parteiras e dos familiares, a noiva acabava por ceder e o casamento era consumado.

A Igreja chegou a ser bastante evasiva quando a moça era denunciada como não virgem. Ia tomando decisões conforme as circunstâncias e/ou as partes envolvidas. Mas a mesma igreja, em algumas regiões rurais, recusava-se a casar de branco uma noiva que se sabia claramente não ser virgem, ao mesmo tempo que a própria sociedade considerava que ela não merecia o bolo de noiva (o pudim), nem tinha direito a damas de companhia, menino de aliança, etc, se ela não “estivesse em condições”.

 

SEGUNDAS NÚPCIAS E FILHOS ANTERIORES À BODA

Caso um dos noivos já tivesse filhos de outra relação, até 1980, eles não podiam assistir à cerimónia religiosa; e ninguém, até hoje, deve ir de preto a um casamento, porque acredita-se que traz má sorte. É que, havendo uma preterida, anterior noiva ou namorada, ela pode acenar com qualquer pano preto para fazer com que a noiva não goze o seu marido. Da mesma forma, muitas noivas cujos maridos têm filhos ou noivas preteridas antes, evitam cozinhar o xarém no seu próprio casamento. Isto porque se acredita que o xarém da festa de casamento é sagrado e, se roubado, pode ser utilizado para mal-feitos (serviço sujo, bruxaria, feitiçaria)

Após a cerimónia de casamentos múltiplos, há uma concorrência de quem chega à porta de saída, porque acredita-se que a última noiva a sair da igreja pode ficar viúva mais cedo.

RITUAIS - TEMPO E AÇÃO

Pôr o milho no pilão é o exemplo de certas ações ligadas aos ciclos de vida que, em S. Miguel de Santiago, remetem também para uma informação temporal. Talvez não fosse tão óbvio para os estrangeiros ouvir dizer que, na casa de Nhu Gregório já se pôs o milho no pilão. Os badios saberiam que deve faltar cerca de uma semana, ou menos, para o casamento.

Da mesma forma, dizer que a “Noiva sta na sentu” (A Noiva está no assento) é referir-se a um importante ritual de passagem, mas também avisar ao acompanhante atrasado que se deve dirigir imediatamente à igreja, sob pena de chegar depois da noiva, atitude considerada desrespeitosa.

CINZAS – FESTA

Os fiéis católicos são convidados a jejuarem e a fazerem abstinência à carne no primeiro dia da Quaresma, em sinal de sacrifício. Por isso a expressão Festa de Cinzas é um paradoxo que, apesar da força cultural que adquiriu especialmente na ilha de Santiago, trouxe um viés profano ao dia das Cinzas. São vários os pratos típicos das Cinzas. Deles se destaca o cuscuz com mel, deixa que o povo de S. Miguel utiliza para, após o farto almoço de Cinzas, refastelarem-se na areia, numa festa condenada pelos religiosos: uma mistura de baile, brincadeiras diversas e extensão do Carnaval. As pessoas, fantasiadas ou não, visitam as praias de S. Miguel, para passarem esse dia (para“comerem” e “brincarem” as Cinzas), apesar de ser considerado um dia sagrado e de recolhimento na ilha para os cristãos.

VIOLÊNCIA E DADOS

As pesquisas realizadas em Cabo Verde apontam como causa dos actos de violência dos homens contra as mulheres a embriagues e os ciúmes. No caso da violência das mulheres contra os homens é, a resposta a sucessivas agressões, ou situações como a prática da poligamia ou o abandono do lar por parte do companheiro. Subjacente as causas imediatas acima apontadas são invocadas razões de ordem histórico-cultural, “o direito a bater é uma prática socialmente aceite no país, tanto pelo homem como pela mulher e geralmente é utilizada como um recurso educativo e pedagógico, portanto legitimadora do poder do adulto”. (Dados do ICF, Praia: 1999)

  

[i] Citado por José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres,  “Sujeito, intersubjetividade e práticas de saúde” in Revista Ciência saúde coletiva vol.6 no.1 Rio de Janeiro  2001 

Nota do editor. Santiago Magazine inicia aqui a publicação da colectânea "Outras Pasárgadas de mim (Três histórias de inclusão" de Mana Guta, o conto Nha Flana.  

Comentários  

0 # Tobedja 10-08-2017 01:08
Fantástico, ledo, mágico, maravilhoso. Num misto saborido entre a língua de Camões e de Eugénio Tavares. Estou estonteado de tanta beleza estética e caudalosa substância. Parabéns, Mana Guta!
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