Pub
Por: Mana Guta

 

SOBRE AS QUESTÕES DA LUSOFONIA, A CPLP E A TESE DE UMA LÍNGUA PORTUGUESA DE CABO VERDE – PARTE II

No dia 05 de maio comemora-se o Dia Internacional da Língua Portuguesa e da cultura dos países lusófonos. A data foi oficializada em 2009, no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com o propósito de promover o sentido de comunidade e de pluralismo dos falantes do português, destacando-se a relevância do idioma que é considerado a quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul. Os governos e povos comungam da ideia de que a língua portuguesa é parte da identidade dos povos lusófonos e chamam a atenção para as questões idiomáticas e culturais da lusofonia, pretendendo promover uma integração entre os povos desses agora nove países. Algumas palavras caras à lusofonia seriam então: a fala diversificada, o pluralismo cultural, a promoção do idioma, a integração da língua e, por meio dela, o diálogo intercultural, o respeito pelas diferenças dialetais…

A língua faz parte desta história. Como contar a história da identidade nacional cabo-verdiana, sendo a Língua Portuguesa (LP) a protagonista?

- NÓS FALAMOS É COM A BOCA!

Com o lema “LÍNGUA PORTUGUESA: MINHA LÍNGUA E MINHA FALA”, este segundo texto aborda a lusofonia, a CPLP e a tese de se existe uma língua portuguesa de Cabo Verde sob a perspectiva do papel que é reservado ao falante.

Neste Pensatempo, vamos ao início do Século XXI. Acompanhe-me o leitor ao interior do Concelho de São Miguel, atrás de duas crianças de seis anos, depois do seu primeiro dia de aulas, do primeiro ano do Ensino Básico Integrado. Nessa época, já havia luz elétrica e o acesso à televisão já era possível, ainda que em períodos restritos do dia. Mormente para crianças que eram consideradas pertencentes a famílias de uma assim dita classe média, o contato com a língua portuguesa já era uma realidade: assistiam, pelo menos, aos desenhos animados, para além de programas muito amados como o “Olá Meninos” da RCV.

Estamos atrás de Zavá e Djunê, primo-irmãos, vizinhos e melhores amigos. Djunê é filho de uma professora primária, formada e muito zelosa nos cuidados dos seus educandos. Zavá? Bem, Zavá não enfrentava nenhuma dificuldade financeira, nem falta de afeto. Também era filho de uma mãe zelosa, tal qual a sua tia. Simplesmente não teve, logo de manhã, uma conversa com a Tia-Professora, como havia acontecido com Djunê. Segue o diálogo em língua cabo-verdiana, com uma tradução em língua portuguesa:

- Zavá, nhôs papia purtugês?

- Modi?

- Si nhôs paaaapia purtugeeês, môs…purtugês. Prusora ka papia ku nhôs purtugês?

- … (Resposta de Zavá, que não entendia a pergunta, mas não queria se expor)

- Zavá, nhôs ka fla “Bons dias, dás licenças, por favores e obrigado? Como te chamas? caros alunos?” E keli ki e PUR-TU-GÊS, môs!

- Môs, djo-li, bô e fastentu. Anôs, nu papia ku boka, seu pateta!

TRADUÇÃO LIVRE:

- Zavá, vocês falaram português?

- Como é que é?

- Se vocês falaram PORTUGUEEÊS, rapaz…PORTUGUÊS. A Professora falou convosco em português?

- … (Resposta de Zavá, que não entendia a pergunta, mas não queria se expor)

- Zavá, olha, português é assim: vocês disseram “Bons dias, dás licenças, por favores e obrigado? Como te chamas? Caros alunos?” É assim o POR-TU-GUÊS, rapaz!

- Fogo! Meu, como tu és chato! Ah é isso, então? Pois nós falámos foi com a boca, seu pateta!

Como contar a história da identidade nacional, sendo a Língua Portuguesa (LP) a protagonista?

Ela seria um veículo de transmissão, a memória, um dos elementos …parte da essência? Que papel teria e que estatuto teria a LP na construção da nossa identidade? Para uma fundamentação coerente, duas perspectivas diferentes devem ser consideradas: uma perspectiva política e uma perspectiva linguística; e dois níveis de orientação em política de língua devem ser consultados: o da orientação nacional e o da Organização das Nações Unidas - implementadas pela Unesco. Ambas as orientações retomadas e repensadas numa reflexão que tem o falante como o centro da questão. A questão de ser lusófono, Cidadão da CPLP, num contexto de duas línguas em contato, com um semi-domínio de ambas.

Um pouco de História: a Língua Portuguesa, sua origem, percurso e situação atual

A Língua Portuguesa provém do Latim, que, por sua vez, é um ramo do grande tronco das línguas indo-europeias. Resumamos o percurso diacrónico que mostra a evolução da Língua Portuguesa, desde o seu período primordial, até à época da expansão e aos dias de hoje, apenas em pequenos e significativos momentos de referência, para uma compreensão genérica e útil ao leitor médio. A LP chega a Cabo Verde, na época da expansão, e, no processo de colonização, contribui para a formação dos crioulos de base lexical portuguesa. O Crioulo de Cabo Verde ocupa o papel essencial na nossa cultura (por ser seu elemento e veículo). A LCV, ao lado da LP, fez o seu percurso, que começa, primeiramente, como língua franca, mais por sua utilidade, e, depois, por razões, entre outras, as de resistência cultural; e se fortalece, e se afirma como língua materna e língua nacional. Tal acontece desde a fase do pidjin ao proto-crioulo, e mais tarde à língua crioula, e ainda, depois, como Língua Cabo-verdiana, consagrada no Artigo 9º da Constituição da República, a partir do ano de 1999: decisão essa que dá início à sua fase de língua oficial em construção.

Sabemos nós que o português europeu é um conceito abstrato que pretende, comparativamente com as outras variantes, estabelecer uma descrição do ponto de vista sincrónico que medeie e diminua as diferenças, sobretudo diatópicas, da língua comum aos PALOP. De forma fictícia também, estaria do outro lado o português do Brasil, supostamente mais distante das variantes dos países africanos. Mas estas são apenas estratégias utilizadas para se explicar as opções sintáticas e fonético-fonológicas, muito mais do que estilísticas e de opção lexical. Sabe-se que, atualmente, as trocas lexicais têm acontecido em sentido inverso ao de há 15 anos. O sul global tem contribuído muito mais para a renovação lexical da língua do que no “antigamente da vida”. Por isso, as fronteiras entre as variantes são cada vez mais fluidas.

A variante portuguesa de Portugal e a variante brasileira são as mais referidas na Comunidade e fora dela e, para os mais desatentos, simbolizam as duas grandes variantes da língua portuguesa no mundo. Há que sublinhar, todavia, que, em cada país (e dentro deles, em cada região), as diatopias (diferenças típicas de cada região) persistem e tendem a se acentuar, na mesma proporção que as mudanças sociais, culturais, económicas… E quanto maior for o país e menor for a comunicação entre as regiões do país, maiores tendem a ser as diferenças, especialmente no domínio da pronúncia e do léxico.

Deve-se registar a grande utilidade da LP e a necessidade de se preservar a língua portuguesa, símbolo de união na diversidade de oito dos nove países da CPLP e entre as próprias regiões da maioria dos países que, ou não possuem outra língua materna/nacional, ou possuem tantas que precisam da LP para estabelecer sua comunicação efetiva entre os falantes de línguas maternas diferentes.

Para além das variantes diatópicas, de região, país ou lugar, também devem ser consideradas as variantes de extrato social, existentes devido ao nível de escolaridade e/ou de exposição à língua e suas regras; cada falante ainda pode mudar de registo, dependendo do seu contexto e demais circunstâncias ou elementos de comunicação. Em Cabo Verde, a situação linguística é considerada de bilinguismo/diglossia. A Língua Cabo-verdiana ocupa o lugar de preponderância na comunicação oral, enquanto esse “privilégio” na escrita é da Língua Portuguesa. Por estas razões e não só, há uma tendência geral em se usar sempre o registo padrão/culto em LP, no nosso país, e deixar a esfera da informalidade para a LCV, “Crioulo”. Pode-se dizer ainda que, não obstante ao prestígio social e académico que a LP tem comparativamente à LCV, esta faz parte do mundo afetivo e continua a ser um símbolo de resistência cultural e união nacional. A hipótese da oficialização formal da LCV deve-se colocar sob o ponto de vista de uma política de língua que preserve ambas e crie condições para que o falante cabo-verdiano tire proveito de todas as modalidades do oral e do escrito… das duas línguas, sempre sob o ponto de vista dos ganhos pretendidos e nunca de exclusões radicais. Vale, portanto, promover o domínio da LP, quanto antes melhor.

O que é dominar uma língua?

A questão que se deve colocar, especialmente em Cabo Verde, é: o que é dominar uma língua? Que línguas dominamos? É ou não um ganho ter duas línguas? Existe conflito linguístico? Se existe uma “concorrência desleal”, como já se disse que existe, ela é feita efetivamente “contra” o Crioulo/cabo-verdiano?

O conceito genérico de domínio de uma língua abarca o falar, o escutar (compreender), o ler e o escrever. O contexto linguístico de Cabo Verde permite que todos os cidadãos residentes tenham contato com duas línguas em permanente contato e que são, do ponto de vista linguístico, complementares. Em nosso entender, a diglossia já assumida pelos estudiosos nacionais e estrangeiros, à qual preferimos acrescentar o adjetivo “funcional”, é um estado de desenvolvimento que retrata a estória e a História do povo das ilhas. A construção do bilinguismo, sendo assumida politicamente na Constituição e nas políticas do Governo como uma necessidade, deve ser entendida como uma medida que requer uma reflexão serena e avisada, do ponto de vista técnico. Em termos estritamente técnicos e numa perspectiva sincrónica, podemos dizer que, em sua maioria, os cabo-verdianos são mais diglotas que bilingues e que a construção do bilinguismo passará, necessariamente, por criar políticas ativas que permitam um maior domínio da fala em LP e da escrita e leitura em LCV. Ao falante cabe o compromisso de se esforçar por fazer bom uso de ambas as línguas e assumi-las como suas, numa perspectiva de complementaridade e não “de costas voltadas”.

Se fosse adequado, portanto, considerarmos a imagem da concorrência (linguística), como se vem propalando, e se em tal cenário pensássemos em vantagens, a língua cabo-verdiana não estaria em posição de “desvantagem”. Pois é a fala que realiza uma língua, que a escrita depois _ mas não necessariamente _ tenta dar conta de representar. Existe uma quantidade de informações que gestos e expressões corporais, entoações e mil não-ditos transmitem e que não são representados pela escrita. E quando utilizamos a fala, e principalmente na perspectiva de discurso na acepção do velho Ferdinand de Saussure, pretendemos a produção oral, com as marcas da individualidade, espontaneidade, criatividade, estilo…Posto isto…

Existe, realmente, um português falado em Cabo Verde? Existe realmente um português falado por cabo-verdianos, aqui e lá fora? Porque a fala é que é irmã do fone, filha da fonia, essência da Luso-fonia! Se a lusofonia está intrinsecamente ligada ao fone, portanto à realização da língua no ato de fala, como entender a nossa situação de mais falantes do crioulo e mais escreventes do português?

Como entender uma política de língua que não repense o nosso falar português? Temos, mesmo, um português realmente falado em Cabo Verde? Pode-se encontrar o registo culto, o padrão… mas e o coloquial/familiar? …o informal, quando ele acontece? Criamos? Inovamos? Quantos falam espontaneamente? Quantos fazem opção real e espontânea pela LP? Se poucos, como nos parece que vem acontecendo, como poderá acontecer uma reconciliação e uma apropriação com a nossa língua oficial?

Por onde começar a ensinar o português? Por onde começar a praticar e a criar na nossa língua oficial? Como seremos donos do nosso próprio discurso? Certamente não será fingindo que a criança de seis anos, seja de qualquer nacionalidade da CPLP e de qualquer espaço/meio, tem como sua pátria a língua portuguesa. Porque a língua portuguesa, para além de pátria, precisa de ser mátria em Cabo Verde.

Em nome de Zavá e de nossos meninos, haja outra postura em relação à língua…. E haja uma política de resistência às avessas: resistir sim, para manter a nossa língua materna e promover, ao lado dela, a nossa língua oficial, o português. Pois, só assim, preservamos e protegemos ambas: RESISTINDO. Existe, afinal de contas, um português de Cabo Verde?

Djunê foi iniciado na consciencialização da língua. E você?

Continua…

Comentários  

0 # arsénio de pina 14-05-2018 16:59
Sobre o crioulo sugiro a leitura dos textos do amigo moçambicano Mucangana publicados no Artiletra. Vou encaminhar-lhe este texto a saber a reacção dele.
Responder