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Por: José Luís Hopffer Almada

Conheci o Carlos Vaz nos miraculosos anos oitenta do século passado, na cidade da Praia. Digo miraculosos porque foram tempos muito especiais, irrepetíveis na sua especificidade epocal. Desde logo, pela sua efervescência e pelos sinais de mudança que deles evolavam. Esses sinais eram por demais visíveis não só na vivacidade pós-laboral dos debates na Praça Grande da Cidade da Praia, onde se reunia a nata dos quadros cabo-verdianos recém-regressados dos estudos, no cada vez mais assíduo convívio com os panfletos nocturnos e na proliferação de grupos e movimentos culturais, mas também nas discussões internas no seio do PAICV, o então partido único consagrado na Constituição de 1980 como força política dirigente do estado e da sociedade, acerca do papel da sociedade civil e do melhor modelo de sistema político para Cabo Verde.

Tenha-se em conta que, na altura, dezenas e dezenas de quadros cabo-verdianos regressavam dos estudos universitários nas mais díspares paragens do mundo. Um mundo diversificado em razão das culturas que abrigava, mas também dos modelos político-ideológicos de sociedade propugnados e que se digladiavam na sua vasta dimensão.
É com a experiência desse mundo dilacerado que regressavam os jovens quadros cabo-verdianos para porem os conhecimentos adquiridos no lato e variegado mundo visto e vivido ao serviço do seu pequeno país insular e em prol da sua nação crioula soberana. Um arreigado patriotismo perpassava a postura desses jovens quadros, mas um patriotismo também amiúde eivado de um olhar crítico, por vezes radicalmente contra o estado das coisas vigente, em especial no que se referia às reais possibilidades da participação política efectiva de todos na “heróica saga da reconstrução nacional”, como na altura se dizia e se proclamava aos quatro ventos das ilhas e diásporas.

No meu caso pessoal, apesar de muito jovem, vinha do estrangeiro munido das ricas experiências da minha vivência num país do Leste europeu (do socialismo real, segundo o jargão oficial) que me permitiu confraternizar durante anos com pessoas das mais diversas partes do mundo (basta dizer que no ano de aprendizagem da língua alemã e de preparação técnico-linguística para a entrada na Universidade, éramos alunos originários de quase uma quinzena de países de quase todos os continentes e oceanos, de todas as raças e de múltiplos olhares do mundo). 
Essa vivência permitiu-me conhecer de perto, e na pele, na alma e no coração, as muitas mais-valias do modelo de socialismo implantado no país desenvolvido que era a antiga RDA, mas também os seus limites intrínsecos, sobretudo no referente ao papel da polícia política na repressão da dissidência cultural e da discórdia política e, assim, no férreo controlo de um efectivo exercício da liberdade de expressão política e da liberdade de criação literária, artística, científica e cultural, não obstante o muito elevado nível cultural das populações e das suas elites, bem assim o limitado e artificioso pluralismo político-partidário aí existente com formal tolerância de partidos satélites do chamado partido da classe operária no quadro disciplinadíssimo de uma denominada Frente Nacional. 
Regressado a Cabo Verde, vinha disposto a dar o meu melhor contributo para a disseminação do pluralismo estético-ideológico e cultural e, assim e deste modo específico, favorecer a emergência de um vasto pluralismo político e de uma democracia mais plena, mais pujante e mais efectiva.
Envoltos na efervescência e no entusiamo circundantes, embrenhámo-nos na afirmação de uma nova geração cultural nos mais variados domínios, quais sejam a literatura, o teatro, a música, as artes plásticas. E assim, e a partir de um núcleo inicial fundado por Kaká Barboza, Nhelas Spencer (a quem se deve a expressão Pró-Cultura) , Fátima Monteiro e José Luís Hopffer Almada, surgiu o Movimento Pró-Cultura, fundado no Lar da Terra Branca a 22 de Março de 1986, exactamente cinquenta anos depois da publicação do primeiro número da revista Claridade, comemorada nesse ano de 1986 com pompa e circunstância e com expresso reconhecimento pelos mais altos dignitários do regime de partido único vigente que a multissecular saga da emancipação político-cultural do povo das ilhas tinha sido e continuaria a ser uma “corrida de estafetas”, na qual o contributo de todas as gerações fora e continuaria a ser imprescindível e com o peso do seu específico e (in) transmissível valor.

É nesse ambiente de efervescência cultural e de uma visão sedimentada numa experiência cosmopolita do mundo que conheço o Carlos Vaz, de quem já tinha ouvido falar em razão do seu livro Para o Conhecimento do Teatro Africano.

Diga-se que, durante os meus tempos de estudante universitário, tivera oportunidade de ter convivido de muito perto com vários estudantes guineenses, tendo feito na altura vários amigos de peito, dos quais destaco o Júlio Baldé, o Abdulay Silá, o Luís e a Auzenda Silva (infelizmente, já falecidos), o Nhomba, o Zé Filipe (em cujo quarto fui amigavelmente acolhido e me instalei, logo na minha primeira noite em Leipzig). Aliás, na minha viagem para a RDA, em 1979, tivera o feliz ensejo de fazer escala em Bissau, onde permaneci durante alguns dias com os meus colegas de viagem cabo-verdianos Rui Évora e Afonso Semedo para obtermos a documentação necessária para o prosseguimento da nossa viagem para a RDA, pois que a embaixada deste país se encontrava instalada nesse país irmão, o segundo país africano que tive a oportunidade de pisar, depois do Senegal. Além do mais, residia em Bissau a minha irmã Fátima (Tujinha), onde, primeiramente, leccionou como professora primária e, depois, trabalhou como funcionária do Ministério da Justiça e se tinha casado com um guineense e para onde se deslocara no imediato pós -25 de Abril para acompanhar a minha irmã Lurdes, mulher de Chico Cham, gravemente ferido nos sangrentos acontecimentos do 19 de Maio de 1974 na cidade da Praia.

Antes da minha breve passagem por Bissau, onde, para além do verde estonteante das suas redondezas, já divisado do avião, e a beleza da cidade, me surpreenderam a escassez de produtos de primeira necessidade e o clima político de muita tensão, os únicos guineenses que tivera oportunidade de ver de perto foram o meu cunhado mandinga, os guarda-costas do Presidente Aristides Pereira, os colegas guineenses do campo agro-político da Boa Entrada, e, nos longínquos tempos da infância assomadense, o Adolfo, negro guineense trazido da Guiné para uma temporada em Cabo Verde por uma filha do Sr. Nunes, irmão mais velho do poeta António Nunes e nosso vizinho. O Adolfo viria a ser depois vítima da voracidade de um jacaré na sua Guiné natal.
Foi pois nessas circunstâncias paradoxais que conheci o Carlos Vaz. Paradoxais, porque, durante todo o período da vigência do projecto da unidade Guiné-Cabo Verde, poucos foram os guineenses que frequenta(v)ram as ilhas de Cabo Verde. Foi com o golpe de estado de 14 de Novembro de 1980, que os guineenses (tanto os de origem caboverdiana como outros conotados com o regime do Presidente Luís Cabral) passaram a frequentar mais assiduamente as nossas ilhas sahelianas. Essa presença reforçou-se com o fuzilamento de Paulo Correia, Viriato Pã e de outros adversários políticos de Nino Vieira, tornando-se depois notória com o êxodo adveniente da guerra civil de 1998/1999. Durante todos os anos oitenta e noventa, os cabo-verdianos espantaram-se, e depois habituaram-se, com a presença nas ilhas de africanos continentais, séculos depois de se terem fecundado e propiciado a germinação da sua própria identidade crioula “no forte sangue africano”, como diria Jorge Barbosa, dos seus antepassados negros dos Rios da Guiné do Cabo Verde, trazidos em condições desumanas e sumamente cruéis para a desolação e o cativeiro escravocrata do arquipélago meso-atlântico.

Mestiço de olhos azuis, casado com uma médica caboverdiana e, depois, com uma mestiça sueca nascida em Cabo Verde que conheceu na ilha de São Vicente, creio que Carlos nunca teve que passar pelas agruras resultantes dos preconceitos racialistas e culturalistas contra os chamados Mandjacos, denominação atribuída pelos crioulos ilhéus de todas as feições, cores de pele e texturas dos cabelos, aos originários do nosso continente, mormente se muçulmanos e/ou animistas, em suma, se mouros, ou, dito por outras palavras, não baptizados na fé cristã) e, pior, se envergando trajes ou outros traços identitários exteriores que evidenciassem e/ou sublinhassem a sua diferença em relação aos ilhéus cabo-verdianos. Pelo contrário: a integração de Carlos Vaz na sociedade caboverdiana parece ter decorrido da melhor forma possível.

Jornalista da Televisão caboverdiana, a então célebre TEVEC (Televisão Experimental de Cabo Verde), de que foi, aliás um dos fundadores sob a liderança do saudoso Corsino Fortes (então Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, pôde percorrer Cabo Verde de lés a lés de (quase) todas as suas ilhas habitadas. Homem de teatro, com formação superior específica na área pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, pôde somar os seus esforços aos esforços de outras entidades (como o grupo teatral OTACA, da minha Assomada natal, e a JAAC-CV) e, assim, contribuir para a emergência e a consolidação de um teatro caboverdiano, hoje internacionalmente reconhecido graças igualmente ao muito meritório labor de um outro arribado às ilhas, por elas seduzido e nelas completamente emerso, o João Branco.

Ligado a Cabo Verde pelas co-matrizes familiares maternas e pela história muito específica da Guiné, a qual resultou na fundação e na vitória anticolonial do PAIGC e do seu projecto de unidade Guiné-Cabo Verde e, depois, e com mais acuidade, culminou nas muitas, e, por vezes, assaz trágicas vicissitudes relacionadas com a implementação e a posterior falência pós-coloniais desse mesmo projecto de unidade, o fecundo labor convivial de Carlos Vaz com cabo-verdianos no exterior do seu país, a Guiné-Bissau, tinha-se iniciado no âmbito do activismo cultural então protagonizado pela Associação de Caboverdianos e Guineenses, denominação por que passou a ser conhecida, no imediato período revolucionário do pós-25 de Abril e na vigência do projecto de unidade Guiné-Cabo Verde, a antiga e histórica Casa de Cabo Verde, a actual e muito dinâmica Associação Caboverdeana (de Lisboa). Creio que foi nesse quadro associativo binacional que entrou em contacto mais assíduo com a poesia telúrica e revolucionária caboverdiana e escreveu a peça “Fome de 1947” (aliás, publicado como anexo ao acima referenciado livro sobre o teatro africano), o que, a par dos novos laços amorosos então encetados, criaram-lhe as condições pessoais, familiares e psicológicas para se estabelecer nas ilhas. Não sem antes, regressar ao país natal e aí se confrontar com realidades várias, nem sempre felizes. As desgraças advenientes não só da má governação e da vigência sem complexos e sem esquizofrenias eventualmente mais tipicamente islenhas afro-atlânticas, a par das taras e das maleitas de um excessivo endeusamento de dirigentes e combatentes da liberdade da pátria consubstanciada em abusos, desmandos e arbitrariedades de diverso teor, tanto no ante como no pós-14 de Novembro de 1980, inviabilizam o labor artístico e profissional de Carlos Vaz e tornam efectivamente inoperante a sua liberdade de criação artística e cultural. Considerado persona non grata pelo novo regime vigente, tal como o anterior muito embebido no autoritarismo revolucionário, e aconselhado a pôr-se inteiramente ao serviço da propaganda politica mediante o cultivo de uma arte panfletária e despojada de quaisquer laivos de reflexão crítica, Carlos Vaz, querendo preservar a sua integridade moral e político-cultural e a sua sanidade mental, prefere remeter-se ao silêncio, para, depois, optar pelo exílio nas ilhas irmãs de Cabo Verde.

É já residente das “ilhas maravilhosas de Cabo Verde”, como prefere designar o semiárido arquipélago saheliano afro-atlântico, que se torna autor e encenador de Nas Asas Poéticas de Jorge Barbosa, dramatização de poemas desse vate maior claridoso levada à cena no emblemático Salão Nobre da Assembleia Nacional Popular. É nessa altura que deve igualmente ter escrito um texto, de que me deu uma cópia, sobre a história do teatro caboverdiano desde os seus primórdios até à actualidade daqueles tempos pós-coloniais dos anos oitenta do século passado.
É toda essa rica, temporal e espacialmente diversificada experiência, marcada pelo amor à pátria e não isenta da amargura, que despenha de um olhar eminentemente crítico, que encontrou abrigo e agasalho no livro Escritos no Silêncio. Reflectindo os tempos de antanho, da opressão colonial e da heróica Luta de Libertação Nacional, da euforia e da esperança depositadas na almejada epopeia de reconstrução nacional do solo pátrio e da regeneração, na paz e na felicidade possível, do martirizado povo da Guiné-Bissau, do desencanto em razão dos desvios das promessas da luta doutrinariamente consubstanciadas no pensamento de Amílcar Cabral, o nosso comum, maior e muito amado Morto Imortal.

Tocaram-me particularmente os poemas directa ou indirectamente relacionados com Cabo Verde (como, por exemplo, “Exul”), os poemas de paixão amorosa e os escritos em crioulo guineense, assaz expressivos do ponto de vista imagético e identitário.
Sejam também referidos os poemas de telurismo pátrio simbolizado matricialmente na tabanca e os de ecumenismo universal e de solidariedade africana, importantes num individuo de ampla vivência do mundo como é Carlos Vaz.

Apraz-me pois que, anos depois de o ter conhecido como homem do teatro, como amante, declamador e diseur de poesia e como activista cultural, o reveja agora como autor de um substancioso livro de poemas (que, no fundo, é uma espécie de livro de memórias em verso), e, sobretudo, como cultor e detentor da palavra poética, a qual, por vezes, se incorpora e prefere falar pelo silêncio.

Dessa poesia falará de forma mais abalizada e certamente muito melhor o nosso comum amigo, Mário Máximo.

Lisboa, 14 de Junho de 2018

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