Pub
Por: D. Tavares

A familia “TAVARES” descende de uma linhagem de músicos tradicionais, única com um “LÉM”, na ilha do Maio – LÉM TAVARES – que inspirou a musica assente no refrão: “Lém Tavares é sab quem tchumad/Bocé quetâ’[1] é bonit pa quem qui dad”.

Joaquim Nhanhanha, Ti Manin, pai de Horácio Tavares Silva, Jose d‘Heitor, Nhonhonzim, João Pequeno e outros, foram grandes instrumentistas tradicionais.

Horácio Silva introduziu-se na música ouvindo o pai a tocar em casa e pelas festas cabo-verdianas que o velho o levava.

Quelvino de José d’Heitor foi dos grandes tocadores de rabeca do seu tempo. Destacou-se ao emergir-se, primeiro como cantor – tocava e cantava – prática não comum na época, e segundo como compositor. É da sua autoria a coladeira “Pupa bu bai malcriadu/Pupa bu bai ralexadu (...)[2], aproveitando uma tirada de um ancião de Calheta do Maio, Djelada, e que na altura se transformou num fenómeno.

O seu grupo integrado por ele (violino), Nhonhó di Bonga (cavaquinho), Filipona (chucalho), Djedje Maninha (violão) e Nine Pitina – Pamar – (viola de dez cordas) conquistou fama, que foi convidado a deslocar-se a “Co Berd”[3] para tocar no casamento de João de Nha Bé e Mimita de Manito Bina.

Filipona ficou nesta altura famoso na interpretação do tema de improviso: “Tchuba dja tchobé, bobra dja da, quej à vontad, Mai sta sab“.

Betú vem desta linhagem.

Adalberto Higino Tavares Silva nasceu em Calhetinha-vila do Maio no dia 7 de Julho de 1961, filho de Higino Tavares Silva (Gine d’Heitor) e de Deolinda Mendes Tavares (Dóla Nha Minina).

Oriundo de uma família de músicos tradicionais, Betú nasceu insuflado pela música.

Quando criança, ia espreitar os “bái rebeca”[4], e posteriormente imitar em casa as músicas que ouvira.

Mas foram as actividades ligadas à Igreja Católica – catequese e missa – que fermentaram nele a atracção pela música.

Deu os primeiros passos a tocar violão entre os colegas das rua Madragoa, Correios e Bataria, no Platô, seio do qual saíram os elementos que viriam a constituir o grupo musical “Black Show”, de que foi baixista.

Aperfeiçoou-se nas serenatas no Maio, onde nasceu a sua inspiração e o gosto para compor.

Na cidade do Porto-Portugal, em prossecussão dos estudos, entrou para uma escola particular de música que muito concorreu para aprimorar os seus conhecimentos a nível da audição e teoria musical. Foram-lhe também úteis os convívios da comunidade cabo-verdiana e eventos culturais organizados pelas instituições da cidade.

De regresso a Cabo Verde integrou grupos de tocatinas e, em Boston-Estados Unidos da América, gravou o seu primeiro trabalho discográfico integrado no grupo “Serenata”, no qual além de acompanhamento ao violão, interpretado duas composições de sua autoria, alcançados com uma tonalidade vocal de nível.

Betú distinguiu-se no entanto como compositor.

Um dos grandes compositores cabo-verdianos, surgiu pela primeira vez no ramo quando concebeu um rítmo das antilhas que muito concorreu para o encorajar a prosseguir.

Mas pela morna que alcançou visibilidade e fama mediática .

Começou por um tema da emigração a focar a situação daquele que emigra para procurar aquilo que não conseguiu na terra. A gente humilde que sai em busca de pão e pecúlio. E, por meio da generalização sinedóquica, conseguiu interpretar este sentimento:

“Manú teve qui dexa sê mãe

El teve qui dexa sê terra                            

Pâ’l bai pa terra longe.                                

Mamá fla’l:

- ‘Fidje, câ bo bai

N’câ tâ podê guentâ sem bo

N’tâ morrê só di sodade’

Si’n’ca bai

No tâ morrê di fome

Sem quem spiâ pa nôs.

Sem papá n’ tem qui trabadjâ

Pâ nu ca padicê

An passad sê pai morrê

Vítima d’um doença diférent

Dixal só cu sê mãe.

Por iss hoje al stâ na stranger

Tâ luta contra mar e vent

Pâ fazê sê mãe feliz

                                                 (...)”

Mas Betú alcançou o seu genial no desenvolvimento de temas de fundo sentimental, ligadas ao amor, predilecção que ele próprio justifica como de, além de conferir enormes faculdades de exploração poética e de emoções, possibilita alcançar todos outros pensamentos discursivos:

“Cusas di coraçon                                

Stâ mêxê cu mi.

É câ felicidade

É câ tristéza.

É um luz qui câ tâ lumiâ

Sucur qui câ tâ cegâ.

Na hora disisper

Coraçon tâ crê parâ

Ma na momento

Qui dor é sperança

Coraçon tâ batê

Forte

Tâ batê

Dento di mi

É um vulcão apaixonado

Anton tudo tâ recomeçâ

Tâ cantâ, tâ tchorâ

Té um dia

                                         (...)”

E mesmo numa das suas raras coladeiras socorreu-se desta temática:

“Tem pena di quem qui

Tâ trocâ tudo pâ bô

Tem pena d’ ês fidju parida

Qui tâ cré tem bô na peit

Bem fazem um boy

Concentrado na vida

Dipôs p’ au dexâ mund sabé

Djan’ câ pode sofré

Odja cusé cu tâ fazé

Ó bu tâ um resposta

Qui tâ fazen’ feliz

Dono de um apuro estético e sofisticado na concepção de suas composições, em 1989, o sezu trecho ‘Maio Nha Terra’ rendeu-lhe o prémio “B. Léza de Melhor Composição do Ano”:

“Pov di sentiment                                

Coraçon abert                                      

Pa tud quel

Qui crê bem braçal

Na cor di morabeza.

Na tom di cretchêu

Na som di luar

Ês pov sabê cantâ sê amor

Segredâ sê sentiment.

Casamento, festa rijo

Dia e noite pov ta brincâ

Ta gritâ: - Deus qui dixâ

Maio nha terra é sab

Nha gente

Câ conchê ninhum maldade

                                               (...)”

Pela sua contribuição para a afirmação e valorização da cultura cabo-verdiana e para a sua divulgação além fronteiras, a 5 de Julho de 2005, no quadro das festividades do XXXº Aniversário da Independência Nacional, Betú foi laureado pelo Governo de Cabo Verde com o Primeiro Grau da Medalha de Mérito.

E em reconhecimento pela sua louvável e relevante contribuição para o engrandecimento da Nação Cabo-Verdiana, a 5 de Julho de 2006, por ocasião das celebrações do XXXIº Aniversário da Independência Nacional, Betú foi condecorado pelo Presidente da República de Cabo Verde com a Primeira Classe da Medalha do Vulcão.

 

[1] “Bocé Quetâ” era um conta dos Estados Unidos e que as senhoras usavam ao pescoço. Na altura, havia mais de trinta pessoas de Calheta do Maio emigrantes nos EUA.

[2] Aproveitou esses dois versos pronunciados por Miguel Pletche (Djelada), proferido no dia no dia em que Tomás de Tchipi e Dotcha se casaram, deu-lhe melodia a compos as outras estrofes;

[3] Assim se designava de Santiago (Pedra Badejo) na época por pessoas do Maio.

[4] Bailes de violino

Comentários  

0 # BETÚ 01-04-2018 14:47
O covarde que quer passar por Antonio Mendes deve estar a confundir o Betú com o seu pai!
Responder
0 # Antonio Mendes 27-03-2018 10:00
Queria que me explicassem o seguinte:censura-se quando se diz que alguém que açoita mulher nao deve ser considerado como pessoa amorosa?
Responder
0 # Antonio Mendes 26-03-2018 21:29
Por eu saber e ter dito que Betu não é amoroso como se pretende fazer vender e ter apresentao provas convincentes, não deixaram passar pela seunda vez o meu comentário nesse sentindo.
Responder
0 # Antonio Mendes 26-03-2018 16:15
Por que não deixaram passar o meu comentário sobre o sentimentalismo do Betu? Não gostaram?
Responder
0 # MINDELO 24-03-2018 20:08
Excelente artigo para um grande compositor, das melhores mornas do Séc. XXI. Parabéns ao D. Tavares com as excelentes informações e referências históricas. A nossa única tristeza é de ver aquele dito cujo que ocupa (nem serve para isso) o lugar de Ministro da Cultura, fazer da inscrição da Morna como algo de pessoal, um espécie de triunfo antes da hora, fazendo festas na TV e milhares de declarações nojentas na comunicação social. Nos aqui no Mindelo, continuaremos sempre a celebrar a Morna com os artistas tais como o Betú, Tito Paris e não queremos saber do Kabraão de Santa Caterina no Governo. Parabéns Betú
Responder
0 # Dundu Boka Preto 25-03-2018 08:06
Grande Betu!
...Kabraão de Santa Katerina!!!
Ahahahahah Ahahahahah
Responder